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Esporte, lazer e cultura: experiências múltiplas vividas pelos usuários do Centro Cultural São Bernardo

O Centro Cultural São Bernardo foi inaugurado em 1994, através de uma potente mobilização social dos moradores do bairro, que por meio do Orçamento Participativo, reivindicaram a transformação de um antigo Posto de Policiamento Ostensivo em um Centro Cultural.

O referido espaço atende ao público das vilas e comunidades dos bairros São Bernardo, Vila Aeroporto e São Tomaz, da região Norte de Belo Horizonte, que estão inseridos num contexto de vulnerabilidade social. Tal aspecto reforça a importância deste equipamento público na perspectiva de fomentar mediações culturais e práticas de lazer à população da periferia.

A programação cultural do Centro Cultural São Bernardo passa por várias linguagens, tais como música, artes visuais, audiovisual, dança, artes cênicas, ações de patrimônio cultural, além das parcerias intersetoriais com as pastas da Saúde, Educação e Assistência Social, fomentando o trabalho em rede entre as diversas secretarias do município. A efetividade dessa parceria intersetorial pode ser vista, por exemplo, na realização de projetos como o “Arte da Saúde”, que oportuniza aulas de grafite gratuitas às crianças e adolescentes que envolve a ação conjunta dos postos de saúde da região e o Centro Cultural São Bernardo.

Destacam-se também os projetos Vida Ativa (ação voltada para atividades físicas, de lazer e de socialização à população com idade superior a 50 anos), e Lian Gong (ginástica terapêutica fundamentada na medicina tradicional chinesa), que estão atrelados às Secretarias da Saúde e do Esporte e Lazer na promoção do bem-estar e saúde dos idosos.

No que se refere à perspectiva do Esporte, é possível observar uma sólida parceria entre o Centro Cultural e a Secretaria Municipal de Esporte e Lazer – SMEL, através da realização de diversas atividades em conjunto, também, com outras pastas setoriais. A relação com a Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte, é um exemplo da dimensão transversal das ações que ocorrem a partir das pastas do Esporte e Lazer, Cultura e Educação. Como exemplo, citamos o programa Escola Integrada,1 cuja premissa é a de que os estudantes realizem as atividades escolares em espaços diversos, ocupando a cidade. Nesse sentido, é comum que as escolas da região ocupem o espaço do Centro Cultural para realização de atividades que vão desde à prática de atividades físicas, mediadas por um professor de Educação Física ou mesmo um representante da SMEL que também participa dessa parceria com a escola, ou participando das atividades culturais promovidas pelo próprio Centro Cultural. Assim, a relação ocorre tanto pelo acesso ao espaço como pela realização de ações integradas entre a escola, a SMEL e o Centro Cultural.

Feita essa breve apresentação do Centro Cultural São Bernardo, a partir daqui direciona-se ao foco principal deste texto que será um relato de experiência. Neste aspecto, um dos objetivos deste relato é tecer algumas reflexões sobre o potencial imersivo às diversas experiências e vivências mobilizadas pelos usuários do Centro Cultural. Depois de 5 anos trabalhando nesse espaço, construí uma relação de proximidade com diversos grupos sociais, sejam artistas, profissionais do esporte ou frequentadores assíduos do espaço. A partir dessa relação pude entender a importância desses grupos para a comunidade local e também municipal, uma vez que suas histórias e trajetórias se entrelaçam com a história e manifestações culturais e esportivas de Belo Horizonte e que portanto, precisam de visibilidade. Essa interação proporcionou uma compreensão mais profunda da dinâmica desse equipamento de cultura e seu papel perante essas comunidades.

A proximidade com este local também possibilitou a reflexão sobre a sua apropriação, majoritariamente, por dois tipos de público: crianças e idosos. As crianças, praticamente vizinhas do Centro Cultural, veêm naquele espaço uma extensão de suas casas. É comum aos finais de semana nos depararmos com cabaninhas improvisadas, amarradas aos pés das mangueiras, bonecas enfileiradas pelos palcos, carrinhos e crianças brincando de bola no pátio. A imaginação alcança novas possibilidades de utilização do referido local. As crianças são o público que têm maior participação nas oficinas oferecidas pelo Centro Cultural, como por exemplo, as oficinas de Brincadeiras Circenses, Breaking Dance, Brinquedos e Brincadeiras, além de muitas outras oficinas literárias que são promovidas.

Destaca-se, sobretudo, a cultura do futebol que é muito forte na comunidade do bairro São Bernardo, principalmente entre as crianças. Em frente ao equipamento cultural, localiza-se um dos 120 campos de futebol ativos de Belo Horizonte.2 O campo de futebol São Bernardo, cuja gestão é da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer, é palco de vários torneios de várzea realizados ao longo do ano, destinados aos times de adultos e crianças. O São Bernardo Esporte Clube, time oficial da comunidade, participa ativamente dos campeonatos e devido à forte relação e envolvimento com os moradores da região, construiu-se uma cultura esportiva fortalecida na comunidade, tornando os campeonatos grandes eventos com torcida e seus cânticos de incentivo, barraquinhas de comida e carros de música ao redor. Os jogos acontecem principalmente aos finais de semana, mas durante a semana, principalmente à noite, acontecem treinos dos jogadores.

A sensibilidade da comunidade do São Bernardo em relação ao futebol é tão notória que foi registrada na parede do vestiário do campinho uma arte em memória ao jogador Dim, como era carinhosamente conhecido pela comunidade, que teve sua história precocemente interrompida devido a uma briga entre jogadores em um torneio de futebol em um campo onde eram visitantes.

Belo Horizonte
Fonte: imagem autoral

A arte eternizada nos muros do campo de futebol nos reforça a íntima relação da comunidade com o futebol e, além disso, nos permite refletir sobre a importância dos debates acerca da violência nos campos, principalmente naqueles onde há uma grande defasagem de estrutura, seja física, operacional e até mesmo de segurança, como normalmente são os campos de várzea.

Decerto, investigar a conexão entre futebol e violência nos permite enriquecer nossa compreensão do significado social desse fenômeno na sociedade (REIS e ESCHER, 2006). Portanto, é imprescindível considerar o papel social e cultural do futebol nas sociedades contemporâneas, assim como o significado que esse esporte possui para os jovens e adultos que estão envolvidos com ele. A análise desses aspectos é fundamental para uma abordagem completa da violência associada aos eventos futebolísticos (ELIAS e DUNNING, 1992).

Nesse sentido, ao lidar com a violência no futebol de várzea, também é possível abordar questões mais amplas, como a falta de investimento em infraestrutura esportiva nas comunidades, a importância do trabalho com jovens para promover valores educacionais positivos e a necessidade de políticas públicas que apoiem o esporte em áreas carentes.

Em suma, abordar a violência nos campos de várzea é crucial não apenas para garantir a segurança dos envolvidos, mas também para promover o futebol como uma ferramenta de integração social e desenvolvimento comunitário.

Além disso, a violência no futebol pode ter ramificações sociais mais amplas. Ela reflete e perpetua problemas no setor da educação, oportunidades limitadas, desigualdades sociais e a falta de investimento em áreas comunitárias. Ao abordar e combater a violência nos campos de várzea, podemos também estar abordando questões mais profundas que afetam essas comunidades. Por fim, é importante reconhecer que os campos de várzea desempenham um papel crucial como espaços de lazer e integração social. Assim sendo, abordar a violência no futebol, especialmente nos campos de várzea, não é apenas uma questão de segurança, mas também uma questão social e comunitária que merece atenção e ação.

Ainda sobre os torneios de futebol que acontecem no campo da área externa ao Centro Cultural, o público participante, seja visitante ou mesmo jogadores, entre um intervalo e outro, principalmente as crianças, aproveitam para visitar o equipamento público de cultura, e participam da programação do espaço.

Quando os jogos terminam, as crianças ainda podem brincar no espaço externo do Centro Cultural, visitar a exposição mensal e a biblioteca, dentre outras atividades. Há uma forte relação institucional entre o equipamento de cultura e os administradores do Campo São Bernardo, seja para apropriação do espaço para as reuniões entre os técnicos e jogadores ou como um suporte de infra-estrutura para os jogos, como por exemplo acesso aos bebedouros para visitantes e jogadores.

Nota-se que a transversalidade entre o esporte e lazer e cultura é muito marcante na comunidade do bairro São Bernardo, e se solidifica a partir das ações tanto do Centro Cultural São Bernardo quanto do Campo de Futebol São Bernardo. Aliás, umas das situações mais marcantes que simboliza essa relação integrada, diz respeito às crianças que jogam futebol neste campo.

Em uma situação específica estava sendo organizada no espaço do Centro Cultural uma exposição intitulada “Aprendendo com Anne Frank”. No caso, uma mostra com artefatos, fotos, maquetes e banners a respeito da vida de Anne Frank.

A exposição foi fruto de uma parceria realizada entre o espaço e o Núcleo Anne Frank e pudemos contar com o apoio de uma das coordenadoras do projeto na montagem. Antes mesmo de finalizarmos a disposição dos itens da exposição no espaço, os olhinhos curiosos das crianças que se encontravam na biblioteca do Centro Cultural já estavam à espreita para entender o que se passava ali.

Enquanto isso, as crianças que brincavam no campo, adentraram o espaço para beber água, quando de repente também foram levadas pela curiosidade daquela movimentação, de todos aqueles artefatos e a grandiosidade da exposição. Sem que nos déssemos conta, realizamos uma visita mediada entre aquelas crianças. Naquele momento elas tiveram a oportunidade de saber um pouco mais da história dessa jovem tão importante para a história da humanidade e foram provocadas a refletir sobre várias questões, num verdadeiro processo formativo.

Algumas crianças dessa visita compartilhavam a idade de Anne Frank e foi notória a sensibilização acerca da história de vida de Anne Frank. Aproveitamos a imersão das crianças que estavam jogando futebol no campinho para contarmos uma curiosidade esportiva sobre Anne, a fim de estabelecermos uma conexão maior ainda entre elas. Abordamos que Anne adorava jogar Pingue- Pongue, o que a levou a criar uma equipe com suas quatro amigas que foi nomeada, a princípio, de “Ursa Menor”. Explicamos que esse é o nome dado à uma constelação, a qual Anne achava ser formada por cinco estrelas. Posteriormente as meninas descobriram que a referida constelação era composta por 7 estrelas, o que as fizeram mudar o nome de sua equipe para: “Ursa menor menos duas”.3

Belo Horizonte
Fonte: Imagem Autoral

Inspirados pelo contexto da exposição “Aprendendo com Anne Frank”, o grupo de crianças que viera do campinho, que eram no total de oito, decidiram por naquele momento denominarem o seu time de Cruzeiro do Sul Menos Três (certamente, também tendo como referência o clube belo-horizontino Cruzeiro Esporte Clube).

Sobre esse aspecto, é impreterível a relação entre futebol e cultura e sua potencialidade interdisciplinar e na produção de conhecimento. Desse modo, ao examinar o futebol sob uma perspectiva interdisciplinar, é possível desvendar uma infinidade de camadas que revelam sua importância e impacto na sociedade. Assim sendo, deve-se reconhecer esse fenômeno sociocultural que é o futebol como uma fonte valiosa de aprendizado e como uma poderosa ferramenta para promover a educação e a formação para a vida social (SILVA; CORDEIRO; CAMPOS, 2016).

Quanto aos idosos, as histórias de vida, superação e motivação para se manterem ativos, principalmente através da participação nas atividades disponíveis no Centro Cultural São Bernardo, sempre foram compartilhados comigo durante os anos de convivência que tivemos. Os idosos identificam sua relação com o espaço e com os grupos que participam, a uma questão de bem-estar e qualidade de vida, uma vez eles vêm nos encontros que ocorrem no Centro Cultural, um momento de partilha, fuga da solidão, oportunidade de aprendizado, acesso à práticas de lazer e realização de atividades físicas.

Vivenciar a realidade diária do Centro Cultural São Bernardo me permitiu ampliar o olhar sobre a importância das ações transversais que permeiam aquele espaço inclusive no que se refere à concretização da cidadania de seus usuários. O entendimento de cidadania que permeia essas áreas é de extrema importância posto que é uma premissa que reflete um processo de conquista imperecível e que apenas a democracia condiciona em seu potencial máximo. Para Coutinho (2000, p.12) “Os direitos sociais são os que permitem ao cidadão uma participação mínima na riqueza material e espiritual criada pela coletividade”. Desta forma, entendemos a importância do esporte e lazer, enquanto direitos sociais, positivados pela nossa Constituição Federal, que detêm como maior importância o seu potencial social de transformação e necessitam, portanto, de serem garantidos pelo Estado. Compreende-se que, numa dimensão maior, garantir os direitos sociais é propiciar também que as desigualdades sociais sejam minimizadas (GOMES e ISAYAMA, 2015).

Assim, apesar dos desafios jurídicos, institucionais, políticos e orçamentários que incorrem às áreas de lazer, esporte e cultura é incontestável o potencial transformador e formativo das ações que acontecem no Centro Cultural. A busca por uma qualidade de vida por meio do lazer, em seus aspectos sociais, históricos, políticos, culturais e lúdicos, implica adotar os princípios da qualidade sociocultural, que são essenciais na luta pelo reconhecimento das diferenças e pela igualdade de oportunidades dignas para todos. Além disso, os sujeitos sociais envolvidos com o lazer precisam, juntos, ampliar seu potencial crítico, reflexivo e criativo, buscando compreender a complexidade, a mudança e a dinâmica de nossa estrutura social mais ampla, a fim de encontrar novas maneiras de superar as barreiras que dificultam a concretização de nossos sonhos. Ao assumir esse papel cultural, o lazer se torna uma prática política fundamentada na esperança, através de sua interação dinâmica com o contexto social (GOMES, 2008).

Belo Horizonte
Fonte: Imagem autoral

Notas

1 O referido projeto trata-se de uma iniciativa da Prefeitura de Belo Horizonte que tem como fundamento aprimorar a excelência educacional ao estender a jornada de aprendizado dos alunos e alunas da Rede.

2 Informação consultada na seguinte fonte: https://prefeitura.pbh.gov.br/esportes-e-lazer/infraestrutura-esportiva.

3 FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. 47. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 2015, p. 19.

Referências bibliográficas

COUTINHO, Carlos Nelson. Notas sobre cidadania e modernidade. In, COUTINHO, C. N. Contra a corrente: ensaios sobre democracia e socialismo. São Paulo: Cortez, 2000.

ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa, Difel, 1992.

FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. 47. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 2015, 349 p.

GOMES, Christianne L. Lazer, Trabalho e Educação: relações históricas, questões contemporâneas. Belo Horizonte, 2ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

GOMES, Christianne L.; ISAYAMA, H. F. (Org.). O direito social ao lazer no Brasil. 1. ed. Campinas: Autores Associados, 2015. v. 1. 232 p.

REIS, Heloisa Helena Baldy; ESCHER, Thiago de Aragão. Futebol sociedade. Brasília, Liber Livros, 2006.

SILVA, Silvio Ricardo da; CORDEIRO, Leandro Batista; CAMPOS, Priscila Augusta Ferreira. (Orgs.). O ensino do futebol: para além da bola rolando. Rio de Janeiro: Jaguatirica, 2016.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Scarlleth de Oliveira Souza

Mestranda do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, pela Universidade Federal de Minas Gerais, onde estuda as Políticas Públicas de Esporte e Lazer. Licenciada em Letras, Português, pela Universidade Federal de Minas Gerais e Gestora Pública pela Universidade do Estado de Minas Gerais

Anderton Taynan Rocha Fonseca

Licenciado em Educação Física pela Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (2017). Foi membro do Programa Rede de Museus e espaços de ciência e cultura da UFMG, vinculado ao Centro de Memória da Educação Física, do Esporte e do Lazer, no período de 2015 a 2017. Foi integrante do Programa Educativo do Museu Brasileiro do Futebol de 2017 a 2019. Atua como professor da educação básica na Rede Estadual de Educação de Minas Gerais. Integrante do grupo de pesquisa FULIA - Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes. Doutorando do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer da UFMG.

Como citar

SOUZA, Scarlleth de Oliveira; FONSECA, Anderton Taynan Rocha. Esporte, lazer e cultura: experiências múltiplas vividas pelos usuários do Centro Cultural São Bernardo. Ludopédio, São Paulo, v. 177, n. 22, 2024.
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