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Andrés Rueda e o Santos: reflexões sobre a austeridade no futebol

Pedro Zan 31 de março de 2022

Austeridade. Um termo que anda muito presente no vocabulário da mídia e da política no Brasil há alguns anos. Em suma, a austeridade significa políticas de corte de gastos e redução em orçamentos visando o equilíbrio das contas no futuro. Foi o que Temer fez em 2016, com a elaboração de uma PEC que implementou o teto de gastos em diversas áreas do financiamento público por 20 anos. A austeridade é uma estratégia muito comum em países que passam por crises econômicas gravíssimas, como aconteceu na Grécia em 2015, ano em que a União Europeia colocou em votação um referendo para implementar medidas de austeridade no país – e o povo grego disse não.

Os cortes sempre significam, no âmbito da economia política, uma piora nas condições sociais de diversos grupos sociais, especialmente os mais pobres e os aposentados, que sofrem reduções ou até cancelamentos dos auxílios recebidos pelo governo. Tudo em prol de um supostos equilíbrio das contas. Trata-se de uma lógica econômica neoliberal, ou tecnocrata, como disse Maria da Conceição Tavares, conhecida economista portuguesa erradicada no Brasil, em uma entrevista para o Roda Viva. É a lógica de primeiro estabilizar, então crescer e só depois distribuir (primeiro crescer o bolo para depois dividi-lo, né Delfim?). Para Tavares, isso é uma falácia, pois, pensando em economia de um país, não estabiliza, não cresce e não distribui.

Mas e o futebol? Onde entra nessa discussão?

Claro que economia nacional e economia de um clube são coisas distintas, não defendo o contrário. Mas o discurso da “austeridade” já adentrou as discussões da mídia esportiva e na política dos clubes, especialmente no Brasil. Em um país em que a maioria dos clubes sobrevivem apesar de dívidas monumentais, a ideia de cortar gastos para equilibrar as contas e, dentro de alguns anos, voltar a investir forte é atrativa. E esse discurso é vendido amplamente, tendo como base “casos de sucesso”, como o do Flamengo, que passou alguns anos entre 2012 e 2017 sem disputar grandes títulos (e até correndo riscos de rebaixamento) até se tornar a potência econômica e esportiva que é hoje, e o do Palmeiras, que entre 2011 e 2014 viu times sofríveis e até um rebaixamento para a Série B, tudo para, a partir de 2015, se tornar talvez o principal clube brasileiro no período.

Contudo, o que esses discursos às vezes deixam de lado, são as particularidades de cada um desses casos, que talvez não se repitam em outros clubes, como o próprio Santos. O Flamengo sempre foi a maior torcida do país, o que acarreta um faturamento alto com patrocínios e cotas de televisão, de modo que o rubro-negro sempre tinha uma receita bem maior do que a de seus rivais no Rio de Janeiro e até outros clubes grandes do país. Claro, por muito tempo, a dívida consumia boa parte desse dinheiro e o acerto das contas passou a permitir que esse recurso fosse utilizado apenas para o esporte. Mas, nem todo time tem esse mesmo faturamento. Já o Palmeiras, por outro lado, por mais que tenha acertado as contas, contou também com a chegada de um novo “mecenas”: a Crefisa, que injeta uma quantia gigantesca de dinheiro no Verdão desde 2015. Talvez não sejam todas as equipes tenham a mesma “sorte”. Será que o modelo de austeridade serve para todos os clubes brasileiros?

Digo isso para refletir sobre o Santos. Um clube que nunca faturou como o Flamengo com patrocínio, receita e cota de televisão, que não possui nenhum patrocinador multimilionário disposto a investir no clube como o Palmeiras, mas que vive hoje um momento de austeridade. O atual presidente, Andrés Rueda, foi eleito justamente com essa plataforma: cortar gastos, pagar dívidas e equilibrar as contas, inclusive admitindo que “não sabe nada de futebol” na campanha (um verdadeiro tecnocrata). Sem dúvida o Peixe precisava disso, especialmente depois do grau de endividamento do clube desde a gestão de Odílio Rodrigues, que culminou em um FIFA Ban em 2020 e em inúmeros protestos trabalhistas. Porém, será que não é importante investir um pouco no futebol?

Um clube de futebol é, antes de mais nada, um clube de futebol. Seu carro chefe, o que gera receita é o esporte jogado. Isso em todas as modalidades: no futebol masculino, feminino e nas categorias de base. Por mais que seja um negócio lucrativo, o esporte depende do desempenho para de fato gerar receita. Um clube fatura quando conquista premiações em torneios, quando conquista seu torcedor, seja para o estádio, seja para a compra de produtos ou para se associar, e quando atrai patrocínios, que se interessem por estampar seu nome na camisa do clube. Por mais que seja necessário equilibrar as contas, abrir mão completamente do “ganha pão” de um clube de futebol pode significar, em muitos casos, uma diminuição das receitas (e até um agravamento da crise). Ficar de fora das fases finais do estadual, ser eliminado precocemente na Copa do Brasil, não conseguir uma vaga em competições internacionais ou até ser rebaixado para uma Segunda Divisão significa uma diminuição grande nas receitas, ou seja, menos dinheiro em caixa, inclusive, para a “estabilização” econômica.

André Rueda
Presidente do Santos, Andrés Rueda Foto: Pedro Azevedo/Santos FC./Divulgação.

Como ficou claro desde a chegada de Rueda ao Santos, a palavra da vez no alvinegro é: austeridade. O clube vendeu seus principais jogadores da temporada de 2020 por um valor muito abaixo do que deveria, especialmente nos casos de Diego Pituca, Lucas Veríssimo, Luan Peres, Kaio Jorge e Soteldo. Para seus lugares, trouxe jogadores “deixados de lado” pelos seus clubes, como Camacho e Marcos Guilherme, além de apostar, como sempre, na base. Depois do quase rebaixamento no Paulista (em que não poderia haver contratações por causa do FIFA Ban), o Santos caiu na fase de grupos da Libertadores, nas quartas da Copa do Brasil e da Copa Sul-Americana, e quase foi rebaixado para a Série B. O fraco elenco viu pouquíssimos reforços chegarem para 2022, apenas Eduardo Bauermann e Ricardo Goulart, dois que vieram de graça. Resultado: mais um ano brigando contra o rebaixamento no Paulistão (e dessa vez sem Transfer Ban). O desempenho fraco se reflete também no número de treinadores que já passaram pelo clube desde que Rueda assumiu: cinco, já contando Bustos, o atual comandante. 

Como bem colocou o colega Felippe em seu último texto, o futebol não é prioridade no Santos. O objetivo de Rueda em sua gestão é um só: cortar gastos, pagar dívidas e só quando estiver estabilizado as finanças do clube, investir em futebol. Por um lado, o objetivo de Rueda vem sendo cumprido: o Santos vem conseguindo pagar e renegociar suas dívidas e vai, aos poucos, estabilizando suas contas. Mas a que preço? O torcedor santista, hoje, não enche mais a Vila Belmiro e precisa lidar com um time incapaz de classificar no Paulistão, acendendo a luz amarela para o Brasileiro e um possível e inédito rebaixamento para a Série B. E o pior é o desempenho. O Santos hoje depende de atuações mais do que divinas de seu goleiro para pensar em conquistar pelo menos um ponto. A defesa é uma peneira e o ataque não compensa. Continuando assim, a temporada de 2022 será mais uma de desespero para o torcedor alvinegro. E isso não só no futebol masculino profissional: a gestão de Rueda fez cortes importantes nas categorias de base e no time feminino do Santos, abrindo mão de treinadores e atletas com potencial. No geral, o desempenho do Santos em competições de base e de futebol feminino piorou muito desde que Rueda assumiu o clube. Será que não seria possível uma alternativa?

Tavares, na mesma entrevista para o Roda Viva, defende que estabilização, crescimento e distribuição devem acontecer simultaneamente, pois não se trata de um processo em etapas – as necessidades acontecem ao mesmo tempo, por que tratá-las de outra maneira? Será que não é possível pensar em algo parecido no futebol? Ao invés de apenas cortar gastos, vender jogadores e fazer poucas ou quase nenhuma contratação, por que não tentar manter investimentos? Claro, dentro de uma outra realidade, a de um orçamento mais curto. Mas é possível fazer direito: com um bom departamento de análise de desempenho, é possível garimpar talentos em clubes menores no Brasil ou até em outros mercados (por que olhamos tão pouco para os mercados sul-americano, norte-americano e até africano?) e não ficar especulando jogadores como William Maranhão. Acredito que a contratação de Fabián Bustos já é um sinal interessante, no caso, investir um pouco mais em um treinador que seja mais capaz de fazer o elenco jogar além do esperado – e já mostrou sinais disso, dado que o desempenho ofensivo da equipe já melhorou em comparação com o time de Fábio Carille, anotando 7 gols em 4 jogos, mas com uma defesa que precisa se acertar. Só penso que isso deveria ter sido feito no início da temporada, e não com “o bonde andando”.

Obviamente que fazer isso exige coragem e convicção no projeto, o que é difícil no futebol brasileiro. Vimos o que aconteceu com Holan em 2021 (“Libertadores é obrigação”), quando a torcida e a gestão interna geraram uma pressão desproporcional sobre o treinador, que se viu obrigado a deixar o cargo, sem o apoio da diretoria. Vejamos como será o decorrer da temporada, mas penso que é possível pensar em uma alternativa à austeridade completa no futebol. Por que não olhar para casos como o do Fortaleza, clubes com orçamento baixo, mas que investe o pouco que tem em jogadores e treinadores que são capazes de colocar a equipe no G4 do Brasileirão e na fase de grupos da Libertadores? Em um clube de futebol, o futebol não pode jamais deixar de ser prioridade.

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Pedro Zan

Quase formado em Filosofia na Unicamp, mas bom mesmo é falar de futebol. Santista desde sempre, também tenho um podcast, "Os Acréscimos", e sou um dos administradores da página "Antigas Fotos do Futebol Brasileiro".

Como citar

ZAN, Pedro. Andrés Rueda e o Santos: reflexões sobre a austeridade no futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 153, n. 37, 2022.
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