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Da família à torcida – O amor natural

Alessandro Caldeira 31 de agosto de 2021

Amigos, já perceberam o quão difícil é destacar um treinador? Há um detalhe que jamais havia reparado, no entanto, me espanta ao perceber a evidência deste fato: os piores textos não falam de jogadores e nem sobre gandulas, os piores são os que destacam o treinador. 

Há quem pergunte: é contra os treinadores de futebol? Às vezes, confesso, gostaria de ver uma partida no qual a única função do treinador é estar na beirada do campo para ajudar a repor a bola. Tenho em mim alguns minutos de vislumbres onde o futebol possa ser apenas jogado e não pensado. Dar pertencimento do jogo aos jogadores. 

Para um tempo onde ainda é de dúvidas e cólera, parece que basta um ser humano tornar-se jogador para nossas vidas fazerem mais sentido e nos afastarmos de uma agonia kafkiana. Mas o que eu ia dizer era o seguinte: há muitas tragédias em nós mesmos, por isso voltamos constantemente aos jogadores. 

Parece ser impossível que qualquer outro possa salvar-nos de uma vida feia, taciturna e ignóbil que não seja o jogador de futebol. Dito isso, nada aparenta ter um aspecto tão fiel quanto o torcedor. Se o amor ainda se tratasse de luta, esperança e morte, ninguém se casaria sem antes conferir se o outro se tratava de um torcedor. 

Feliz é o jogador que tem a torcida em prol de sua conquista? Sabemos que não é verdade. Aliás, sabemos que o primeiro a gritar, berrar e dar um chilique é a arquibancada, porque não se trata de admiradores, mas de uma fidelidade quase maternal. Desconfio, inclusive, que o “amor natural” nasceu da torcida de futebol e foi repassada para as mães. 

Agora mesmo tenho em mim a imagem de uma família na qual sempre frequentava. Era grande, portanto, quase impossível vê-los juntos. Em cada cômodo havia um membro da família. Até mesmo nas esquinas encontrávamos um deles. 

Admirado com aquela multidão, me perguntava como uma casa tão pequena abrigava tantas pessoas e chegava à conclusão de que eles nunca se conheciam, de fato. 

Palmeiras
Foto: Cesar Greco/Palmeiras/Fotos Públicas

Mas, de repente, a casa se enchia em dias de jogos do Palmeiras. A casa, que antes era organizada, limpa e calada, se transformava em um armazém: todos à procura do melhor lugar na sala e gritos eufóricos faziam-se ouvir em toda a cidade. 

A casa, subitamente, era o centro do mundo. Ali percebia-se que era a hora de fazer barulho; assim, os membros daquele lugar se amavam como se todos fossem próximos uns dos outros. 

O mais engraçado, porém, era esse fato: nenhum deles reconhecia o treinador do próprio time. Alguns usavam camisas de jogadores com os nomes caprichosamente destacados, mas ao perguntarmos o nome do homem centrado à beirada do campo, esperava-se o narrador confirmar. Sem espanto, reagiam: “é esse mesmo” e voltavam os olhos aos jogadores.

Nunca mais reconheci nenhuma outra família tão amável; quem participava daquela histeria sentia que ninguém ali pisava no chão sem amor. Bebiam e comiam do mesmo modo que se apaixonam e se sentavam com tamanho respeito pelo próximo como se fosse uma cerimônia.

Ontem, durante o jogo Palmeiras e São Paulo, fiquei imaginando o quão pequena, apertada e espremida deveria estar naquela sala e, se de alguma maneira, com tantos títulos a se comemorar, o solo daquela casa não tornou-se mais humano. 

Eis o que queria dizer: foi com essa família que aprendi que o jogador tinha a responsabilidade de redigir uma orquestra, de inferir uma euforia grandiosa e enriquecer a torcida liricamente. 

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Como citar

CALDEIRA, Alessandro. Da família à torcida – O amor natural. Ludopédio, São Paulo, v. 146, n. 58, 2021.
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