94.9

#somostodospinochet

Gabriel Brito 9 de abril de 2017

Mais uma subida de patamar nos vexames do “moderno” futebol brasileiro e suas arenas segregacionistas. Ao menos pelo que consta da minha memória, foi a primeira vez que uma torcida foi expulsa de um estádio em competições sul-americanas.

O único episódio mais ou menos similar que me ocorre foi na semifinal da Libertadores-2005, quando, enfurecidos pela eliminação que já era certa, hinchas do River Plate puseram a pedradas a torcida são-paulina para fora do Monumental de Nuñez. Taí um bom parâmetro para os corintianos vislumbrarem o que virá pela frente em Santiago, afinal, não é difícil associar a atitude dos argentinos a outro espetáculo da PM paulista – no caso, nas antigas gerais do Morumbi – como motivador da represália.

Briga durante o jogo São Paulo e River Plate em 2005. Foto: Reprodução.

Antes de entrarmos nos méritos do tema, deixamos claro: o que foi feito com os chilenos ontem em Itaquera é uma vergonha, para o Corinthians e seus dirigentes, e também para o Brasil. Uma demonstração cabal do fascismo nosso de cada dia, acima de tudo.

Este texto não é uma defesa incondicional das torcidas organizadas, barrabravas ou o que o valha. Sabemos que nenhum dos lados envolvidos numa partida de futebol entre grandes clubes é santo na história.

De toda forma, mais uma página da distopia que o fut-business tem nos apresentado dia após dia foi escrita nessa partida, em letras garrafais. Sim, tem tudo a ver com o mercenarismo que pauta a atual gestão do esporte. Os donos do circo exigem torcidas passivas e inertes, e se tiverem de baixar a porrada pra disciplinar tudo e todos assim será.

Trata-se da mesma paz de cemitério que governos e mídia nos vendem cotidianamente. Pois “futebol moderno” é isso, muito antes de chuteiras coloridas, tatuagens fúteis, moicanos ou Instagram. “Consuma, cale a boca e vá embora logo” é o recado.

A lástima é que tal distopia tem engolido inclusive aquilo que parecia sagrado, isto é, os jogadores e torcedores, cada vez mais moldados por esse projeto – de futebol e principalmente sociedade.

Portanto, não se trata de defender e acoitar um ou outro lado, mas apenas constatar a tragédia.

Infelizmente, recebi relatos de que a torcida chilena foi chegando ao entorno do estádio com alguns de seus membros mostrando grande agressividade, em busca de brigas com os chamados torcedores comuns. Uma pena, pois “Los de Abajo”, como chama a barra de La U, tem um considerável viés antifascista em seu histórico – natural se pensarmos como a ditadura de Pinochet ainda é recente.

Nesse sentido, corintianos e azules vivem contextos altamente parecidos, pois tanto a polícia de cá como de lá ainda são, claramente, orgulhosas depositárias dos valores das respectivas ditaduras militares e seu inesquecível terrorismo de Estado. E tanto lá como cá os agentes desse período nefasto da história jamais foram julgados e punidos, o que mantém vivíssima a cultura de repressão a toda e qualquer contestação, basta acompanhar as notícias a respeito de greves e protestos nos dois países.

No entanto, o grande problema que vivemos – no mundo inteiro! – é que o caldo cultural da intolerância está em pleno processo de fermentação, de modo que contamina cada dia mais cidadãos comuns, bem intencionados, a quem sempre imputamos boa consideração.

Desse modo, nada surpreende nos acontecimentos que vimos logo após a grotesca repressão.

Aparentemente, a briga começou quando um chileno cantava em pé sobre uma das sagradas cadeirinhas que nenhum de nós pediu pra substituir o concreto. Sem a menor mediação, um policial chegou logo baixando o sarrafo, gerando a raivosa reação da torcida bulla, que revidou e foi pra cima. Como indicado, trata-se de uma torcida mais politizada que a média brasileira e, como tal, menos tolerante a hostilidades gratuitas da polícia. De resto, tal perfil de maior insubmissão às forças policiais é regra, e não exceção, nos países sul-americanos.

https://www.youtube.com/watch?v=KbstLEVKwOI

Diante do relatado até aqui, não surpreende, ainda que entristeça, a atitude dos corintianos que aplaudiram a violência policial, ainda mais quando os chilenos deliberadamente jogaram assentos no meio da torcida alvinegra, colocando em risco torcedores que nada queriam saber de briga (no entanto, o relato abaixo de um torcedor azul alega que os corintianos atiravam objetos desde antes do jogo começar)

Juntando isso com a famigerada elitização do estádio, e a consequente troca do perfil de público – mais branco e reacionário do que nunca; “oooooô… bicha!!!” – chegamos a esse triste cenário.

E como nada é tão ruim que não possa piorar, até torcedores do setor norte, supostamente mais popular e solidário, aplaudiram as cenas, tanto de antes da partida como do intervalo. Tampouco surpreende, pois já ficou claro que também foram engolidos ao longo dos anos pela mentalidade mercantil, não à toa inexiste o sentimento de classe entre torcedores e o Cavalo de Troia das arenas passou facinho pelo crivo das organizadas, iludidas por um medíocre chiqueirinho atrás do gol.

Não sei dizer se somos mais covardes ou mais acossados, dado que a militarização da segurança pública no Brasil é alarmante e nossos índices de violência e abusos do Estado são muitíssimo maiores do que na vizinhança. Só a Colômbia, há 60 anos em estado de guerra civil e cujas instituições sofreram diversas penetrações do crime organizado e do paramilitarismo, vem a ser comparável.

Feitas as ponderações, a Polícia Militar paulista continua sendo a grande culpada pelo vexame. Nada justifica a punição coletiva, dispositivo historicamente fascista, aplicada a todos que estavam no setor visitante. Como as imagens mostraram, não vimos nada em termos de defesa da família, da mulher, da criança, enfim, do “torcedor de bem”, como propagandeiam dia e noite os salesmen do futebol-negócio (de jornalistas parei de chamá-los).

Sobraram spray, borrachada e terror para cima daqueles que nem em sonho entrariam numa briga com uma forte e equipada tropa militar. De modo algum a reação pode ser atrelada a qualquer coisa que se possa entender por “servir e proteger”, como bradam por aí.

Fosse essa a orientação, a atitude dos policiais seria a de identificar os sujeitos provocadores e violentos, apartá-los do ambiente e permitir que os demais continuassem a desfrutar do que se supunha um espetáculo, uma diversão – ainda podemos entender um jogo de futebol dessa forma, certo?

Mas não é assim que agem as polícias brasileiras. O que elas gostam mesmo é de sangue. São treinadas para a guerra, não à toa cada vez mais brasileiros defendem sua desmilitarização. É notório o apreço de seus agentes pelo confronto. E numa situação dessa a PM age única e exclusivamente pra “ganhar a briga”, “mostrar quem manda”. Foge completamente de suas intenções prover bem estar e conforto aos que estão por perto de seu caminho.

Portanto, por mais justificativas e fatores desabonadores da torcida chilena que se coloquem na mesa, a expulsão dos seguidores da Universidad de Chile é uma vergonha histórica para o futebol paulista e brasileiro. Mesmo porque é óbvio que a opinião pública internacional, sem rabo preso com nossos mesquinhos jogos de poder e interesse, assim verá.

E paremos aqui, pois na semana em que a PM carioca voltou a assassinar uma criança de forma absolutamente injustificável, o que acontece em nosso país carece de maiores explicações. Trata-se de orientação política e ideológica, posta em prática todo santo dia.

Como corintiano, que acabou de abdicar de encarar as ditaduras militar e de mercado dos estádios paulistas após mais de 20 anos sonhando com a volta da festa e da liberdade, só resta pedir desculpas a Universidad de Chile, tanto a instituição como, principalmente, seus seguidores. Nós, que fazemos esse modesto e inconformado site alvinegro, pedimos desculpas pelo vexame que demos ontem, como clube e sociedade.

A única coisa que posso dizer para fechar esse lamento com alguma dignidade e perspectiva de que amanhã possa ser maior é que, no Brasil e no Chile, nossa luta e nossos inimigos são os mesmos. Juntos, e tão somente juntos, poderemos vencer. Separados e manipulados por falsas diferenças, já estamos derrotados, massacrados e marginalizados.

Mais:

Relato de Felipe Inostroza, torcedor de La U, sobre o ocorrido

Jornalista chileno Christopher Antunez detido por filmar a violência policial

PS: De mais a mais, quem nunca viveu de perto o tratamento da polícia brasileira a torcidas visitantes, em qualquer estado da federação, não precisa decretar nada sobre o tema. Passar bem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
Seja um dos 14 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Gabriel Brito

Jornalista de 32 anos de idade e 25 de estádio. Editor do Correio da Cidadania. Também colabora com a webrádio Central3, onde faz o programa Conexão Sudaca, e o site Timoneiros, canal alternativo para os corintianos inconformados.

Como citar

BRITO, Gabriel. #somostodospinochet. Ludopédio, São Paulo, v. 94, n. 9, 2017.
Leia também:
  • 181.20

    Considerações finais da pesquisa (parte 1): Os clubes sociais como caminho de categorização para a preservação do futebol varzeano

    Alberto Luiz dos Santos, Aira F. Bonfim, Enrico Spaggiari
  • 181.19

    O futebol e a cidade: centenário esportivo no sertão da Paraíba

    Rodrigo Wanderley de Sousa-Cruz
  • 181.18

    A naturalização da barbárie: a cultura dos “parças” e a permissividade no âmbito hostil do futebol

    Eduardo Gomes