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Racismo: Vinícius Jr. e a nova fronteira do preconceito no esporte

José Paulo Florenzano 13 de abril de 2024
Vinicius Jr.
Vinicius Junior, A partida da UEFA Champion League RB Leipzig vs Real Madrid no Red Bull Arena. Foto: vitaliivitleo/Depositphoto.

A história do esporte evidencia a presença de inúmeras estratégias de racismo. Sem perder de vista as especificidades de cada contexto cultural, pode-se dizer que elas foram utilizadas por diversas estruturas de poder, sempre em articulação com os processos mais amplos em curso nas sociedades ocidentais. Além disso, convém salientar que essas estratégias modificam-se e se atualizam ao longo do tempo, invertendo muitas vezes a lógica racial que as orienta e define.

Sendo assim, impõe-se a seguinte indagação: qual estratégia encontra-se por trás dos ataques recorrentes a Vinícius Júnior na Espanha? Desdobrando a questão: por que, como tem questionado a imprensa especializada, ele foi o “escolhido” pelos racistas mais militantes nos estádios de futebol?

Para abordar essas questões, convém situar em uma perspectiva histórica e comparativa as estratégias usadas e as escolhas feitas pelo racismo no campo esportivo, tomando como referência as trajetórias de atletas afrodescendentes nos Estados Unidos, no Brasil e na Espanha.

Nos Estados Unidos, Jackie Robinson tornou-se em 1947 o primeiro afro- americano a atuar na Major League Baseball. Os adversários, no entanto, submeteram-no a todo tipo de provação. As “regras” do jogo, assinala o historiador Jules Tygiel, não permitiam ao atleta do Brooklyn Doodgers reagir aos insultos e combater as ofensas.

De acordo com o presidente da equipe novaiorquina naquela época, ele estava com “as mãos amarradas às costas”. Só lhe restava “sorrir”, “ser gentil”, demonstrando com esse comportamento que não se importava em ser “incomodado”, nem mesmo quando os adversários, como ocorrera contra o Philadelphia Phillies, lançavam mão de todo o vasto repertório racista para atingi-lo.

A estratégia baseada na segregação racial, porém, estava com os dias contados. Pouco a pouco, na esteira do sucesso comercial que a contratação do primeiro atleta afro-americano havia provocado no beisebol, as demais ligas profissionais estadunidenses passaram a promover a integração racial, caso da National Basketball Association. Em 1956, Bill Russel, contratado pelo Boston Celtics, fez sua estreia na liga. Na partida disputada no Missouri, contra o St. Louis Hawks, ouviu dos torcedores adversários os gritos de “volte para a África, babuíno!

A integração racial no esporte não implicava o fim das agressões verbais, ao contrário, elas se tornavam mais estridentes e constantes, instituindo-se como uma expressão “natural” do espetáculo.

De fato, no Brasil, elas eram interpretadas pelos agentes brancos do campo esportivo como parte integrante da cultura futebolística. Nem mesmo Pelé escapava aos xingamentos de “macaco”, proferidos com regularidade nos estádios paulistas. Em 1965, durante uma partida realizada em Ribeirão Preto, contra o Comercial, o jogador do Santos foi implacavelmente perseguido, dentro de campo, pelos zagueiros adversários, fora das quatro linhas, pelos torcedores locais, mediante a exortação de “volte para a Guiné, vagabundo!

Mais adiante, já na condição de tricampeão do mundo, Pelé teve de lidar com uma forma mais sutil e ardilosa de racismo. Em 1971 ele havia anunciado a decisão de não jogar mais pela Seleção Brasileira para se dedicar com mais tempo às atividades.

Todavia, enquanto Pelé reivindicava o direito de se deslocar no espaço social, trocando o calção e as chuteiras pelo terno e gravata, expoentes da imprensa esportiva, setores do público torcedor e agentes da ditadura militar acusavam-no de traidor da pátria, identificavam-no como mercenário, exigindo que ele voltasse atrás e continuasse a servir ao país dentro das quatro linhas, isto é, na condição de atleta de futebol, exibindo a “humildade” de sempre.

Se, no início do século passado, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, a estratégia racista visava impedir a entrada dos atletas de ascendência africana nas ligas e nas equipes, a partir dos anos setenta, ela sofria uma inversão, canalizando os afrodescendentes para a atuação no campo esportivo, isto é, para o lugar social que lhes cabia por “natureza”.

A nova estratégia racista, no entanto, comportava um risco inesperado. De fato, ela pressupunha que os atletas afrodescendentes se comportassem de acordo com as regras impostas a Jackie Robinson. Porém, nos anos sessenta, atletas de uma nova geração, Bill Russel, Muhammad Ali, Kareem Abdul Jabbar, respaldados pela ascensão dos movimentos sociais, de Martin Luther King tanto quanto o de Malcolm X, entraram em cena para converter o ringue de boxe, ou a quadra de basquete, em plataformas de informação e afirmação crítica, subvertendo a ordem sociorracial instituída no campo esportivo.

Compreende-se, assim, a referência à figura de Muhammad Ali feita por Vinícius Júnior na entrevista coletiva concedida antes da partida entre Brasil e Espanha, em Madrid, em março de 2024. Ela responde, em parte, à pergunta que tem sido formulada com insistência a cada vez que ele se vê alvo de ataques racistas: “Por que você foi o escolhido?”

As escolhas do racismo não são aleatórias, decerto, mas nem sempre recaem sobre os atletas mais combativos. Jackie Robinson foi “escolhido” porque era preciso definir, no momento em que começava a ruir a segregação racial no campo esportivo, as condições de participação dos atletas negros nas equipes e ligas brancas. Pelé foi “escolhido” porque era fundamental reafirmar o lugar dos negros na sociedade, associando-os às atividades identificadas como físicas, enquanto aos brancos continuavam a ser reservadas as funções consideradas intelectuais.

Vinícius Júnior, por sua vez, foi “escolhido” porque, no quadro da ascensão do fascismo – nos Estados Unidos, na Espanha ou no Brasil -, os jogadores negros devem se submeter às regras outrora impostas a Jackie Robinson, isto é, devem atuar com as “mãos amarradas às costas”, ou, como quer a âncora da Fox News, Laura Ingraham, reagindo em 2018 às críticas de LeBron James ao governo da extrema direita no país: “Cale a boca e drible!”. Eis a nova fronteira do racismo no esporte.The Conversation

José Paulo Florenzano, Professor of Social Sciences, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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José Paulo Florenzano

Possui graduação em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1994), mestrado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (1997), doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (2003), e pós-doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Doutorado do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é coordenador do curso de Ciências Sociais e professor do departamento de antropologia da PUC-SP, membro do Conselho Consultivo, do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, em São Paulo, membro do Conselho Editorial das Edições Ludens, do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre o Futebol e Modalidades Lúdicas, da Universidade de São Paulo, e participa do Grupo de Estudos de Práticas Culturais Contemporâneas (GEPRACC), do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Tem experiência na área de Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia Urbana, Sociologia do Esporte e História Política do Futebol, campo interdisciplinar no qual analisa a trajetória dos jogadores rebeldes, o desenvolvimento das práticas de liberdade, a significação cultural dos times da diáspora.

Como citar

FLORENZANO, José Paulo. Racismo: Vinícius Jr. e a nova fronteira do preconceito no esporte. Ludopédio, São Paulo, v. 178, n. 14, 2024.
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