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A Copa do Mundo feminina, o ponto facultativo e a discriminação das Olimpíadas de inverno

No dia 17 de julho o Governo Federal baixou uma portaria decretando ponto facultativo para os servidores federais durante a Copa do Mundo das mulheres. Segundo nota do próprio governo, a portaria tem o objetivo de dar visibilidade ao futebol feminino, “dar a mesma importância para a seleção feminina que tem a seleção masculina”, disse a ministra do esporte Ana Moser. Através dessa medida inédita o governo abriu precedentes para que estados e municípios tenham a mesma iniciativa.

Alguns estados e municípios agiram no mesmo sentido e anunciaram que seus servidores iniciarão o expediente poucas horas após o fim da partida. Outros disseram que os serviços seguirão sua rotina normal, como se nada estivesse acontecendo. Esse segundo posicionamento foi o escolhido pela rede municipal em que eu trabalho como professor de Educação Física no interior de São Paulo.

Aqueles que optaram por fechar os olhos para a Copa feminina talvez não se lembrem, mas a postura que estão tendo é muito diferente da postura que tiveram ano passado na Copa do Mundo do Catar. Talvez o fato da Copa de 2022 ter sido masculina e a de 2023 ser feminina tenha influenciado na decisão de ignorá-la. Talvez.

Para além do tratamento desproporcional dado à seleção feminina de futebol, que expressa explicitamente o machismo daqueles que comandam o Estado em seus diversos âmbitos, os posicionamentos bastante questionáveis vieram também de colegas professores de Educação Física.

Brasil torcida
Torcedores(as) se reunem para acompanhar a estreia da seleção brasileira de futebol feminino contra o Panamá, na copa do mundo 2023. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil.

Contrapondo o clima de indignação de vários professores, alguns optaram por questionar o porquê do destaque do debate acontecer apenas para o futebol, deixando de lado os diferentes esportes. Outro colega questionou a ênfase na Copa do Mundo, jogando luz em outros megaeventos como as Olimpíadas de verão e inverno. À primeira vista parecem questionamentos justos e nos deixam a sensação de que estamos sendo tendenciosos e privilegiando um esporte em detrimento de outros, mas só à primeira vista.

Caros colegas, o futebol tem uma importância na cultura brasileira que nenhum outro esporte possui. Ele é capaz de acabar com o nosso domingo quando nosso time perde ou de tornar o melhor domingo do ano com uma vitória sobre o rival. Dificilmente existirá uma rua nesse país, por mais longínqua que seja, onde garotos não joguem futebol com qualquer objeto que se mova. Pedaços de pedra, tampinhas de garrafa, latinhas amassadas, qualquer coisa na mente da criança brasileira se transforma em uma bola. É possível fazer análises sociológicas, políticas e econômicas analisando apenas o futebol. A relação do futebol com a sociedade brasileira é umbilical, é um elemento da identidade nacional. Agora, caros colegas, podemos comparar a dimensão que possui o futebol para nós com a dimensão que possui o basquete, o vôlei, o handebol, o críquete, o polo ou a pelota basca? É possível trabalhar pedagogicamente o racismo, o machismo, a desigualdade de classes e história do Brasil através do golfe? Nada contra o golfe e todos os outros, talvez até seja possível, mas com certeza sem a concretude que o futebol proporciona e concretude essa que é imprescindível para se estabelecer uma relação de ensino e aprendizagem.

Quando defendemos a suspensão das atividades escolares para prestigiar a Copa do Mundo feminina de futebol, mas não defendemos a suspensão das atividades para os Jogos Olímpicos de inverno a razão é bem simples: nós não temos neve e são esportes que não praticamos aqui. Não se trata de gostarmos ou não de esqui, curling, snowboard, patinação ou bobsled, é que eles não fazem parte da cultura brasileira. Não se trata de prestigiar uns em detrimento de outros, mas reconhecer a importância que tais esportes tem na cultura do país. Reivindicar paridade nesse sentido seria loucura tal como exigir que as escolas japonesas suspendessem as atividades no dia 7 de setembro, independência do Brasil.

Outro elemento é que os Jogos Olímpicos, sejam de verão ou inverno, possuem diversos esportes com diversas modalidades, com uma intensidade de horários muito maior. Não parece razoável cancelar as aulas por quatro semanas para acompanharmos todos esportistas brasileiros de todas as modalidades. E mais, os alunos em suas casas assistiriam uma partida de badminton com a mesma efervescência e envolvimento que assistem a Copa do Mundo de futebol? Parece que não.

O futebol é um elemento a ser trabalhado continuamente nas aulas de Educação Física escolar. Não pela simples vontade de um professor apaixonado pelo futebol, muito menos pela praticidade –ou até mesmo preguiça, mas pela sua importância cultural. Discordar dessa afirmação é achar normal não ter discutido com os alunos diversos casos de racismo sofridos pelo Vinícius Jr. no futebol espanhol. Ao não discutirmos permitimos que compreensões totalmente equivocadas sobre o tema se propaguem e ganhem as mentes dos alunos. Educar é disputar ideias.

Se o trabalho do professor na escola deveria ser proporcionar aos alunos o saber científico e filosófico para que elas compreendam a realidade, o futebol, sendo parte concreta da realidade, não pode deixar de ser trabalhado. Porém, ao dizer isso não digo que devamos nos importar se os alunos fazem o gol ou não, se conseguem driblar os adversários ou se o passe é feito corretamente. Claro que a dimensão prática é importante para aqueles que nunca experimentaram o futebol, como também para mobilizá-los para uma sequência pedagógica, mas o mais importante na escola é que eles compreendam que o fenômeno praticado quase que diariamente por eles possui história, possui conflitos e está em disputa. Saber que pretos e mulheres já foram proibidos de jogar é mais importante do que aprender a cabecear.

Futebol na escola
Alunos jogando futebol em uma escola do interior paulista.

O futebol, mais do que um esporte de chutes e gols, deve ser constitutivo do saber escolar. Talvez assim, abordando com as crianças o futebol como fenômeno histórico, seja possível que não mais tenhamos professores de Educação Física comparando a Copa do Mundo feminina com os Jogos Olímpicos de inverno.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Como citar

BARCIELA, Francisco Galvão do Amaral Pinto. A Copa do Mundo feminina, o ponto facultativo e a discriminação das Olimpíadas de inverno. Ludopédio, São Paulo, v. 169, n. 25, 2023.
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