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Jornal dos Sports ou das Tragédias?

Neste texto vamos viajar à primeira metade dos anos 1980, quando o Jornal dos Sports (JS) adotou uma linha editorial diferente do que fazia anteriormente. Adquirido pela família Velloso em 1980, o jornal tentara aumentar sua vendagem por meio de uma estratégia peculiar, mas não necessariamente inovadora no meio jornalístico: destacavam-se notícias com apelo à violência e às tragédias urbanas. Para tanto, uma região metropolitana como a da cidade do Rio de Janeiro era uma reservatório de matérias primas para as manchetes, imagens e textos com esta intenção editorial.

O clã Velloso, empresários e proprietários de supermercados e drogarias, era formado por Climério, Waldemar e Venâncio, e substituíra a gestão de Cacilda Fernandes de Souza, segunda esposa e herdeira de Mário Júlio Rodrigues (que, por sua vez, era filho de Mário Rodrigues Filho). Contavam com o apoio político de mais um integrante da família: Napoleão Velloso, deputado estadual pelo PMDB e que passara a escrever em uma coluna fixa, sobre temas diversos, mas principalmente das políticas públicas do estado.

Nos primeiros anos da gestão Velloso, a atenção era voltada para a tradição do jornal na cobertura poliesportiva, com grande ênfase para o futebol dos grandes clubes cariocas e da seleção brasileira. Inclusive, houve um grande investimento para a cobertura da Copa do mundo de futebol FIFA em 1982, na Espanha.

Para além do esporte, outros temas eram priorizados como educação, concursos públicos, funcionalismo público, mercado de trabalho e emprego e política fluminense. Outros assuntos como cultura, carnaval e religião também eram comuns nas páginas do JS. Cabe lembrar que a conjuntura na primeira metade da década de 1980 compreendia o final de uma ditadura militar e de gradual abertura política, inclusive com as eleições diretas em 1982 para cargos legislativos e governador de estado. No Rio, vencera um candidato da esquerda, Leonel Brizola, pelo PDT. No campo econômico, um contexto de muita crise econômica e financeira, com índices inflacionários bem elevados, o que impactava diretamente na renda e no custo de vida da classe trabalhadora.

A escolha pelas matérias sobre educação tinham muito a ver com o crescimento do movimento estudantil e suas manifestações políticas e culturais, dentro da conjuntura de abertura democrática, mas também uma forma de captação de recursos junto aos cursos preparatórios, escolas e universidades privadas, por meio de anúncios nas páginas do jornal.

Mas, na apresentação do periódico e na construção das matérias, o que explica a virada para um tom discursivo policialesco e repleto de emoções derivadas de tragédias e violências? Temos algumas hipóteses, mas vamos ver um exemplo relevante antes:

 
Jornal dos sports
Imagem 1: Capa do Jornal dos Sports, 3/12/1984.

Como podemos observar acima, temos o destaque para uma notícia da conquista do segundo turno do campeonato carioca (Taça Rio) pelo Vasco, mas compartilhada com temas como a violência urbana. A chamada para a matéria da segunda página (curta, contrapondo-se ao destaque da capa), contava a história de uma casal, morador de Belford Roxo, que resolvera fazer sexo no quintal da própria casa e, diante da presença de vizinhos curiosos e não convidados, o homem resolvera afastá-los disparando tiros, o que resultou em três homens internados em estado grave no Hospital Getúlio Vargas.

Temos, desta forma, a partir do final de 1984 e se estendendo ao ano seguinte, uma estratégia de competir com outros jornais da cena urbana carioca como O Dia e Última Hora, cujas linhas editoriais abusavam da exposição da violência da cidade e região metropolitana. No caso do JS, emoções e paixões pelo esporte se misturavam em ondas de curiosidade mórbida do público leitor, tentando aproximar sentimentos diversos do torcedor.

A estratégia de vendagem do jornal aliava-se ainda com o discurso de “protetor do povo”, como no destaque de que o JS teria sido o único jornal no Rio de Janeiro que não aumentara os valores das edições.

No exemplo abaixo, a exploração da tragédia humana pode ser percebida em mais de uma matéria:

Jornal dos sports
Imagem 2: Capa do Jornal dos Sports, 31/01/1985.

O exemplar acima destaca mais uma história policial, a de uma chacina no Sumaré, sendo possível que tivesse a implicação de um policial civil no crime. Duas outras matérias dividiam o espaço com a cobertura esportiva (esta dando destaque para o desempenho de dois clubes cariocas, Fluminense e Vasco, no recém iniciado Campeonato Brasileiro de 1985): a de uma ameaça epidêmica de tifo na cidade do Rio de Janeiro e a de uma tragédia no mar, junto à Praça Mauá.

Mortes e cadáveres eram comuns nesta nova linha editorial para o período. Quando mais nítida a imagem da tragédia, mais interesse advinha do público leitor. Pelo menos era o que a empresa/jornal acreditava.

Jornal dos Sports
Imagem 3: Capa do Jornal dos Sports, 14/09/1985.

No exemplo acima, o desfecho trágico de um sequestro era mote para um convite aos leitores a comprarem o jornal para conhecer mais sobre a história recheada de mistério, sangue, morte, esquartejamento. Tudo isso numa capa que chamava a atenção sobre as contratações de dois grandes jogadores pelo Flamengo (Sócrates e a possibilidade de chegada de Renato Gaúcho).

Esporte e tragédia caminhavam de mãos dadas entre o final de 1984 e ao longo do ano de 1985. A violência e os dramas urbanos permeavam o interesse de leitores/torcedores, ávidos por emoções e sentimentos para além do esporte.

Referências

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. O clube como vontade e representação: o jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro (1967-1988). 2008. 771 f. Tese (Doutorado em História) – Departamento de História, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.

SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Crise da ditadura militar e o processo de abertura política no Brasil, 1974-1985. In: FERREIRA, Jorge e DELGADO, Lucília de Almeida Neves. O Brasil Republicano: O tempo da ditadura – regime militar e movimentos sociais em fins do século XX – v. 4. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

Artigo publicado originalmente em História(s) do Sport.

 
 
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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André Couto

Professor, historiador, especialista em História do Brasil (UFF) e em Educação Tecnológica (CEFET/RJ) e mestre em História Social (UERJ/FFP). Doutorando em História (UFPR).

Como citar

COUTO, André Alexandre Guimarães. Jornal dos Sports ou das Tragédias?. Ludopédio, São Paulo, v. 167, n. 7, 2023.
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