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Hoje o Rei não veio?

Numa noite ruim, Pelé passou uma partida inteira apagado e, neutralizado pela zaga adversária, assistiu o Santos perder por 2 a 0, até que despertou e, em apenas três geniais minutos, empatou o placar e só não virou porque o relógio quis amenizar o sofrimento cruzmaltino e dosou homeopaticamente o talento do Rei do Futebol.

Na sexta-feira completa 80 anos que em Três Corações, nasceu o filho mais velho do casal dona Celeste Arantes do Nascimento e Dondinho. Batizado como Edson, em homenagem ao inventor Thomas Edison, mas que por conta de uma dificuldade para pronunciar o nome do jogador favorito, o goleiro vascaíno Bilé, ganhou um apelido que pelo seu imenso talento, virou sinônimo de maior jogador de futebol de todos os tempos.

Pelé e a camisa da seleção brasileira. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil.

Pelé é daquelas biografias que não se pode ousar resumir. É preciso recortar a realidade fantástica do menino pobre que foi engraxate na infância para ajudar a levar comida para casa e depois venceu três Copas do Mundo, registrou o nome do Santos FC na história do futebol mundial e elevou a Seleção Brasileira ao nível de melhor do planeta. Contando pequenas passagens da vida do tricordiano é que se pode alcançar a grandeza dos feitos desse ser chamado Pelé.

“Cadê o Rei? Hoje o Rei não veio?”

Uma dessas quase folclóricas histórias aconteceu na noite de 16 de fevereiro de 1963, no Maracanã – palco de tantos atos do Rei -, durante uma partida entre Vasco da Gama e Santos, válida pelo Rio-São Paulo daquele ano.

O Santos, já o time multicampeão internacional que empilhava grandes vitórias frente aos gigantes europeus em amistosos ou até em competições como o Mundial vencido contra o Benfica de Eusébio, era um timaço que tinha o inesquecível e obrigatório quinteto formado por Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

Esse time tinha em Pelé o diferencial que o fazia quase invencível. Quando algum esquadrão realizava uma partida próxima à perfeição, única maneira de bater aquele Santos, Pelé entrava em ação e mostrava porque merece ser considerado até hoje o melhor jogador de todos os tempos.

No entanto, naquela noite de fevereiro de 1963, o Vasco fez uma partida perfeita no ataque e conseguiu abrir 2 a 0, gols de Ronaldo e Sabará, enquanto a defesa simplesmente anulou Pelé, além de marcar muito bem todo o sistema ofensivo do Santos.

A evidente superioridade cruzmaltina encorajou a dupla de zagueiros do Vasco a cometer um dos maiores sacrilégios que alguém pode pensar no futebol: tirar sarro de Pelé. Uma insanidade assinada por Brito e Fontana, responsáveis pela partida apagada do eterno camisa 10 santista, que, de gozação, ficavam questionando um ao outro: “Cadê o Rei? Hoje o Rei não veio?”.

O Rei foi e decidiu o jogo

Aquela provocação, quase infantil e que poderia ser assinada por qualquer integrante da 5ª série C, mexeu com o brio de Pelé e foi o combustível necessário para que o Rei buscasse forças para tirar a razão daqueles que ousavam debochar da realeza.

Quando o relógio marcava 42 minutos da etapa final, Pelé descontou para o Santos. Mesmo com o 2 a 1, os zagueiros seguiram confiantes por acharem que não daria tempo para mais nada. O Rei, no entanto, não desistiu e no minuto seguinte fez o que parecia impossível, empatou o jogo no Maracanã. Pelé fez questão de buscar a bola no fundo das redes cruz-maltinas e, de passagem por Fontana, entregou a bola ao zagueiro e conta a lenda em torno do fato que o camisa 10 teria dito:

“Tá vendo isso aqui? Leva para a sua mãe de presente. Diz que foi o Rei que mandou”.

Atônitos os zagueiros e o resto do time do vascaíno, além da torcida presente em êxtase, viram o árbitro assinalar o final de jogo poupando o Vasco da virada, Brito e Fontana da execração pública e deixando o sabor e o cheiro da genialidade real na atmosfera do Maracanã.

Em entrevista à Placar, porém, Pelé contou que a história daquela noite é quase toda verdade:

“Naquele dia, o Fontana e o Brito me encheram demais. Toda vez que a bola saía e eu ia buscar, um deles chutava mais longe, aproveitando que, naquela época, não havia tantos gandulas, depois, falavam: “É crioulo, essa não dá mais…”. Só que quando faltavam três minutos para o jogo terminar, fiz um gol, descontando para 2 a 1. Faltando dois minutos, fiz outro. Aí peguei a bola, dei para o Fontana e disse: “Tá vendo isso aqui? Leva para a sua mãe de presente”. Mas eu não falei que ‘foi o Rei que mandou’ ”.

Pelé. Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas.

Os “goals” de Pelé nas letras de Nelson Rodrigues 

A história já é fantástica e Nelson Rodrigues fez questão de a deixar mais empolgante, vale a leitura do trecho da crônica a seguir publicada no jornal O Globo do dia seguinte ao jogo:

“A multidão parou. E o tento solitário de Pelé veio como um toque sobrenatural numa peleja decidida. Mas o Vasco continuava na frente. O Santos fizera o seu “goal” de honra e só. Pois bem — e continua a batalha. O time do Santos arquejava como um asmático em último grau. Era preciso impedir que Pelé tocasse na bola. Nos últimos segundos , há uma chance do Santos, Toninho enche o pé e fura. Estava salvo o Vasco. Não, não estava salvo. Falhou Toninho, mas Pelé apareceu. Não estava lá, mas vejam vocês — desabrochou na hora e no momento certo. Enfiou a bola lá dentro e com que graça, sortilégio, beleza e “goal” perfeito. Irretocável como um soneto antigo. E aí está porque nós o consideramos o maior jogador do mundo. Amigos, não há Santos e insisto: Há Pelé. Dizia-me um colega, ontem no Maracanã: “O crioulo teve sorte”. Exato. Mas a sorte pertence aos Pelés, aos Napoleões. A história deu a Bonaparte, de mão beijada, uma Revolução Francesa. E é claro que as potências misteriosas do destino carregam Pelé no colo. Alguém diria que para os dois “goals” Pelé pouco ou nada fez, pelo contrário: quem enfia nos três minutos de uma partida dois “goals” já fez tudo. E mesmo que não jogasse nada, amigos, só os pernas de pau, os cabeças de bagre precisam jogar bem. Um Pelé pode sentar em campo para ler gibi. Com um leve toque, marcou um “goal” , com um segundo toque imponderável, empatou”.

Como escreveu Drummond de Andrade, “o difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé”. Indo além, jogar como Pelé ou escrever como Nelson Rodrigues sempre será impossível, mas se puder, assista e leia esses gênios.


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Pedro Henrique Brandão

Comentarista e repórter do Universidade do Esporte. Desde sempre apaixonado por esportes. Gosto da forma como o futebol se conecta com a sociedade de diversas maneiras e como ele é uma expressão popular, uma metáfora da vida. Não sou especialista em nada, mas escrevo daquilo que é especial pra mim.

Como citar

BRANDãO, Pedro Henrique. Hoje o Rei não veio?. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 47, 2020.
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