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Domingo de clássico não é dia só de futebol

Daniela Landini Santos 19 de junho de 2017

No dia 26 de junho de 2016, os estudantes do curso de extensão Introdução à Antropologia do Esporte: etnografia em tempos de megaeventos realizaram uma incursão etnográfica à Praça Charles Miller e ao estádio do Pacaembu para observar as práticas e formas de sociabilidade dos torcedores antes do clássico Santos x São Paulo. Após a incursão, os estudantes escreveram e entregaram relatos de campo sobre as experiências daquela tarde.

O curso Introdução à Antropologia do Esporte, realizado pelo LabNAU (Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana) em parceria com o Museu do Futebol, Ludens (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades  Lúdicas/USP) e GEAC (Grupo de Estudos de Antropologia da Cidade/USP), teve como objetivo propor uma reflexão sobre o conceito de esporte e sobre as práticas esportivas a partir do debate antropológico produzido ao longo das últimas quatro décadas, tendo em vista (1) a atualidade deste tema em função da promoção de grandes eventos globais no Brasil, (2) bem como a multiplicidade de modalidades esportivas que permeiam a vida cotidiana.

O relato etnográfico de Daniela Landini apresenta um interessante olhar para um evento que permite não só discussões teóricas sobre certas categorias antropológicas e políticas que têm norteado o debate público em torno de práticas esportivas, mas também sobre importantes temas atuais, pois intersecciona o futebol com outros aspectos contemporâneos da vida social, tais como: cidade, política, economia, gênero e sexualidade, juventude etc.

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Domingo de clássico não é dia só de futebol

Observar e relatar os momentos que antecedem uma partida de futebol foram as minhas preocupações iniciais para este texto. Porém, a partida seria a maior atração em campo naquele domingo?

Torcedores de um único time se dirigiam ao estádio Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu, para festejarem a disputa com um grande oponente. Na conhecida praça Charles Miller, no dia 26 de junho de 2016, apenas santistas se concentravam para o clássico Santos x São Paulo.[1] A junção daqueles que dividem a mesma preferência provoca novas formas de sociabilização num espaço marcado por rivalidades. Assim, é possível que a decisão de coibir a presença de determinados torcedores estimule o comparecimento de outros? O futebol é sempre o único atrativo neste caso?

Pais acompanhados por seus filhos e esposas cercam as imediações do estádio. A família ganha espaço em detrimento dos cânticos das torcidas organizadas, muito comum nos dias de jogos. A calma e a falta de interação entre o público presente marcam uma diferente forma de convivência naquela área notada geralmente pela rivalidade.

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Criança assiste ao clássico no Pacaembu. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Estes grupos familiares ocupam esse espaço público de forma individualizada, ou seja, não há proximidade entre eles. Cantos ou gritos de apoio inexistem, fugindo da característica tradicional de uma torcida.

A distinção entre estes torcedores não habitués das arquibancadas revela a variedade de locais de origem destes. De bairros distantes de São Paulo e cidades do interior do Estado, se deslocavam naquele dia especialmente movidos pela partida. Mas o clássico torna-se um elemento de mobilização, não o único. A importância do jogo divide espaço com outras formas de lazer presentes em torno do estádio. A viagem, conhecer o Pacaembu, o consumo no comércio de ambulantes – igualmente vindos de múltiplos cantos da cidade.

Em dois momentos me deparei com pessoas que tinham a intenção de conhecerem o Museu do Futebol[2]. Assistir ao clássico foi a escolha que restou. Aliás, possibilidade viável porque a bilheteria esteve aberta até o momento do jogo. Cada vez mais a compra de ingresso é feita por meio eletrônico, através dos programas de sócio torcedor. Dificilmente se encontra bilhetes de entrada no mesmo dia e local da partida, principalmente quando envolve dois clubes grandes. Mas nesse clássico houve o inverso.

Reforça-se a percepção de que as atividades que antecedem a partida, neste caso, estão sobrepostas, ou igualam em importância, ao que acontecerá em campo. Por exemplo, uma garota trajada com a camisa do Santos autografada por um dos atacantes do time tinha, no entanto, por baixo da roupa a camisa do São Paulo, clube por qual torce. E estava acompanhada por uma amiga – vinda especialmente do interior de São Paulo para o jogo – que da mesma forma não era torcedora do Santos. Sua torcida era apenas para o mesmo atacante, seu amigo, que autografou a camisa da sua colega são-paulina.

Outra garota, 18 anos, acompanhada pela mãe e sua tia, se declarou palmeirense. Embora tenha dito que “a mulher não tem voz ativa no futebol”, a sua ida ao estádio foi atribuída à admiração que sente pela festa da torcida, o clima existente na expectativa do clássico. A sua tia, pelo contrário, torcedora do Santos, se sente mais participativa que a sobrinha. Diz acompanhar diversas disputas do clube, ir à cidade de Santos para torcer na Vila Belmiro. Convidou a irmã – primeira vez em um estádio – e a sobrinha por acreditar se tratar de um “jogo mais tranquilo, torcida única”[3].

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Torcedor e sua bandeira do Santoso. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

A ausência dos adversários, os são-paulinos, fomenta a ideia de segurança e paz para aquele que pretende ir ao estádio. A situação atípica gerada neste jogo é responsável pela presença de grupos distintos das demais partidas. Contudo, a segurança, falada por muitos daqueles que se sentiram mais dispostos a irem ao Pacaembu, perde parte do sentido, já que a principal torcida organizada do Santos, a Torcida Jovem, estava presente apesar do seu aparente afastamento. Aqueles considerados parte da desordem do “espetáculo” permaneceram em seu lugar de sempre.

Seguindo o costume de se concentrarem na parte esquerda na entrada do estádio, os membros das organizadas se distinguem por suas tatuagens – com símbolos do time ou da própria torcida –, e por estarem em grupos predominantemente masculinos. Desta vez não bradaram seus gritos, tampouco se paramentaram com seus símbolos próprios. Perguntei ao torcedor qual a diferença com a proibição feita pelo Ministério Público: “Olha, não mudou nada. Mudou que não pode entrar com a camisa [da Torcida Jovem][4], de resto tá igual”. Perguntei para outro torcedor se ele estava gostando da presença dos “novos companheiros de torcida”: “Ah, não. Esse pessoal é paradão. Vem hoje com mulher, criança, mas fica tudo parado. Queria os caras [do São Paulo] pra a gente gritar pra eles. Eles gritam pra gente. Aí é legal”. Sobre o fato de se sentir ou não mais seguro com a proibição dos adversários, o torcedor garantiu: “tudo igual também”.

Momentos antes da partida começar, os integrantes da torcida organizada entraram juntos no estádio, enquanto outros torcedores ainda tentavam comprar ingressos, como se tivessem decidido apenas no último momento torcer direto das arquibancadas.

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Torcedores santistas acompanham a vitória do seu time por 3 a 0 sobre o São Paulo. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

A realização de uma partida sem adversários propiciou a ida de vários grupos que não são os mais frequentes nos estádios, principalmente em jogos envolvendo dois clubes grandes. O Pacaembu foi tomado por casais, famílias e crianças.

Torcedores para quem o espaço de interesse vai além do campo. Muitas vezes parece que a partida está no mesmo nível das demais práticas de lazer presentes antes do jogo. A partida é uma consequência, não finalidade. Pouco ouvi sobre a expectativa em relação ao resultado, desempenho dos jogadores, provocação ou preocupação com o adversário etc..

Essa forma de torcer se fará cada vez mais presente, tendo em vista as mudanças provocadas pelas novas estruturas de vários estádios. Nestes, o perfil do público que se deseja também é selecionado. Portanto, pensar em outros componentes que extrapolam o campo torna-se uma condição fundamental para entender qual a relação estabelecida entre o torcedor e outros elementos de um intricado jogo político-esportivo que vem alterando as dinâmicas de apropriação dos espaços urbanos, acionado em um cenário urbano que faz de um domingo no Pacaembu um dia para além do futebol.

Notas:

[1] O Ministério Público, em abril de 2016, pediu à Federação Paulista de Futebol que os clássicos disputados no estado de São Paulo tenham apenas uma torcida no estádio. A medida foi tomada após a morte de uma pessoa, decorrente do confronto de torcidas organizadas entre Palmeira e Corinthians.

[2] O Museu do Futebol é localizado no estádio Paulo Machado de Carvalho. Em dias de jogos não há atividades e é fechado para visitações.

[3] Para reafirmar a ideia de paz no futebol, Santos e São Paulo chegaram ao estádio dividindo o mesmo ônibus.

[4] O Ministério Público também proibiu que as torcidas organizadas entrem com faixas, instrumentos ou qualquer outra identificação nos estádios.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Daniela Landini

Formada em História pela FFLCH-USP e, o mais importante, torcedora do Santos F.C.

Como citar

SANTOS, Daniela Landini. Domingo de clássico não é dia só de futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 96, n. 19, 2017.
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