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O futebol dos esquecidos

Bruno Núñez 19 de março de 2022

Isolada do resto do país, uma comunidade indígena no Paraguai ganhou reconhecimento graças ao Club Puerto Diana, o primeiro time formado por povos originários classificado a uma competição nacional

O futebol dos esquecidos
Foto: Club Puerto Diana.

Yog Tamur Togota

É dessa forma que os yshyr, ou chamacocos, povo que habita o Chaco Boreal, no Departamento de Alto Paraguay, dizem “Eu gosto de jogar futebol”.

Durante a Guerra do Chaco (1932–35), os yshyr ajudaram o Paraguai na batalha contra os bolivianos. Mas quando o conflito terminou, eles perderam seus territórios e precisaram negociar a sobrevivência com colonos e latifundiários. Hoje vivem da pescaria e jogam futebol nos tempos livres, entre um peixe e outro.

O time de Puerto Diana, fundado em 2008, representa a comunidade indígena de mesmo nome às margens do Rio Paraguai, perto do munícipio de Bahía Negra. Do outro lado do rio fica o Brasil, o Mato Grosso do Sul, onde ainda existem alguns poucos chamacocos, não mais de quarenta. No lado paraguaio a comunidade tem mais de 1.500 indivíduos.

Copa Paraguay de 2018 reuniu pela primeira vez — em um torneio nacional — clubes de futebol de todas as divisões do país. Também contava com a presença dos campeoes departamentais e essa foi a grande oportunidade do Puerto Diana.

Para chegar lá, o time indígena amador conquistou a Liga Bahianegrense de Fútbol e, logo na sequência, também a Copa de Campeones Alto Paraguay.

Mas a necessidade em conquistar os dois títulos foram os menores obstáculos nessa caminhada até a sonhada vaga na Copa Paraguay.

O rio que é utilizado para praticamente tudo pelas comunidades indígenas. Foto: Club Puerto Diana.

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O rio que é utilizado para praticamente tudo pelas comunidades indígenas. Foto: Club Puerto Diana.

O futebol dos esquecidos

“Sempre sofremos nas viagens para disputar partidas. Quando chove no Chaco o caminho fica todo interditado. Temos outras três comunidades na região da Bahianegrense, além de Puerto Diana: Puerto Esperanza, 14 de Mayo e a cidade de Bahía Negra. Em Puerto Esperanza, por exemplo, tem o Sport Primavera. Quando jogamos lá e chove é muito difícil o trajeto”, conta Apolo Payá, 20 anos, atleta do time de Puerto Diana em 2018.

Se na própria região do Alto Paraguay os chamacocos já sofriam com a dureza dos trajetos, tudo ficou ainda mais difícil quando o sorteio definiu que o time teria de viajar aproximadamente 800 quilômetros até Itauguá para o primeiro compromisso pela Copa Paraguay, contra o Sol de América de Pastoreo.

“A única opção para ir até lá é por barco. As estradas ficam intransitáveis por conta das chuvas. Pelo rio leva cerca de 26 horas até Vallemí. Desembarcamos lá e pegamos um ônibus até Assunção, que demora 8 horas”, explica Estanislao Báez, presidente da Liga Bahianegrense de Fútbol.

Em um cenário de completo amadorismo, o Puerto Diana precisou de ajuda para disputar o torneio.

Comoção nacional

“Eles se classificaram à Copa Paraguay como a primeira equipe de uma comunidade indígena na competição e isso teve repercussão a nível nacional. Estavam com muitas dificuldades, buscavam patrocinadores. A marca se interessou em ajudar o time com os uniformes”, diz Jorge Melgarejo, responsável do marketing da Kyrios Sports.

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Foto: Club Puerto Diana.

A fabricante teve a ideia de usar o Puerto Diana como o próprio mensageiro dos chamacocos, usando a participação do clube para alertar as autoridades sobre os problemas enfrentados pela comunidade indígena, tão esquecida pelo poder central. “A ação partiu da empresa de marketing contratada pela Kyrios, a 23 Sports. Visibilizar os problemas da comunidade aproveitando a exposição na mídia”, explica Melgarejo.

Os números das camisetas e a parte da frente dos uniformes traziam mensagens sobre a vida que os chamacocos levam: “13 jogadores são pescadores”, “mais transportes”, “inserção laboral”, “11 camisas apenas para os titulares”, entre outros recados. “A ideia foi boa porque foram expostas todas as necessidades importantes e as condições de vida das pessoas da região”, afirma Estanislao Báez.

“Eu fico com a frase ‘800 km de viagem para Assunção’ porque é o que sofremos, principalmente quando chove. Precisamos que as estradas sejam reformadas para usarmos essa rota e disputar alguns jogos, como contra equipes da Liga Guaraniense e da Liga Olimpeña de Fútbol. Se você joga uma partida ali seria melhor usar a rodovia do que o rio”, conta Apolo Payá.

Houve até uma campanha para conseguir chuteiras para os jogadores. Uma conta nas redes sociais ligada ao Puerto Diana divulgou os números dos calçados dos atletas e a doação chegou de maneira rápida. Miguel Figueredo, presidente do Sol de América — tradicional clube da capital paraguaia — se comprometeu em conseguir todo o material esportivo necessário.

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Foto: Club Puerto Diana.

A participação de um time indígena também chamou atenção da imprensa paraguaia. “Um grupo de jornalistas foi lá na comunidade e surgiu a ideia de um documentário. Tivemos muita ajuda do jornalismo, dos canais televisivos de Assunção”, revela Estanislao Báez.

Mas se para um chamacoco já é difícil se locomover em sua própria região, imaginem para alguém vindo da capital paraguaia.

Ricardo Alderete, jornalista do programa investigativo Algo Anda Mal (AAM) foi um dos profissionais que saíram de Assunção para documentar a realidade do time para a televisão. Para chegar até a terra yshyr, Alderete e a equipe do AAM passaram por diversos apertos durante a viagem até a terra dos indígena, e precisaram contar com ajuda de um diplomata paraguaio que estava em solo brasileiro.

O jornalista Ricardo Alderete relatou que a viagem pelo rio não tem nenhum tipo de conforto: “Esse trajeto foi uma experiência única. Não é um barco de luxo, mas, sim, uma embarcação que transporta mercadorias e também pessoas. Muitos dormem nos corredores e até no exterior, entre as cargas”.

“De Assunção fomos por terra até Concepción, aproximadamente seis horas de viagem. De Concepción decidimos passar de lancha por Porto Murtinho, no Brasil, até Bahía Negra. Tínhamos pelo menos nove horas de viagem pelo Rio Paraguai, mas desafortunadamente começou a chover muito forte quando já tínhamos navegado por volta de três horas”, diz o jornalista.

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As camisetas dos jogadores do Puerto Diana. Foto: Club Puerto Diana.

“O piloto da lancha se desorientou porque já era de noite e não víamos nada. Estávamos perdidos em completa escuridão. Eu tinha 5% de bateria no celular e consegui realizar uma chamada para o cônsul paraguaio de Porto Murtinho, que alertou a base militar que estávamos perdidos e varados no meio do rio. Esperamos por três horas até que o resgate chegou. Dormimos na base militar e no dia seguinte seguimos viagem até Bahía Negra”, completa.

Os índios no Palácio

 

O clube provou que alcançou os holofotes ao ser convidado pelo presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, para uma visita ao Palácio de López.

Lá, jogadores e dirigentes contaram sobre a realidade dos yshyr ao mandatário. Estanislao Báez aproveitou a oportunidade e também falou sobre a situação dos pescadores que não têm eletricidade para conservar os peixes, além dos problemas viários na região do Chaco paraguaio e a precariedade do futebol na comunidade.

Mario Abdo Benítez doou chuteiras e uniformes ao time. O presidente chegou até a marcar um jogo entre o time indígena e a equipe da presidência. “É Proibido ganhar do presidente”, disse em tom de brincadeira, e ganhou de presente uma camisa do clube chamacoco.

O Puerto Diana também ganhou o reconhecimento da Secretaria de Políticas Linguísticas (SPL) do Paraguai. A distinção estava escrita em dois idiomas: castelhano e na língua yshyr. A organização governamental disse que o clube representava a verdadeira integração intercultural no país.

O futebol dos esquecidos

As exclusividades em uma sociedade apartada do resto do país reservam reflexões intensas aos que se sentem forasteiros dentro das fronteiras pátrias. Basicamente, Puerto Diana é um território “estrangeiro” para um paraguaio como Alderete, que nasceu e vive na capital.

“Aprendi que todo o tempo vivemos uma realidade realmente condicionada e bastante pessoal, que não é a mesma para todos. Aprendi que precisamos sair da nossa bolha e dos nossos limites para ver, em primeira pessoa, que no nosso país existem pessoas que vivem como ‘estrangeiros’, como se não fossem partes de nós. Estão ilhados, não podem pedir ajuda porque ninguém os vê e escuta. Eles nos necessitam para que tenham voz. Somos as suas mãos e pés.”

Idioma próprio e goleada

Após toda a odisseia de uma viagem entre estradas precárias e longos trechos de navegação através rio, o Puerto Diana finalmente chegou a Itauguá, local da estreia na Copa Paraguay.

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A torcida que ficou na comunidade. Foto: Club Puerto Diana.

“Foi uma experiência única. Foi a primeira vez que jogamos em um estádio lindo como o do 12 de Octubre. O gramado era muito diferente ao que estamos acostumados a jogar. Nosso campo é de terra e não tem alambrado, nem arquibancadas, nem nada disso. Esse tinha tudo! A grama, a bola, as chuteiras, o estádio cheio de gente. Foi muito lindo”, descreve Apolo Payá.

O rival era o Sol de América de Pastoreo, um clube de Doctor Juan Manuel Frutos, que se classificou à competição da mesma forma que o elenco yshyr: após conquistar o campeonato departamental Copa de Campeones de Caaguazú.

“Todo o plantel é composto por indígenas. Dentro e fora do campo usamos o nosso idioma, o chamacoco, para nos comunicar”, conta Payá.

Uma das armas secretas do Puerto Diana era o idioma. Assim como a maioria das equipes paraguaias que usam o guaraní para confundir rivais estrangeiros, o campeão do Alto Paraguay utiliza o chamacoco para que os adversários não entendam as estratégias colocadas em campo.

“Na verdade, a maior parte da população em Puerto Diana fala guaraní e espanhol. No caso do clube é diferente porque eles são uma equipe totalmente indígena. Todos os jogadores falam o chamacoco e alguns outros conseguem falar algo em castelhano”, explica Alderete.

Apesar da tática em manterem conversas codificadas, o amadorismo do clube yshyr saltava aos olhos. O Puerto Diana não conseguiu fazer frente ao Sol de América de Pastoreo e foi goleado por 16 a 3, sete gols marcados por Richard Ortiz, que ainda terminaria como artilheiro da Copa Paraguay graças a este jogo.

“O time do Sol de América de Pastoreo tinha atletas profissionais. É a primeira vez que o Puerto Diana enfrentava um clube com nível técnico mais desenvolvido. Os jogadores nunca tinham jogado em um estádio de futebol profissional. Nosso campo é muito precário, nem grama tem. Além disso, a grande quantidade de público, a batucada, tudo impressionou muito o elenco, eles se desconcentraram”, justifica Estanislao Báez, presidente da Liga Bahianegrense.

Apesar do resultado, o Puerto Diana fez ouvir a voz do povo chamacoco e de todos os povos indígenas. O clube dos yshyr deixou Itauguá sob holofotes e após uma longa viagem regressou à sua realidade, mas agora observados pela curiosa atenção das crianças e dos pescadores.

“Durante esse tempo se falou muito do time de futebol de Puerto Diana, que conseguiu comover todo o país com sua história. Mas, acima de tudo, conseguiu visibilizar a precariedade que vivem, sobrevivem e quão longe ainda estão de terem os direitos mais básicos”, analisa o jornalista Ricardo Alderete.

A vida depois dos 90 minutos

Passado menos de um ano do jogo contra o Sol de América de Pastoreo, o Puerto Diana chegava a outra final da Liga Bahianegrense, agora longe dos holofotes da imprensa.

O futebol dos esquecidos
O time de Puerto Diana, responsável por trazer à luz as demandas dos povos originários. Foto: APF.

Porém, outra vez, o resultado não veio. Derrota na decisão para o Coronel José Julián Sánchez de Bahía Negra, que conseguiu se classificar à Copa de Campeones Alto Paraguay. As longas viagens dos chamacocos foram adiadas até, pelo menos, 2021.

Muitos daquele time ainda sonham com a possibilidade de uma vida além de Puerto Diana.

“Desde pequeno tenho o sonho de ser um jogador profissional. Até o momento, é meu único objetivo”, diz Apolo Payá. A experiência com o Puerto Diana deu frutos. Pouco tempo depois da rápida participação na Copa Paraguay, o jogador começou a atuar pelo 29 de Setiembre, de Luque, clube da Primera División B, a terceirona paraguaia.

Ele busca inspiração no colombiano Luis Díaz, da etnia wayuu, que defendia a equipe de povos originários da Colômbia e esteve na última Copa América com a camisa dos seleção Cafetera: “Eu me enchi de orgulho. Fiquei muito feliz de vê-lo aí. Chegou porque merece, é um bom jogador. Aqui só nos falta a oportunidade. Quando tivermos chances, vamos demostrar que nós, os indígenas, temos talento e podemos jogar em qualquer clube da primeira divisão”.

“É uma experiência que ensina muito. É um golpe de realidade que não estamos acostumados a receber. Muitas coisas são diferentes, como essa forma de subsistir, já que os próprios jogadores são pescadores, caçadores e dependem do que pescam ou caçam para comer no dia. Não existem bares ou lanchonetes para correr se alguém sofrer algum imprevisto. Num desses dias, depois de um dos treinos do time, voltei caminhando com o capitão, Elías Meza. Ele me perguntou: ‘Você se acostumaria a viver aqui?’. Eu respondi que honestamente não sabia. Ele me deixou em impedimento”, reflete Alderete.

O futebol dos esquecidos
Foto: Club Puerto Diana.

Por tantas lembranças únicas vividas junto a um povo isolado do restante do Paraguai, o jornalista repassa os dias que que esteve viajando com os jogadores e aquela histórica primeira partida de um time indígena num campeonato nacional.

“De tempos em tempos escrevo para saber como estão. Sei que treinam no mesmo campinho que vimos eles jogarem. Também me contaram que a participação na Copa Paraguay foi a melhor experiência de suas vidas”, finaliza.

Tudo bem, um dia eles voltam.
O futebol sempre dá revanche.


Puntero Izquierdo menorPublicado originalmente no Puntero Izquierdo em 2020. O Puntero em parceria com o Ludopédio publica nesse espaço os textos originalmente divulgados em sua página do Medium.

 

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Como citar

NúñEZ, Bruno. O futebol dos esquecidos. Ludopédio, São Paulo, v. 153, n. 22, 2022.
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