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João Saldanha, o João Sem Medo de ditadura

Pedro Henrique Brandão 31 de março de 2021

Há 57 anos, a insatisfeita e golpista caserna marchou pelas ruas do país e, com um golpe de estado, tomou o poder sob a alegação de evitar a ameaça comunista que o presidente João Goulart representava com suas reformas de base. A crise política, desencadeada ainda em 1961 com a renúncia de Jânio Quadros, foi o pretexto para que o militares chegassem ao poder.

Com o apoio civil, o movimento que se autoproclamou “Revolução de 64” para disfarçar um golpe militar e a (in)consequente ditadura, fez com que o Brasil vivesse 21 anos sob um regime militar que perseguiu, caçou direitos e assassinou quem ousasse se opor aos militares.

Os anos de chumbo encerraram todos os setores da sociedade brasileira, da música à política, passando por economia e direitos civis, até chegar no futebol, a ditadura controlou absolutamente tudo durante mais de uma década a partir de meados dos anos 1960.

Um comuna no ninho

Neste clima de pouca liberdade, o comando técnico da Seleção Brasileira foi para nas mãos de um jornalista gaúcho, culto, politizado, de temperamento explosivo e que era um ferrenho militante do Partido Comunista Brasileiro.

João Saldanha tinha 51 anos, quando foi convidado por João Havelange, então presidente da CBD, para dirigir a Seleção Brasileira que precisava se classificar nas eliminatórias para disputar o Mundial de 1970 no México.

João Saldanha
Foto: Wikipédia

Nascido em Alegrete, em 3 de julho de 1917, Saldanha havia sido jogador das categorias de base do Botafogo, mas logo percebeu que não tinha talento suficiente para seguir carreira nos gramados. Aceitou ser diretor de futebol do Clube da Estrela Solitária. Da cartolagem para o banco de reservas foi um pulo depois de conviver com grandes técnicos que passaram por General Severiano.

Em 1957, foi campeão carioca dirigindo um dos melhores times do Botafogo na história que na final bateu o Fluminense por incríveis 6 a 2, até hoje a maior goleada na final de um Campeonato Carioca.

Depois do título de 1957, não conseguiu repetir o sucesso e em 1959, afastou-se do futebol para estudar jornalismo, sua segunda graduação já que havia se formado em direito no final dos anos 1940. Nas tribunas, empunhando microfone e seu inseparável cigarro, Saldanha se tornou um dos mais importantes cronistas esportivos do Brasil e o comentarista literalmente técnico.

Nas cabines de transmissão de rádios como a Guanabara, Nacional e Globo, João modernizou a imprensa esportiva brasileira, falando a língua de quem ouvia os jogos pelo tradicional rádio à pilha e levando em seus comentários a visão do ex-treinador de sucesso com muito conhecimento em futebol.

Mesmo falando de esporte, Saldanha nunca deixou de criticar a ditadura que sufocava o Brasil. Sempre que possível dava um jeito de alfinetar os ditadores, mas como era muito inteligente, dono de uma invejável retórica e adorado pela opinião pública, permaneceu longe do alcance da repressão.

Foi este profissional completamente avesso ao regime, que a CBD quis colocar no comando da Seleção Brasileira, o maior instrumento de propaganda internacional da ditadura, o Brasil que dava certo.

Fichado no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) desde 1947, comunista de carteirinha, filiado ao PCB, crítico dos militares e da parceria entre estes e a CBD, o homem que falava nas principais rádios da época contra os desmandos de João Havelange e cia, Saldanha se tornou dono do cargo mais importante da vida pública brasileira: técnico da Seleção Brasileira.

Pode parecer absurdo, mas era uma tentativa de plano perfeito, uma audaciosa estratégia para calar Saldanha e a imprensa que malhava as dificuldades do Brasil nas eliminatórias.

A lógica era a seguinte: a partir do momento que João estivesse empregado pela CBD, não poderia criticar a CBD, e por outro lado a crônica esportiva não teria coragem para criticar o trabalho de alguém com as costas tão largas quanto as que tinha João Saldanha, tanto no futebol quanto na imprensa.

O time dos sonhos de João

O “eu topo” que falou para responder o convite de Havelange, mudou o rumo da história do futebol brasileiro e até da política no Brasil.

No futebol, Saldanha começou mudando a cara do time escalando seus “feras”. Num guardanapo de papel escreveu rapidamente os 11 nomes que estariam com ele até a Copa e os anunciou sem mistérios para a imprensa na coletiva que marcou sua apresentação no cargo.

Era o time que o comentarista cansou de repetir como ideal nas transmissões dos jogos. Entre os 11 feras iniciais de Saldanha, nada menos do que 8 seriam campeões do mundo como titulares 1 ano depois no México. A primeira convocação tinha:

Félix; Carlos Alberto, Brito, Djalma Dias e Rildo; Piazza, Gérson e Dirceu Lopes; Jairzinho, Tostão e Pelé.

Mas não pense que João era apenas um animador de grupo, alguém para mexer com os brios dos jogadores. Muito pelo contrário, Saldanha tinha uma ideia de time na cabeça, um projeto de grupo coeso e time versátil que se bem entrosado seria imbatível. Esse pensamento fica evidente na fala do treinador ao anunciar seus escolhidos:

“Minha seleção - todo mundo tem a sua e eu também (…) Mas aí vai o time: no gol, qualquer um - Félix, Ubirajara, Picasso. Tanto faz. São todos muito bons. Em seguida, uma linha de quatro jogadores formada por Carlos Alberto, Brito, Piazza e Rildo. Imediatamente à frente desses quatro, o Gérson. Um pouco mais à frente, formando uma linha de dois homens, o Dirceu Lopes e o Tostão. Mais à frente ainda, outra linha de três, com Jairzinho, Pelé e Edu. Explico a razão deste 4–1–2–3. Se nós saíssemos ganhando o jogo, manteríamos a formação como está acima. Caso tomássemos um gol, Gérson poderia avançar para o lugar de Tostão e este iria mais à frente juntar-se à linha avançada. Teríamos, então, o 4–2–4. Se o adversário se trancasse mais ainda, teríamos outra alternativa: avançar Piazza para junto de Gérson e Dirceu Lopes andaria mais à frente. Teríamos, então, outra formação, o 3–2–5. Poderia ser feita outra alternativa, com Gérson indo à frente e Dirceu ficando junto a Piazza. Quer dizer, é uma equipe para jogar qualquer tipo de jogo e contra qualquer adversário. Um time formado com cobras deste gabarito, treinando uns dois ou três meses, não perde para ninguém”.

Não se tratava de preferência apenas, era muito mais, era um projeto e esse projeto seria campeão do mundo um ano depois. Mas para isso, antes, fez miséria nas eliminatórias. Das seis partidas que faltavam quando Saldanha assumiu, o Brasil venceu as seis, marcou 23 gols e sofreu apenas 2. Enfileirou três sonoras goleadas marcando cinco ou mais gols em cada uma. Um time que se tornou uma máquina de fazer gols.

Saldanha Pelé e Gerson
Saldanha com Pelé e Gerson. Foto: Reprodução Facebook

O João sem medo de ditadura

Mesmo com esses resultados brilhantes, João Saldanha não chegou a treinar a Seleção Canarinho no México em 1970. Foi demitido apenas 1 ano e 1 mês depois de convocar a seleção pela primeira vez e a menos de 2 meses da estreia na Copa.

O motivo: uma discussão pública com o ditador do Brasil na época, Emílio Garrastazu Médici. O general/torcedor cobrou via imprensa a convocação de Dadá Maravilha, centroavante goleador do Galo. João Saldanha, também pela imprensa, respondeu com toda sua irascível coragem e retórica perfeita:

“O Brasil tem 80 ou 90 milhões de torcedores, de gente que gosta de futebol. É um direito que todos têm. Aliás, eu e o presidente, ou o presidente e eu, temos muitas coisas em comum. Somos gaúchos, somos gremistas, gostamos de futebol e nem eu escalo ministério nem o presidente escala time. Você tá vendo que nos entendemos muito bem?!”.

A declaração caiu como uma bomba na ditadura e com essa frase João Saldanha alterou a ordem da política brasileira. Ninguém antes havia tido a coragem de enfrentar a ditadura assim, ainda mais estando num posto de tanta evidência no exterior.

Ganhou de Nelson Rodrigues um apelido e se tornou o João Sem Medo.

Aliás, Saldanha era reincidente. No final de 1969, enquanto viajava com a Seleção, o treinador havia apresentado à imprensa internacional um dossiê de mais de três mil páginas sobre os abusos da ditadura militar brasileira. O suficiente para que João fosse monitorado de perto na volta ao Brasil.

Como a corda sempre estoura do lado mais fraco, Saldanha foi alvo de pressões da própria imprensa que passou a acusar-lhe de temperamental. Com a derrota frente à Argentina a situação piorou e a crítica pesou a mão sobre o trabalho de João.

Descobriu-se que bastava jogar a isca da provocação que Saldanha morderia com raiva e seria fisgado pela ira. Assim muitas entrevistas com críticas ao treinador da Seleção Brasileira passaram a circular no início de 1970.

A gota d’água no copo transbordando foi a entrevista da Revista Cruzeiro com Yustrich, técnico do Flamengo. O rubro-negro direcionou à João uma porção de insultos como ‘ignorante’, ‘falastrão’, ‘mentiroso’, ‘desconhecedor de futebol’, ‘oportunista’ e ‘covarde’. E finalizou se referindo ao caso da briga em que Saldanha atirou no goleiro Manga, em 1967:

“É um valentão que puxa o revólver e sai correndo”.

João não pensou duas vezes, passou a mão no revólver e foi até São Conrado no C.T do Flamengo, para tirar satisfações com o desafeto. Não encontrou Yustrich, mas aterrorizou ameaçando funcionários do clube. Por sorte foi embora sem machucar ninguém.

Não pegou nada bem e a crônica esportiva pedia a cabeça que planejou a Seleção (que ainda não sabiam) do Tri. A queda no desempenho também pesou, além de uma birra do treinador contra Pelé, dizendo que o Rei tinha problemas na visão e não poderia fazer jogos noturnos.

A panela de pressão verde e amarela apitou e João Saldanha foi chamado à sede da CBD no dia 17 de março de 1970. Lá ouviu de João Havelange que “a comissão técnica está dissolvida”. Respondeu com uma graça:

“Não sou sorvete para ser dissolvido. O que quer dizer dissolvido? Demitido?”

Ouviu como resposta de Havelange, “está demitido”. E finalizou:

“Até logo, boa noite. Vou para casa dormir”.

João Saldanha
João Saldanha, o arquiteto do tri. Foto: Reprodução.

Sem medo pela última vez

Pode ter dormido naquela noite e, provavelmente, até bem. Mas acordou no dia seguinte para viver mais 20 intensos anos em que voltou às cabines de transmissão, abraçou todas as mídias disponíveis em seu tempo, se consolidou como a maior autoridade em táticas de futebol no Brasil e decidiu encerrar sua vida fazendo mais daquilo que fez a vida toda: contrariar.

Doente, contra todas as recomendações médicas e pedidos da família e amigos, foi à Itália em 1990 para cobrir a Copa do Mundo. Embarcou de cadeira de rodas no Galeão para voltar num caixão. Morreu no dia 12 de julho depois de escrever diariamente sua coluna no Jornal da Tarde e cobrir todos os jogos em que estava escalado para comentar pela TV Manchete.

João Saldanha não teve medo nem da morte certa pelo enfisema pulmonar que tragou aos poucos em milhares de cigarros durante décadas como fumante, nem da morte que poderia vir muda e dissimulada pela repressão militar depois de achincalhar o ditador. Talvez tenha tido medo de morrer no Brasil longe da Copa e sem fazer o que mais gostava e sabia.

Aos 73 anos, durante a cobertura de uma Copa do Mundo, morreu João Sem Medo, o João Saldanha. Sem medo da morte João viveu, sem medo da vida João morreu. Sem medo da ditadura João sobreviveu e sem medo do futebol João se eternizou como o arquiteto da Seleção do Tri. Foi-se o homem, ficou a fama.


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Pedro Henrique Brandão

Comentarista e repórter do Universidade do Esporte. Desde sempre apaixonado por esportes. Gosto da forma como o futebol se conecta com a sociedade de diversas maneiras e como ele é uma expressão popular, uma metáfora da vida. Não sou especialista em nada, mas escrevo daquilo que é especial pra mim.

Como citar

BRANDãO, Pedro Henrique. João Saldanha, o João Sem Medo de ditadura. Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 68, 2021.
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