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Encarnar e “encarnar”: O torcer e a espiritualidade

Felipe Damasceno Setor Norte 31 de dezembro de 2021
Fonte: site Cinema na floreta 2020
Foto: reprodução/Cinema na floreta 2020

Encarnar: ‘’fazer-se carne […], tornar-se humano […] (Oxford Languajes), categoria fundamental que dá sentido à existência humana para muitas religiões. Como para o cristianismo que comemora o nascimento de Jesus Cristo, no final do mês de dezembro ,– deus que, para esta doutrina, encarnou na terra para ensinar a humanidade o caminho a seguir.

"Velório" do Remo por parte dos torcedores do Paysandu no Ver-o-Peso — Foto: Reprodução/TV Liberal - 2021
“Velório” do Remo por parte dos torcedores do Paysandu no Ver-o-Peso. Foto: Reprodução/TV Liberal – 2021

Encarnar: ‘’ fazer brincadeiras sobre seu time, encher a paciência, rir do rival, provocar, zombar’’ (NASCIMENTO, 2020, p,112), através de comentários e/ou atitudes irônicas, algumas vezes de forma jocosa, fenômeno recorrente no contexto de grandes rivalidades futebolísticas, como na entre Clube do Remo versus Paysandu Sport Club, aqui em Belém do Pará.

Apesar de em dezembro, comumente, ser comemorado o encarnar, infelizmente, no contexto do encarnar há muitas mortes a se lamentar pelos motivos mais banais que se possa imaginar. Em respeito aos que partiram e aos seus entes que ficaram não se detalhará os casos, mas basta pesquisar em um buscador pela internet sobre a violência envolvendo tal rivalidade para encontrar resultados trágicos envolvendo brigas, facadas e tiros, levando pessoas a sequelas permanentes ou até mesmo a óbito. 

Não precisa ser religioso/a para compreender que o legado deixado nesse planeta por Jesus Cristo é de justiça social e respeito às diferenças, logo que a partir dele possamos repensar o nosso papel como torcedor/a, passando a compreender que liberdade de expressão não é discurso de ódio e que para encarnar e ser encarnado/a é preciso respeitar o encarnar.

Se o Deus cristão fez dos seus discípulos a sua imagem e semelhança, ele está em todos os gêneros, raças, etnias, sexualidades, classes sociais, gerações, nacionalidades e torcidas de clubes de futebol destes, ou seja, em toda variabilidade humana de quem a cada dezembro comemora o seu nascimento.

Portanto, 

Para quem acredita: viva a espiritualidade!

Aos quem gostam: viva o futebol!

E a quem for humano/a:  viva as diferenças!

Referência

NASCIMENTO, Mayra Leal do. Torcida, substantivo feminino: interações e relações de gênero nas torcidas do clássico Remo x Paysandu. 2020.

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Felipe Damasceno

Cientista Social; Mestrando em antropologia (PPGA/UFPA).

Como citar

DAMASCENO, Felipe. Encarnar e “encarnar”: O torcer e a espiritualidade. Ludopédio, São Paulo, v. 150, n. 41, 2021.
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