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O fim do catenaccio? Algumas notas sobre maneiras de se jogar futebol

Carlos Augusto Magalhães Júnior 12 de outubro de 2020

É comum associarmos o futebol de alguns países a características específicas. Quem não se lembra imediatamente da garra charrua ao ouvir falar da celeste olímpica? Ou como não associar o toque de bola envolvente à Fúria? O futebol físico e eficiente dos alemães? O drible e a malandragem brasileiras? O catenaccio italiano? Embora tenha alguns elementos de verdade, essas associações algumas vezes acabam por reduzir a complexidade do jogo de futebol. O início da temporada do futebol europeu parece estar pondo a prova algumas dessas alcunhas. 

Não, não estou falando do lampejo de ofensividade do Atlético de Madrid na primeira rodada do campeonato espanhol. Aparentemente os comandados de Simeone tiveram apenas um lampejo ao golear o Granada, tendo em vista que, na segunda rodada do campeonato já voltaram a apresentar o futebol pragmático e copeiro de sempre, empatando com o Huesca, que por sua vez também não quis propor jogo. Aliás, La Liga parece cada vez mais adotar a direção de um campeonato dominado por times reativos, indicando uma mudança de mentalidade se compararmos com os recentes e inesquecíveis campeonatos ditados pela ofensividade e Barcelona e Real Madrid.

Foto: Wikipédia

Outro campeonato que parece estar vivendo uma virada de chave é o italiano. Historicamente a Itália tem dado ao futebol as mais variadas contribuições do ponto de vista defensivo. Desde o catenaccio como filosofia de jogo, até o primeiro zagueiro a ser eleito melhor do mundo: Cannavaro em 2006. Aliás, como esquecer daquela seleção italiana campeã do mundo que tinha além do zagueiro futuramente melhor do mundo, Nesta, Matterazzi, Gattuso dentre outros defensores representantes do que de melhor há nessa posição. Esse estilo de jogo defensivo, porém, não foi suficiente para classificar a azzurra para a última copa do mundo, na Rússia. E isso parece ter despertado o alerta no país da bota. Ao menos é o que indica o início da Serie A. 

Foto: Wikipédia

Na verdade, esse processo não iniciou esse ano. A Atalanta, uma das surpresas da última edição da Champions League ilustra isso. Com um futebol ofensivo, o time de Bergamo vem chamando atenção pelas partidas emocionantes e cheia de gols, fruto de seu estilo de jogo impositivo com marcação alta e priorizando a posse de bola. Modelo que outros times tem tentado implementar também na Serie A. O Sassuolo, que na última temporada protagonizou partidas a lá Atalanta é um exemplo, assim como o Benevento, recém promovido sob o comando de Fillipo Inzaghi, que encantou na divisão de acesso. A família Inzaghi aliás, tem mais de um representante como treinador na Serie A, Simone, irmão de Fillipo também vem chamando atenção no comando da Lazio. A receita de Simone? A mesma do irmão. Jogar pra frente. O efeito desse modelo de jogo parece ter contagiado outros treinadores. A Inter de Roberto Mancini, treinador que outrora preferia um futebol mais pragmático, começou a temporada com um modelo bem mais ofensivo. Há quem diga que até Ancelotti, treinador histórico italiano, e com um passado de grandes conquistas com times reativos, também se “contaminou”  com as ideias, tendo em vista o futebol que o Everton, atual time do treinador e sensação no início do campeonato inglês, apresentou no início da temporada.

Até o Napoli de Gattuso, que outrora foi chamado de atualizador do Catenaccio, goleou na primeira rodada. Mas será que é o fim do “estilo italiano” de jogar bola? Impossível afirmar.  Na verdade esses termos são, assim como qualquer conceito, historicamente condicionados. Não existe só um jeito de se jogar futebol em um país. Existem tendências. e essas são dinâmicas. O futebol é um jogo complexo e cheio de variáveis, e quanto mais nos apropriamos delas, mais bonito fica o jogo. Não existe o jeito certo de jogar, e até a beleza do jogo é relativa. Ou vai me dizer que ver o Atlético de Madrid com seu estilo reativo eliminar o Liverpool a última Champions, não foi belo? Talvez belo como uma tragédia ou um drama daqueles indigestos, mas belo. O que dá pra afirmar é que o campeonato italiano 2020 é um prato cheio pra quem gosta de futebol ofensivo, que bom pra nós! 


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Carlos Augusto Magalhães Júnior

Licenciado em Educação Física pela Universidade Federal de Lavras, mestre em Educação pela mesma Universidade. Atualmente é professor do CEFET-MG Campus Timóteo.

Como citar

MAGALHãES JúNIOR, Carlos Augusto. O fim do catenaccio? Algumas notas sobre maneiras de se jogar futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 28, 2020.
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