143.22

Jogadores animais do Mengão: galo, biguá, onça, bode, pavão…

Fabio Zoboli, Elder Silva Correia 13 de maio de 2021

No esporte, por suas habilidades e performances, é comum atletas serem comparados a animais. O maior nadador de todos os tempos, o estadunidense Michael Phelps, leva o apelido de “tubarão” das piscinas. O rei espanhol da bola amarela, o tenista Rafael Nadal, responde também pelo apodo de “el toro”. Na fórmula 1, não seria diferente: os pilotos Nigel Mansell (Inglaterra) e Emerson Fittipaldi (Brasil), por suas desenvolturas por detrás dos volantes, eram chamados de “leão” e “rato”, respectivamente. O jogador de basquete Kobe Bryant, multicampeão da NBA, ficou conhecido como “Black mamba” – Black mamba é uma espécie de cobra, a mais venenosa do continente africado. O lendário boxeador Muhammad Ali dizia que um bom pugilista tinha que “flutuar como uma borboleta e ferroar como um zangão”, e era exatamente assim que ele autodefinia seu estilo de luta.

Especificamente no futebol, essas comparações não fogem à regra. O colombiano Falcão Garcia nem precisava de apelido de animal, pois já levava o falcão no nome, porém, ele também respondia pelo codinome de “el tigre”. Lionel Messi, por ter baixa estatura, morder os adversários e quase nunca ser pego, ficou conhecido como “la pulga”. O também argentino Cláudio Lopez, por fazer coçar as cabeças dos zagueiros oponentes, era chamado de “el piojo” (o piolho). O centroavante Dario, vulgo “Dadá maravilha”, por sua maestria em parar no ar e fazer gols de cabeça, era apelidado de “beija-flor” e “helicóptero”. O brasileiro Donizete e o lusitano Eusébio ficaram conhecidos como “pantera” – o segundo, como “pantera negra”.

Os goleiros merecem um parágrafo a parte. O paraguaio Roberto Fernandez, por sua agilidade debaixo da baliza, levou o apelido de “gato”, e seu filho Roberto Junior Fernandez não herdou do pai somente a posição de goleiro, mas também o codinome diminutivo “gatito”, uma referência ao parentesco e não a uma condição inferior. O russo Lev Yashin, por seus reflexos acrobáticos, tornou-se famoso como o “aranha negra”. O extrovertido e polêmico goleiro colombiano René Higuita não tinha apelido de bicho, mas criou a defesa “escorpião”, uma defesa com os pés que tenta reproduzir uma espécie de bicicleta invertida.

Tais comparações não são meras metáforas, mas sim devires[1]. Elas expressam a potência dos corpos dos atletas que, na arena esportiva, mostram-nos uma zona de indiscernibilidade[2] entre o humano e o animal através de certas “potências estranhas”, que são tornadas perceptíveis nestes corpos. Aliás, o esporte é um território privilegiado para a percepção dos limites da performance humana, que põe em xeque a própria noção de humano, haja vista que o jogo é ontologicamente anterior ao humano, carregando este para um continuum entre o humano e o animal. Não é à toa que creditamos à figura do animal as performances de vários atletas, como se apesar desses estarem presos à sua forma humana, “potências estranhas” os atravessam e mostram, aos amantes do esporte, a animalidade inerente ao próprio humano.

Além dos comparativos com a desenvoltura dos jogadores, no futebol as mascotes de clubes também têm relações com animais. No Brasil temos um sem fim de exemplos: Atlético Mineiro (Galo); Joinville e América Mineiro (Coelho); Cruzeiro (Raposa); Palmeiras (Periquito e Porco); Criciúma e Vila Nova (Tigre); Bangu (Castor); Santos (Baleia); Sport, Fortaleza, Avaí  e Clube do Remo (Leão) ; Santa Cruz (Cobra coral); Ponte Preta (Macaca); Goiás (Periquito); Juventude (Papagaio); Londrina e Sampaio Corrêa (Tubarão); Mogi Mirim (Sapo); Paraná (Gralha azul); Paysandu (Lobo); São Caetano e CSA (Azulão).

Urubu Flamengo
Fonte: Reprodução YouTube FlaTV

Mas calma lá, já estamos sabendo que faltou o “urubu”, o urubu-rei do Rio. Ele não foi a primeira mascote que o Flamengo teve e sim o “Marinheiro Popeye”[3], por sua persistência de lutar até o final e também pela relação com o mar – afinal, o time da Gávea inicia sua história como Clube de Regatas. Entretanto, tal mascote não pegou e então o urubu ganhou asas e voou. Conta a lenda que, na década de 1960, os flamenguistas começaram a ser pejorativamente chamados de “urubus”, pois grande parte de sua torcida era composta de negros pobres que viviam do lixo (como metáfora social: os que se alimentam dos restos/carniça). Em maio de 1969, um torcedor do Flamengo levou um urubu para o Maracanã, que sobrevoou o gramado e caiu ali preso a uma bandeira do clube antes do início do jogo. Nesse dia, o time venceu o Botafogo por 2 x 1 e quebrou o jejum de nove jogos sem vencer a equipe da estrela solitária. Esse feito, portanto, pode ser visto como o ato que oficializou o urubu como mascote do Flamengo.

Para além disso, a história do rubro negro carioca nos mostra que com sua camisa  atuaram muitos “jogadores animais”. O canhoto Renato Abreu utilizou muito uma fantasia facial de “urubu-rei” para comemorar seus gols com o manto do clube. Mais que isso, às vezes mesmo sem a máscara, ele comemorava correndo de asas abertas mimetizando o voo da mascote, algo que lhe rendeu o apelido de “urubu-rei”.  De todo modo, na Gávea o “rei” da bicharada responde pelo codinome de “Galo”, isso mesmo: Zico, “o galinho de Quintino”. O galo tentou deixar como seu sucessor o jovem de 14 anos, Valmir da Silva, que no jogo de despedida de Zico, herdou suas chuteiras e ganhou o apodo de “pintinho”. Faltou milho e esporas e o pintinho não virou Galo.

Zico
Foto: Wikipédia

Mas de ave, o Flamengo também teve “Biguá”, “Pavão” e “Marreco”. Moacir Cordeiro, mais conhecido como “Biguá”, era considerado o melhor lateral direito do clube até a chegada do célebre Leandro. Biguá jogou no Flamengo na década de 1940 e 1950, fazendo 380 jogos pelo clube. No período entre 1951 e 1958, o zagueiro Marcos Cortez realizou 348 jogos com a camisa do Mengão e seu apelido era “Pavão”.  Nélio, o meia atacante da década de 1990, camisa 10 do pentacampeonato brasileiro tinha o apelido de “Marreco”. Nélio possuía uma identificação muito forte com a torcida por sua raça e incansável luta em campo.

Além de “Pavão”, o Flamengo teve outro zagueiro animal, seu nome: Mario Felipe Pedreira, o “onça” que jogou no Flamengo de 1968 a 1971. Junto com o “onça”, nos anos de 1967 a 1972, atuou o atacante Carlos Dionísio de Brito, vulgo “bode”. Na verdade, o apelido todo de Dionísio era “bode atômico” devido a seus inúmeros gols feitos de cabeça e a sua grande impulsão (mesmo com a baixa estatura de 1,73 m). Antes deles, de 1954 a 1963, o centroavante “Cavalo” se eternizou como um dos cinco maiores artilheiros da história do Flamengo com 214 gols. Isso mesmo, estamos falando de Henrique Frade que, por sua resistência, bravura e força, era chamado de “Cavalo” por seus colegas de time. Ironia ou não, Henrique Frade também nasceu numa cidade com nome de animal: em Formiga (Minas Gerais).

Da história mais recente do clube podemos figurar Valter “Minhoca” e Amaral “Pitbull”. Sobre o meia Valter “minhoca”, vale dizer que jogou uns meses no Flamengo, em 2006, e apareceu pouco, assim como as minhocas que vivem invisíveis aos nossos olhos por habitarem o raso subterrâneo. Por sua agressividade e técnica como volante, Amaral, que na verdade é Mauricio Azevedo Alves, ficou conhecido como “Pitbull”. Amaral teve também uma passagem relâmpago pelo Flamengo, porém deixou seu nome na galeria de títulos da Gávea ao ser campeão da Copa do Brasil de 2013. Inclusive, Amaral fez o gol de empate no primeiro jogo da final em Curitiba contra o Atlético (PR) – Atlético 1 x 1 Flamengo. No segundo jogo, Elias e Hernane Brocador fizeram os gols da vitória no Maracanã para o Mengão levantar o tri da competição – Flamengo 2 x 0 Atlético (PR).

Deleuze e Guattari (2012) nos lembram que em um devir-animal lidamos sempre com matilhas, populações, multiplicidades, que se afetam, produzem devir por contágio, propagação. Ora, as diversas metáforas de animais que atravessam os atletas não seriam devires-animais? Talvez isso explique o fascínio que a torcida, reconhecida como Nação Rubro-Negra, tem pelo Flamengo, representado por seus jogadores com suas animalidades (desde pavão, marreco, onça… Urubu). Quem sabe a forte identificação da torcida com a mascote do urubu-rei seja pelo fato de não se tratar de um fenômeno individual, mas impessoal que atravessa o clube, os jogadores e a própria torcida, isto é, um devir-animal. É uma “potência estranha”, que nos torna torcedores flamenguistas. A experiência de torcer para o Flamengo e seus jogadores-animais pode ser sintetizada na seguinte frase: o urubu que logo sou, ou melhor, que logo somos.

Mas essa crônica não termina assim. Sabe o “Galo”?… Sim, o Zico. Oriundo de uma família na qual o pai era aficionado pelo Flamengo, ele teve um cachorro na infância. Um cachorro que atendia pelo nome de “Mengo”. Como vimos acima, devir não é imitar, mas foi com seu cachorro que Zico aprendeu a acuar e morder seus adversários em campo. Não por nada, mas no portão da casa dos Coimbra se lia: “Cuidado com o Mengo”.

 

Notas

[1] Pegamos aqui o conceito de devir, presente na filosofia de Deleuze e Guattari (2012). Devir diz respeito a uma modificação intensiva de um corpo, isto é, a transição de uma potência do corpo a outra. Um devir é produzido diante de um encontro entre corpos, que ao se encontrarem, podem entrar em uma dada relação que os modifica, fazendo-os “tornarem-se outros”.

[2] Na filosofia de Deleuze e Guattari (2012), uma zona de indiscernibilidade trata-se de uma zona de vizinhança, que põe em contato elementos de distintas ordens, como o animal e o humano, por exemplo.

[3] Popeye é um personagem das estórias em quadrinhos e foi criado pelo cartunista estadunidense Elzie Crisler Seg, em 1929. Ele passa a ser mascote do Flamengo na década de 1940, quando foi idealizada pelo chargista argentino Lorenzo Mollas, exatamente no momento em que Popeye já figurava como animação.

 

Referências

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 2012. v. 4.

 

Seja um dos 9 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Fabio Zoboli

Professor do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe - UFS. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e política".

Elder Silva Correia

Mestre em Educação Física pela Universidade Federal do Espírito Santo - UFES. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e Política" da Universidade Federal de Sergipe - UFS.

Como citar

ZOBOLI, Fabio; CORREIA, Elder Silva. Jogadores animais do Mengão: galo, biguá, onça, bode, pavão…. Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 22, 2021.
Leia também:
  • 143.62

    Ita Maia, entre marolas e tsunamis

    Caroline Soares de Almeida, Daniel Machado da Conceição
  • 143.61

    A voz colombiana

    Cláudia Samuel Kessler, Diana Patricia Bolaños Erazo
  • 143.60

    Jogar com os pés, com as mãos: futebol

    Alexandre Fernandez Vaz