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A Amarelinha e a disputa entre os seus significados

Vicente Magno Figueiredo Cardoso 24 de novembro de 2022

A Camisa da Seleção Brasileira de futebol, assim como qualquer camisa usada por um time de futebol, ganha conotações que podem ir além dos gramados e dos estádios. No caso da Amarelinha, alcunha popular para a vestimenta, significados recentes se chocam e, por vezes, parecem soterrar outros mais antigos. E esse choque fez do seu uso um ponto polêmico para uma enorme diversidade de pessoas que gostam e que não gostam do esporte.

O ano de 2022 é de Copa do Mundo, torneio realizado pela Federação Internacional de Futebol Associação (Fifa) e que reúne times que representam países em torno do planeta. Essa será a 22ª edição e acontece no Qatar, a primeira no Oriente Médio, e reunirá 32 equipes representando diferentes nações. A Seleção Brasileira é aquela que mais participou e venceu edições do torneio. Mas o ano também foi e eleições presidenciais acirradas no Brasil onde a camisa foi amplamente utilizada por um lado como representação de um suposto nacionalismo ou, como aqueles que a ocuparam preferem rizer, “patriotismo”.

A camisa amarela, essa coisa como propôs Ingold (2012), foi, digamos, sequestrada pela extrema-direita brasileira. O mesmo fenômeno é visto em outros países sempre com a mesma meta: evocar protagonismo acerca da condição nacionalista e colocar-se como agente único de proteção de valores culturais representativos da nação imaginada cujo símbolo está no uso da vestimenta. A peça do uniforme oficial de jogo e mesmo réplicas que ostentam a cor amarela foram incorporadas por simpatizantes do grupo político citado acima e sofreu um processo extremo de politização partidária a partir de recentes eleições para presidência da República de 2014 e 2018. 

Seleção brasileira 1919
Seleção Brasileira em 1919. Fonte: reprodução

Camisa branca: nacionalismo e azar

Ainda com poucas associações clubísticas dedicadas à prática deste esporte, ainda muito burguês, no país, em 1914 houve a criação de uma Seleção Brasileira e isso aconteceu dois meses antes da criação da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) de onde, décadas depois, sairia o embrião que formou a Confederação Brasileira de Futebol (DIENSTMANN e DENARD, 1994).

O time que representava o Brasil vestia a cor branca. Uma camisa lisa em algodão, com gola de um azul vivo e cadarços na altura do peito e logo abaixo do  pescoço. Uma peça de roupa inspirada em hábitos ingleses que provavelmente não seria vista como confortável ao ser usada para prática esportiva, que envolve esforço físico, em gramados de clima tropical, ou subtropical, como no Rio de Janeiro. Os jogadores ainda não eram identificados com números nas costas, que passaram a ser utilizados uma década e meia depois. Porém, foi desta maneira que a peça do uniforme começou um trajeto que empilha significados ao longo do tempo, assim como acompanhou diferentes momentos da história recente do país, como o desenvolvimento do e no futebol e sobre o qual se construiu valoração diferente de todas as outras camisas no mundo. A ela pode-se associar entendimentos que caminham de mãos dadas com a popularização do esporte, que deixara de ser unicamente praticado pela burguesia e passara também a ser jogado por camadas médias e populares. 

Naqueles primeiros anos de Seleção Brasileira, a origem dos atletas que jogavam na equipe era basicamente de uma burguesia presente nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. A partir da dimensão agonística com a qual está envolvida, conquistas do time que a utilizava foram adicionados a sua valoração, assim como a associação de jogadores que se destacaram com seu uso em meio às inúmeras competições. O que aconteceu ao longo das quatro primeiras décadas da sua utilização.

Em 1889, o Brasil havia deixado de ser um império e passou a ser uma República, a intelectualidade da época investia na construção de ideias que pudessem espalhar um sentimento de pertencimento. Uma ideia foi explorada amplamente, a de que esse lugar era receptivo à diversidade étnica, um país de pleno entendimento. 

Um movimento artístico foi um importante agente dessa disseminação de ideias, o Modernismo brasileiro, cujo marco de lançamento, a Semana de Arte Moderna de 1922, completou cem anos. A ação desses artistas impulsionou um Nacionalista Ufanista (OLIVEIRA e FARIAS, Apud Chauí, 2021), que dialogava com aquele time um tanto miscigenado que representava o país no exterior. 

A Semana de Arte Moderna iniciou-se no provincianismo paulista, ampliou-se para algo “legitimamente nacional” em contraposição à visão eurocêntrica das elites e valorizava a diversidade de manifestações populares, era preciso ir “abrasileirando o Brasil” (SANTIAGO, 2004). Daí termos com ‘ginga’ e ‘malícia’ atribuídos positivamente ao jogar do atleta brasileiro (OLIVEIRA e FARIAS, 2021). Nesse contexto já se propunha que um ethos brasileiro seria único e intraduzível, o que seria um motivo de orgulho por trazer características impossíveis de serem copiadas pelos estrangeiros (OLIVEN, 2020). Foi então que os modernistas, na figura de Mário de Andrade, propuseram que era preciso passar da fase do mimetismo da referência europeia para a fase da criação para serem universais, pois já eram nacionais (SANTIAGO, 2004).

Em meio a essa movimentação, Gilberto Freyre desloca o eixo da discussão de “raça” para cultura e atribui a negros, índios e mestiços contribuições positivas na cultura brasileira. A influência envolve estilo de vida de classe senhorial em termos de alimentação, indumentária e sexo. Esse entendimento se referia à mestiçagem como uma grande vantagem, o cruzamento ia além das raças, também acontecia com elementos culturais. “Da ideia dessa dupla mistura, brotou lentamente o mito da democracia racial; ‘somos uma democracia porque a mistura gerou um povo sem barreira, sem preconceito” (MUNANGA, 2019, p.83).

Esse mito permite às elites dominantes dissimular as desigualdades, o que impede membros de comunidades fora da branquitude a ter consciência dos sutis mecanismos de exclusão dos quais são vítimas. O mito ainda encobre conflitos raciais e torna possível que todos se reconheçam como parte de um grupo subalterno. A persuasão de cunho patriótico, as diferenças étnicas,linguísticas, religiosas e econômicas, de onde partiriam os conflitos sociais ficam escondidos para favorecer um ‘nacional íntegro, patriarcal e fraterno, republicano, aparentemente coeso e até democrático’. (MUNANGA, 2019, GUIMARÃES, 2008, e SANTIAGO, 2004).

Voltando ao futebol, a cobertura das primeiras Copas do Mundo de 1930 e 1934 foi feita por jornais impressos e  a primeira a chegar ao Brasil pelas ondas do rádio foi a de 1938, a instantaneidade da informação e facilitação do acesso àquelas narrativas épicas tenha ampliado o alcance da seleção o que ajudou em sua popularização. Devido à sua popularização, o futebol como prática esportiva já era usado entre as décadas de 1930 e 1950 como instrumento para construção da sensação de pertencimento ao país (FREITAS e TRIGO, 2019).

Aquele time que simbolizava a integração nacional e a democracia racial chegou a ser convidado pelo então presidente da República, Getúlio Vargas, no período historicamente chamado de Estado Novo, marcado pela centralização do poder e por ser uma ditadura, para despedir-se dos atletas que partiam para a Copa do Mundo da França, 1938. Gilberto Freyre, nesse período, lançava um texto “Foot-ball Mulato” que versava sobre a miscigenação do povo brasileiro como parte da sua identidade (FREITAS e TRIGO, 2019).

Mas no momento em que esse time já cheio de significados seria alçado a uma grande vitória, sofreu um revés tão grande que a camisa foi aposentada por décadas. A derrota foi dolorosa e épica a ponto de ganhar um nome: Maracanazo. Na verdade o nome foi posto pelos vencedores da partida, os uruguaios, o que não impediu sua adoção por parte dos brasileiros.

Na final da Copa do Mundo de 1950, a primeira realizada no Brasil, teve o país anfitrião disputando a final. Embora dotada de favoritismo por conta de vitórias anteriores na mesma competição e pela performance de seus atletas, a equipe perdeu a partida decisiva por 2 a 1 após tê-la iniciado com 1 a 0. Apesar do selecionado, na época da então CBD, ter se tornado o maior campeão deste torneio em edições seguintes, em sua primeira final terminara como vice-campeão, ou seja, como perdedor justo ao jogar em casa e um estádio construído para esse fim, o Maracanã. A perda da partida e do torneio ganhou ares de uma tragédia nacional. O mito do Maracanazo.

Na época, além de atribuir a derrota a jogadores, em sua maioria negros, outra vilã foi escolhida: a camisa branca. 

Camisa azul: o manto da padroeira

Partindo desta condição atribuída ao uniforme, como se ele fosse capaz de determinar a performance do time e resultados conquistados, optou-se deixá-la de lado (agora a famigerada camisa branca) e adotar um novo padrão para entrar nos gramados. Um jornal da época, o Correio da Manhã, que circulava pela então capital federal, o Rio de Janeiro, com a concordância da CBD, lançou em 1953 um concurso para escolher um novo modelo a ser utilizado e substituir aquela peça do uniforme que passou a ser associada ao “azar”. 

Não se tratava apenas de determinar uma nova camisa, mas o uniforme completo, incluindo calção e meias, o que poderia ser utilizado em outras modalidades esportivas segundo a própria CBD. O vencedor do concurso foi um chargista gaúcho, talvez um possível herói na criação da nova identidade, Aldyr Garcia Shlee, cuja origem está na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, o que lhe conferiu uma característica particular: de ter chorado a derrota brasileira, mas também celebrado a conquista uruguaia (Museu do Futebol, 2017).

Enquanto criava a proposta vencedora, Shlee experimentou uma centena de combinações e, por fim, lançou mão de uma com camisa em amarelo-ouro, com detalhes em verde, acompanhado de um short azul, com detalhes e branco, já que utilizaria todas as quatro cores da bandeira nacional. A camisa seguia sendo de algodão.

A partir de então, a camisa amarela passou a entrar em campo e tornar-se um símbolo da Seleção Brasileira de Futebol e, com isso, herdou significados que vinham de outrora e a receber outros significados. Com o passar do tempo, a cor motivou apelidos como ‘Amarelinha’ ou levou à equipe a ser identificada como ‘Seleção Canarinho’. Apesar de o verde e o amarelo terem sido usados pela equipe no Campeonato Sul-americano de 1916, algo que foi criticado pelas elites da época e posteriormente deixado de lado. (Idem, 2017)

Na primeira Copa do Mundo em que a ‘Amarelinha’ foi utilizada, em 1954, o time foi eliminado nas quartas-de-final do torneio. Na edição seguinte, em 1958, a Seleção Brasileira conquistou o primeiro dos seus cinco títulos mundiais, mas teve que abrir mão da camisa amarela por conta de um sorteio às vésperas da final. A seleção adversária, Suécia, a anfitriã, usava o uniforme com a mesma cor. O chefe da delegação na oportunidade, Paulo Machado de Carvalho, determinou que a cor fosse inspirada no manto de Nossa Senhora Aparecida, santa católica e popular  por ser tida como protetora do país. 

O time da CBD chegou até a vitória usando a cor azul. Enquanto achavam a camisa branca azarada, a azul entrou em campo para a primeira vitória mundial intimamente associada à religiosidade.

Seleção brasileira
Camisas da Seleção Brasileira na Copa de 2022. Fonte: divulgação

Camisa amarela: a semântica da “Amarelinha”

Quatro anos depois, em 1962, quando aconteceu a edição seguinte da Copa do Mundo, a Seleção Canarinho foi campeã do mundo, desta vez ostentando a camisa amarela. O que se repetiu em 1970, 1994 e 2002.

Mas um detalhe sobre essa cor vale ter a atenção nesta superposição de significados. O amarelo da atual bandeira do Brasil que inspirou a camisa amarela da Seleção de Futebol vem da versão do Império do Brasil. Nela, o verde é uma referência à Família Bragança, de Dom Pedro I, e o amarelo à Família Habsburgo, de Dona Leopoldina. Ou seja, chegou ao país trazendo a referência de uma família que representa a nobreza da distante Áustria. A narrativa sobre a atual bandeira passa pelo sol, a energia, a juventude bronzeada e os craques. Mas é também onde alguns brasileiros se afirmam “patriotas”. (OLIVEIRA e FARIAS, 2021).

Além da prática bem realizada por seus jogadores, de onde se cunhou o termo “jogo bonito”, usado por nativos de países onde não se fala português, e sobre o qual não foram encontrados registros claros, a camisa foi vestida por atletas que, a partir das narrativas, ganharam ares heróicos por suas habilidades técnicas e, por extensão, suas conquistas. Mas também de vilões quando reveses nos gramados marcaram a história.

Entre 1958 e 1970 as associações com o nacionalismo variaram. Enquanto em 1958 a festa não contava com a bandeira brasileira, em 1970 ela era encontrada nas festividades de celebração. A festa foi apropriada pelo Estado como cívica (OLIVEIRA e FARIAS, Apud Chauí, 2021).

Chauí propõe o entendimento por duas perspectivas de nacionalismo: o patriótico e o ufanista (presente no Movimento Modernista citado acima). Ela observa a fragmentação deste viés do nacionalismo e em seu lugar a composição do Nacionalismo Patriótico no intervalo de doze anos entre a primeira e a terceira Copa do Mundo conquistada. Enquanto em 1958 a ideologia desenvolvimentista industrial era presente em meio a uma democracia e momento de industrialização trabalhista, em 1970 o cenário já contava com uma ideologia de integração nacional durante um governo ditatorial.

Nesse momento, ouso dizer que apesar do racismo velado pelo mito da Democracia Racial, o uso da camisa amarela por parte de jogadores negros e mestiços que passa, por exemplo, por Pelé, Didi, Garrincha, Jairizinho e chega a outros como Neymar e Vinícius Júnior deve ser encarado como referencial. Num país onde mais da metade da sua população é afrodescendente e se vê tolhida de acesso a bens e protagonismo no mais diversos campos , identificar  destaque, qualidade, inteligência e representatividade em atletas que usam aquele camisa amarela deve ser levado em conta.  

Na década de 1980 os tecidos tecnológicos começaram a substituir o antigo algodão. Primeiro o poliéster e depois o dry-fit passaram a ser usados, sem alterar a coloração amarela das camisas. Com elas em “tecidos tecnológicos”, já após o fim do período da ditadura civil-militar, a Amarelinha encontrou um novo momento de politização partidária, voltando ao nacionalismo patriótico proposto por Chauí. Em protestos pelo impeachment da presidenta Dilma Roussef, de perfil de centro-esquerda, manifestantes usaram a camisa amarela como símbolo de patriotismo e nacionalismo (OLIVEIRA e FARIAS, 2021). 

Na eleição de 2018, quando o representante da extrema-direita Jair Bolsonaro foi eleito, seus apoiadores usam a mesma estratégia daqueles que se manifestaram com Roussef ao se apropriar da camisa amarela da Seleção Brasileira de futebol como se fossem protagonistas na defesa de valores importantes na constituição e manutenção do Brasil enquanto uma nação. A camisa azul chegou a ser vestida por aqueles que queriam se diferenciar dos apoiadores da extrema-direita, assim como os que se utilizaram de camisas vermelhas para marcar seus posicionamentos à esquerda. No entanto, a camisa vermelha, embora impregnada de simbolismos que vem desde a implantação da Comuna de Paris, não encontra ressonância representativa quando se refere à Seleção Brasileira de Futebol. 

Apesar de sentidos que possam ser até paradoxais e as tensões entre política e esportivo, presentes nas Copas de 1970 e 2014, os traços críticos e ufanistas se atenuam quando todos torcem pela vitória da Seleção Brasileira (OLIVEIRA e FARIAS, 2021). A essas edições pode-se somar a de 2018.

 

Conclusão

A Copa de 2022 está prestes a ter seu pontapé inicial, a movimentação da bola no gramado pode inspirar mais deslocamentos de significados.

A camisa que já foi branca, teve a primeira vitória mundial em azul embora siga inquestionavelmente amarela tem um emaranhado de histórias e referências que transbordam uma simples peça de equipamento esportivo (INGOLD, 2012).

Pode-se pensar a camisa da Seleção Brasileira como uma construção cultural humana a partir de uma natureza, que seria o território onde foram estabelecidos os hábitos que os fazem ser chamado de Brasil (Lévi-Strauss, 1950 e 1968). A camisa, independente de sua cor, materializa uma comunidade imaginada que literalmente empilha mitos de formação do país, de heroísmo, pertencimento e de modelos comportamentais dentro de um sistema simbólico que pode ser identificado como Cultura brasileira. E com tantos diferentes significados atribuídos a ela (branca, azul e amarela), impossível analisá-la  como algo isolado. Independente da cor, essa peça de vestuário só faz sentido ao colocá-la em diálogo (ou confronto) com outros dados do universo cultural onde existe, atribuindo a ela sua função simbólica social ou mesmo religiosa. E como o uso dela faz uma ligação entre os vários mitos que explicam o país, a composição de sua população e o sentimento de nação (Lévi-Strauss, 1979).

Por se tratar de algo intimamente ligado à emoção, narrativas épicas constroem com muita facilidade  o que amplia a ressonância de vitórias e derrotas no campo esportivo. E são essas narrativas que podem extrapolar o esporte e se espalhar por diferentes campos. A prática do esporte assim como o consumo do que está no seu redor são elementos do campo cultural deste grupo social que podemos chamar nesse momento de brasileiros.

Esse ajuntamento semântico vem se compondo desde os primeiros momentos. As ideias materializadas sobre a camisa são basicamente ligadas a um sentimento central de nação brasileira, de valores que representam o pertencer a essa comunidade imaginada chamada ‘pátria’. Levando-se em conta que a Proclamação da República se deu em 1889 e em seguida as elites intelectuais brasileiras começaram um longo de esforço de construção da imagem de um novo país que se diferenciava do passado muito ligado à Portugal, a exploração de um time nacional era algo oportuno. 

A ênfase nas origens dos jogadores, a invenção da tradição, a concepção de mito e a ideia de povo único são elementos que vão se conectando na construção da ideia de uma comunidade (MIRANDA E PIRES, 2012). Pode-se imaginar que para o atleta vestir a camisa nesse momento ritual que é o jogo é uma honra e uma responsabilidade que podem ser expressados pelo termo “amor à camisa”. 

No diagnóstico de algumas derrotas, existe o risco de se atribuir à falta de “amor à camisa” que pode ser entendido como descompromisso ou falta de esforço. Por outro lado, quando um atleta demonstra entrega física e técnica durante uma partida esse “amor à camisa” pode ser identificado e valorizado, fazendo do sujeito um tipo de herói ligado à nação.

Na esteira da construção histórica do futebol no Brasil associou-se uma suposta igualdade social, étnica e econômica que são associadas a performances de superação. Esses elementos são articulados como parte de uma identidade do sujeito brasileiro que, por sua vez, são projetados nos jogadores da equipe de futebol. São associações identitárias que convergem na construção de um ideário de nação apoiados em elementos étnicos, religiosos e regionais que se apoiam na diversidade presente no país (OLIVEIRA e FARIAS, 2021).

A cada novo momento que passa, tanto de vitórias quanto de derrotas, a camisa da Seleção Brasileira de Futebol segue incorporando elementos para simbolizar. Enquanto estiver ligada a ritos como partidas de futebol, seus diversos mitos estarão em campo e nas ideias dos amantes do esporte ou não, já que os significados vão além do público praticante e do seus consumidores como entretenimento. Tanto que a recente discussão que perpassa a questão do nacionalismo patriótico vai além dos usuários da camisa, daqueles que jogam bola ou frequentam estádios. Ela traz à tona os mitos do ufanismo à religiosidade, e segue sem conclusão, dando à ela (a camisa) ou aos habitantes da comunidade imaginada chamada Brasil dar novos rumos e criar novos significados. Independente das cores.

 

* Esse texto é uma adaptação do trabalho final chamado “A semântica da “Amarelinha”: a Camisa da Seleção Brasileira de Futebol analisada como totem sob o viés levistraussiano”, que foi apresentado na Disciplina “Análise de Sistemas Simbólicos: Introdução à obra de Claude Lévi-Strauss” do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2022-1). 

Referências Bibliográficas

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FREITAS, Guilherme Silva Pires de; TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi. O processo de transformação do futebol como elemento da identidade nacional brasileiraFuLiA / UFMG. Belo Horizonte, v. 4, n. 3, p. 115-134, 2019.

GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Cor e raça: Raça, cor e outros conceitos analíticos. In: Raça : novas perspectivas antropológicas, Livio Sansone, Osmundo Araújo Pinho (organizadores). – 2 ed. rev. Salvador : Associação Brasileira de Antropologia : EDUFBA, 2008.

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Lévi-Strauss, Introdução à obra de Marcell Mauss, IN Sociedade e Antropologia. 1950

__________, Natureza e Cultura. In Estruturas Elementares do Parentesco, 1968.

__________, Totemismo hoje. Petrópolis. Vozes. 1975.

__________, A via da máscaras. Editorial Presença. Lisboa, 1979.

MIRANDA, Lyana Virgínia Thégida de, e PIRES, Giovani de Lorenzi. Reconstruindo a imagem/identidade da Seleção Brasileira de Futebol: a “Era Pós-Dunga” na Mídia. Revista da Alesde. Curitiba, v. 2, n. 1, p. 17-34, abril 2012

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil – identidade nacional versus identidade negra. 5ª edição revista e ampliada; 2ª reimpressão, Belo Horizonte: Autêntica, 2020

MUSEU DO FUTEBOL. Exposição virtual. Disponível em: https://museudofutebol.org.br/exposicoes/a-historia-da-camisa-canarinho-como-o-amarelo-ouro-passou-a-vestir-o-brasil/#:~:text=A%20cria%C3%A7%C3%A3o%20da%20camisa%20canarinho,segue%20sendo%20utilizado%20at%C3%A9%20hoje.

OLIVEN, Ruben George, FARIA, Louise Scoz Pasteur de, DAMO, Arlei Sander. Da arte de imitar. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 26, n. 56, p. 11-28, jan./abr. 2020

OLIVEIRA, Ramon do Nascimento e FARIAS, Washington Silva de. Os novos sentidos da “Amarelinha”: relações discursivas entre político e esportivo na camisa da Seleção Brasileira na Copa 2018. Recorde, Rio de Janeiro, v. 14, n. 1, p. 1-19, jan./jun. 2021

SANTIAGO, Silviano. O Cosmopolitismo do Pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.

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Vicente Magno Figueiredo Cardoso

Um jornalista que leva seu bairro de origem, Bangu, do subúrbio carioca para todos os cantos. Além de ser um devotado amante do futebol e do samba. Já andou no universo torcedor de França e Estados Unidos, além do brasileiro.

Como citar

CARDOSO, Vicente Magno Figueiredo. A Amarelinha e a disputa entre os seus significados. Ludopédio, São Paulo, v. 161, n. 24, 2022.
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