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Tempo técnico em campo! A “balbúrdia” da pandemia na vida de um pesquisador do futebol: um breve relato

Rafael Clemente 5 de junho de 2020

É, aproximadamente, o octogésimo dia de “quarentena” para mim e há uma criança prestes a completar seu sexto aniversário. As rotinas, bruscamente alteradas, tornam imperativas funções que antes podiam variar do adiamento à delegação. Varrer a casa, organizar as leituras, levar a filha à escola, ir à Universidade, almoçar em um restaurante. Tarefas simples, mas que assumem um determinado impedimento e/ou uma ressignificação desde o soar alarmante: um novo vírus está próximo! Por ora, o mundo doméstico e o exterior exigem organização mental e disposição física. Mas nem sempre é possível atender a estes requisitos, tão exponencialmente notáveis e valorizados nestes tempos excessivos.

Sou um recém doutorando em Ciências Sociais, entrando – ou pelo menos estava – em um período de transição para o momento de “ir a campo”. Ou seja, o início das pesquisas in loco. Uma espécie de fase dois de meu organograma temporal. Entrevistas, visitas a centros documentais, garimpo de fontes e dados em geral. Fazer-se presente no espaço de pesquisa. No meu caso, o “ir a campo” se transfere para o sentido literal. Meu objeto de análise, grosso modo, é o futebol brasileiro; mais detalhadamente as torcidas de futebol do estado do Rio de Janeiro, tema que desenvolvo desde 2014, quando ingressei no mesmo programa de pós-graduação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Coincidentemente, era o ano da nossa Copa do Mundo de Futebol e pululavam materiais de pesquisa bem como o interesse nos temas referentes aos grandes eventos esportivos no Brasil.

Ruas ficam vazias em horário de pico no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/ Agência Brasil.

Se no primeiro ano do doutoramento, no meu caso 2019, a concentração do estudante se voltava um pouco mais para a conclusão de disciplinas obrigatórias e para a absorção do estado da arte daquilo que pretende observar, 2020 – o meu segundo no curso – seria o do pensar e aplicar as táticas e estratégias metodológicas para a coleta de dados. Meus métodos de pesquisa e práticas envolveriam, também, deslocamentos físicos – impossíveis no momento. Arquétipos mentais formavam rascunhos em papel – resumos do meu projeto apresentado no processo seletivo –, para logo serem transcritos a um documento de Word como proposta de pesquisa e enviados ao meu orientador. Toda trama elaborada previamente foi para as “cucuias”, tão logo os casos de Covid-19 exigiram a paralisação das atividades e dos encontros pessoais, a fim de evitar a contaminação maciça. Sem aglomerações, sem futebol, sem torcida, sem pesquisa. Ao menos em um primeiro momento a bússola que antes apontava determinados caminhos já não estacionava sua seta vermelha para um mesmo lugar. Exigia-se, assim, a acentuação de uma das maiores qualidades de um cientista, a capacidade de adaptar-se perante a volatilidade do objeto pesquisado. Repensar métodos e práticas, refazer estratégias, apossar-se de mais literatura. Tarefa tão complexa quanto áspera. Diante de situação inusual refazer rotas se torna ainda mais trabalhoso. Mas navegar por áreas turbulentas é preciso; viver e cuidar das vidas ao redor, mais que preciso. Acompanhar as notícias dos jornais, orientações e lives seriam uma forma de manter o contato ativo com o mundo externo, só aparentemente e de um certo modo. A sensação de nada poder fazer diante do caos instalado parecia contaminar tanto quanto o risco do novo vírus.

Por um tempo compartilhei, como outros colegas classificados na área 70000000 da CAPES (Humanas), de uma baixa produtividade intelectual. As crises sanitárias e políticas acossaram as mentes de forma a sangrá-las numa cruel inoperância. Um Flit paralisante caótico neblinou o ar. Cientistas políticos, jornalistas, sociólogos, antropólogos, psicólogos, historiadores e filósofos imersos num turbilhão tiveram que, de dentro deste moinho, dispersar a inércia para realizar análises conjecturais e propor caminhos e políticas públicas no combate aos problemas da saúde individual e coletiva. Além disso, tiveram de lutar para serem ouvidos, pela continuidade de suas carreiras, barrar cortes de bolsas científicas e mostrar que um maior investimento financeiro nas Instituições Públicas de pesquisa é importante e crucial para o salto desenvolvimentista que tantos governos propõem em suas cartilhas políticas pré-eleitorais.

No afastar da letargia, nos juntamos a uma parte significativa de profissionais da grande área da Saúde num único caminho para barrar ou ao menos amenizar a perda de vidas e o alastramento do vírus: o distanciamento – causador de tanto receio político por uma quebra econômica. Mas enquanto a movimentação crescia de forma lenta – concentrada principalmente no âmbito virtual, por razões óbvias –, a máquina obtusa do sistema político vigente continuava a pleno vapor, movimentando-se, inclusive, fisicamente: negando a ciência como ponta de lança no combate ao vírus, amenizando os fatos catastróficos reportados diariamente e empurrando a opinião pública a uma segunda pandemia, a da confusão mental. Se, pelas nossas próprias recomendações estávamos limitados na ação, nos valendo da internet para sensibilizar a sociedade, o Governo Federal se afastava para uma outra ponta, a da atuação presencial e massiva. Com a máquina pública na mão e o apoio de uma parcela do empresariado, o vírus sanitário seria constantemente minimizado e seus efeitos desastrosos naturalizados. Os “times” pareciam radicalmente divididos e a tática do Executivo Federal se assemelhava a de um plantel de desordenados centroavantes, sem zagueiros, meias ou laterais em que até mesmo o goleiro vai à frente para movimentar o placar. Seu gol? Voltar à vida normal a todo custo e a qualquer preço. Ações cegamente ancoradas em um único argumento: é preciso movimentar a economia; inclusive a economia do esporte – seja por tornarem serviços essenciais as academias de atividades físicas, ou por incentivarem grandes clubes futebolísticos ao retorno de treinos e campeonatos.

Estádio Maracanã vazio. Foto: Divulgação/Maracanã.

A prática esportiva está significativamente inerte no mundo. Mas, isso não quer dizer que o Esporte, sim com “e” em maiúscula, esteja. O jornalismo esportivo, a análise acadêmica, as discussões sobre times, finanças, títulos e torcidas – que antes se concentravam no bar, agora em espaço virtual – continuam e até aumentaram. Digamos que a pauta não é mais a mesma – como tudo, de meses para cá. Num primeiro momento a névoa do caos nos embaraçava a visão e a mente, por ora já nos é possível debater o passado recente, bem como o presente, e projetar um futuro, mas este ainda incerto e embaçado. Alguns campeonatos europeus de futebol começam a voltar ou projetar para os próximos meses sua reabertura, sem público. É o caso espanhol, por exemplo. As partidas da Bundesliga – a primeira divisão alemã – se iniciaram sem torcedores após o controle significativo de casos e óbitos por Covid no país. Volta o futebol, mas não o espetáculo. A federação que conseguiu equalizar – não sem pressão dos torcedores alemães – “modernização” de estádios e presença massiva e festiva nas arquibancadas, sofre um vácuo capaz de deprimir o mais ocioso fã de futebol. Não é uma experiência agradável a “sucção” sonora da ausência torcedora em um estádio. No Brasil, clubes cogitam a retomada dos estaduais sem público e alguns times já iniciaram suas atividades nos centros de treinamento, com apoio e incentivo explícito de um demagogo Executivo Federal.

Enquanto a balbúrdia se acentua numa ponta da corda, na outra se concentram – em um esforço supra-humano para ir além das fronteiras virtuais – vozes e mentes lúcidas a enfrentar a pandemia do novo Coronavírus e a endemia da velha política brasileira; ora travestida de anti-establishment, ora com vestes reluzentes da masculinidade autoritária de sarjeta. No balançar tempestuoso desse “moinho satânico” ao qual a humanidade foi lançada, tentamos balancear a nova vida e os costumes habituais de um passado não tão distante, mas que ensaia ser cada vez mais obsoleto e irretornável. A cada dia vivido o “tempo regulamentar” nos parece mais longo, prorrogado à medida que ansiamos pelo golden goal. Mas, não recebemos uma notícia em definitivo de uma cura para esse “angu de caroço” que goleia a combalida e moribunda sociedade em que vivemos. Ora cozinhando a partida, tocando a bola para o lado; ora traçando esquemas táticos, organizando jogadas, seguimos a vida diária. Entre cuidados a si, aos próximos e aos distantes, vamos refazendo rotas pessoais e profissionais. Ao fim, toda dificuldade da vitória e as lástimas das derrotas são, também, importantes dados do pretensioso pesquisador, que, imbricado em seu tema, é, portanto, parte dele. Bola pra frente, que ainda tem jogo!

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Rafael Clemente

Especialista em História do Brasil, Mestre em Ciências Sociais e Doutorando em Ciências Sociais. Membro do Grupo de Pesquisa Observatório Fluminense  - coletivo de cientistas sociais que tem a Baixada Fluminense e o Rio de Janeiro como tema macro. Dedica-se aos temas de Sociologia do Esporte, do Corpo e Sociologia Urbana. Torcedor desde criancinha e tricolor de coração.

Como citar

CLEMENTE, Rafael. Tempo técnico em campo! A “balbúrdia” da pandemia na vida de um pesquisador do futebol: um breve relato. Ludopédio, São Paulo, v. 132, n. 11, 2020.
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