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Ver o Corinthians, descobrir a cidade

Plínio Labriola Negreiros 22 de abril de 2020

Para Geraldo de Almeida

A conversa com pessoas mais velhas sempre me agradou. Ao menos é o que a minha memória informa. Via (e vejo) nessa interlocução a descoberta de coisas fantásticas. Tinha muito interesse em saber das coisas do passado, desde detalhes aparentemente sem maior importância, como o preço de alguma coisa, até aspectos mais substanciosos, caso do que era viver durante a Segunda Guerra Mundial ou o que foi sobreviver em São Paulo durante as chamadas Revoluções de 1924 e 1932. Apenas sobre esses eventos, há muitas histórias de família. Em uma delas, a minha bisavó italiana, especificamente do Vêneto, morreu em julho de 1924, poucos dias depois das tropas do general Isidoro Mendes Lopes iniciar a tomada da cidade de São Paulo. Entre as tarefas dos revolucionários (não tão revolucionários assim…) estava atacar e tomar o Palácio dos Campos Elíseos, sede do governo do estado de São Paulo, então sob o comando do presidente Carlos de Campos. O velório da minha bisavó ocorreu na casa dela, nos mesmos Campos Elíseos. Por causa dos incessantes ataques à sede do Executivo paulista, ela foi velada em cima da mesa da sala e os filhos tiveram que ficar embaixo dessa mesa, evitando balas perdidas.

O gosto pela escuta de histórias de um passado do qual eu não fui testemunha recebeu duas gratas interlocuções no decorrer de 2019. Conheci dois conselheiros do Corinthians Paulista, ambos nascidos no início da década de 1940 e, desde sempre, ligadíssimos com os destinos corinthianos porque os seus pais eram importantes dirigentes do clube. Assim, conversas importantes, sempre histórias ricas, narradas de forma apaixonada. Em meio a essas histórias, duas atraíram muito a minha atenção. Numa delas, esses conselheiros contavam que a delegação corinthiana, nos anos 1940 e 1950, concentrava-se para as partidas a serem disputadas no estádio do Pacaembu nos alojamentos do próprio estádio. Esse espaço hoje é ocupado pelo Museu do Futebol.

Praticamente sobre a mesma época, contam sobre outro espaço utilizado pelos corinthianos com o intuito de se isolar antes de uma disputa. Tratava-se de uma chácara localizada próximo ao Horto Florestal, no extremo norte da cidade, em meio à serra da Cantareira. Algumas horas antes da partida, os jogadores e os demais integrantes da delegação eram transportados em automóveis dos dirigentes corinthianos para o estádio onde a contenda se realizaria. Para a minha surpresa, segundo os dois conselheiros, o casarão da chácara ainda existe. A localização foi fornecida. Isso me deu muita vontade de conhecer esse espaço de memória do Corinthians. Talvez, esse desejo de ir ao Jardim Tremembé ver tal imóvel seja apenas a continuação de um gosto iniciado desde que sou criança e que a contribuição corinthiana tem sido essencial: conhecer cada espaço da inesgotável da cidade de São Paulo.

Devo esse gosto, sem dúvida, ao meu pai. Paulistano, em um determinado momento da sua vida, deixou de gostar de espaços fechados para trabalhar. Isso quando eu tinha por volta de 5, 6 anos. Dessa forma, tornou-se um comerciante de insumos para cabelereiros. Nos primeiros dias da semana, visitava os salões de beleza para pegar pedidos desses insumos. No meio da semana, fazia compras em atacadistas, geralmente no Brás. As entregas das encomendas ocorriam às sextas-feiras e aos sábados pela manhã. Morávamos na Luz, colada com o Bom Retiro, bairro onde nasceu o Corinthians Paulista, e os salões ficavam no mesmo Bom Retiro, no Centro, na Santa Cecília, em Higienópolis, nas Perdizes, no Jardim América. Não me lembro de outros bairros. Para fazer compras ou fazer entregas, fui muitas vezes com meu pai e seu carro. Dessa forma, fui aprendendo caminhos. Sabia, de casa, como se chegava à avenida Angélica. Sabia que, ao final desta, era a avenida Paulista. Quando estávamos no largo do Arouche, sabia que bastava descer a avenida Duque de Caxias e quando eu avistasse a estátua do mesmo, estaríamos bem perto de casa.

Por razões além do trabalho do meu pai, conhecia outros bairros: Canindé, Pari, Santana, Tucuruvi, Jardim Peri, Lapa. Mas, o interessante foi uma derivação desse gosto por conhecer espaços da cidade: gostava de conhecer com meu pai, porém queria ir a esses espaços sozinhos. Queria saber ir a esses espaços. Por isso, com 11 anos, a primeira grande aventura só: em uma tarde, saí de casa, cheguei ao parque da Luz e o atravessei; entrei na estação da Luz e cheguei à avenida Cásper Líbero. Quase ao final desta, entrei no viaduto Santa Ifigênia e já avistei a igreja de São Bento, como estávamos em 1973, ainda não havia a estação de metrô. Continuei andando e me deparei com uma loja, talvez as Americanas. Fiquei fascinado porque nunca tinha visto tantos lápis e borrachas e materiais escolares em geral. Eu já conhecia o centro porque ia com a minha mãe próximo à praça da Sé pagar o aluguel da casa onde morávamos. Ou ao prédio da Light pagar a conta de luz. Ou mesmo a família toda assistir missa no Mosteiro de São Bento. Mas era a primeira vez com as próprias pernas.

Decorrente da primeira aventura, vieram outras. Mais distantes e difíceis, como a avenida Paulista, na sede da CESP, e a sede do II Exército no Ibirapuera (por que a escola nos mandou para esse espaço em plena Ditadura Cívico-Militar?), em função de tarefas escolares. Vale ressaltar que encontrar informações sobre como chegar aos lugares não era abundante e fácil, como hoje. Exigia algumas estratégias e instrumentos.

Aqui a prova do crime, já prescrito.
Aqui a prova do crime, já prescrito. Foto: Acervo pessoal.

Nesse contexto de desejo de descobrir cada canto da cidade, outra paixão: o Corinthians. Nada poderia ser mais harmônico. Já ao final de 1975, no mês de outubro, uma decisão de peso para os meus 13 anos: filiar-me aos Gaviões da Fiel. Tinha um amigo da escola, palmeirense, e discutíamos o que havia de interessante em se associar a uma torcida de futebol. Existiam poucas. Para ele, só havia a TUP. Eu poderia escolher entre a Camisa 12 e os Gaviões. Estes foram escolhidos e não consigo me lembrar o porquê dessa escolha. Um segundo passo era necessário: como fazia para se associar? Onde era a sede da torcida? Rua Santa Ifigênia? Onde ficava? Como chegava lá? Fiz todas essas descobertas, talvez com a ajuda de uma lista telefônica de assinantes, que resolvia muitos problemas, junto com um guia de ruas da cidade, obra essencial antes do uso dos aplicativos. Lá, um problema: para quem tivesse menos de 16 anos, precisaria da autorização dos pais. Resolvi de uma forma mais simples: aumentei a minha idade em 3 anos; ao invés de 1962, o correto, declarei nascido em 1959. A prova do crime ainda consta na minha ficha de filiação, como tive a oportunidade de ver há alguns anos. Resumo: graças ao Corinthians, eu sabia chegar à rua Santa Ifigênia. Da minha casa, o mais fácil era ir pela já conhecida avenida Cásper Líbero.

De toda forma, o salto de qualidade veio no ano seguinte. Sozinho fui ao estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi; ao Parque Antártica, o estádio Palestra Itália; e, principalmente, ao estádio Alfredo Schürig, o Parque São Jorge. Claro, sempre para ver jogos do Timão.

Já conhecia o estádio do São Paulo desde 1970 e já tinha ido outras vezes com meu pai e meu irmão. Portanto, a novidade foi ir sozinho. Era um sábado de Carnaval e iríamos enfrentar o América de São José do Rio Preto pelo Campeonato Paulista. Entre tantos esquecimentos, destaco dois: como consegui as informações para chegar ao estádio, que era muito distante do Bom Retiro, quase uma viagem interminável, e por que eu fui sozinho; por que não convidei meu pai ou meu irmão? Mas me lembro da minha decepção com o pequeno público: pouco mais de 5 mil pessoas. Fiquei quase sozinho em um anel da arquibancada superior do estádio. Estava decepcionado porque era apaixonado pelo time e pela festa da torcida.

Desde a primeira vez que fui a um estádio, existia uma expectativa grande em ver o time entrar em campo. O ambiente na arquibancada era de alegria e tensão. Fogos, bandeiras de muitos tamanhos e papéis picados eram preparados. Ocorria uma grande festa. Antes disso, muita vaia para as entradas dos árbitros e do time adversário. Por isso, que coisa de pouca graça que são os times e os árbitros entrando em campo juntos; ao menos para mim. Assim, apesar da vitória por 3 a 0, se eu não me lembro dos gols, e não existem imagens deles, lembro da tristeza das arquibancadas vazias. Sobre isso ouvi uma explicação: era sábado de Carnaval e, além disso, ainda naquele dia o bloco dos Gaviões da Fiel iria desfilar onde ocorriam os desfiles de escolas de samba na cidade: na avenida São João. A minha tristeza não diminuiu com tais explicações. Além disso, outra tarefa difícil: voltar do Morumbi, tarefa sempre muito difícil. Os ônibus da antiga estatal de transportes paulistana CMTC lotavam muito rápido e as lotações eram caras.

Na semana seguinte, em um domingo, uma dupla novidade: ir a um clássico sozinho e ao Parque Antártica. Clássico contra os donos da casa? Não. Contra o São Paulo. Mas, por que no campo do Palmeiras e não no Pacaembu ou Morumbi? Não sei. O que me importava era descobrir como do Bom Retiro eu chegaria à Pompéia. Tinha uma certa referência porque meu pai levava os filhos muito ao parque da Água Branca. De qualquer forma, depois de muitas perguntas, descobri que na rua João Teodoro, perto da minha casa, passava um ônibus que vinha da Penha e ia para a Lapa; o mais importante, passava em frente ao estádio do time de verde. Cheguei cedo e arrumei um bom lugar. A primeira disputa era qual seria a maior torcida; entre os mais de 30 mil torcedores, éramos maioria. Muita festa com a entrada em campo. Mas, assim que a partida começou, também muita chuva. O estádio estava tão cheio que não havia qualquer possibilidade de sair do lugar para fugir da chuva. Esta, para mim, trazia o problema de molhar os óculos; estes molhados, com a minha miopia, permitem que eu veja pouco. Com a forte chuva, muitos gols, no jogo que ficou famoso pelos frangos.

Ao final, vitória corinthiana por 3 a 2. Em meio à festa, um problema para resolver: como voltar para casa? Tinha a impressão que eu estava muito longe de casa. Se a linha Lapa me trouxe, a volta era com o Penha. Mas como pegá-lo em meio àquela multidão? Fiz, mas não sei como fiz: segui parte da multidão e acabei chegando a uma estação de trem, a da Água Branca. Peguei um trem que me deixou na estação Júlio Prestes ou na Luz. Não me lembro onde. Era a primeira vez que eu pegada trem sozinho. E a primeira vez que andava de trem de subúrbio, por já tinha ido, mais de uma vez, para Santos pelos trilhos. Cheguei em casa ainda molhado. Uma aventura inesquecível. Com imagens:

Neste mesmo ano, meses depois, conversava com meu amigo palmeirense que tinha ingressado na TUP, e disse a ele que tinha visto um Corinthians e São Paulo no Parque Antártica. E duvidou da minha palavra. E fizemos, diante da descrença dele, uma aposta, que, obviamente, não me lembro mais. Mas, daí surgiu um problema: como eu iria provar a minha verdade, que era verdade? Não fazia ideia como. Descobri que poderia ir à sede de um jornal e pedir para olhar um exemplar do dia seguinte do jogo. Outra descoberta: menores de 18 anos não entravam na redação e arquivo de um jornal. Pedi testemunhos de outros colegas e ninguém tinha certeza. Fiz outra descoberta que poderia fazer a verdade emergir: um serviço da Folha de São Paulo chamado Folha Informações. Ligava-se para um telefone e pedia a informação que se necessitasse. Se essa informação fosse facilmente disponível, como a cotação do dólar em determinado dia, a informação era dada de imediato. Caso contrário, a dúvida e os dados do solicitador desta eram anotados e a resposta vinha 2 ou 3 dias depois. Ou não vinham. Tenho quase certeza que eu liguei e consegui a informação. Mas, o meu amigo não escutou e continuou incrédulo. Tivemos contato ainda por alguns anos, e a verdade nunca foi estabelecida. Não existia a internet…

Ao final do mês de março de 1976, outra descoberta. Era, talvez, outro sábado à tarde e um jogo contra o Comercial de Ribeirão Preto. O meu interesse pelo jogo aumentou porque ele seria realizado no estádio Alfredo Schürig, o Parque São Jorge. Já havia ido à Fazendinha, com meu pai, e vimos uma vitória por 5 a 0 contra o Nacional de Manaus, em junho de 1974, pelo Campeonato Brasileiro. Agora era diferente: eu ia sozinho ao Corinthians, ao Tatuapé. Como cheguei? Não me lembro. Provavelmente, na avenida Tiradentes, peguei um dos ônibus que ia para a zona Leste pela marginal Tietê; ou seja, devo ter descido em frente ao estádio corinthiano. Como voltei? Não me lembro. É provável que tenha subido até a avenida Celso Garcia e entrado em algum ônibus em direção à Luz ou ao Centro. Mas me lembro da partida e dos dois gols corinthianos: Romeu e Zé Maria. Lembro de onde me sentei. Lembro da festa da torcida. Eram mais de 20 mil corinthianos apertados na nossa casa. E restam:

O Corinthians começava bem o Campeonato Paulista de 1976. Será que finalmente voltaríamos a ser campeões? Tinha essa certeza. O desenrolar do campeonato mostrou outra realidade. Tanto que estive na última partida desse campeonato, disputado em pontos corridos. Desde a penúltima rodada, depois de uma vitória contra o XV de Novembro de Piracicaba, o Palmeiras conquistara o título paulista. Na última rodada, Corinthians e Palmeiras no Morumbi. O meu amigo palmeirense, o incrédulo, me convidou para ir com o pai dele e um amigo do pai. Todos palmeirenses, menos eu, é claro. Fomos de cativa superior, espaço que não conhecia. Em meio aos quase 40 mil torcedores, com muitos corinthianos como sempre, aos 13 minutos do primeiro tempo o Corinthians já havia tomado 2 gols do Jorge Mendonça. Não fizeram mais gols e vi um bonito gol de cabeça do Geraldão, centroavante corinthiano. Cruzamento do Vaguinho. Não foi um final feliz de campeonato. Mas outra novidade importante: no intervalo da partida, nós quatro fomos à cabine de transmissão da rádio Bandeirantes e conversamos com o narrador Fiori Gigliotti. Foi bem interessante. Felizmente, há imagens dessa partida.

Ninguém poderia imaginar que o ano corinthiano de 1976 terminaria com a Ocupação do Maracanã e a quase conquista do Campeonato Brasileiro daquele ano.

Vale lembrar que também conheci o estádio Osvaldo Teixeira Duarte, da Portuguesa de Despostos, no Canindé. Mais do que isso, como ficava próximo da minha casa, vi ele sendo ampliando e reinaugurado em 1972. Inclusive, com o Rivellino vestido a camisa da Portuguesa em jogo comemorativo. Durante a reforma, com o processo quase concluído, junto ao meu pai e me irmão, entramos no gramado e eu fiquei assustado com o tamanho do gol. O estádio do Juventus, Conde Rodolfo Crespi, conheci, mas não me lembro quando. Talvez em partidas da Copa São Paulo de Futebol Junior. Não me lembro de ir ao estádio do Nacional, na Água Branca. Meu pai quis nos levar – meu irmão e eu – em 1970, em um jogo da final de um torneio chamado Dente de Leite, ou seja, um torneio de futebol infantil patrocinado pela extinta TV Tupi. Chegando próximos ao estádio Nicolau Alayon, descobrimos que ele estava cheio e ninguém mais poderia entrar. Aliás, lotado demais: foi o recorde de lotação com 22 mil pessoas. Voltamos para casa e vimos a final pela TV.

Em outro texto, Ir aonde o Corinthians estiver, mostrei como a paixão pelo alvinegro do Parque São Jorge me fez conhecer parte do interior paulista. Com essa paixão pude conhecer mais São Paulo. Aliás, essa paixão permite que eu ainda conheça mais esta cidade. E outras tantas cidades.

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Plinio Labriola Negreiros

Professor de História Estudo a História do Corinthians Paulista e do Futebol

Como citar

NEGREIROS, Plínio Labriola. Ver o Corinthians, descobrir a cidade. Ludopédio, São Paulo, v. 130, n. 32, 2020.
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