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Existe filosofia de clube?

Felippe Guimarães 29 de novembro de 2021

No dia 5 de setembro de 2021 o Santos anunciou a contratação do treinador Fábio Carille, que chegava com a difícil missão de livrar o time do maior vexame de sua história, o rebaixamento à série B do Campeonato Brasileiro. E, até o momento que escrevo este texto, tem conseguido cumprir sua tarefa. O Santos se encontra na 12ª posição na tabela faltando 4 jogos para o fim do campeonato e com um risco de rebaixamento de 7,5%, segundo departamento de matemáticos da UFMG. Se realmente o rebaixamento não se confirmar, Carille obteve êxito em seu trabalho e cumpriu com o que se esperava dele. Mas agora, trago aqui uma reflexão ao leitor, a que custo se deve entregar o resultado a troca de filosofia de anos de um clube?

Para explicar melhor, vou trazer um pouco da minha visão. O Santos Futebol Clube sempre foi conhecido como um time ofensivo, que joga pra frente e busca o gol independente do resultado no placar. Talvez isso tenha começado lá nos anos 60 quando tínhamos na equipe nada mais, nada menos que o melhor jogador da história do futebol, o rei Pelé, e ao seu lado um esquadrão que foi quase imbatível durante essa década. Posteriormente a isso temos algumas gerações de meninos
da vila que cumpriram bem com essa tradição, como num passado mais recente com a geração de Neymar, que era famosa pelos placares elásticos como 5×3 ou 4×2, eram equipes que tomavam muitos gols mas por outro lado sempre faziam muitos e conseguiram ser vencedoras, e de quebra tornaram o Santos o time com mais gols até hoje na história do futebol mundial. Na minha opinião essa é a filosofia do clube, isso é o tal DNA ofensivo que a mídia sempre relaciona ao alvinegro
praiano, porém, Carille nunca demonstrou ser adepto dessa proposta.

Fabio Carille
Foto: Reprodução/Twitter Santos FC

Carille começou a carreira como auxiliar de Mano Menezes no Corinthians, e assim que teve a oportunidade, assumiu como treinador principal e foi campeão paulista e brasileiro em 2017, com um primeiro turno histórico no campeonato nacional, além de se consagrar tricampeão paulista dois anos depois. E por mais que tenha esse currículo de qualidade, nunca foi um treinador ofensivo, sempre foi conhecido por sua proposta retranqueira e defensiva, normalmente escalando times no seu famoso 4-1-4-1, ou até com 3 zagueiros e 2 volantes como vem fazendo no Santos.

E tudo bem, ele vem cumprindo com seus objetivos no time da Vila, mas é sofrível ver o Santos jogar, é um time que não se interessa em ter a bola, parece sem vontade no momento ofensivo, e sonolento na troca de passes. Na defesa o retrospecto é interessante, o time vem sofrendo menos gols do que na era do Fernando Diniz, mas joga o jogo todo por uma bola, ou por um lance isolado de Marinho que praticamente joga sozinho no setor ofensivo do time, e ao meu ver isto não é Santos Futebol Clube. Aqui não basta só ganhar como talvez seja em outros clubes, aqui tem que jogar o nosso jogo, o jogo que a torcida se acostumou e se apaixonou a ver, o resultado aqui tem que vir aliado de bom futebol.

Tudo bem, entendo que a situação do time não é fácil, o elenco é pobre de recurso e o risco de rebaixamento ainda é eminente e serei grato a Carille mesmo discordando das suas filosofias se realmente ele ajudar a tirar o Santos desse vexame, mas espero que pra temporada que vem, a diretoria e a comissão técnica reflitam sobre essa filosofia de jogo que abordei neste texto, acredito no potencial de Carille de, pra próxima temporada, com alguns reforços de fora ou da base possa montar um time efetivo e ofensivo, e que caso não seja capaz, que busque outros caminhos e libere o cargo para algum treinador disposto a ser eficiente sem abdicar dos princípios que transformaram esse clube no maior do Brasil.

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Felippe Guimarães

Graduando em educação física, santista da gema desde 1996.

Como citar

GUIMARãES, Felippe. Existe filosofia de clube?. Ludopédio, São Paulo, v. 149, n. 33, 2021.
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