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Um singelo tributo à memória de Cascadura, o icônico Zé de São Januário

Leandro Tavares Fontes 23 de novembro de 2023

“Álvaro Nascimento é um símbolo válido não só para o Vasco, como para qualquer clube”.
Nelson Rodrigues

Não é possível falar da imprensa esportiva carioca e da memória do Club de Regatas Vasco da Gama, por inteiro, sem falar de Zé de São Januário. Um personagem marcante que é pouco lembrado em nosso tempo. Álvaro do Nascimento Rodrigues, o Cascadura, foi o defensor do Vasco na imprensa brasileira. Foi, portanto, uma “pedrinha na chuteira” como era denominada a sua coluna no Jornal dos Sports, o Cor-de-rosa. Por suas crônicas e participação no rádio, os vascaínos passaram a conhecer melhor a história do Clube. No entanto, poucos conhecem a trajetória desse português que se abrasileirou com o Vasco e o Rio de Janeiro.

O caminho de Cascadura, no mundo do futebol e no Vasco da Gama, merece uma obra própria. Essa lacuna, a literatura vascaína precisa preencher. Todavia, me parece uma questão de honra, numa coluna denominada “Expresso Cascadura”, tecer algumas linhas sobre esse personagem marcante para o Vasco e a imprensa esportiva carioca.

Álvaro do Nascimento Rodrigues nasceu em 1894, em Valença do Minho, Portugal. Chegou ao Brasil em 1908 e logo se envolveu com os esportes. Praticou atletismo, remo, boxe, tênis e futebol. Sua trajetória, como futebolista foi curta, mas merecedora da atenção de José da Silva Rocha, ao chamá-lo de “goleiro peneira do Luzitânia”. Nosso Zé de São Januário havia jogado, antes de sua passagem pelo clube português (que, em 1915, se incorporou às ­fileiras do Vasco), pelo Real Grandeza (1911) e, depois, pelo Sportivo do Leme (1912). E é justamente nesse período que ganha seu segundo nome de batismo: “Cascadura” — conforme relata João Ernesto da Costa Ferreira (ex-Vice-presidente de Relações Especializadas do Vasco):

“Estive com ele, no portão de sua casa, no sábado que antecedeu à final do Vasco x Fluminense, em 1980. Naquela ocasião conversamos e ele falou que fora um goleiro arrojado… Que quando a bola era alçada na área, ele saía duro para cortar. E sempre aguentando o troco dos adversários. Daí, veio o apelido Cascadura”.

Uma curiosidade: Álvaro do Nascimento chegou a torcer para o Botafogo nos primórdios do futebol. Mas, a partir da instituição da seção de futebol do Vasco, quaisquer subjetividade relacionada ao Alvinegro de General Severiano ficaria para trás, em favor do pavilhão vascaíno. Tanto é verdade que Nelson Rodrigues numa crônica intitulada “O perfeito torcedor” em homenagem ao amigo Cascadura escreveu:

“Amigos, se um dia, Deus quisesse apontar o símbolo mais autêntico e exemplar de vascaíno, escolheria este meu companheiro. Cascadura é Vasco da cabeça aos sapatos. Se lhe cair na cabeça uma bomba atômica, ele continuará no céu o mesmo vascaíno da terra” (Jornal dos Sports. 06/11/1966).

Cascadura
Fonte: reprodução

Álvaro, ou melhor, Cascadura, foi comerciante de roupas íntimas. Mas, não teve sucesso nessa área. De tal forma, em 1928, começou a trabalhar no jornal Rio Sportivo. Três anos depois, ajuda a fundar o Jornal dos Sports. No Cor-de-rosa, brilhou, a partir do dia 20 de outubro de 1940, com o pseudônimo “Zé de São Januário”, na coluna “Uma pedrinha na shooteira”. Em 1946, inaugura a seção “Vasco em Dia”. Sua ligação com o Jornal dos Sports era tão presente e carnal que Álvaro do Nascimento morava na rua em frente à redação do Cor-de-rosa. Em 1950, protagonizou o programa “Uma pedrinha na shooteira”, na Rádio Guanabara.

Álvaro do Nascimento, por suas caracterizas pitorescas na imprensa esportiva e sua paixão pelo futebol, sobretudo, pelo Vasco, materializou o personagem Zé de São Januário no cidadão Cascadura, conforme registra José da Silva Rocha numa deliciosa crônica no Jornal A Noite na passagem do cinquentenário do Vasco:

“O Alvaro Nascimento, gol-keeper de uma das equipes do Lusitânia, keeper tipo “peneira”, entrou para o Vasco na fusão. Comerciante, não era suficientemente esperto e ativo, e ao que parece interessavam-lhe mais as vitórias do Vasco que os balancetes mensais de seu estabelecimento e assim deixou de ser comerciante. Consequência: o jornalismo carioca conquistou um repórter que se fez o comentarista, “venenoso e corajoso”, que todos conhecem: o Cascadura. Muitos se queixam de seu estilo forte e franco, outros repelem a sinceridade por vezes rude de suas histórias. Mas o Cascadura vai colocando a sua pedrinha na shooteira do tempo, tratando os acontecimentos com bravura e desassombro para defesa do Vasco e do desporto. E é preciso que êle o faça, por que há ainda os que cuidam tratar esse grande club como o faziam os botocudos de 28, aqueles a quem o cronista do “Rio Sportivo’ há vinte anos indagava: “Não se pode compreender êsse sentimento mesquinho quando por um espírito de Justiça, para não dizer de gratidão, todos os brasileiros deviam admirar o C. R. Vasco da Gama como um símbolo refulgente de energia, de capacidade e de trabalho. J.S.R”

Assim sendo, segundo José da Silva Rocha, Cascadura chegou no quadro associativo do Vasco em 1917 como parte do processo de “fusão”, na verdade, de incorporação, do Luzitânia Sport Club ao Club de Regatas Vasco da Gama. A partir desse momento, Álvaro do Nascimento esteve totalmente integrado na vida vascaína, participou ativamente da Campanha dos 10.000 para construir São Januário. Atravessou noites, junto com seus familiares, preparando recibos para os doadores financeiros do estádio. Em 1948 escreveu a apresentação do livro Memória do cinquentenário (1898–1948). Foi um dos grandes animadores para a construção da Capela Nossa Senhora das Vitórias, em São Januário, dentre inúmeras participações no cotidiano do Clube. A dedicação de uma vida ao Vasco lhe valeu o título de Grande Benemérito. Em 1966, a Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara lhe concedeu o título de “Cidadão Carioca”.

Capela Nossa Senhora das Vitórias
Capela Nossa Senhora das Vitórias. Fonte: reprodução

Em 1975, Cascadura completou 13 mil crônicas como o Zé de São Januário. Escreveu até março de 1982, vindo a falecer a 30 de agosto do mesmo ano. Se considerarmos a data de 1911, como ponto de partida da ligação de Cascadura com o esporte bretão, e formos até o ano de 1982, serão 71 anos ligados organicamente ao mundo do futebol. Desse período, 65 anos foram dedicados ao Vasco; e 54 anos, à imprensa esportiva do Rio de Janeiro.

Os números falam por si: Álvaro do Nascimento Rodrigues, o icônico Zé de São Januário, foi o homem do Vasco na imprensa brasileira. Mas, isso não resume a memória e da fabuloso legado do incansável Cascadura. Por sua extensa obra, Álvaro do Nascimento, na modesta opinião desse pesquisador, deve ser considerado – ao lado de Geraldo Romualdo da Silva – o segundo maior cronista da imprensa esportiva carioca em todos os tempos, ou seja, logo abaixo de Mario Filho. Um lugar mais do que justo e merecedor para um lendário assalariado da redação do Jornal dos Sports que se tornou, por sua abnegação e devoção, Grande Benemérito do Club de Regatas Vasco da Gama.

Referências

FONTES, Leandro Tavares. Vasco: o clube do povo – uma polêmica com flamenguismo (1923-1958). Livros de Futebol. 2020.

ROCHA, José da Silva. Club de Regatas Vasco da Gama – Histórico: 1898-1923. Editora-Rio. 1975.

Blog Memória do Torcedor Vascaíno

Jornal dos Sports

Jornal A Noite

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Leandro Fontes

Professor de geografia, colunista da Revista Movimento, do Expresso Cascadura e autor do livro Vasco: o clube do povo – uma polêmica com o flamenguismo (1923-1958).

Como citar

FONTES, Leandro Tavares. Um singelo tributo à memória de Cascadura, o icônico Zé de São Januário. Ludopédio, São Paulo, v. 173, n. 23, 2023.
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