155.25

“De Deus a demônio”: os dirigentes esportivos no Brasil e suas representações midiáticas

No último sábado, dia 30 de abril de 2022, os sócios do Clube de Regatas Vasco Gama deram mais um passo na transformação do clube em Sociedade Anônima do Futebol, a famosa SAF. Em comentário sobre o episódio no podcast “Posse de Bola”, o jornalista Eduardo Tironi questionou seu colega de debate, o também jornalista Juca Kfouri, se no caso do clube cruzmaltino, esta seria “a única saída pro buraco que o time está metido?”. Em resposta, Juca concordou que não vê outra alternativa para além dessa e, mais do que isso, “estranhou” a indignação de alguns torcedores vascaínos ante a possibilidade do clube ter um dono, pois de acordo com ele “o Vasco foi de Eurico Miranda e família durante anos, anos e anos, [assim como], o Corinthians é do mesmo grupo há anos, anos e anos. Tem donos! Fazem dos clubes aquilo que querem!”.[1]

Eurico Miranda
Eurico Miranda. Fonte: Wikipédia

No mesmo tom apresentado acima, algumas décadas atrás, em dezembro de 1997, foi publicada a seguinte reportagem na revista Placar “Tudo o que você sempre quis saber sobre Eurico Miranda (mas não tinha coragem de perguntar a ele com medo de levar uma porrada)”. O texto era uma radiografia da carreira do dirigente vascaíno até então. Acompanha o início de Eurico, como “uma espécie de secretário [que] humilde, servia café e tirava xerox” (DAFLON, 1997, p. 77) no Vasco da Gama, até ele tornar-se vice-presidente do clube, o cargo mais importante alcançado por Eurico à época. Na reportagem, o dirigente, é descrito como “arrogante […], rei da armação e das viradas de mesa”, “o cartola mais polêmico do Brasil” e a pessoa que “encena melhor o papel de vilão do futebol”, uma vez que, é contrário aos “homens que querem modernizar o esporte (leia-se Pelé e companhia)” (DAFLON, 1997, p. 76-80).

Nessas duas produções midiáticas, separadas no tempo por cerca de vinte e cinco anos, mais do que o conteúdo sobre os dirigentes, chamou a minha atenção as representações sobre essas figuras. Nota-se, que não é de hoje que esses personagens são apresentados na imprensa especializada como figuras “estranhas”, como uma resistência anacrônica frente ao moderno, racional e globalizado futebol de espetáculo. Dessa forma, neste texto, que abre a série “‘De Deus a demônio’: dirigentes esportivos no Brasil”, a intenção é discutir acerca da construção midiática sobre os “cartolas”, em especial, sobre a figura de Eurico Miranda, uma vez que, o dirigente vascaíno é o meu objeto de pesquisa.

Dando o pontapé inicial nesta discussão, lembremos que o próprio uso do termo “cartola” enfatiza um certo ar pejorativo, pois seu emprego possui o intuito de “ironizar o estilo supostamente ‘refinado’ das elites esportivas” (ROCHA, 2013, p. 27). Podemos dizer, inclusive, que essa imagem depreciativa sobre dirigentes vinha sendo gestada, pelo menos, desde a década de 1930. Prova disso, é a publicação de Grandezas e misérias do nosso futebol. Para Hollanda (2008) a ilustração nas primeiras páginas do livro “traduzia de forma ainda mais taxativa a imagem caricatural do cartola, visto sob um prisma maniqueísta e estereotipado”, pois, nela o jogador aparece “no canto esquerdo da capa […] apequenado, espoliado” e, ao centro, representando a “cartolagem” “encontrava-se […] um homem de riso cínico, com seu charuto imponente, portando terno e gravata, locupletando-se com vultosos sacos de dinheiro” (HOLLANDA, 2008, p. 123). 

Me parece, contudo, que esse tipo de representação fica mais frequente no período pós-1980 no Brasil, apesar de ainda ser cedo para cravar uma data. No início dos anos 2000, por exemplo, Franklin Foer no bestseller Como o futebol explica o mundo, escolheu Eurico Miranda para tratar do caso brasileiro. Em um capítulo cheio de estereótipos sobre o nosso futebol (e sobre o Brasil) o americano escreve sobre a “sobrevivência dos cartolas”. Para Foer “no mundo todo, o futebol não é conhecido pelo apego à ética. Mas os cartolas são uma casta especial” e seria exatamente essa a raiz das “condições deploráveis” do futebol brasileiro nas duas últimas décadas do século XX (2005, p. 109). Também naquele momento, a grande esperança de salvação para esse esporte no país eram os investimentos de empresas estrangeiras (entre os exemplos citados por Foer estão a Hicks, Muse, Tate and Furst, a ISL e a Parmalat), que de acordo com jornalista chegaram ao Brasil com “com um brilho utópico no olhar” e prometiam “varrer as práticas dos cartolas corruptos e substituí-las pela ética do profissionalismo” (2005, p. 121). A propaganda era clara: “o capitalismo está vencendo a luta contra as atitudes feudais”, teria declarado Juca Kfouri (FOER, 2005, p. 108 – 109). Outro jornalista falante da língua inglesa que se interessou pelos dirigentes brasileiros, em especial também pelo mítico Eurico Miranda, foi Alex Bellos. Utilizando-se mais ou menos da mesma linha interpretativa de Franklin Foer, Bellos viu em Eurico a sobrevivência do “coronel” à brasileira, para autor “a América Latina tem produzido muitos líderes demagógicos” e o dirigente vascaíno seria “o coronel do futebol” (BELLOS, 2014, p. 316).

O problema desse tipo de representação, seja “de dentro”, como é o caso da Placar e do podcast “Posse de Bola”, seja “de fora”, caso do livro do Foer e de Alex Bellos, em relação aos dirigentes esportivos, é que elas com frequência caem na gramática do caudilhismo e do populismo, categorias que se tomadas em tom pejorativo, são entendidas como uma forma de manipulação pura e simples de uma massa de ignorantes por um líder carismático. A realidade, contudo, é muito mais complexa do que isso. A historiografia brasileira já superou essa noção de “massa amorfa”, bem como, a possibilidade da existência de um líder ou regime que se faça sobre os grupos sem contestação ou negociação. Adotar esse discurso, no limite, pode nos levar a cair em preconceitos já superados no campo de estudos: a de que o futebol é o “ópio do povo”.  Ressalto que a intenção deste texto, de forma alguma, deve ser entendida como uma defesa dos dirigentes esportivos. Mas sim de, por um lado, desmistificar concepções estereotipadas sobre a política latino-americana (e aqui incluo os dirigentes) e ao mesmo tempo propor, na contramão da “falação” midiática,[2] abordagens que estejam mais alinhadas ao que a historiografia propõe atualmente sobre lideranças políticas, em especial, sobre os dirigentes, tirando-os do “denso nevoeiro” (ROCHA, 2013, p. 14) em que se encontram. 

Por fim, quando analiso as representações midiáticas sobre os dirigentes esportivos, no limite, tenho a impressão de que nos é colocado um falso debate entre “barbárie” versus  “civilização”, oposição que até hoje permeia o imaginário acerca da América Latina. As críticas aos dirigentes seguidas de soluções milagrosas propostas pelo “mercado”, não me parece a mais adequada. Eu que não sou nenhuma entusiasta dos “poderes mágicos” do capitalismo – e se me permitem uma certa dose de utopia –, acredito que para que o Brasil seja de fato “o berço da civilização futebolística” (FOER, 2005, p. 105), não podemos aceitar nem cartolas, nem donos, o que queremos é democracia torcedora em nossos clubes![3]

Notas

* O trecho que dá título ao texto, “De Deus a demônio”, refere-se a uma entrevista de Eurico Miranda para o Lance!, clique aqui para ter acesso. 

[1] POSSE de bola: #224. Entrevistados: Arnaldo Ribeiro, Juca Kfouri e Mauro Cezar Pereira. Entrevistador: Eduardo Tironi. Uol Esporte, 02 de maio de 2022. Acesso em: 04 de maio 2022.

[2] Sobre o termo “falação”, cunhado originalmente por Umberto Eco, ver: HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. Mesas-redondas: da falação esportiva ao futebol falado. In: HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. [et al.]. Olho no lance: ensaios sobre esporte e televisão. Rio de Janeiro: 7Letras, 2013.

[3] Ficou curioso com o termo? Assista aqui ao Bate-Bola #13 do Memória FC com o  Irlan Simões, com o pessoal da Democracia Celeste e do Flamengo da Gente.

Referências

BELLOS, Alex. Futebol: o Brasil em campo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

DAFLON, Rogério. Tudo o que você sempre quis saber sobre Eurico Miranda (mas não tinha coragem de perguntar a ele com medo de levar uma porrada). Placar, São Paulo: ed. Abril, n° 1143, dez., 1997, p. 76-80.

FOER, Franklin. Como o futebol explica o mundo: um olhar inesperado sobre a globalização. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. 

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. O clube como vontade e representação: o jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro (1967-1988). 2008. Tese (Doutorado em História) – Departamento de História, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.

ROCHA, Luiz Guilherme Burlamaqui Soares Porto. A outra razão: os presidentes de futebol entre práticas e representações. 2013.. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-graduação em História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2013.

Seja um dos 26 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Letícia Marcolan

Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais da Fundação Getúlio Vargas. Participa do FULIA/UFMG e do Memória FC.

Como citar

MARCOLAN, Letícia. “De Deus a demônio”: os dirigentes esportivos no Brasil e suas representações midiáticas. Ludopédio, São Paulo, v. 155, n. 25, 2022.
Leia também:
  • 155.33

    Pelo direito à memória: Nordestão e seus predecessores

    Itamá do Nascimento
  • 155.32

    Alfredo Di Stéfano e o Sarriá: o adeus de um gênio

    Gabriel de Oliveira Costa
  • 155.31

    Las presas que juegan al fútbol

    Federico Frau