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A Liga da Canela Preta como movimento reivindicatório de acesso ao esporte

Regis Fernando Freitas da Silva 21 de janeiro de 2022

O futebol é um exemplo que consegue explicar a reivindicação de prática esportiva, porém é necessário remontar a vinda do futebol ao Brasil e como se deu a inserção desse esporte no Brasil, pois para analisar a segregação que os negros sofrem no futebol, faz-se oportuno estabelecer um ponto histórico inicial para chegar até a Liga da Canela Preta. Uma vez que futebol no Brasil teve viés elitista, em razão da sua prática ser realizada em clubes sociais da elite brasileira, dessa forma, excluindo da prática esportiva os segmentos mais pobres da população, predominante negra.

Com a chegada do futebol em meados de 1894, rapidamente o esporte de populariza, porém é voltado para a elite branca, ainda ressaltando que negros não eram aceitos pelos clubes sociais para a prática do futebol (GUTERMAN, 2009). Justamente, após esse momento que começam a surgir os clubes de futebol no Brasil[1]  e também em Porto Alegre – aqui objeto do estudo – que não teve característica diferente na introdução do futebol, com diversas similaridades em outras regiões do país.

Nesse movimento de chegada do futebol ao Brasil, havia também uma transição social, pois ainda tínhamos reflexos do escravagismo, até porque, o fim da escravidão, do Império, e a generalização das relações de trabalho livre, não superaram os vícios aristocráticos da sociedade brasileira, muito menos a caraterística de uma sociedade escravocrata. Assim, com a abolição da escravatura, os negros recém libertos não tinham qualquer tipo de inserção na sociedade, desta forma tornando praticamente impossível recomeçar uma nova vida (BALZANO, 2010).

Ou seja, com o fim do escravagismo e as práticas aristocráticas fizeram que os negros não pudessem se inserir socialmente e até mesmo impossibilitados de vender sua força de trabalho. Nessa seara, esses aspectos criaram e reforçam a prática de preconceito para a inclusão dos negros na indústria nascente e no setor de serviços, fatos que refletiram no futebol brasileiro. (BALZANO, 2010)

Mesmo com esses problemas de inclusão e possibilidades de uma vida com uma liberdade de fato, e ainda uma blindagem da prática esportiva para uma exclusividade da elite branca, e reforçando o aspecto segregador, assim o futebol teve o condão de romper essa lógica elitista, segundo Jesus:

 “… traz em si processos dramáticos e representativos de problemáticas centrais da sociedade. Inicialmente reduto exclusivo das elites, tal esporte rapidamente rompeu os círculos aristocráticos para ganhar as ruas e tornar-se entretenimento popular de largo alcance”. (1998, p. 1).

Vale destacar que a presença de jogadores negros e mestiços nos clubes pequenos eram toleradas pela elite branca, desde que fosse mantida a hegemonia dos clubes sociais e não houvesse a abertura para o grupo social excluído não ocupasse esse lugar. Cabe ressaltar, que dentro dessa lógica é possível analisar a Liga Nacional de Futebol Porto Alegrense, conhecida como a Liga da Canela Preta, uma vez que está dentro desse contexto histórico.

Justamente nesse cenário histórico que a Liga da Canela Preta foi criada para possibilitar a participação de atletas, que não tinham possibilidade de participar desses clubes. Diante dessa exclusão a liga promoveu o ingresso de jogadores oriundos da classe pobre, principalmente dos negros.

O Observatório da Discriminação Racial traz alguns elementos que listam os clubes que compunham a Liga, pois a competição contava com nove times, todos organizados com diretorias, técnicos e sócios. Entre os disputantes, destacaram-se o Bento Gonçalves e o Rio-Grandense. Também eram participantes o Primavera, o Primeiro de Novembro, Oito de Setembro, União, Palmeiras, Aquidabã e Venezianos, todos os times oriundos da comunidade negra, como Cidade Baixa, Ilhota, Colônia Africana e Areal da Baronesa.

Liga da Canela Preta
Cruzeirinho de Novo Hamburgo, um dos times que participou da Liga Nacional de Futebol Porto-Alegrense. Fonte: Reprodução

A partir desse sucesso da Liga da Canela Preta, houve a criação de uma nova liga na década de 1920, organizada pela Associação Porto-Alegrense de Desporto (APAD), que seria a segunda divisão do futebol em Porto Alegre, que foi batizada com o nome de Liga do Sabão, permitindo a participação de atletas negros, assim esse fato que começou a chamar a atenção dos clubes brancos que buscavam convencê-los a ingressarem em seus times.

Aqui observa-se a lógica de esvaziamento da liga autônoma, no caso da Liga da Canela Preta, uma vez que tinham torcedores, sócios e ótimos atletas, e para que fosse mantida a hegemonia da Liga voltada para a elite, houve o esvaziamento dos jogadores de destaque da liga que permitia a participação de negros e mestiços. Assim progressivamente, foi extinguindo a Liga da Canela Preta.

Observa-se que seu sucesso acaba chamando a atenção das ligas hegemônicas, que em razão de uma ameaça da sua hegemonia acaba esvaziando a liga que causa esse tensionamento. E nesse momento que é feita a inclusão de uma minoria, através dessa ameaça hegemônica, que acaba refletindo a perpetuação do preconceito, pois é feito em razão de um interesse puramente hegemônico.

Aqui será utilizado alguns trechos do livro Liga da Canela Preta: A história do negro no futebol, que revela como as práticas de preconceito era comum a época e também como os negros se organizaram para criar espaços de resistência e até mesmo de ascensão social através do futebol. Um dos momentos escolhidos foi uma coluna assinada por Lupicínio Rodrigues que explica porque é torcedor do Grêmio, uma vez que se tratava de um time de elite que não permitia que negros jogassem no clube. Lupicínio relata que o Rio-grandense fez um pedido para se inscrever na Liga hegemônica da época, a liga de brancos, mas o Internacional não aceitou a inscrição, gerando assim um motivo para que os negros torcessem para o Grêmio. Assim ele diz:

Este sonho durou anos, mas no dia em que o Rio-Grandense pediu a inscrição na Liga, não foi aceito porque justamente o Internacional, que havia sido criado pelo “Ze Povo”, votou contra, e o Rio-Grandense não foi aceito. Isto magoou profundamente os mulatinhos, que resolveram torcer contra o Internacional, e o Grêmio, sendo o maior rival, foi o escolhido para tal. (SANTOS, 92-93, 2019).

Esse trecho da entrevista publicada em uma coluna de 1963, demonstra como os clubes e as entidades de administração do esporte, se utilizavam de formas para manter sua hegemonia, inclusive o Internacional que nega a participação do Rio-Grandense, acaba contratando jogadores negros para jogar no clube. Isso, reforça o aspecto hegemônico que é exercido pelas grandes ligas e seus associados. Em outro relato da mesma coluna, Lupicínio remonta o cenário racista da sociedade, pois criavam mecanismos para não participação de negros no esporte, seja na prática como até mesmo na participação do quadro social de um clube:

O Grêmio foi o último time a aceitar a raça, porque em seus estatutos constava uma clausula que dizia que ele perderia seu campo, doado por uns alemães, caso aceitasse pessoas de cor em seus quadros. Felizmente, essa clausula foi abolida, e hoje tenho a honra de ser socio honorário do Grêmio e ter composto seu que público ao pé desta coluna. (SANTOS, 92-93, 2019).

Com essas negativas arraigadas no preconceito racial os clubes criados por negros, tinham grande força e prestigio, bem como a criação de clubes sociais que alguns se tornaram clubes de futebol, mas mantinham diversas ações destinadas a população negra, como por exemplo a Associação de Amadores, que em dezembro de 1926, organizou jogos para beneficiar a Sociedade Religiosa Beneficente Africana, essa mesma sociedade havia organizado um evento no mesmo ano no dia 13 de maio, que era uma quermesse que durou 3 dias. Assim, podemos perceber que a religiosidade de matriz africana fazia parte do futebol e demais atividades sociais dos negros. (SANTOS, 2019).

Em outra passagem é demonstrado que havia até uma atividade de circulação da imprensa negra, tudo a partir dos clubes de futebol que estreitavam os laços da população negra espalhada no Rio Grande do Sul, segue:

As vinculações políticas em defesa dos negros, a circulação nos mesmos espaços, os envolvimentos em projetos comuns, as ligações pessoais, afetivas e parentais, tudo aproximava o interior da capital. Cachoeirenses e porto-alegrenses, dentre outros cidadãos, aproximaram suas trajetórias, servindo como exemplos de protagonismo e ascensão social. (SANTOS, 92-93, 2019).

A escolha da Liga da Canela Preta é justamente para trazer a reflexão de como o esporte também pode tensionar as relações sociais, principalmente quando há reivindicação de um direito, no caso, o acesso ao esporte. É importante esse caráter de organização dos times de futebol, pois podem ir além da prática esportiva, mas criar formas de organização política e buscar soluções para o grupo social em questão.

Sendo assim, esse texto buscou de alguma medida apontar como é importante a organização social de grupos sociais que são marginalizados, bem como, através dessa organização é possível reivindicar direitos, mesmo que seja o acesso ao esporte – que é um direito fundamental –  mas da necessidade dessa construção coletiva para criar fissuras em estruturas hegemônicas.

Notas

[1] No livro XX Gutemann, traz fotos da elite brasileira assistindo as primeiras partidas de futebol em São Paulo, que foi o berço do início da prática do futebol” (BRASIL, 1998, pg 23-24).

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Regis Fernando Freitas da Silva

Graduado em Direito pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (2013) e pós-graduação em Direito Desportivo e Gestão no Esporte pela FBT/Ineje (2019). Mestre em Direito pela Universidade La Salle(2021). Professor, pesquisador e advogado de Direito Desportivo.

Como citar

SILVA, Regis Fernando Freitas da. A Liga da Canela Preta como movimento reivindicatório de acesso ao esporte. Ludopédio, São Paulo, v. 151, n. 20, 2022.
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