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1960-2020: 60 da Taça Libertadores da América

Fabio Perina 1 de outubro de 2020

Nesse ano de grandes recordações, como os 70 anos do Maracanazo e os 50 anos do Tri no México, passou quase despercebido a comemoração da maior competição de clubes do futebol sul-americano, e para muitos a maior do mundo por sua mística singular. Completam-se 60 anos do lendário Peñarol do Uruguai e do artilheiro Albert Spencer. Quem saiu do Equador e cruzou o continente em uma diagonal entre os dois menores países como um prenúncio para a integração que a competição despertaria. O primeiro de grandes esquadrões e de grandes heróis. Histórias consagradas de domínio público para qualquer um que queira se inspirar, mas que agora dão lugar a outros pontos de vista sobre os primórdios de “Nuestra Copa”.

Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial houve na Europa e na América do Sul processos simultâneos de aproximação entre países nas relações internacionais e nisso o futebol teve uma importância simbólica. Se do lado de lá se consolidaram a União Europeia e a Copa dos Campeões da Europa no final dos anos 50, do nosso lado houve um primeiro ensaio no final dos anos 40 com o Campeonato Sul-Americano de Campeões. Disputado no Chile, a experiência de um heptagonal de todos contra todos em turno único consagrou como primeiro e único campeão o Vasco da Gama (convidado por ser o campeão carioca), derrotando a grande “Máquina” do River Plate que marcou aquela década. Dificuldades de organização e principalmente de logística (afinal os transportes na Europa são facilitados por seu território inteiro ser proporcional ao do Brasil) exigiram mais de uma década de espera. Os primeiros anos do torneio europeu foram instigando os dois lados a medirem forças entre os campeões de cada continente em uma possível Copa Intercontinental.

Vasco x River em 1948. Foto: Wikipédia

Se o final dos anos 60 é conhecido por uma “revolução cultural” no primeiro mundo, que virou uma grande grife intelectual, o terceiro mundo e principalmente a América Latina passavam por um contexto muito mais explosivo no início daquela década. Ao longo dos anos 30, 40 e 50, a política e a sociedade consolidaram um embate de projetos coletivos entre o liberalismo e o desenvolvimentismo. Para além dessa disputa em cada país, o presidente argentino Juan Domingo Perón (1946 a 1955) foi uma liderança em nosso continente que o transcendeu diante do sonho de uma integração do terceiro mundo no “movimento dos não-alinhados” em plena Guerra Fria—junto de outros líderes como Tito na Iugoslávia e Nasser no Egito.

Os tão intensos anos 60 na América Latina de fato começaram em 1º de janeiro de 1959 com a vitória da Revolução Cubana. Contra todos os prognósticos práticos e teóricos, estando inclusive a poucos quilômetros do Imperio yanke, se essa revolução fosse uma partida de futebol teria sido uma vitória por meio a zero “jogando por uma bola” em contra-ataque. (Tática tão criticada hoje pelos ‘analistas de computador’ mas que deu tão certo que nessa partida nossos revolucionários seguem até hoje sem perder!)

O impacto foi imediato na política e sociedade dos demais países, pois naquele embate transcendental surgia desde a “Sierra Maestra” uma terceira via com sua consigna de “Socialismo o Muerte”. Embora essa utopia de revolução continental não se concretizou, ao menos ao longo da década uma integração continental foi se desenhando no âmbito espiritual com a Teologia da Libertação e no âmbito musical com o ritmo do bolero (tendo como ‘craques’ brasileiros Altemar Dutra, Nelson Ned e outros). Ao mesmo tempo, mais do que uma “revolução”, uma verdadeira pandemia de futebol se iniciava…

Peñarol campeão em 1961. Foto: Wikipédia

Indo propriamente para o futebol dentro de campo, o modesto número de participantes na primeira edição da Copa dos Campeões da América em 1960, por coincidência 7 assim como o ensaio de 1948, não ficou devendo nada em vibração: Bahia do Brasil, Jorge Wilstermann da Bolívia, Millonarios da Colômbia, Olimpia do Paraguai, Peñarol do Uruguai, San Lorenzo da Argentina e Universidad do Chile. O formato de disputa foi um curioso chaveamento com o Olimpia “de chapéu” na semifinal esperando que os outros 6 se enfrentassem em mata-mata até chegarem a 3. Para o tricolor Bahia calhou de enfrentar o azulgrana San Lorenzo. O confronto de brasileiros e argentinos com cores similares teve a eliminação do primeiro campeão da Taça Brasil (em 1959). O título do Peñarol sobre o Olimpia já o colocou direto na primeira Copa Intercontinental, porém perdendo para o Real Madri.

Ao longo das décadas finalmente se conseguiu a ampliação das 7 para 10 representantes das federações de futebol do continente e com os mais diversos regulamentos. Evidente que ao longo dos anos a disputa da Copa Intercontinental encontrou desgosto dos europeus diante de tantas hostilidades dentro e fora de campo ao voltarem para o continente em que foram expulsos um século e meio após a primeira Independência. Até que a dificuldade em conciliar datas para uma partida em cada continente surgiu como pretexto para iniciar uma nova fase em 1980 com partida única no Japão. Se fosse possível escolher um auge da Libertadores para o meu gosto pessoal seria dessa década, época em que os sul-americanos mais venceram os europeus em solo japonês, principalmente por seu formato de disputa: quando o torneio encarnava o espírito de mata-mata até na fase de grupos. Uma vez que somente campeões nacionais conquistavam acesso a ela. E depois no caminho até a final, tanto na fase de grupos como no triangular final, somente o primeiro passava! O que exigiu frequentes partidas extras de desempate.

O que poucos sabem que somente no ano de 1965 que em um ato mais autêntico de latinidade foi que a Libertadores assumiu seu nome atual e deixou para trás o nome que copiava o europeu. Em homenagem um século e meio depois de Bolívar, San Martín e tantos mais com o sonho da integração continental na “Pátria Grande” recém descolonizada. Se no continente das veias abertas se pratica um futebol visceral, nem tudo são glórias. A espera pela segunda emancipação tem sido mais sofrida que qualquer guarania e parece cada vez mais distante. Em 1967, a morte de Che Guevara na Bolívia bloqueou a via revolucionária continental. Da mesma maneira que em 68 com o modismo da “revolução cultural” também se bloqueou lentamente a via revolucionária mundial quando se passou a acreditar que antes de tomar o poder era preciso transformar a sociedade.

Nos anos 60, aquele embate clássico entre liberalismo e desenvolvimentismo que esteve prestes a se tornar épico com a entrada em cena da revolução (uma alternativa estratégica com várias opções táticas) acabou tendo o desfecho trágico do militarismo que viralizou para a maioria dos países. Sob pretexto de derrotar a revolução, impediu o desenvolvimento econômico e social da região até hoje. Pior, criou desde então um espantalho usado até hoje pela extrema direita para justificar seus abusos. Agora sem a Operação Condor dos generais de antes, nossa região segue à espreita da rapinagem de suas riquezas e sua dignidade pela águia yanke.

Imagem: Agência Brasil

Já para a nossa Libertadores, teve lugar o melancólico em 2018 com a venda da sede da final, justamente de um Superclássico River-Boca, para Madri. Justamente a capital do império colonizador. No ano seguinte a ‘brincadeira’ da Conmebol de escolher sedes aleatoriamente iniciou uma nova fase de finais em campo neutro, como um simulacro de se ter um megaevento de um dia só todo ano para filtrar a chegada de turistas ao invés de torcedores. Ah que saudade de quando as invenções ‘modernizantes’ do futebol sul-americano era apenas o convite a clubes mexicanos (que deram um toque alegre de ‘ranchera’ com 3 vice-campeões), mas sem afetar o direito de torcer! Para a nossa quase sexagenária Libertadores foi um golpe quase como as reformas da previdência. Primeiro como tragédia, depois como farsa.

Atualmente passamos pela distopia de se jogar futebol na América do Sul sem que nenhuma equipe seja representada em campo por seus torcedores nas arquibancadas. O que fará com que justamente nessa edição as partidas sejam apenas fatos anestesiados que careçam de acontecimentos que honrem suas tradições de grandes esquadrões e grandes heróis. Parafraseando Fidel Castro, nossos hinchas tão prejudicados podem declarar sem abaixar a guarda: “a história nos absolverá”!


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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. 1960-2020: 60 da Taça Libertadores da América. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 3, 2020.
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