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O novo eldorado do futebol

Fábio Aguiar Lisboa 26 de fevereiro de 2015

É início de temporada no Brasil, época na qual proliferam na imprensa esportiva notícias sobre contratações e dispensas de jogadores e técnicos. Durante os últimos anos, em especial a partir da década de 1980, este foi o período no qual muitas equipes brasileiras viam sair seus melhores jogadores para grandes clubes da Europa. Foi assim, por exemplo, com a ida do atacante Lucas, ex-São Paulo, para o PSG em 2012; do atacante Neymar, ex-Santos, para o Barcelona em 2013; do meia-atacante Anderson Talisca, ex-Bahia, para o Benfica em 2014; e do volante Lucas Silva, ex-Cruzeiro, para o Real Madrid no início de 2015.

Entre as justificativas apresentadas por jogadores e times para este tipo de negociação predomina a de que a ida para a Europa garantiria a independência financeira e representaria que o atleta alcançou um patamar mais alto em sua carreira. As ligas europeias continuam a ser o alvo da maior parte dos jogadores formados no Brasil. Porém, um fenômeno indica que há um novo eldorado no futebol mundial, a China.

Se antes a possibilidade de vestir a camisa de uma das grandes equipes europeias parecia ser o maior objetivo dos jovens jogadores brasileiros, algumas das últimas transferências de nossos atletas para o exterior dão indícios de que este arranjo pode estar mudando.

No início de 2015 Cruzeiro e Atlético Mineiro viram dois de seus principais jogadores, respectivamente o meia-atacante Ricardo Goulart e o atacante Diego Tardelli, aceitarem propostas de equipes da China. Tanto Goulart como Tardelli aceitaram as propostas para atuarem em uma liga menos conhecida no melhor momento de suas carreiras (ambos foram escolhidos para compor a seleção com os melhores jogadores do Campeonato Brasileiro de 2014 e vêm sendo convocados para a seleção brasileira). Em declarações à imprensa, os atletas evidenciaram que o aspecto que predominou nas suas escolhas foi o financeiro, na China eles receberão vencimentos bem maiores do que os praticados no Brasil e em alguns países da Europa.

Diego Tardelli deixou o Atlético Mineiro para fechar com o Shandong Luneng, da China. Foto: Bruno Cantini – Clube Atlético Mineiro.
O Cruzeiro perdeu Ricardo Goulart, que acertou com o Guangzhou Evergrande. Foto: Washington Alves – VIPCOMM.

Diante do exposto, pode-se perguntar: Que relação as contratações de jogadores brasileiros por equipes chinesas têm com os estudos voltados para as narrativas da imprensa sobre o futebol brasileiro? A relação surge quando se considera o protagonismo que o aspecto financeiro alcança na carreira dos jogadores na contemporaneidade, e como os próprios atletas e jornalistas tratam o assunto.

Nesta nova ordem, parece que a possibilidade de um jogador se tornar ídolo de uma grande equipe brasileira, de vestir a camisa de um grande clube europeu ou de fazer carreira na seleção já não são prioridades, mas o que realmente conta é a obtenção de maiores lucros financeiros.

A intenção com este texto não é recriminar tal movimento, mas chamar a atenção para o mesmo, que aponta novas possibilidades de leitura das narrativas no campo do esporte em estudos sobre a seleção brasileira, clubes e jogadores.

 

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Fábio Aguiar Lisboa

Mestre em Comunicação pelo do Programa de Pós-Graduação da UERJ (PPGCOM/Uerj) na linha Cultura de Massa, Cidade e Representação Social. Membro do Grupo de Pesquisa Esporte e Cultura (FCS/UERJ). Bacharel em Comunicação Social pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (2003), bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2009) e bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil (2010). Trabalha na área de Comunicação, com ênfase em Jornalismo.

Como citar

LISBOA, Fábio Aguiar. O novo eldorado do futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 68, n. 8, 2015.
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