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A instrumentalização do futebol na Era Vargas e a centralização política no eixo Rio-São Paulo

Hevilla Wanderley Fernandes 14 de setembro de 2021

Tanto a Segunda República (1930-1937) quanto a Terceira República ou Estado Novo (1937-1945), ambos governados por Getúlio Vargas, foram marcados pela modernização e burocratização do Estado nacional brasileiro a partir de padrões autoritários e centralizadores. Esse processo de reorganização das estruturas de poder, que podemos caracterizar como revolução passiva, marca a transição do Brasil para o capitalismo, com a formação do Estado burguês, a partir de agitações populares que começam na década de 1920 e culminam na Revolução de 1930, e que se prolonga até a década de 1970.

Revolução passiva foi um termo apropriado pelo marxista italiano Antonio Gramsci da tese fundamental do Saggio storico sulla rivoluzione di Napoli[1], do jurista e administrador público napolitano, Vincenzo Cuoco. Essa tese foi publicada pela primeira vez em 1801 e aborda a revolução napolitana que aconteceu em 1799, em consequência da revolução francesa e particularmente das ações de Napoleão. Esse contexto influenciou as classes dirigentes de Napoli. Entretanto, “Cuoco nota que às classes dirigentes napolitanas faltaram coerência e determinação, mas que ao fim das contas o elemento decisivo foi a não participação das massas populares nessa comoção histórica” (DEL ROIO, 2009, p. 60).

Marcos Del Roio (2009, p. 62) destaca que, além de utilizar do termo revolução passiva de Cuoco, Gramsci ainda o aperfeiçoou a partir do conceito do francês Edgar Quinet, através de sua ideia de revolução-restauração. O primeiro termo, advindo de Cuoco, acentua a questão do impacto externo do processo; já o segundo, de Quinet, possibilita que a revolução burguesa italiana seja compreendida como um processo de longo prazo, visto que não acontece em um salto, mas após uma série de “contragolpes” no contexto internacional, que, desse modo, retroalimenta-se e impulsiona as forças sociais italianas a agirem de forma a desenvolverem “restaurações progressivas”.

É a partir dessa leitura de uma revolução sem revolução que Gramsci compreende o Risorgimento[2] como um processo de caráter não popular. E ainda que não tenha sido de tipo jacobino[3], poderia, segundo o marxista sardo, ser definido como uma revolução burguesa, uma vez que, por meio deste processo, o Estado capitalista se consolidou na Itália.

A ausência de expressão da vontade das massas é característica da revolução passiva. E essa chave de leitura contribui para entender o processo de revolução burguesa no Brasil que também ocorre a partir de uma revolução feita pelo alto, ou seja, a revolução passiva no Brasil, trata-se de

um pacto pelo alto entre as velhas oligarquias agrárias e a nascente burguesia industrial, o que conforma um processo de conciliação entre as diferentes frações das classes hegemônicas; a ausência da participação unitária das massas populares e do elemento jacobino, embora não aconteça uma total eliminação das movimentações populares e estas aconteçam eventualmente; bem como ocorre o acolhimento de certa parte das exigências dos de baixo (SOUZA, 2019, p. 107).

Portanto, Getúlio Vargas exerce papel fundamental no processo de revolução passiva do país. Não só por causa dos elementos marcadores desses ajustes, mas também pelo desencadeamento dessas ações, a exemplo das tentativas de controle e centralismo a partir da construção de uma identidade e unidade nacional.

É importante destacar que, na busca dos seus objetivos, o regime varguista também implantou reformas técnicas[4] na perspectiva de construir sentimentos de pertencimento, unidade e identidade nacional. “Assim, todos os elementos ligados ao regionalismo, como crenças populares, ideias separatistas e exaltação da diferença social e econômica entre as diferentes regiões da federação foram severamente combatidos pelo Estado Novo” (PARDINI, 2009, p. 35).

Na tentativa de centralizar a construção de uma identidade e unidade nacional a partir da capital federal da época, o Rio de Janeiro, o regime varguista fez com que emergissem as desigualdades territoriais no Brasil, trazendo consequências desastrosas para as regiões não-centrais de poder e que se tornariam as áreas periféricas.

Getúlio Vargas
O presidente Getúlio Vargas fechando o acordo com Mestre Bimba para a abertura da primeira academia de capoeira no país, reconhecida pela Secretaria de Educação, Saúde e Assistência Pública. Foto: Reprodução redes sociais
A identidade vestida de verde e amarelo

Uma das formas utilizadas para legitimar o Estado autoritário getulista foi a apropriação de símbolos que ganhavam apelo popular, principalmente o futebol, o teatro, o cinema e o samba, apoiada em “princípios elitistas, conservadores, nacionalistas e autoritários” (MIRANDA, 2007, p. 3).

O elitismo contribuiu para desacreditar a sabedoria popular e as teorias de um governo pela maioria. O conservadorismo não foi uma defesa intransigente do status quo, mas uma concepção de mundo onde a ordem, a hierarquia e a tradição tinham papel preponderante. O nacionalismo e o autoritarismo completaram o papel de formação do Estado Nacional (onde se uniu o nacionalismo à unificação do território), com base nos ideais de justiça, “democracia social” e uma “razão de Estado” (MIRANDA, 2007, p. 3).

É nessa visão de nacionalismo e unificação que se começa a germinar o projeto de construção da unidade nacional. O governo varguista expressava a necessidade de diminuir a “presença da herança regionalista proveniente do período denominado pela historiografia de República Velha” (MIRANDA, 2007, p. 3).

Um dos exemplos citados por Melina Nóbrega Miranda (2007) é a cerimônia de queima das bandeiras realizada no Rio de Janeiro, menos de um mês depois do golpe de 10 de novembro de 1937. “Seu objetivo era propagar o artigo 2º da Constituição, onde proibia o uso de quaisquer símbolos, hinos e bandeiras com exceção dos nacionais”. Na ocasião, “as vinte e uma bandeiras estaduais foram queimadas em uma grande pira colocada no centro da praça e, logo depois, vinte e uma bandeiras nacionais foram hasteadas em substituição àquelas”, ao som do hino nacional regido pelo maestro Heitor Villa Lobos em conjunto com várias bandas e um coro de colegiais (Idem, p. 3).

O governo estadonovista considerava o povo incapaz, uma massa ignorante, de modo que cabia ao Estado como única instituição garantidora da coesão nacional, tutelar a população, desempenhando funções de manutenção da paz, da ordem e segurança, além de censura aos órgãos de imprensa e artísticos como teatro e cinema (PARDINI, 2009, p. 46). O Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural, ambos criados na década de 1930, tinham como foco atuar sobre o trabalhador na tentativa de interferir “em seu lazer, vida intelectual, trabalho e saúde” (Idem, p. 46).

Nessa prática de controlar o aspecto simbólico da sociedade, censurando temas contrários aos interesses estadonovistas e exaltando outros favoráveis à consolidação de seus ideais, o futebol como elemento de cultura popular, mobilizador de multidões, foi constantemente trabalhado pelo regime (PARDINI, 2009, p. 46).

Nesse período, o governo contribuiu para burocratização do futebol em “elementos rígidos e hierarquizados em sua estrutura (como regras, ordenação dos clubes e entidades, esquemas táticos e uniformização dentro de campo)” (PARDINI, 2009 p. 78). Já não se tratava apenas de uma diversão popular, mas um aparelhamento do Estado. Se antes o futebol tinha mais aspectos individualistas, agora o coletivismo era destacado como novos valores do cidadão brasileiro.

O processo de oficialização dos esportes se consolidou na criação, em 1941, do Conselho Nacional de Desportos (CND). O CND tinha as atribuições de estudar as matérias e sugerir medidas legislativas relativas à organização desportiva; além de superintender; vigiar; estimular; e organizar os desportos no país. Tinha o poder de autorizar a participação de delegações nacionais em competições internacionais, de fiscalizar e proibir competições ou publicações esportivas incompatíveis com o interesse público e inclusive intervir em qualquer entidade desportiva. Ao CND também foi atribuído o poder de regulamentar os símbolos desportivos nacionais e das expressões utilizadas nos desportos. O decreto-lei também caracterizava as entidades desportivas como entidades patrióticas (SOUZA, 2009, n.p.).

É nesse cenário que o Estado Novo encontra no futebol um forte elemento de unidade nacional e passa a construir, através da seleção brasileira e do jogador Leônidas da Silva, símbolos do país. A seleção brasileira, por ser um importante veículo da “idealização de democracia social do Estado Novo”, e Leônidas, por ser negro e de origem pobre, era o sujeito adequado para exemplificar a ideia de democracia racial, já propagada por alguns intelectuais da época. O mais importante deles, nesse aspecto, era o pernambucano Gilberto Freyre[5].

 Agora, a seleção, ao contrário do período da República Velha, não era mais formada apenas por jogadores brancos e de “boa família. Mas com pobres e ricos, negros e brancos, representando uma única nação” (SOUZA, 2009, n.p.). A seleção brasileira concretizava de fato este símbolo de “união das raças”, entretanto, nem tudo saiu como governo estadonovista e os grupos dominantes tinham planejado. Isso porque, um dos maiores símbolos do futebol nacional na década de 1930 foi Leônidas da Silva, popularmente chamado de Diamante Negro. Era amado pelo povo, mas o governo não conseguia manter o controle sobre a sua imagem.

Como explica Denaldo Souza (2009), Leônidas tinha uma origem humilde, era negro, começara a sua carreira em time do subúrbio e, portanto, tinha tudo para ser o “protótipo do homem brasileiro idealizado pelo Estado Novo”. Entretanto, Leônidas era tudo menos a representação do ideal do Estado Novo deste “homem novo” e representava “uma ética totalmente diferente, muito mais próxima da ética da malandragem, tão difundida na mesma época”, mas vista de forma negativa pelo governo.

Neste contexto, a figura do “homem novo” se destacava, onde os modelos do malandro e do subversivo eram pretensamente neutralizados em favor de uma idealização de cidadão brasileiro como sendo trabalhador e, preferencialmente, negro (GOMES, 1994). Muitos representantes do governo, como Lourival Fontes, Francisco Campos e Gustavo Capanema, já davam a devida atenção aos esportes, compreendendo o poder ideológico e de mobilização que possuíam. No entanto, o processo de intervenção do Estado nos esportes efetivado nas décadas de 1930 e 1940 não ocorreu de forma imediata e, muito menos, linear. Muitas disputas políticas aconteceram na sociedade e dentro do próprio governo para que esse processo fosse concluído (SOUZA, 2009, n.p.).

Mas, apesar de todas as tentativas do governo para a construção desse mítico novo homem, a simpatia e a identificação do povo eram por Leônidas da Silva. A situação era tão complexa que no mesmo ano da criação do Conselho Nacional de Desportos (CND), o jogador foi suspenso pela Federação Metropolitana de Futebol em 16 de junho. Um pouco mais de um mês depois, em 26 de julho, Leônidas era condenado à prisão pela Justiça Militar, sob a acusação de ter falsificado o certificado reservista. Ele ficou preso por oito meses e, após ser liberado, assinou um contrato com o São Paulo (SOUZA, 2009).

A popularidade de Leônidas era tanta que mesmo com a prisão e todas as críticas que recebeu “da imprensa, dos dirigentes esportivos e dos governantes”, ao chegar à capital paulista em 10 de abril de 1942, ele foi recebido por quase dez mil pessoas, que “estavam de vigília na frente da estação ferroviária para recepcioná-lo e carregá-lo”. A sua estreia pelo São Paulo provocou algo inédito no Estádio Pacaembu: um público pagante de 72 mil pessoas (SOUZA, 2009, n.p.).

Transformando-se ou não na imagem do “novo homem”, Leônidas foi usado pelo governo estadonovista como símbolo de união do país, assim como outros jogadores da seleção brasileira de futebol e a própria seleção. Getúlio Vargas soube fazer do futebol uma ferramenta de propagação de ideias de nação harmônica através da “democracia da bola”, construindo no imaginário que o futebol era o esporte mais democrático do país porque juntava ricos e pobres, brancos e negros em um só ideal, o de unir o Brasil para que ele pudesse crescer e se desenvolver. Assim, Vargas cumpre um papel fundamental para transformar a burguesia ascendente em classe dominante no país.

Vargas
Desfile em celebração do dia 1o. de maio no estádio de São Januário 1942. Foto: Arquivo Nacional

A mídia entra em campo

Na década de 1930, ao mesmo tempo em que usava da coerção, por meio das reformas estatais e dos aparelhos de repressão, Vargas também instrumentalizava e controlava os aparelhos privados como a mídia. Esta última cumpriu um importante papel para formar a concepção desse novo país que surgia.

 Durante esse período, a imprensa foi um veículo crucial para propaganda e controle das massas e serviu, principalmente, para popularizar algumas das ideias que perduram até os dias atuais de Brasil, uma delas é que esse seria o país do futebol.

Na formação da identidade nacional e do nacionalismo durante o governo getulista, o futebol é apresentado nos jornais como uma unidade em harmonia, sem conflitos e sendo um esporte coletivo. O esporte das massas torna-se o reflexo da unidade que se buscava no Brasil durante a Era Vargas. O futebol e a política se entrelaçam neste período e a imprensa – controlada pelo Estado – tem o papel de disseminar o “país do futebol” autêntico, singular e com identidade própria (PRATES; CARVALHO, 2016, p 254).

No período de rearranjo político pós-revolução de 1930, houve uma forte intervenção do Estado em diferentes áreas, principalmente, naquelas que tinham mais apelo popular. Com o jornalismo e o futebol ganhando mais importância, o jornalismo esportivo começava a engatinhar e recebia mais destaque nas primeiras décadas do século XX. Em 13 de março de 1931, surgia o Jornal dos Sports, derivação do Rio Sportivo, que circulava duas vezes por semana, no Rio de Janeiro (COUTO, 2017).

O JS é considerado um marco para a imprensa esportiva, principalmente, após a chegada de Mário Filho porque ele revolucionou a forma de ser fazer esse tipo de jornalismo e fez com que o futebol começasse a concorrer com as notícias de política na conquista dos leitores. Além disso, o interesse em estruturar o esporte tinha “como conjuntura o incentivo do Governo Vargas pelas práticas de disciplinarização e organização do esporte, assim como pela ideia de profissionalização do futebol, o que oficialmente ocorre em 1933”. Sendo assim, “o jornal se alinhara com uma política de Estado de enfatizar o sentimento nacional pelos esportes” (COUTO, 2017, p. 4).

Os anos 1930 e 1940 foram marcados pelo cerceamento da imprensa, entretanto, o Jornal dos Sports consegue sair praticamente ileso desse processo. Em grande medida, graças ao alinhamento ao regime das suas duas administrações, tanto a de Argemiro Bulcão, como a de Mário Filho. De acordo com André Couto (2017), em uma matéria de 25 de junho de 1935, o JS transmitia um discurso de alinhamento com as ideias difundidas pelo governo de Vargas de “homem novo” e disciplinado.

Apesar da importância da mídia impressa para a transformação do jornalismo esportivo nos grandes centros, o elemento propulsor da propaganda varguista e da identidade construída através do futebol foi o rádio, uma vez que o índice de analfabetismo no país era altíssimo, superando 60% dos 37,6 milhões de habitantes em meados da década de 1930. Assim, o rádio, mesmo tendo apenas 18 estações, já servia como propagador da cultura e da arte, além de apresentar questionamentos e direcionamentos sobre os rumos da nação, sendo, por um tempo, o principal impulsionador para a nova hegemonia. (JAMBEIRO, 2004).

A regulamentação dos meios e o controle deles iniciado pelo governo Vargas fez com que as diferenças regionais e os interesses de diferentes grupos não tivessem qualquer voz pela forma como a comunicação de massas foi desenvolvida no país.

Como explica Othon Jambeiro (2004, p. 117), através do Decreto nº 5.077, de 29 de dezembro de 1939, que aprovaria o regimento do DIP, Vargas proibia “a publicação de notícias ou comentários que, entre outras consequências, pudessem criar conflitos sociais, de classe ou antagonismos regionais”.

É importante discorrer sobre a articulação dos meios de comunicação e a sua centralização geográfica no Rio de Janeiro enquanto centro político, bem como em São Paulo enquanto centro financeiro, por meio do governo estadonovista para compreender elementos fundamentais que dão suporte à centralidade sociopolítica, econômica e cultural nesses dois estados. Ou seja, a hegemonia dos interesses localizados no chamado Eixo Rio-São Paulo. Uma hegemonia que não se expressa e encontra suporte apenas no futebol, mas em diferentes campos, inclusive nas artes, na mídia e no jornalismo.

A localização das principais emissoras de rádio e, posteriormente, emissoras de TV no eixo Rio-São Paulo, e sua profusão, beneficiadas principalmente pelo desenvolvimento econômico, político e cultural desses estados, fez com que, além da seleção brasileira, alguns clubes também construíssem uma imagem perante milhões de brasileiros espalhados por todo o território do país. Assim, não apenas o futebol era um esporte de massas e a seleção, a paixão nacional, mas agora existiam times de massas.

O favorecimento inicial a esses times, tanto pela sua localização geográfica como pela visibilidade a partir dos aparelhos do Estado, auxiliou a propagação nacional desses clubes, aumentou a visibilidade deles e de seus jogadores e gerou os ganhos materiais com patrocínios e com receitas a partir também do crescimento de público nos estádios. Isso possibilitou, entre outras coisas, a conquista de títulos, a revelação de jogadores e a produção de ídolos. Esses êxitos dentro de campo geravam mais disseminação na mídia e mais arrecadação, promovendo um ciclo vicioso de causa e efeito.

Os times que estavam em evidência conseguiam mais dinheiro, mais torcida e títulos, assim, garantiam mais ganhos. Um ciclo que perdura ainda hoje com times que construíram as maiores torcidas do Brasil, entre eles, estão o carioca Flamengo e o paulista Corinthians, mas não somente eles. Outros times paulistas e cariocas também têm milhões de torcedores em todo o país.

É o que indica a última pesquisa Datafolha publicada em 17 de setembro de 2019. De acordo com os dados, um em cada cinco brasileiros torcem pelo Flamengo, o que representa 20% da preferência de quem acompanha futebol no país. A equipe carioca lidera em três das cinco regiões brasileiras, perdendo apenas na região Sudeste para o Corinthians, mas por uma diferença de apenas 1%. No Sul, O Flamengo fica em quarto com 4%, atrás de Grêmio (23%), Internacional (17%) e Corinthians (11%).

Entretanto, a nível nacional e nas demais três regiões, o time carioca é soberano. Em termos de preferência nacional, o Flamengo é seguido pelo Corinthians, com 14%; São Paulo, com 8%; Palmeiras, com 6%; Vasco, com 4%; e Cruzeiro, com 4%. O Grêmio é o primeiro clube fora do Sudeste que aparece entre a preferência dos torcedores com 4%. O primeiro time nordestino que surge na lista é o Bahia, com 1%, na 13ª posição. Outros times nordestinos como Sport, Fortaleza, Vitória e Ceará também chegam a 1%. Clubes que não atingiram 1% não foram mencionados.

O que esses dados comprovam é que o futebol não pode ser analisado como um fenômeno descolado da realidade concreta da sociedade atual. É preciso reafirmar que a constituição do Estado brasileiro se deu de forma autoritária, elitista, conservadora e não popular, o que acarretou em desigualdades nos mais diversos aspectos políticos, econômicos, sociais, culturais, entre tantos outros em todo o país.

No futebol, essas desigualdades podem ser sentidas nas diferenças de investimento, torcida, títulos, visibilidade de times, jogadores, símbolos de clubes que são do eixo Rio-São Paulo daqueles que não o são, principalmente dos times que localizados nas regiões mais pobres do Brasil como a Norte e Nordeste. Por isso, é importante compreender que as disparidades de qualquer tipo que são sentidas nos dias de hoje, foram construídas há e por aproximadamente um século.

Notas

[1] Ensaio histórico sobre a revolução em Nápoles, em tradução livre.

[2] Ressurgimento, em português. Trata-se do movimento que buscou unificar a Itália entre 1815 e 1861. Até então, a Itália era fragmentada e formada por diferentes reinos.

[3] De acordo com o verbete do Dicionário Gramsciano, escrito por Rita Médici (2017), nos Cadernos, o jacobinismo foi transformado por Gramsci em uma categoria histórico-interpretativa fundamental. Para o autor sardo, o termo “jacobino” assume “dois significados: o de um partido específico da Revolução Francesa, com um determinado programa e que exerceu sua ação de partido e de governo com um método ‘caracterizado por uma extrema energia’” (MÉDICI, 2017, p. 870). Ao questionar os fracassos ocorridos na Itália de ter um governo popular, de construir uma vontade coletiva, Gramsci encontra nas diferentes revoluções burguesas de França e Itália uma importante chave de leitura. Enquanto na França a revolução é ativa, de tipo jacobina, realizada pela irrupção das massas a partir de uma forte luta que assegurava uma ligação entre campo e cidade, na Itália, é passiva, feita pelo alto, pelos poderes moderados e praticamente sem participação das forças populares (MÉDICI, 2017). 

[4] Durante a Segunda República e o Estado Novo, Getúlio Vargas realizou algumas reformas para aparentemente “ampliar os direitos da classe trabalhadora, mas que na prática concediam regalias para as elites dominantes” (BOUNTIN; DA SILVA; 2015, p. 4487). As reformas aconteceram na educação, na saúde, na infraestrutura, na legislação eleitoral e também em outras áreas. Por exemplo, foram criados ministérios como o da Educação e o da Saúde, o Departamento Nacional do Trabalho e ainda o Departamento de Imprensa e Propaganda. Reformas foram feitas para ampliar e padronizar o ensino no país, como a Reforma de Francisco Campos.

[5] Ao publicar o ensaio Casa-grande & Senzala, em 1933, Gilberto Freyre difunde o mito da chamada democracia racial no Brasil, a partir do qual afirma que, apesar do passado escravocrata do país, todas as raças convivem harmoniosamente.

Referências

BOUNTIN; Aldimara Catarina Brito Delabona; DA SILVA, Karen Ruppel da. As reformas educacionais na Era Vargas e a distinção entre o trabalho manual e o trabalho intelectual. In: Encontro Nacional sobre Atendimento Escolar Hospitalar, 9, 2015, Curitiba.

COUTO, André Alexandre Guimarães. O Jornal dos Sports e sua Trajetória: uma Breve História a partir de seus Cronistas (1931-1958). Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 40, Curitiba, 2017.

DATAFOLHA. Time de preferência.  Acesso em 5 mar. 2020.

DEL ROIO, Marcos. A mundialização capitalista e o conceito gramsciano de revolução passiva. In: Marx, Gramsci e Vigotski: aproximações / organizadores: Sueli Guadalupe de Lima Mendonça, Vandeí Pinto da Silva, Stela Miller. Araraquara, SP: Junqueira & Marin; Marília, SP: Cultura Acadêmica, 2009.

JAMBEIRO, Othon, et al. Tempos de Vargas: o rádio e o controle da informação [online]. Salvador: EDUFBA, 2004.

MÉDICI, Rita. Jacobinismo. In: LIGUORI, Guido; VOZA, Pasquale (Orgs.). Dicionário gramsciano (1926-1937). – 1. ed. – São Paulo: Boitempo, 2017.

MIRANDA, Melina Nóbrega. Futebol e o projeto de unidade nacional no Estado Novo (1937-1945). Simpósio Internacional Processo Civilizador, X, Campinas-SP, 2007.

PARDINI, Melina Nóbrega Miranda. A narrativa da ordem e a voz da multidão: o futebol na imprensa durante o Estado Novo (1937-1945). Dissertação de mestrado, PPGHS/USP, 2009.

PRATES, Kelen Katia Silva; CARVALHO, Carlos Eduardo Souza de. Políticos, intelectuais e futebol: a construção da identidade nacional durante a Era Vargas: os políticos, os intelectuais e o futebol. Revista Outras Fronteiras, Cuiabá-MT, vol. 3, n. 1, jan/jun., 2016.

SOUZA, Ana Karoline Nogueira. A atuação dos militares na revolução passiva brasileira. Dissertação de mestrado, PPGSS/UFPB, 2019.

SOUZA, Denaldo Alchorne de. Futebol e resistência cultural no Primeiro Governo Vargas (1930-1945). EF Deportes – Revista Digital, Buenos Aires – Año 14 – Nº 131 – Abril de 2009.

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Hevilla Wanderley Fernandes

Formada em comunicação social - jornalismo e mestre em Ciência Política e Relações Internacionais, pela Universidade Federal da Paraíba. Compõe a Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte.

Como citar

FERNANDES, Hevilla Wanderley. A instrumentalização do futebol na Era Vargas e a centralização política no eixo Rio-São Paulo. Ludopédio, São Paulo, v. 147, n. 20, 2021.
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