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‘Elza e Mané’: um documentário além do futebol e do samba

“Deus escreve certo por linhas tortas.

A minha história foi escrita por pernas tortas”

(Elza Soares)

O falecimento de Elza Soares em 20 de janeiro de 2022 acelerou o lançamento de vários documentários, tanto sobre sua carreira artística de cantora, quanto acerca de sua vida pessoal com um dos maiores jogadores brasileiros de futebol, Manoel dos Santos, o Mané Garrincha. Um deles é Elza e Mané: amor em linhas tortas, direção e roteiro de Carolina Zilberman, que está disponível no catálogo da Globoplay.

Elza Garrincha
Fonte: divulgação

Qualquer spoiler é justificável para sugerir a apreciação dos quatro episódios que contém a série documental. Sensível, embasado, crítico e musical, o documentário vai e vem nas histórias de Elza e Garrincha, e faz valer cada minuto em frente à TV ou computador.

Para quem gosta de futebol, vai ter a oportunidade de conhecer mais da grandiosa obra musical de Elza Soares, pois ela aparece como pérolas ao longo do thriller; para quem gosta de música e da cantora em específico, o filme serve igualmente para mostrar os bastidores da modalidade-rei no país e mesmo seu percurso nas Copas do Mundo de Futebol, num momento político bastante agitado da vida nacional. Futebol e samba se completam, assim como Mané e Elza.

A abertura da série traz a vitrola antiga, a garrafa de bebida e a trilha sonora de Elza com “Amor Impossível”. Como diz parte da letra, “Falem de nós dois / que o nosso amor será maior depois / pintem como queiram / condenem, afinal / é tudo inveja / o mundo é sempre igual / Chamem nosso amor até de desigual / amor que é nosso bem / pro mundo é o mal / Falem botem fogo / levantem sua voz / Se o amor proibido acabar / ninguém sofre por nós.”

O enredo é construído com fios narrativos que entrelaçam as falas dos próprios protagonistas, Elza e Mané, com opiniões sobre a vida dos dois a partir de várias fontes (de jornalistas, esportivos, de amigos(as), de escritores e mesmo de familiares). De Magé/Pau Grande a Padre Miguel, lugares de nascimento respectivamente dele e dela, passando pelos cenários da capital do Rio de Janeiro na metade de século XX, a história vai se desenrolando e capturando as(os) espectadoras(es).

Interessante a interpretação que é feita, de certa forma até romantizada, da garota que é obrigada pelo pai a se casar cedo, e que a partir da morte do primeiro marido só tem a voz para cantar e assim sustentar os filhos, e o cara que só tem a bola de futebol e uma habilidade nata para fazer mágica com ela nos pés. O paralelo das histórias está na base das narrativas.

Parte da história do futebol também é desenhada de modo a mostrar os bastidores dos clubes Botafogo e Santos, que nos anos 1960 detinham os dois craques do momento, Garrincha e Pelé. Quando havia enfrentamento entre estas duas equipes, o público entrava em delírio. Como o jornalista José Trajano narra em dado momento, os jogos em que tais equipes se enfrentavam eram antológicos.

Elza Garrincha
Foto: reprodução

No início da carreira, Elza experimentou muita discriminação, tanto por ser negra, quanto pela condição de mulher e pobre. Apesar de reconhecerem que seu timbre de voz era “único” e que sua música era “peculiar”, sua trajetória não foi fácil e ela viveu altos e baixos por um bom tempo. “Se acaso você chegasse”, seu primeiro single, tornou-a conhecida no mundo do samba.

Quando ela conheceu Garrincha, tanto ela já era famosa no mundo musical, quanto ele estava em ótima fase no futebol botafoguense. No entanto, ele era casado e pai de sete filhas (além de um filho sueco, fora do casamento). E ela deixou o namorado para ficar com ele, o que não foi bem visto pela sociedade carioca do período.

O alcoolismo do jogador também se constitui num tema enfocado em várias passagens e foi um problema ocasionador de situações bastante constrangedoras, inclusive dentro do campo de futebol. Foi a dependência excessiva da bebida que fez com que Elza quisesse se separar de Mané alguns anos mais tarde.

Outros tópicos ainda aparecem, como a lesão no joelho, a perseguição da ditadura militar no Brasil, o exílio na Itália, os empregos-bicos com os quais Garrincha acabou envolvido e mesmo a fase difícil que Elza viveu com um repertório desatualizado entre os anos 1980-90.

Os episódios prendem a atenção do início ao fim e introduzem qualquer interessada(o) tanto no mundo do futebol, quanto no do samba, esferas de atuação de Elza e Mané.

Elza participou das filmagens praticamente até sua morte, em 20 de janeiro deste ano, mesmo dia em que Garrincha tinha falecido há 39 anos. Sua canção “A Mulher do fim do mundo”, performada por ela no último show em dezembro de 2021, encerra magistralmente o documentário.

 

“Joguei do alto do terceiro andar

Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida

Na avenida, dura até o fim

Mulher do fim do mundo

Eu sou, eu vou até o fim cantar

(…)

Me deixem cantar até o fim

Me deixem cantar até o fim”

(Elza Soares)

 

Para quem se interessar, seguem os títulos dos episódios:

1º Episódio: “Vou ganhar a Copa pra você

2º Episódio: “Eu sou a outra

3º Episódio: “Você vai se arrepender de levantar a mão para mim

4º Episódio: “20 de janeiro

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Wagner Xavier de Camargo

Antropólogo que se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas áreas de Educação Física e Esportes. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela UFSCar, Doutorado em Ciências Humanas pela UFSC e estágio doutoral na Freie Universität von Berlin (Universidade Livre de Berlim), na Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. ‘Elza e Mané’: um documentário além do futebol e do samba. Ludopédio, São Paulo, v. 157, n. 32, 2022.
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