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Participantes sociais do futebol: tipologia para pesquisa sobre corrupção no futebol

Wesley Barbosa Machado 13 de agosto de 2020

Os participantes sociais do futebol podem ser classificados como participantes profissionais diretos, como os jogadores e árbitros, que trabalham dentro do campo de jogo; como participantes profissionais indiretos, como os dirigentes, técnicos e membros de comissões técnicas, que atuam fora do campo de jogo, mas internamente nos clubes de futebol; ou como participantes indiretos externos, pertencentes aos diferentes públicos que acompanham e se envolvem com o futebol, como os cronistas esportivos e os torcedores, que agem fora do campo de jogo e externamente aos clubes de futebol, mas podendo interferir nos participantes indiretos internos e participantes diretos.

Esta tipologia dos participantes sociais do futebol foi formulada por este autor nesta pesquisa onde sistematizo a percepção destes participantes sociais do futebol sobre a corrupção no futebol. Busquei com esta pesquisa compreender, por meio do futebol, o problema da corrupção, um tema tão caro para a sociologia da moral.

O objetivo específico desta pesquisa é diferenciar os tipos de percepção sobre a corrupção no futebol, tal como comunicadas pelos participantes sociais do futebol, destacando que a percepção da corrupção no futebol nem sempre os afeta em suas relações com o futebol e observando como eles lidam com este problema moral público à medida que suas opiniões sobre o assunto refletem uma concepção moral sobre aquilo que pensam ser moralmente aceito a partir de suas relações enquanto indivíduos com o meio social em geral e com o futebol em particular.

El Presidente, série da Amazon sobre o escândalo da FIFA. Foto: Divulgação.

O tipo de corrupção no futebol mais citado pelos entrevistados na pesquisa empírica foi a manipulação de resultados. E, conforme os relatos das entrevistas, apoiados na literatura esportiva, a manipulação de resultados é uma prática existente pelo menos desde a primeira metade do século XX, natural da era amadora do futebol e que permanece na contemporaneidade, visto que, mesmo que o futebol tenha se “profissionalizado”, as práticas amadoras ainda permanecem, como o atraso por parte dos dirigentes esportivos de salários dos atletas e técnicos dos clubes, o pagamento de baixos salários para esses participantes sociais do futebol, bem como a não profissionalização dos árbitros, o que pode motivar esses participantes sociais do futebol a se corromperem, como veremos num dos depoimentos da pesquisa empírica.

“Levantamento do antigo Ministério do Trabalho revela que a maioria (54%) dos jogadores de futebol do país empregados em 2017 recebia até três salários mínimos (2 811 reais). Os dados constam da Rais (Relação Anual de Informações Sociais) de 2017” […] A estatística do antigo Ministério do Trabalho é o único levantamento que tenta mapear os salários no futebol brasileiro. A CBF fazia uma pesquisa parecida, mas deixou de publicar por causa das distorções criadas pelos contratos de direito de imagem. Segundo a última edição do trabalho da entidade que comanda o futebol nacional, mais de 80% dos jogadores de futebol ganhavam até 1 mil reais por mês em 2016.” (RANGEL, 2019).

Portanto, o problema pode não estar só nos corrompidos e no corruptor, o manipulador de resultados. O problema da corrupção de resultados no futebol pode estar atrelado à não profissionalização dos dirigentes esportivos, principalmente os chamados cartolas dos clubes de menor investimento, que pagam baixos salários aos jogadores.

Para um jogador de futebol ouvido na pesquisa empírica, escolaridade ensino médio, corrupção no futebol é manipulação de resultados. Isto pode ser observado na última frase da última resposta, quando se refere especificamente à “manipulação” como sendo a própria corrupção sem citar diretamente a termo corrupção, o qual substitui por “manipulação”. Ele diz tomar conhecimento dos escândalos de corrupção pelos meios de comunicação e cita um caso específico, o do Barra Mansa, que aconteceu em 2017, quando o clube foi rebaixado e teria participado de um esquema de manipulação de resultados, que foi deflagrado em 2018. Este entrevistado comenta que não tomou conhecimento diretamente de nenhum caso, mas que fica sabendo pelos meios de comunicação.

Um torcedor entrevistado (ocupação: professor; escolaridade: ensino superior) cita vários casos de corrupção no futebol e destaca que os resultados os quais chamou de “fabricados” acontecem até mesmo na primeira divisão, como foi o caso da Máfia do Apito no Brasil em 2005, esquema citado pelo entrevistado, que cita a presença do que chamou de “cifras milionárias” no futebol, o que, para ele, torna a manipulação de resultados “cada vez mais frequente”. Para terminar, o entrevistado cita um escândalo de corrupção específico acontecido na Itália na década de 1980, que teria relação com a loteria esportiva, mais um indício de que a manipulação de resultados envolvendo apostas é uma prática mais antiga do que se pensa.

A fala de um dirigente de futebol (escolaridade: ensino médio), entrevistado na pesquisa empírica, foi a seguinte:

“Corrupção realmente existe em todos os setores do esporte. Porque pessoas má remuneradas, como a arbitragem… A arbitragem é o maior problema que nós temos no futebol hoje. Eu como dirigente sei como é lidar com as pessoas com poder aquisitivo bem baixo e acaba acarretando nos problemas da corrupção. Porque ele quer, de qualquer forma, fazer do esporte o ganha pão, o emprego. Eu conheço muito árbitro, até sobre meu comando, que ele não tem emprego, ele vive do futebol. Não estou dizendo todos, é uma proporção pequena. Mas infelizmente existem aquelas pessoas que provocam a corrupção. E infelizmente o futebol é taxado de corrupto neste aspecto. Quando você erra de propósito vem de encontro à corrupção. Porque tem algum benefício, político ou financeiro. Está agradando alguém. É um problema da Liga de Campos (LCD), da Federação (FERJ), da CBF e até da FIFA. Outro problema são os empresários que querem ganhar em cima dos atletas. Onde tem dinheiro tem corrupção”. (Dirigente de futebol não identificado).

Repare que este dirigente colocou a culpa na arbitragem e nos empresários dos atletas. Portanto, cada qual nunca vai assumir que possa ser culpado pela corrupção no futebol. O técnico vai culpar o dirigente. O dirigente vai culpar a arbitragem. Enfim, a culpa sempre será do outro, do vizinho. Uma crítica que pode ser feita à postura do dirigente é o fato de afirmar que o árbitro quer fazer do futebol seu “ganha pão”. Mas, ora, se ele trabalha como árbitro, nada mais natural que ele possa fazer do futebol seu “ganha pão”. Qual o problema disto? Aí está exposta a questão da não profissionalização da arbitragem.

Um ex-treinador entrevistado (ocupação: dirigente comunitário; escolaridade: não respondida) diz ficar “triste” com o fato de ter tomado ciência de escândalos de corrupção. Sobre a mudança de sua relação com o futebol a partir da descoberta da corrupção no meandro no futebol, ele afirma ficar “mais atento” com o que chama de “cartolas”, o que sugere que os dirigentes esportivos teriam participação na corrupção no futebol, que, ainda para o entrevistado, teria uma “classe corrupta alojada”.

Um ex-árbitro entrevistado (ocupação: guarda civil municipal; escolaridade: ensino médio) menciona casos específicos que teriam acontecido com ele, mas alega que não teria aceitado subornos. Ele não cita nomes pelo que ele mesmo chamou de uma “questão ética”. Ele fala: “não gosto nem de lembrar”, um posicionamento moral. Na última frase da última pergunta, afirmou: “Onde tem futebol, tem corrupção”, o que é uma concepção de que a corrupção no futebol é sistêmica, faz parte do jogo.

No entanto, a não profissionalização é apenas um indicativo para a corrupção no futebol, afinal mesmo com a alta profissionalização na FIFA e na CBF, o que observamos é que a prática da corrupção está instalada nestas organizações. Portanto, a corrupção não é um mal que atinge apenas as pessoas e grupos da “ralé do futebol” e sim também, é claro, no alto escalão do futebol.

Some-se a isto o fato de os dirigentes esportivos, que deveriam ser profissionalizados e remunerados, mas não são, esses chamados cartolas são os maiores beneficiados pelo sistema do futebol. Afinal, exploram a mão de obra dos trabalhadores do futebol, pagando míseros salários a estes e os atletas. No sonho de um dia se tornarem milionários, estes se sujeitam a essas condições precárias, que resultam numa literalmente “venda” da sua força de trabalho, agora não para o próprio dirigente do clube ao qual está vinculado, mas para um agente externo, o manipulador de resultados.

Repito, tenho a consciência de que não posso cometer o equívoco de pensar que o problema da corrupção no futebol possa estar mais incrustado na “ralé do futebol”, termo cunhado por Rodrigo Monteiro[1] em referência à definição de Jessé Souza (2017). São evidentes os escândalos de corrupção envolvendo pessoas do alto escalão do futebol, observe-se o escândalo “FIFAgate”, bem como os escândalos de sonegação fiscal e evasão de divisas envolvendo jogadores e técnicos de futebol, que deixam de pagar os impostos devidos referentes aos seus salários estratosféricos.

No próximo texto, serão apresentados os resultados da pesquisa para a dissertação do mestrado em Sociologia Política, da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), da qual faz parte este texto em um subcapítulo, que foi publicado no livro “Corrupção no futebol” (2020), deste mesmo autor.


Notas

[1] O professor Dr. Rodrigo Monteiro, da UFF Campos, pesquisador especialista em futebol, que fez parte da defesa do projeto da pesquisa para a dissertação de mestrado que resultou no livro “Corrupção no futebol” (2020), cunhou este termo “ralé do futebol” ao comentar sobre os participantes sociais do futebol que foram entrevistados na pesquisa empírica, que no caso dos atletas, técnicos, membros de comissões técnicas e dirigentes ouvidos, estes trabalham/trabalhavam em clubes de menor investimento do futebol brasileiro.


Referências Bibliográficas

MACHADO, Wesley. Corrupção no futebol. Campos dos Goytacazes-RJ: Edição do Autor, 2020.

RANGEL, Sérgio. O jogo do salário mínimo: desigualdade de renda cria abismos no futebol brasileiro; metade dos jogadores ganha, na carteira, menos de três salários mínimos. Revista Piauí. 31 maio 2019. Acesso em: 4 set. 2019.

SOUZA, Jessé. A ralé brasileira: quem é e como vive. São Paulo: Contracorrente, 2017.


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Wesley Barbosa Machado

Nascido no dia 23 de junho de 1981 em Campos dos Goytacazes-RJ Jornalista, Escritor e Compositor. Torcedor do Botafogo do Rio de Janeiro, do Roxinho de Campos dos Goytacazes-RJ e do Arsenal da Inglaterra. Co-Autor do Livro de Crônicas do Botafogo, "A Magia do 7" (Editora Livros Ilimitados, 2011) e Autor dos Livros "Saudosas Pelejas: A História Centenária do Campos Athletic Association" (Edição do Autor, 2012), "Botafogo, Roxinho e Outros Textos Sobre Futebol" (Edição do Autor, 2020) e "Corrupção no Futebol" (Edição do Autor, 2020). Autor das Músicas sobre Futebol: "Oração do Futebol", "Samba do Senta" e "Gol do Maurício"; e do Hino Oficial do Campos Atlético Associação (Roxinho). Criador e Administrador dos Projetos Campos OnLine (@campos.online no Instagram); Campos de Bola (@camposdebola no Instagram); Bola Carioca (@bolacarioca no Instagram e /bolacarioca2020 no Facebook), Coleção Botafogo(/colecaobotafogo no Facebook); Blog Campos Fichas Técnicas (camposfichastecnicas.blogspot.com.br); Blog Pérolas Futebol e Causos (perolasfc.blogspot.com.br); e Blog Estrela Solitária no Coração (estrelasolitarianocoracao.blogspot.com). Fundador, Autor e Editor do Site Viva La Resenha (vivalaresenha.wordpress.com). Produtor do Podcast Camisa Oito (@camisaoito no Twitter).

Como citar

MACHADO, Wesley Barbosa. Participantes sociais do futebol: tipologia para pesquisa sobre corrupção no futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 31, 2020.
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