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O ressurgimento do futebol brasileiro

Luciano Victor Barros Maluly 16 de outubro de 2014

“Ás vezes, um drible bonito é mais bonito que o gol”.
Denner

A derrota da seleção nacional para a Alemanha, em Belo Horizonte, pelas semifinais da Copa do Mundo de 2014, significa o início de um movimento ou, como dizem os acadêmicos, uma mudança de paradigma no futebol e, indo além, na sociedade brasileira. Para entender esse processo, retornaremos a 1981:

Durante o Mundialito do Uruguai, especificamente no dia 7 de janeiro, a equipe treinada por Telê Santana venceu com folga a Alemanha por 4 a 1, numas das melhores exibições daquele torneio, classificando-se para a final da competição. Mesmo com a derrota para os donos da casa, a equipe saiu fortalecida devido à técnica de seus jogadores. Meses depois, em maio, o time foi novamente testado, vencendo três amistosos na Europa, contra a França (3 a 1), Inglaterra (1 a 0) e novamente a Alemanha (2 a 1).

Jogadores da Alemanha comemoram gol durante jogo do Brasil contra a Alemanha semifinal da Copa do Mundo, Foto: Bruno Domingos – Mowa Press.

O ápice aconteceria logo depois, durante a Copa do Mundo da Espanha, com as apresentações da seleção, sendo quatro vitórias – União Soviética (2 a 1); Escócia (4 a 1), Nova Zelândia (4 a 0) e Argentina (3 a 1) – e uma derrota para a Itália (2 a 3).

Durante o torneio, a equipe encantava o público e a crônica esportiva, como descreveu o jornalista Miguel Reali Júnior, enviado do Jornal O Estado de S. Paulo, em 20 de junho de 1982: “Deuses”, “monstro de 11 cabeças”, “mágicos”, “artistas”, “bruxos”, “exibição de arte”. O Mundo fala Brasil eram as manchetes dos principais jornais especializados.

A derrota para a Azurra, ainda lembrada como a Tragédia do Sarriá (título em referência ao estádio de Barcelona), foi encarada como uma marca da cultura brasileira e, por conseguinte, de seu futebol, tanto que o suíço Journal de Géneve, na época um dos mais respeitos periódicos da Europa, assim se pronunciou:

“O mais surpreendente é a admiração unânime que o time brasileiro despertou junto ao público europeu. A alegria de jogar, a elegância de movimentos de homens talentosos, numa formação que, como o próprio País, acrescentou um mosaico único e harmonioso de raças e indivíduos” (OESP, 18 de julho de 1982)

A Copa da Espanha determinou uma ambigüidade em torno do futebol brasileiro: seria importante apenas vencer ou também convencer? A Copa seguinte de 1986, no México, exemplificou esse conflito, como observado nas dúvidas de Telê ao escolher o estilo de jogo da seleção. Jornalistas e esportistas foram seduzidos, na época, pelo lema da “vitória a qualquer custo”. Formavam-se times e não seleções.

As Copas do Mundo de 1986 a 2014 foram exemplos dessa filosofia, que coloca o espetáculo em segundo plano. As equipes brasileiras, mesmo nas conquistas de 1994 e 2002, foram montadas por treinadores com justificativa de que o conjunto prevalece perante o talento, com os jogadores sendo convocados por causa da tática e não da técnica. Os anos de 1990 marcaram o auge dessa postura, sendo denominada de A Era Dunga – a vez dos fracos.

Alguns fatores começaram a integrar o cotidiano da seleção brasileira, como as convocações influenciadas por interesses de cartolas. Jogar na Europa tornou-se um requisito fundamental para os atletas vestirem a amarelinha. Mesmo sem currículo, alguns jogadores ainda são chamados, como forma de valorizar o passe, os negócios e os torneios, em especial, os europeus.

A derrota de 7 a 1 para a Alemanha significa que este período está chegando ao fim, mesmo com a insistência de alguns dirigentes em sua manutenção, como os da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ao (re)convocar Dunga (símbolo desse período) para dirigir a seleção.

Dunga comanda a seleção brasileira pela segunda vez. Foto: Heuller Andrey – Mowa Press.

Oito de julho de 2014 marca o início da revolução do futebol pela cultura. Da mídia, aos estádios e às ruas, o discurso é de que somente o drible poderá vencer a ausência de criatividade nos gramados e, por si, na sociedade. Somente discípulos de Pelé, como jogador, e de Telê Santana, como treinador, são capazes de fazer com que as novas gerações conheçam o verdadeiro futebol (pela arte e não pela força) e tenham orgulho de serem brasileiros.

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Luciano Victor Barros Maluly

Graduado em Comunicaçao social - Habilitação em Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina (1995), Mestrado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (1998), Doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (2002), Pós-doutorado na Universidade do Minho em Portugal (2011) e Livre Docente pela ECA-USP (2016). Atua como professor e pesquisador na Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em radiojornalismo e jornalismo esportivo. È autor do livro JORNALISMO ESPORTIVO - PRINCÍPIOS E TÉCNICAS (Editora do Autor, 2017)

Como citar

MALULY, Luciano Victor Barros. O ressurgimento do futebol brasileiro. Ludopédio, São Paulo, v. 64, n. 5, 2014.
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