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#MeuRival: Perigo vermelho

Demétrio Rocha Pereira 1 de março de 2020

Na segunda crônica da série, a visão gremista sobre a alma colorada. Leia a primeira aqui.

Ilustração: Marcelo Armesto

Algo de ideológico me acontecia quando eu ficava aos cuidados do meu avô Flávio durante as férias escolares. O vô Flávio tinha um baralho do Inter, uma colcha do Inter, uma santinha do Inter e até uma leiteira do Inter, que ele usava para passar café depois de filar seu almoço preferido, arroz com ovo.

Passávamos os dias jogando carta. Foi ele que me ensinou a jogar Escova, carteado que homenageia o 7 Belo, no contar dos pontos a sua peça mais prestigiada, do brasão ali mais valoroso, inconfundivelmente vermelho, o naipe de Ouros.

Vivia aberta a casa do meu avô e assim também as outras casas naquela pequena vila em Gravataí. Entrávamos e saíamos à vontade dos pátios uns dos outros, fosse para pegar farinha para o bolo, fosse para fincar bombril num chuvisco de TV, fosse tudo o mais que constitui a vida em comunidade.

As crianças demarcávamos nosso futebol poeirento com goleirinhas de chinelo, interrompendo a partida à passagem bamboleante de uma Kombi berrando frutas e verduras, depois uma carroça reboleada por cavalos de olhos tristes, depois o desfile lento, exasperante, quase provocativo, de algum carrinho de bebê que nos usurpava a quadra uma eternidade. O certame se travava, invariavelmente, entre o time dos sem-camisa e o Internacional, que entrava em campo desbotado em uniformes ancestrais, menos por qualquer predileção retrô do que pela efetiva oferta de camisas coloradas naquelas bandas.

Os meus melhores amigos. Os biscoitos dos armazéns. Os cachorros da rua. Baralho e café, o dia e a noite. Todos piamente colorados.

De modo que o perigo vermelho espreitava a casa dos meus pais. E foi assim que, cedo na vida, com o coração ainda em disputa, eu me tornei alvo precoce de uma operação macarthista.

Em uma noite de inverno, conduziram-me às cadeiras do Estádio Olímpico Monumental, touca e luvas devidamente convertidas às cores da Azenha. Num ouvido grudaram-me um radinho de pilha, restando uma orelha livre para pregações sociológicas:

– Tá vendo todas essas cadeiras dando um giro completo no estádio? Pois é. No Beira-Rio, não tem cadeira.

Parece ruim, pensei. Carlos Miguel rompe a área adversária pela direita e empurra rasteiro para Jardel. Grêmio 1 x 0 Olimpia.

– Repara nessa pista olímpica multiesportiva. Sabe o que tem lá no Beira-Rio? Um fosso. Eles ficam empoleirados, uns em cima dos outros. Com sorte, dá para espichar o pescoço e ver as chuteiras dos jogadores.

E assim por diante. Esta nova vizinhança ia cantando em bloco a miséria de um inimigo para mim recém-anunciado. Tudo se resolvia em relação a eles. A altitude do meu trono numerado só se media pelo túmulo de agonia que a campanha gremista cavava na casa colorada.

Mareja a tua sina terrestre, oceano vermelho… Chamavam-lhes de “ribeirinhos”, um povo mortal e pedestre. Pois se um gremista andava a pé era somente por sacrifício apaixonado, inclusive a pé, até mesmo a pé, desvairada e absurdamente a pé. A figura de um saci perneta jamais lhe caberia. Contra a fauna nativa e o folclore popular que repintavam os mascotes Brasil afora, o gremista acolhia como justo ícone um espadachim da França absolutista.

E assim, quando o vô Flávio voltou a puxar um banquinho de boteco para me oferecer um café preto com carteado, o Grêmio já tinha me presenteado as Américas, epicamente, no plural.

Agora eu batia bola na rua com uma atualíssima camisa 7 do Paulo Nunes. Na escola encontrei muitos campeões continentais como eu. Dentre toda a variedade de derrotas possíveis para um guri gaúcho, na flauta futebolística a criança gremista dispunha de uma reserva oportuna de êxitos. No limite das minhas referências culturais, eu compreendia aquela rotina retórica como um episódio dos Power Rangers. Primeiro deixávamos o monstro inimigo acertar alguns golpes, ganhar confiança e se agigantar. Sucumbíamos diante do Tricampeonato Brasileiro invicto e do maior número de vitórias em Gre-Nais. Já com alguns edifícios da cidade tricolor em ruínas, súbito lembrávamos de um golpe especial jamais defendido. Eis que é disparado o combo 1983–1995. Pose magnânima para a câmera, os restos do Sport Club Internacional explodem em faíscas exuberantes no background.

Apreciador da bebida e fumante inveterado, o vô Flávio chegou aos seus últimos anos precisando carregar tubos de oxigênio atrás de si. Numa situação dessas, poucos acontecimentos eram realmente capazes de alegrá-lo. Farrista de renome em Gravataí, o seu otimismo passou a respirar de Gre-Nal em Gre-Nal, quando vencia: “Ainda vamos ser campeões do mundo”.

Ele morreu em 1999, sem ter visto Fernandão capitanear um levante vermelho sobre a maior potência futebolística do planeta. Nos meus círculos, diziam que o Barcelona devolveria o Inter-Regional ao seu devido lugar. Ora, o Camp Nou é tapado de cadeiras de cima a baixo. Cabem quase 100 mil indivíduos civilizadamente alocados, designados. Seus jogadores contam com o melhor centro de treinamento, são cuidados pelos melhores médicos, dirigem os melhores carros, habitam uma cidade melhor num país melhor. Folhas salariais lado a lado? Os vermelhos são flechas contra a pólvora, quilombos contra o latifúndio, bolcheviques contra o tzar, Zapata contra Porfirio Díaz, ribeirinhos contra a nata da Europa.

Então não era isso? Que outra disputa, senão essa? Abaixo todas as cercas elétricas! Quero pisar os pátios abertos deste mundo. Mais escova, menos pôquer. Futebol rueiro sem babaquice nem aluguel de quadra. Dissolvam-me no marejar anônimo das arquibancadas. Não quero ser um indivíduo. Quero ser um povo inteiro, um povo por vir, um povo futuro, um rolo compressor, um clube do povo, vamo vamo, Int

Posso ter me exaltado. Não recordo bem. Senti que presenciaria algo importante. Decidi assistir sozinho àquela partida, longe de qualquer possível delator. Achei uma televisão despovoada e fundamentei estupidamente a contrarrevolução tricolor na tentativa de angariar alguma simpatia remanescente pelo Ronaldinho, o que teve como efeito não perder la ternura jamás por Ceará e Iarley.

É sobretudo por coerência política que o Internacional não poderia colher entre as suas patentes altas o tiro definitivo da sua insurreição. Será preciso um herói a quem não caiba estátua, um deus temporário, que não se possa divino, alguém que dos gols marque o menos europeu, um gol sem fetiche, nascido em Alagoas e criado em banco de reservas, ribeirinho entre ribeirinhos, de nome Adriano Gabiru.

Sei que foi vitória para a maior parte daquela vila em Gravataí. E, como que numa cartada derradeira, um último 7 Belo na sua manga, o vô Flávio vencia também. Não tenho dúvidas de que era o Inter dele, em 2006.

Depois a mais gigante bandeira das Américas ainda drapejou na festa juvenil de Sobis pelo bi da Libertadores. Depois foi veneno castelhano tiranizando sistematicamente a vida de Grêmio na canhota de D’Alessandro.

As crianças gremistas passaram a reivindicar site, ônibus e até uma estrela no céu, comprada de seja lá quem as vende. Imagino que muitas pediram trégua e negociaram empate diante de agravos como “Copa Toyota” e “Campeão de Tudo”. Poucas vezes se viu, em tão pouco tempo, tão completa redistribuição social de êxitos.

O Inter já era outra coisa. Ainda agora fez 10 anos de idade, não o conheço bem. Creio que já consigo assistir aos jogos sem maiores riscos. Faço fé por uma segunda temporada na Série B, só porque time grande também cai e não é regra que suba. Mazembe foi um funesto prazer, quem sabe a vitória vermelha entre os vermelhos.

Não sei. Sei que, visitando a África em um dia feliz de 2013, embestei excepcionalmente de vestir uma camisa do Grêmio (retrô, 9 do Baltazar), apostando que o manto tricolor me investiria de uma brasilidade carismática em tese vantajosa na hora de barganhar pelos mercados de Marrakech. Obviamente essa tática estava respaldada em embasamento nenhum. O certo é que aquelas listras multicampeãs e unânimes, reconhecidas por todas as ciências como o trecho de tecido mais belo do nosso Sistema Solar, haveriam de produzir alguma reação. E caminhando assim greminho pelos souks, muitos vendedores se dirigiam a mim com dilatados louvores a Lionel Messi e à Argentina. Não descarto que, varando o íntimo da alma gremista, quisessem me lisonjear. Mas eu não estava satisfeito. Eu podia pressentir que alguém ali me chamaria de Imortal. E fui seguindo o meu curso peleador até ser interrompido bruscamente por um rapaz enrolado numa túnica, turbante na cabeça, dedo em riste, português enjambrado: “Inter Campeão do Mundo 2006”. Desatou ainda a zombar do olé que tomamos quando o Ronaldinho foi para o PSG. E depois se desembrulhou em sorrisos, me abraçou, disse que estava brincando. Ele não era anti-Grêmio, não era um hater. Ele era um marroquino. Cresceu aprendendo a perder o seu país para a Europa. E, quando viu os ribeirinhos derrubarem a Espanha, ele virou colorado. Ele e o vilarejo dele, nos longes vermelhos, irmãos nossos, do Marrocos.


Publicado originalmente no Puntero Izquierdo em 2017, que é uma revista digital de publicação de histórias de futebol.

 

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Como citar

PEREIRA, Demétrio Rocha. #MeuRival: Perigo vermelho. Ludopédio, São Paulo, v. 129, n. 1, 2020.
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