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A Seleção Brasileira de Fernando Diniz: cultural ou contracultural?

Gabriel Orenga Sandoval 7 de dezembro de 2023

No final do jogo entre Brasil e Argentina, no Maracanã, no dia 21/11, ouviu-se, em uma das transmissões que estava fazendo o jogo, uma aproximação entre a forma que Fernando Diniz monta suas equipes e o contraculturalismo. Tal movimento teve seu início na década de 60 e buscava, como o próprio nome diz, realizar um movimento contrário à cultura vigente. O que se vislumbrava afirmar, ao menos me parece, é que Fernando Diniz busca fomentar um futebol que se direcione em sentido contrário àquilo que se estabelece. Tudo isso ancorado em outra comparação realizada na mesma transmissão: se Diniz joga um futebol contracultural, Ancelotti joga um futebol cultural.

A dificuldade de se manter tal afirmação se dá na busca por compreender o conceito de cultura. Assim, recorro a Muniz Sodré. Segundo ele, “a noção de cultura pode ser simplificada como “cultivo do sentido” – cultivo no “terreno” misterioso do mundo, busca de identificações no real inesgotável, portanto a perspectiva que um grupo humano tem de si mesmo” (Sodré, 2017, p. 12). Ou seja, a cultura é simplesmente a maneira com que determinada população se enxerga. Ao enxerga-la de tal maneira, os times de Fernando Diniz não podem ser considerados contraculturais: sua maneira de jogar é fundada na busca, como ele já disse em diversos momentos, de realçar a importância do jogador, desarticulando, assim, de uma visão que o concebe como mais um elemento dentro do processo, mas levando-o como o protagonista de tudo isso.

Por conta de gostar de ter a bola, as pessoas me associam ao Guardiola. Mas para aí. A maneira dele ter a bola é o oposto da minha. Nos times do Guardiola, com dois minutos você vê que os jogadores obedecem a um espaço. Quem está na direita fica na direita, quem está na esquerda fica na direita e a bola chega naqueles espaços. Claro que o Guardiola foi modificando, os laterais, como o Cancelo, passam. O jeito que eu vejo nesse momento é quase que aposicional. Os jogadores migram de posição. É um jogo mais livre, a gente se aproxima nos setores do campo e nesses setores, há trocas de posição. Acho que isso tem a ver mais com a cultura do nosso futebol (Miranda, 2023).

Assim, a perspectiva que Diniz tem dos jogadores faz com que, coerentemente, o jogo que ele induz a suas equipes jogarem se distancia marcadamente da maneira com que se joga na Europa. Sendo diferentes populações, distintas maneiras de se jogar. Jogadores como Danilo e Emerson Royal, respectivamente, que jogam na seleção e na Europa reiteram tal discurso.

Ele tem razão quando diz que é difícil implementar uma ideia de jogo em tão pouco tempo e diferente do habitual. É um jogo de movimentação diferente do jogo mais posicional que estávamos acostumados aqui na seleção e na maioria dos clubes. Depende da disponibilidade e paciência para entender que não acontece do dia para a noite, paciência do externo (Mota, 2023, s/p).

Fernando Diniz Brasil
Foto: Thais Magalhães/CBF/Fotos Públicas

São muitos jogadores novos, mudou o time praticamente todo. A gente tem um outro estilo de jogo, não é o mesmo do Tite. A torcida tem que entender isso. Não é fácil jogar assim. Poucos times no mundo jogam assim. O que o Diniz vem fazendo com a Seleção é uma coisa muito difícil (Redação do GE, 2023, s/p)

A fala de tais jogadores escancara, além dos aspectos culturais dissonantes entre esses países e, por conseguinte, a forma de sentir o jogo, a peculiaridade e estranheza que tal maneira de jogar provoca nestes jogadores. Sabendo que ao chegarem na Europa eles, necessariamente, adaptam-se à perspectiva que se tem em tal lugar sobre o futebol, ao pousarem em território tupiniquim estranham a lógica de um jogo que não tem como imperativo a posição no campo, como ele mesmo apontam: “Primeiro, temos que ter consciência de sair completamente de um jogo posicional para um jogo totalmente disposicional (sic), o que é uma coisa que é tipo água e vinho. Precisa ter tempo para se adaptar ao estilo de jogo” (ESPN.com.br, 2023, s/p).

Tal fenômeno assemelha-se àquilo que o Rufino (2019) anuncia como o carrego colonial. Segundo ele, o colonialismo condicionou e condiciona, à muque, muitas das maneiras de se obter conhecimento em favor do pensamento eurocêntrico. Nada distinto do que ocorre com o futebol. A maneira considera ‘certa’ (ou cultural, nas palavras do jornalista) de se jogar futebol está ancorada na Europa com os valores lá desenvolvidos e, assim, os jogadores brasileiros que lá chegam devem, inegociavelmente, se adaptar. Quando retornam para o Brasil, carregados da visão que não condiz com a aprendizagem deles, precisam se despir (ou descarregar) daquilo que lhes foi incutido como o futebol moderno e passar a perceber, além da falácia que constitui a ideia de modernidade, a possibilidade de enxergar que há outras formar de se jogar futebol com eficácia.

De tal maneira, não é somente a falta de treinamentos que desembocam na dificuldade de fazer a Seleção Brasileira ser um time bem resolvido entre o modelo de jogo e seus jogadores, já que se viu em diversos momentos as equipes que comandou se transformarem rapidamente, mas, em adição a isso, há a influência do embaralhamento de conceitos que assombra tais jogadores. Em um lugar, devo realizar tal ação. Em outro, algo totalmente distinto. O processo de reaprendizagem destes jogadores corresponde à terceira educação: a primeira corresponde ao ambiente informal e formal em território brasileiro, a segunda é a ressignificação do futebol em território europeu e a terceira, a reordenação entre cultura e forma de jogar na Seleção Brasileira.

Portanto, se há algo contrário que os times de Fernando Diniz se direcionam não é a cultura (ela é a mais respeitada neste processo), mas a colonização. Para usar um termo de Antônio Bispo dos Santos, o futebol de Fernando Diniz é contracolonial, já que não tem os vícios e manias que são importadas de fora do país, devido a real relação com a cultura. Essa é a origem da dificuldade de colocar em prática, já que vai de encontro a tudo que é feito, mas também da beleza que tem tal jogo. Tenhamos paciência, pois somente assim o futebol brasileiro continuará sendo – ou voltará a ser -, como gosta de afirmar Wisnik (2008), o emplasto Brás Cubas que deu certo.

Referências

ESPN.com.br. (2023). Danilo explica lesão que o tirou de empate da seleção e diz se joga contra o Uruguai. https://www.Espn.Com.Br/Futebol/Selecao-Brasileira/Artigo/_/Id/12720672/Danilo-Explica-Lesao-Tirou-Empate-Selecao-Diz-Se-Joga-Contra-Uruguai.

Miranda, L. (2023). O que é o “jogo aposicional” que Diniz citou no Bem, Amigos! como sua filosofia tática. https://Ge.Globo.Com/Blogs/Painel-Tatico/Post/2022/09/20/o-Que-e-o-Jogo-Aposicional-Que-Diniz-Citou-No-Bem-Amigos-Como-Sua-Filosofia-Tatica.Ghtml.

Mota, C. (2023). Danilo elogia relação humana de Diniz e pede “resgate do orgulho brasileiro” pela Seleção. https://Ge.Globo.Com/Futebol/Selecao-Brasileira/Noticia/2023/09/05/Danilo-Elogia-Relacao-Humana-de-Diniz-e-Pede-Resgate-Do-Orgulho-Brasileiro-Pela-Selecao.Ghtml.

Redação do GE. (2023). Emerson Royal comenta estilo de Diniz na Seleção: “Não é fácil jogar assim.” https://Ge.Globo.Com/Futebol/Selecao-Brasileira/Noticia/2023/11/22/Emerson-Royal-Comenta-Estilo-de-Diniz-Na-Selecao-Nao-e-Facil-Jogar-Assim.Ghtml.

Sodré, M. (2017). A cultura como crise. Políticas Culturais Em Revista, 10(1), 11. https://doi.org/10.9771/pcr.v10i1.24535

Wisnik, J. M. (2008). Veneno Remédio: o futebol e o Brasil. Companhia das Letras.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Como citar

SANDOVAL, Gabriel Orenga. A Seleção Brasileira de Fernando Diniz: cultural ou contracultural?. Ludopédio, São Paulo, v. 174, n. 7, 2023.
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