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Nacionalismo, populismo e futebol na Era Vargas

O Estado Nacional brasileiro se consolidou de fato após 1930, quando Getúlio Vargas e seu grupo político ascendeu ao poder por meio de um golpe militar, destituindo a elite que dominava desde 1894. Naquele contexto, era fundamental para o governo construir uma identidade nacional. Dessa forma, foi necessário que o Estado forjasse uma cultura popular capaz de demonstrar a tão procurada integração social. Nesse momento, o futebol passou a ser um dos símbolos mais atrativos do novo regime.

O debate sobre o uso do futebol com propósitos políticos-ideológicos, ferramenta de afirmação nacional, ocorria na Europa desde o fim da Primeira Guerra Mundial, em países como Itália e Alemanha. No período entre guerras, o esporte, assim como o rádio, a imprensa e o cinema, foi fundamental no processo de incorporação de símbolos nacionais ao cotidiano do cidadão comum.

No Brasil, para fomentar a união nacional, era necessário colocar um fim em todos os símbolos e identidades regionais. O país era marcado pelo federalismo da Constituição de 1891, que atiçava os movimentos separatistas, os regionalismos e atrapalhava o processo de unificação da identidade nacional. Após o golpe de 1930, Vargas passa a centralizar o poder no Executivo Federal.

Getúlio Vargas
Propaganda getulista com o objetivo de estimular a identidade nacional. É importante observar que há apenas crianças brancas. Fonte: reprodução

É nesse contexto, que se realiza a Cerimônia das Bandeiras, organizada na Esplanada do Russel, no Rio de Janeiro. Ela tinha como objetivo colocar em prática o Artigo 2º da Constituição, em que era proibida a utilização de símbolos, hinos e bandeiras que não fossem nacionais.

O propósito dessa cerimônia era anunciar a submissão dos governos estaduais ao poder do Governo Central. As 21 bandeiras dos estados foram queimadas em uma pira no centro da praça, e no lugar foram hasteadas 21 bandeiras do Brasil.

Durante os quase 15 anos de seu governo, Getúlio Vargas buscou construir a imagem de condutor da nação (para um futuro mais próspero e moderno). principalmente durante a ditadura do Estado Novo. Essa tendência vinha sendo construída desde o inicio de sua presidência, com a fundação do Departamento Oficial de Publicidade. O marco desse processo de tentativa do Estado de controlar a informação e promover Vargas, foi a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão diretamente subordinado ao presidente.

O DIP agiu no sentido de utilizar e controlar o cinema, o rádio, a imprensa, a literatura social e política. O órgão tentou promover os valores mais importantes para o governo -o nacionalismo e o trabalho- por meio de jornais, revistas e músicas populares, encomendadas pelo regime.

Um exemplo de música que foi censurada pelo regime, foi “O Bonde de São Januário”, de Wilson Batista, de 1940. A letra era uma exaltação da malandragem, contrapondo-se à cultura do trabalho, principal foco do Estado Novo.

“O bonde de São Januário
Leva mais um sócio otário
Sou eu quem não vou trabalhar”

Após a censura, a letra ficou:

“O bonde de São Januário
Leva mais um operário
Sou eu quem vou trabalhar
(…)
Antigamente eu não tinha juízo
Mas resolvi garantir meu futuro
Vejam vocês
Sou feliz e vivo muito bem
A boêmia não dá camisa a ninguém, é
Vivo bem”

A construção da imagem de Vargas como condutor da nação, estava diretamente atrelada ao populismo. Getúlio ficou cristalizado como o “pai do pobres”, “defensor dos humildes” e “estadista à frente de um Brasil autenticamente brasileiro”, muito por causa das diversas melhorias trabalhistas que promoveu, sendo imortalizadas pela Consolidação das Leis de Trabalho (CLT). Ela abrange uma série de direitos e benefícios para os trabalhadores urbanos, como: direito a férias remuneradas, jornada de trabalho padrão de oito horas por dia, regime especial de trabalho para mulheres e jovens, garantia de estabilidade de emprego após de dez anos de serviços e, talvez a mais relevante, a instauração definitiva de um salário mínimo.

Cartaz propaganda do DIP, com faixa que celebra o aniversário do Estado Novo. Fonte: Memorial da Democracia

Pessoalmente, Getúlio não era um personagem que se encaixa nesse papel que buscava exercer. De baixa estatura, era recheado de traços elitistas, como o chapéu Gelot, os charutos, o gosto pelo golfe e o desinteresse pelo futebol. No entanto, a grande massa via nele uma figura paternal, cuja altura e o “sorriso bondoso” se destacavam. A máquina de propaganda tratou de se aproveitar desses aspectos, a ponto de ele ser chamado de “nosso querido baixinho”.

É nesse contexto de construção de identidade nacional e nacional-populismo, que o futebol ganha proporções que extrapolam o lúdico.

O futebol arte

O futebol brasileiro, de estilo individualista, exibicionista e irreverente, resistiu à tentativa de Getúlio Vargas de cooptá-lo como instrumento político. O Estado Novo (1937–45) tentou concretizar seu objetivo de construir uma nação ordenada e disciplinada por meio do jogo. No entanto, havia aspectos no esporte que confrontavam esse plano.

O Estado Novo tinha uma concepção de estilo bem clara: ordenado, disciplinado e coletivo. No entanto, no Brasil sempre existiu um estilo genuíno de se jogar, agressivo, libertário e individualista, sempre prezando pela malemolência e pela malandragem.

O estilo libertário se sobrepôs ao estilo disciplinado desejado pelo Estado. Ficando ainda mais evidente por conta de Leônidas, também conhecido como “Diamante Negro” (sim, tem tudo a ver com o chocolate). O melhor e mais conhecido jogador do momento era negro, malandro e de um estilo de jogo completamente individualista. Essas suas características conflitavam com os valores fundamentais do Estado Novo.

Mesmo não gostando de futebol, Getúlio viu no futebol e, especialmente, em Leônidas uma possibilidade de ferramenta de propaganda. Fonte: Futebol de todos os tempos

Na época em que Leônidas começou a desfilar sua habilidade em campo, diferentemente de hoje em dia, ser jogador de futebol não era algo bem quisto. Para ser um sujeito respeitável, era preciso ser médico ou advogado.

Leônidas transmitia a imagem oposta da que Getúlio Vargas desejava. Além de um excepcional jogador de futebol, ele era um grande exemplo a juventude e a população periférica, que não gozava das regalias da elite carioca, e via no futebol uma maneira de ascensão social.

A propaganda entra em campo

Através do controle da imprensa, o governo tentou inúmeras vezes adulterar a imagem de Leônidas, como quando afirmou que ele era um “mestiço a serviço da nação”, mas o que a população mais admirava nele era seu jeito descompromissado e brincalhão.

A inauguração do Estádio do Pacaembu, em São Paulo, no ano de 1940, foi utilizado como forma de propaganda do governo. Outro exemplo de divulgação política foi a Copa do Mundo de 1938. Aquele foi o primeiro mundial em que o Brasil de fato levou uma seleção nacional, uma vez que em 1930 e 1934 praticamente todos os convocados eram do Rio de Janeiro.

A disputa entre São Paulo e Rio de Janeiro sobre quem detinha o melhor futebol do país, era um resquício do regionalismo do período federativo pré-1930, entre os dois polos mais importantes do país. Isso causou um conflito dentro da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), sobre como a seleção deveria ser organizada. Nas copas do mundo de 1930 e 1934, apenas jogadores da então capital federal foram convocados. Esse choque entre os dois estados muitas vezes levou os jornais a trocarem ofensas quando ocorria uma partida entre um time paulista e um carioca.

Preocupado em desenvolver um sentido de unidade nacional, o governo proporcionou a formação de um escrete composto pelos melhores jogadores da nação para promover o futebol e a imagem do Brasil ao resto do mundo.

Leônidas
Leônidas durante jogo da seleção brasileira contra a Tchecoslováquia na Copa do Mundo de 1938. Fonte: CBF

A Seleção Brasileira era o veículo perfeito para dar tangibilidade à idealização de democracia social do Estado Novo. Diferente do período da República Velha, em que eram selecionados apenas jogadores brancos e de famílias ricas.

Quando o torcedor brasileiro assistia a seleção jogar, na verdade estava se olhando no espelho do país, e mais importante ainda, se sentia fazendo parte dele. Foi a isso que se referia José Lins do Rego após o escrete nacional derrotar o Uruguai na Copa Rio Branco de 1932:

“Os rapazes que venceram, em Montevidéu, eram um retrato da nossa democracia social, onde Paulinho, filho de família importante, se uniu ao negro Leônidas, ao mulato Oscarito, ao branco Martim. Tudo feito à boa moda brasileira, na mais simpática improvisação”. (Mário Filho, “O Negro no Futebol Brasileiro”).

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João Luiz

Graduando em geografia pela Universidade Estadual de Campinas. Campineiro. Santista.

Como citar

SANTOS, João Luiz Aguiar Giordan. Nacionalismo, populismo e futebol na Era Vargas. Ludopédio, São Paulo, v. 157, n. 7, 2022.
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