Faz parte das narrativas em torno da Copa do Mundo de 1970 a rivalidade silenciosa (até o apito final, claro) entre torcedores brasileiros e uruguaios, em um dos pontos de fronteira entre os respectivos países. Conta-se que o ar era pesado na tarde fria em que as seleções se enfrentaram pelas semifinais do torneio que daria a posse definitiva da Taça Jules Rimet ao Brasil – sim, aquela mesma que a Confederação Brasileira de Futebol mantinha exposta, enquanto a réplica ficava no cofre, e que foi roubada e teve o ouro que a compunha derretido. Santana do Livramento, de um lado, e Rivera, do outro, compartilhavam a expectativa da passagem à final e da possibilidade de alcançar o tricampeonato, visto que tanto a Celeste quanto os Canarinhos já haviam vencido duas edições de Mundiais.

Lembrava dessa narrativa, da qual me inteirei na infância em uma das retrospectivas que a Placar fazia a cada tanto a respeito das Copas, ao ler dia desses sobre a reivindicação uruguaia por dois pontos de fronteira que um tratado de 1851 designa como pertencentes ao território do Brasil: uma ilha na foz do rio Quaraí, sintomaticamente chamada de Brasileira (Isla Brasileña), e o pequeno povoado de Tomás Albarnoz, pertencente a Livramento, mas atendido com serviços públicos principalmente do Uruguai. A disputa é diplomática, já que as nações mantêm boas relações, ainda que nem sempre tenha sido assim. Em 1974, por exemplo, o ditador do lado de lá, Juan María Bordaberry (o do lado de cá era Ernesto Geisel) mandou que os mapas oficiais designassem os pontos como “limites contestados”.

No futebol as arengas também já foram mais pesadas, como na famosa partida pela Taça do Atlântico, em 1976, quando, em pleno Maracanã, logo após a vitória brasileira por dois a um, e depois de vários conflitos durante os 90 minutos, uma pancadaria generalizada teve início com a perseguição do lateral Sergio Ramírez a Roberto Rivellino. Pelo lado uruguaio, estavam três jogadores que viriam para clubes brasileiros: o próprio Ramírez, lateral-direito no Flamengo, o meio-campista Dario Pereyra, no São Paulo, o goleiro Walter Corbo, no Grêmio. Com exceção do último, destacaram-se também em outras equipes nacionais.

De certa forma, os três correspondem a uma mitologia brasileira em torno dos futebolistas do país mais ao Sul, hoje talvez mais rarefeita, mas muito presente nos anos 1970 e 1980. Segundo ela, os vizinhos teriam grandes goleiros e zagueiros seguros, fortes e, quem sabe, violentos. No caso dos arqueiros, apesar do bom número de ótimo atletas brasileiros para a posição, frequentemente se trazia para ela representantes dos países vizinhos. Só no Atlético Mineiro, por exemplo, pontificaram Ladislao Mazurkiewicz, entre 1972 e 1974, que defendera a meta da Celeste no México, e Miguel Ángel Ortiz, da Argentina, entre 1976 e 1977, notabilizado pelas roupas estravagantes e por ser cobrador de pênaltis. A eles se juntaram Agustín Cejas (Santos e Coritiba), Edgardo Andrada (Vasco da Gama) e Ubaldo Fillol (Flamengo), argentinos, além do já citado Corbo, de Jorge Fossati (campeão catarinense pelo Avaí) e de outro uruguaio, para muitos o melhor dos estrangeiros sob as traves brasileiras, Rodolfo Rodríguez (Santos e Vitória).

Mundialito 81
O arqueiro e capitão da seleção do Uruguai, Rodolfo Rodríguez, a erguer a taça do Mundialito. Fonte: Wikipédia

Mais do que arqueiros, no entanto, brasileiros sempre louvaram os zagueiros uruguaios, no qual identificavam a “raça charrua” que nossos atacantes enfrentavam em confrontos na Copa Libertadores e nos torneios internacionais de seleções. Não foram tantos, no entanto, os defensores por aqui nas décadas passadas. Um deles era Atilio Ancheta, que perfilava no mesmo time que perdeu aquela semifinal para os brasileiros, no México. Um ano depois do Mundial – no qual foi eleito para a seleção do torneio – transferiu-se para o Grêmio, clube em que atuou durante oito anos, levantando dois campeonatos gaúchos. A propósito, ele e o goleiro Mazurkiewicz participaram ativamente daquele não-gol de Pelé, o famoso lance em que, sem tocar na bola, o melhor de todos fintou o primeiro com um drible-da-vaca e concluiu para a meta, com a bola quase beijando a rede. Debaixo das traves, no entanto, estava o segundo, e o Rei provavelmente levou isso em consideração ao chutar tentando o canto direito para fazer aquele que seria o quarto tento da vitória.

Hugo De León
Hugo De León no Grêmio. Arte: Francisco Carlos S. da Silva.

O principal herdeiro de Ancheta foi Hugo De León, de gloriosa passagem também pelo Grêmio, campeão da Libertadores e da Copa Intercontinental em 1983. Excelente zagueiro, como seu antecessor, venceu também o Mundialito de 1980, em Montevidéu, pela seleção de seu país e os mesmos títulos conquistados no Tricolor Gaúcho, em 1989, mas pelo Nacional, de sua terra natal. Além dele, Darío Pereyra igualmente atuou como defensor, durante muitos anos, depois de chegar como meio-campista no São Paulo. No Morumbi fez uma dupla de zaga marcante com o central Oscar.

Até que ponto essa mitologia do defensor uruguaio corresponde à realidade? Os três citados acima eram técnicos, ainda que como quase todo defensor, entravam duro também – a exemplo dos laterais Pablo Forlan, do São Paulo, e o mencionado Ramírez, do Fla –, mas isso está longe de ser prerrogativa dos vizinhos. A galeria de beques brasileiros que não só jogavam com vigor, mas eram violentos, é vastíssima. Nos anos 1970 e 1980 não eram muitos os que, jogando atrás, tratavam a bola e os adversários com respeito. Joel Camargo, do Santos, Amaral, do Guarani e do Corinthians, Júlio César, também do Bugre, Luizinho, do Galo e Luís Pereira, do Palmeiras, eram exceções. E, claro, Carlos Alberto Torres e Leandro, quando se deslocaram da lateral do campo para o miolo da zaga.

Nuno Ramos certa vez especulou sobre o caráter racista das demandas por “mais raça” por parte dos jogadores em campo, brados que muitas vezes surgem entre os brasileiros quando das derrotas do selecionado ou de times nacionais frente aos representantes de outros países. Tomo emprestada a sugestão para dizer algo semelhante em relação aos uruguaios e a nós mesmos. Nem raça de mais, tampouco de menos, não se trata disso. É simples jogo, esporte, futebol.

E quanto às relações entre o Brasil e o Uruguai, vale como exemplo o afeto que o presidente Lula manifestou em relação a seu colega e amigo Pepe Mujica, que há pouco anunciou estar com câncer: “Ao irmão Mujica, minha admiração e solidariedade. Você é um farol na luta por um mundo melhor. Sempre estivemos juntos nos momentos bons e nos momentos difíceis”. É assim que deve ser também no futebol.

Lula com Mjuica
Lula e Mujica juntos. Foto: Ricardo Stuckert/PR.
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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. Mitos hermanos: Brasil e Uruguai. Ludopédio, São Paulo, v. 179, n. 4, 2024.
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