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O último ato do Rei – Brasil e Worldstars no Giuseppe Meazza

Jaqueilton Gomes 27 de fevereiro de 2021

A festa era para ele, mas uma decisão até hoje incompreendida não deixou que Pelé celebrasse com os mais de 75 mil torcedores

Um dos maiores gênios do esporte e para muitos o maior do futebol, o brasileiro Pelé dispensa apresentações quando o assunto é sua carreira. Nascido em 1940, o protagonista de grandes feitos do Brasil no futebol encerrou oficialmente sua carreira em 1977, depois de desfilar seu talento ímpar por mais de duas décadas.

Apesar de digna de muitos textos, livros, filmes ou qualquer tipo de feito artístico, não é sobre a carreira de Edson Arantes do Nascimento que pretendo falar nas próximas palavras. O fato a ser relembrado hoje é apenas um ato pós-carreira do Rei, que muitos não lembram ou sequer ouviram falar.

Pelé entrando em campo no jogo em homenagem aos seus 50 anos, ao lado de Cafú, Leonardo e Sérgio Guedes | Foto: Reprodução/Twitter/@Pele

Aconteceu em 1990, exatamente quatro meses e uma semana após o gol de Caniggia e a dolorosa eliminação diante da Argentina na Copa do Mundo. Em 31 de outubro, a Seleção Brasileira estava novamente em solo italiano. Daquela vez o jogo não tinha valor oficial, mas chamou a atenção do mundo inteiro graças a um personagem. Para o jogo contra a equipe dos “Worldstars”, como foi oficialmente chamado o time adversário que reuniu os maiores craques do futebol daquela época, o treinador brasileiro, Paulo Roberto Falcão, escalou um camisa 10 que acabara de fazer 50 anos de idade. O Rei do Futebol estava listado no onze inicial do Rei de Roma, e entraria no gramado de Milão em um jogo que homenagearia o seu meio século de vida.

Brasil e Combinado do Resto do Mundo se enfrentaram diante de 75 mil pessoas num Giuseppe Meazza lotado. Nossa seleção estava em um processo de renovação depois da eliminação precoce no mundial, e Falcão colocou em campo um time completamente diferente do que alguns meses antes estava na mesma Itália sob o comando de Sebastião Lazaroni. Dos que entraram em campo com a amarelinha, apenas o vascaíno Bismarck estava na Copa do Mundo, e ainda assim não chegou a disputar nenhum jogo na competição. Uma curiosidade interessante é que no ‘Resto do Mundo’ tinha outro brasileiro que disputou a Copa meses antes. Se trata do volante Alemão, jogador do Napoli. Além dele, outros dois brasileiros enfrentaram a Pátria Amada naquela quarta-feira. Júlio César que atuava na Juventus, e João Paulo, grande destaque do futebol italiano naquela temporada vestindo a camisa do Bari.

https://www.youtube.com/watch?v=aluMlhVhMdU

Com a bola rolando, o inexperiente time brasileiro não foi páreo para os craques adversários e saiu derrotado por 2 a 1, mesmo com Pelé em campo durante 43 minutos. O jogo, apesar de ser em homenagem ao Rei, não rendeu as melhores lembranças para nosso eterno camisa 10, que foi elogiado pelo treinador ao dizer que mesmo aos 50 anos, ele ainda conseguia demonstrar sua capacidade técnica, embora a física já não fosse das melhores.

Para coroar o homenageado e presentear os torcedores, só faltou mesmo um gol. E por pouco ele não saiu. Em uma jogada até hoje lembrada, muito graças a enorme vaia que os presentes deram, o atacante Rinaldo avançou ao ataque sob a marcação de apenas um adversário, enquanto que Pelé corria livre ao seu lado, pronto para receber e fazer o último gol de sua carreira no futebol. No entanto, ninguém sabe até hoje o que se passou na cabeça do avançado do Fluminense, que não passou a bola para o dono da festa, e numa popular atitude “fominha”, chutou a bola que foi facilmente interceptada pelo marcador. A decisão equivocada rendeu uma das maiores vaias que o futebol já ouviu, graças ao sentimento de frustração dos torcedores que viram a enorme possibilidade de assistir pessoalmente ao último gol de Pelé.

Apesar do lance, as redes foram balançadas três vezes como já relatado anteriormente. Pelos “Worldstar” marcaram Míchel e George Hagi, dois meio campistas do Real Madrid, enquanto que para o Brasil, o corintiano Neto, que entrou com a camisa 16 no lugar de Pelé, fez em cobrança de falta.

Pelé. Foto | Paulo Pinto/Fotos Publicas

Naquele dia o Brasil foi a campo com a seguinte escalação:
Sérgio (Santos) deu lugar a Ronaldo (Corinthians); Gil Baiano (Bragantino) deu lugar a Bismarck (Vasco), Paulão (Cruzeiro), Adílson (Cruzeiro) deu lugar a Cléber (Atlético-MG) e Leonardo (São Paulo) deu lugar a Cássio (Vasco); César Sampaio (Santos), Donizete de Oliveira (Grêmio) deu lugar a Luís Henrique (Bahia), Cafu (São Paulo) e Pelé deu lugar a Neto (Corinthians); Charles (Bahia) deu lugar a Valdeir (Botafogo) e Rinaldo (Fluminense) deu lugar a Careca Bianchezzi (Palmeiras). Técnico: Paulo Roberto Falcão.

Os adversários colocaram em campo os seguintes atletas:
Sérgio Goycoechea (Racing) deu lugar a Michel Preud’Homme (KV Mechelen) que deu lugar a Thomas N’Kono (Español) e que deu lugar a René Higuita (Atlético Nacional); Leo Clijsters (KV Mechelen) deu lugar a Emmanuel Kunde (Prevoyance Yaoundé), Júlio César (Juventus), Oscar Ruggeri (Vélez Sarsfield) deu lugar a Sergey Aleynikov (Lecce), Hugo de León (River Plate) deu lugar a Lajos Détári (Bologna); Míchel (Real Madrid) deu lugar a Gabriel Calderón (Sion), Alemão (Napoli) saiu para entrar José Basualdo (Stuttgart), Martín Vasquez (Torino) deu lugar a Gheorghe Hagi (Real Madrid) e Carlo Ancelotti (Milan) saiu para Enzo Francescoli (Cagliari); Van Basten (Milan) deu lugar a Hristro Stoichkov (Barcelona) e Roger Milla (Tonnerre Yaoundé) saiu para a entrada de João Paulo (Bari). Técnicos: Franz Beckenbauer e Arrigo Sacchi


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Jaqueilton Gomes

Jornalista em formação, amante do futebol e comentarista no Universidade do Esporte

Como citar

GOMES, Jaqueilton. O último ato do Rei – Brasil e Worldstars no Giuseppe Meazza. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 59, 2021.
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