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Os efeitos da espetacularização na relação do futebol com a televisão

A partir do grupo de pesquisa Crítica da Economia Política da Comunicação (CEPCOM), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), temos dois projetos de pesquisa em desenvolvimento: “Estruturação, mercantilização e espacialização nos primeiros 10 anos da fase contemporânea da Copa do Nordeste (2013-2022)” (Pibic 2023-2024) e “Levantamento das transmissões dos futebóis no Brasil” (UFAL/Observatório das Transmissões de Futebóis). Este texto parte da discussão teórica de colaboração nos dois projetos.

Para isso, lemos e discutimos os seguintes textos: o capítulo de livro “Indústria Cultural e Capitalismo Monopolista no Brasil” (Bolaño, 2016); “Os três pontos de entrada da Economia Política no Futebol” (Santos, 2014); e “Processos midiáticos do esporte: do futebol na mídia para um futebol midiatizado” (Brittos; Santos, 2012).

Indústria Cultural no Brasil

A televisão brasileira, embora dispute a atenção com a internet e os sites de redes sociais nos dias atuais, prevalece no imaginário popular, mantendo sua influência e, também, sendo parte importante da Indústria Cultural. No entanto, essa indústria, teorizada na década de 1930 pela Escola de Frankfurt, desenvolve-se em solo tupiniquim para valer apenas décadas mais tarde, entre 1965 e 1970, na esteira da industrialização brasileira, impulsionada pelo Plano de Metas (1956-1960) (Bolaño, 2016).

As emissoras nacionais, aos poucos, começam a espalhar suas transmissões, principalmente a Rede Globo, a partir da década de 70. A estratégia da “Vênus Platinada” foi de integrar redes independentes, as afiliadas, para retransmitir a programação, no âmbito local.

O mundo publicitário, vendo o sucesso e a popularidade que aquele tubo imagético angariava, passou a vislumbrar novos ares, pois surgia o famoso horário nobre, marcado pela indefinição do público e pelos altos picos de audiência, juntamente com o “Padrão Globo de Qualidade”.

Assim, em processo ocorrido durante a ditadura militar, a Indústria Cultural se torna ainda mais importante para a publicidade de mercadorias e serviços e a propaganda de um modelo de país sob poder autoritário. Conforme Bolaño (2016, p. 35):

Na verdade, a característica mais evidente e mais importante da Indústria Cultural é o fato de ocupar uma dupla posição dentro do sistema capitalista. Ou seja, como empresas capitalistas na mais estrita acepção do termo, não há nada que distinga os oligopólios culturais de quaisquer outros oligopólios. Mas essas empresas têm também um papel ideológico, que pode adquirir importância crucial numa situação em que os “aparelhos” tradicionais têm um poder de penetração elevado.

Futebol e televisão

Não perdendo tempo, a televisão brasileira visualiza no futebol uma forma de alcance popular. Afinal de contas, já nessa época, o esporte começava a nacionalizar-se, no sentido do surgimento da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa – vulgo “Robertão” -, e do que viria ser o Campeonato Brasileiro. Além do mais, o futebol já carregava fortes traços sociais, onde as arquibancadas refletiam a pluralidade de um país que, após a tragédia na final da Copa do Mundo de 1950, encontrou no esporte bretão uma identidade nacional.

O futebol, contudo, é composto por 90 minutos de imprevisibilidade, que fogem do controle das transmissões e dos patrocinadores, arriscando os investimentos. No intuito de evitar tais imprevistos, regras foram criadas, voltadas também aos interesses publicitários – como, por exemplo, a punição com cartão amarelo ao jogador que comemorar o gol tirando a camisa, pois, num momento ímpar, o patrocinador master sai de cena.

Futebol e televisão
Arte: alphaspirit/Depositphoto.

Santos (2014) afirma a relação intrínseca entre futebol e mídia desde o momento em que ambos atendem a públicos numerosos numa prioridade da mercantilização de elementos socioculturais. De maneira que:

A televisão é muito importante neste processo, já que pode transmitir grandes partidas para inúmeras partes do globo e conseguir mais fãs para este programa, podendo atrair capitais exteriores ao jogo, que pretendem fazer investimentos fora do convencional. Haverá a inclusão do espetáculo esportivo como um dos seus [568] setores fundamentais, “o que permitirá ao esporte capitalizar-se não só pela via da venda direta de ingressos e de espaço publicitário, mas também, e de forma crescente, através da sua situação na fileira audiovisual” (Bolaño […]) (Santos, 2014, p. 568-569).

Tudo isso, há que se ressaltar, amplia-se como o tempo no bojo da espetacularização do futebol, influenciado pelo show business dos esportes estadunidenses, processo que já chegou nas competições sul-americanas.

Logo, é perceptível que, no decorrer dos anos, o futebol foi sendo visto não mais como um mero “passatempo” das massas, mas, sim um produto de comercial, onde todos os seus pormenores passaram a ser capitalizados. Em decorrência desse novo aspecto, o torcedor é levado ao papel de consumidor, participando, até mesmo, das cifras geradas pelo clube do coração. Assim, conforme Brittos e Santos (2012, p. 189):

O processo de midiatização no futebol formatou um complexo esportivo-cultural-midiático, cujo intuito passa a ser encher de logomarcas os jogos e criar novas estrelas para o mercado publicitário. Além disso, há um sistema de monopólios sobre a decisão referente aos direitos de transmissão de importantes eventos, que faz com que os grupos de comunicação possam alterar dias e horários das partidas de acordo com a sua programação.

Os males floresceram paralelamente. Ingressos tornarem-se exorbitantes, devido aos altos valores ofertados; produtos licenciados, principalmente as camisas oficiais dos times, são artigos de luxo, correspondendo a mais de um terço do salário-mínimo do trabalhador brasileiro – que foi afastado dos estádios; e, há que se destacar, nessa transição de torcedor para consumidor, o primeiro passou a ser refém dos streamings, desembolsando grandes quantias mensais para poder assistir jogos do clube. Em suma: a espetacularização e seus efeitos.

Muito pela frente

A continuidade nas leituras e a prática a partir dos dois projetos podem nos levar a alguns casos em que esta relação e, principalmente, os processos de mercantilização extensiva à prática do futebol se evidenciem ainda mais.

Referências bibliográficas

BOLAÑO, C. Indústria Cultural e Capitalismo Monopolista no Brasil. In: _______. Mercado Brasileiro de Televisão. 3.ed. São Cristóvão: Eptic, 2016.

BRITTOS, V. C.; SANTOS, A. D. G. dos. Processos midiáticos do esporte: do futebol na mídia para um futebol midiatizado. Comunicação, Mídia e Consumo, São Paulo, v. 9, n. 26, p. 173-190, nov. 2012.

SANTOS, A. D. G. dos. Os três pontos de entrada da economia política no futebol. Rev. Bras. de Ciências do Esporte, Florianópolis, v. 36, n. 2, p. 561-575, abr./jun. 2014.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Anderson Santos

Professor da UFAL. Doutorando em Comunicação na UnB. Autor do livro "Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol" (Aprris, 2019).

Como citar

SANTOS, Anderson David Gomes dos; PONTES, Guilherme Honório. Os efeitos da espetacularização na relação do futebol com a televisão. Ludopédio, São Paulo, v. 176, n. 20, 2024.
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