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Campeonatos e copas: Possibilidades de compreensão do circuito do futebol varzeano de São Paulo (SP)

Este texto integra a série especial Santa Marina, o circuito varzeano de SP e a preservação dos clubes esportivos populares, publicada na coluna Em defesa da várzea do portal Ludopédio. O principal objetivo é colocar em debate a urgência de garantir a reprodução e continuidade das práticas populares esportivas e culturais nas cidades brasileiras. Os textos, que serão publicados quinzenalmente ao longo de 2023 e 2024, apresentarão as atividades, etapas, metodologias, resultados e principais reflexões do “Mapeamento do Futebol Varzeano em São Paulo”, realizado em 2021, sob encomenda do Núcleo de Identificação e Tombamento (NIT) do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Prefeitura do Município de São Paulo, a fim de reunir subsídios para identificar práticas culturais relacionadas ao futebol de várzea e para analisar processos administrativos de proteção do patrimônio cultural. Além disso, diante de um contexto marcado por reiteradas ameaças aos espaços urbanos onde se pratica o futebol popular, esta série busca colocar em discussão o caso do Santa Marina Atlético Clube (SMAC), clube amador centenário cujo espaço de atuação vem sendo ameaçado por um pedido de reintegração de posse pela multinacional Saint-Gobain.


Campeonatos, festivais, projetos sociais e práticas culturais. A partir de tais categorias, o eixo “eventos” da pesquisa em epígrafe foi organizado e desenvolvido. 

Na publicação anterior dessa série, apresentamos um panorama de tais categorias, exemplificando dinâmicas pretéritas e contemporânea que nos permitem compreendê-las como bases para que o futebol de várzea possa ser compreendido enquanto um circuito. 

No caso dos campeonatos, categoria de eventos varzeanos que será o enfoque do presente texto, foram apresentadas, no texto anterior, as características gerais das competições que figuram na várzea de São Paulo (SP), citando um conjunto de exemplos de diferentes períodos, lógicas organizativas e abrangência (local/regional/metropolitana). 

A seguir, trataremos de tais competições em seções específicas, mobilizando diferenças e similaridades como forma de contribuir ao entendimento do circuito do futebol varzeano de São Paulo. 

Cumpre antecipar que a abrangência e o conjunto de equipes participantes das competições pesquisadas foram fundamentais para viabilizar o mapeamento idealizado, de acordo com os objetivos da pesquisa que apresentamos nesta série

Super Copa Pioneer

A Super Copa Pioneer foi criada pelo time Pioneer Football Club na comemoração de seu aniversário de 35 anos. A equipe da Vila Guacuri, região sul de São Paulo, foi fundada em 05/06/1981, tendo alcançado amplo reconhecimento no circuito varzeano após os títulos da Copa Kaiser São Paulo e Nacional, em 2010. 

Importante destacar que a Copa Kaiser foi a principal competição varzeana  entre os anos 1995 e 2014, deixando um vazio de competições de grande porte após sua interrupção. Com o foco na produção de um campeonato bem organizado e que fosse uma “vitrine” varzeana, a diretoria do Pioneer, em sintonia com reconhecidos dirigentes de equipes amadoras de São Paulo, organizou-se para ocupar essa lacuna, construindo um campeonato próprio, com um regulamento rígido, boas premiações, parcerias e patrocínios. Assim, o surgimento da Super Copa Pioneer, em 2016, foi um novo marco na história do futebol de várzea de SP. De acordo com Favero (2019), a disputa desta Copa passou a demarcar certa “distinção” entre equipes de SP, ou seja, uma noção de “elite de várzea”, potencializada pelo fato de oportunizar participação de dezenas de equipes, de diversas regiões da metrópole e municípios vizinhos, sobretudo das regiões sul e leste. Nessa tendência,  jogadores e torcedores desencantados com as transformações do futebol profissional, potencializaram a várzea como um espaço social de possível interação e ascensão social a partir do futebol.

Pioneer
Distribuição das equipes participantes da Super Copa Pioneer 2019 por zona da cidade de São Paulo. Fontes: Geosampa (2021); MyMaps (Google); Informações cedidas pelos clubes.
Pioneer
Municípios da RMSP com equipes participantes na Super Copa Pioneer 2019. Fontes: Geosampa (2021); MyMaps (Google); Informações cedidas pelos clubes.

Inicialmente com capital próprio do dirigente Sergio Ricardo, a competição passou a incentivar as agremiações a investirem na montagem de seus elencos e na profissionalização de suas atividades. À primeira vista, esse movimento parece apenas atestar a hegemonia de um modelo de futebol que consegue exportar suas produções simbólicas, dos mais famosos estádios da Europa para os campos sintéticos das periferias São Paulo. Contudo, a movimentação em torno desse evento e a trajetória de seus personagens indicam uma relação mais complexa no diz respeito à relação com o lazer e a projeção profissional vislumbrada. 

Exemplo desta complexidade são as empresas patrocinadoras, que há poucos anos não eram reconhecidas no universo do futebol varzeano. Diante da capilaridade geográfica do torneio e a adesão do público adulto masculino, das classes C e D,  as agremiações esportivas e seus espectadores/torcedores têm contribuído com a robustez assumida pela Copa, mobilizando as atenções dos investidores de grande, médio ou pequeno porte. Empresas destacadas como a Claro, Itaipava, Puma, Bifarma, Netshoes e Salgadinhos Torcida figuram nessa lista, sendo destacável que, em 2019, a competição adotou a denominação Super Copa Pionner Claro, em referência a concessionária de telefonia móvel, telefonia fixa, banda larga e TV por assinatura, mobilizando assim mais aportes econômicos. 

Mesmo com tal amplitude, o evento também potencializa iniciativas de uma cadeia produtiva periférica e popular, um empreendedorismo que envolve as especificidades do futebol varzeano, a exemplo da própria loja da equipe do Pioneer, bem como a Nenê Pipas, Palombo Sports, BR Cirúrgica,TVila, Uniex e Eurosports. Trata-se de empresas de pequeno e médio porte, majoritariamente ligadas à produção de equipamentos esportivos e atuantes na várzea há algum tempo. Ademais, são ativados comércios e serviços locais: vendedores ambulantes, pequenos bares e lanchonetes, ubers, transportes coletivos e vans, etc. 

A logística de organização das partidas é conduzida voluntariamente por aproximadamente 90 organizadores-colaboradores, aos sábados e domingos, por 16 horas por dia e divididos em dois campos o campo do CDC Dorotéia, localizado no Jardim Dorotéia, na região Sul, e a “arena” Santa Amália, em Santo Amaro, ambos bem estruturados e com gramado sintético. Em 2021 (edição 2020, devido à pandemia), durante os 4 meses de realização, mesmo com os prejuízos alavancados pela pandemia, cerca de 400 mil pessoas circularam pelo evento, em aproximadamente 200 partidas. Cada equipe conta com 32 pessoas entre jogadores e comissão técnica, além  12 a 15 pessoas representantes de suas diretorias. 

A presença de torcidas e torcedores é uma informação de difícil quantificação exata e por vezes é condicionada ao controle máximo dos espaços ocupados pelo torneio. Vale destacar que com o afunilamento desse campeonato, espectadores oriundos dos bairros competidores passam a abarrotar as arquibancadas, árvores, ruas, pontos de ônibus e gramados dos dois principais campos ocupados pelo evento. As finais costumam ser oferecidas a locais mais prestigiados e com maior capacidade, sendo a última delas disputada no Allianz Parque. 

As equipes participantes são escolhidas a partir de um criterioso processo de seleção entre dirigentes, que extravasa os históricos das equipes dentro de campo, uma vez que considera penalidades, punições para torcida e jogadores, podendo inclusive haver a exclusão do time da edição vigente, bem como de edições futuras da competição, além de outras nove competições associadas. 

Boletim do Comitê Disciplinar da Super Copa Pioneer 2020/2021
Boletim do Comitê Disciplinar da Super Copa Pioneer 2020/2021

 

Da trilha sonora à taça orelhuda, a Super Copa Pioneer espelha-se no maior evento de relevo do futebol profissional internacional: a Liga de Campeões da Europa,  fato que potencializou o alcance através das redes sociais, além de quantificar e qualificar seus indicadores a cada edição. 

Canal da TV Super Copa Pioneer 2020/2021 apresentado no dia 22/11/2021, após a final do campeonato. (Fonte: redes sociais Pioneer).
Canal da TV Super Copa Pioneer 2020/2021 apresentado no dia 22/11/2021, após a final do campeonato. Fonte: redes sociais Pioneer

No que tange às estratégias de apreensão da memória sobre esse campeonato, em articulação ao eixo “acervos”, abordado em publicações anteriores desta série, nos compete indicar que o evento apresenta uma consistente estrutura de registro e comunicação de sua memória, com recursos próprios investidos. A dimensão alcançada pela Super Copa Pioneer permite a seus organizadores a manutenção de um site próprio, onde é possível não apenas sistematizar as informações sobre o campeonato vigente, mas organizar de maneira simplificada o histórico da equipe fundadora e do torneio. O endereço virtual também oferece imagens de diferentes edições do campeonato Super Copa Pioneer, bem como dos diferentes atores envolvidos com a sua realização nos últimos anos, além de uma aba dedicada à catalogação de informações sobre as equipes competidoras. 

O evento conta com uma vasta cobertura midiática própria, independente e tipicamente “varzeana”, possuindo um cana com mais de 60 mil seguidores (Facebook), intitulado TV Super Copa Pioneer, apresentado ao vivo para seus espectadores, com registros de narrativas de dirigentes e jogadores. Trata-se de mais uma plataforma de promoção dos patrocinadores e atores envolvidos no evento e uma categoria rica de registros audiovisuais sobre essa experiência.

A dinâmica da Super Copa Pioneer e todo o conjunto de relações que ela mobiliza certamente são expoentes da metrópole e RMSP, embora o circuito da várzea também conte com outros campeonatos expressivos. 

Copa Negritude de Futebol Amador

Assim como a Copa anteriormente citada, a Copa Negritude envolve equipes de todas as regiões de São Paulo, sendo uma das mais tradicionais da metrópole. O  Negritude Futebol Clube é o responsável pela organização do evento e sede dos campos que acolhem as pelejas. Com quarenta anos de existência, a agremiação acumulou muita experiência e prestígio no futebol amador paulistano, com muitos campeonatos ganhos. Sua história se confunde com a construção da Cohab 1 de Artur Alvim, região leste de São Paulo, uma vez que seus fundadores foram parte dos primeiros moradores da Cohab, na passagem da década de 1970 para 1980. 

Tomando como referência a 20ª edição, de 2019, a Copa Negritude SportAção (empresa patrocinadora e responsável pelos uniformes das equipes) teve início no final de julho e contou com 6 categorias: Sub 11, Sub 13, Sub 15, Esporte, Master 40, Master 50 e Master 60. Com jogos aos sábados, domingos e feriados, o campeonato ocupa uma agenda intensa nas suas sedes de atuação: CDC Alvorada (Campo Negritude) e CEU Jambeiro (Campo Botafogo de Guaianases).  

A 21ª edição, em 2021 (que contou com a interrupção de 2020, causada pela pandemia), apresentou crescimento no número de participantes, enfatizando ser a “referência da leste” e “espelho” para outros torneios. As disputas desta edição ocorreram com algumas modificações nas categorias, sendo: Sub 10-Mirim, Sub 12-Mirim, Sub 14-Infantil e Sub 16-Juvenil, além dos veteranos da bola, na categoria Máster (40 e 50), e a mais competitiva de todas: a categoria Esporte. Tal composição variada de categoriais é um diferencial do evento, uma vez que são raras as competições que abarcam de uma única vez tantas faixas etárias. 

Subprefeituras de origem das equipes participantes da Copa Negritude 2019 (categoria Esporte). Fontes: Geosampa (2021); MyMaps (Google); Informações cedidas pelos clubes.
Subprefeituras de origem das equipes participantes da Copa Negritude 2019 (categoria Esporte). Fontes: Geosampa (2021); MyMaps (Google); Informações cedidas pelos clubes.

Em 2021 foram setenta e duas agremiações disputando o torneio de regras de condutas muito objetivas, o que colaborou para o clima amistoso durante todas as partidas. Por misturar crianças, pais, mães e avós, nos jogos da Copa a referência à “família” é um adjetivo facilmente ouvido da boca dos atores, produtores e frequentadores desse evento. A acolhida nos espaços do torneio envolve barracas com comidas, venda de artigos esportivos e personalizados das agremiações varzeanas e muita música rolando pelas pick-ups de som (samba e samba-rock) ou pela presença de volumosas baterias das torcidas convidadas.    

Os campos que recebem as partidas, de carácter público, estão bem localizados, contando com a proximidade da linha vermelha do metrô para o deslocamento de atletas e torcedores visitantes. Ademais, oferecem estacionamento e lanchonete. Cumpre pontuar que nos tempos idos do campeonato marcaram o início sob lonas improvisadas com estruturas de ferro, uma vez que a agremiação construiu a sua sede aos poucos e com dificuldades financeiras. 

Apesar do amplo reconhecimento do campeonato, ele não mobiliza muito dinheiro e patrocínio. Ocorre uma grande reunião de atores e esforços para o custeio:  comércios locais, empresas do ramo do futebol amador, políticos locais ou relacionados a esse futebol, bem como as próprias equipes participantes. De acordo com os dirigentes, os políticos não têm envolvimento com o torneio em si, contribuindo apenas com cessão de palco e alguma infraestrutura. 

Na edição pesquisada (2021), as condições de participação incluíam estar de acordo com todas as regras e pagamento de taxas de inscrição, que permite à equipe um talonário de 200 números de rifa cedido pelos organizadores, vendida nos bairros e comunidades envolvidas com a história do Negritude. Seguindo a lógica organizativa histórica dessa competição, é com esse recurso que as equipes pagam as despesas da participação na Copa. Os regulamentos também previam a inscrição de quarenta atletas por equipe, cinco substituições durante a partida (sem contar com a do goleiro) e obrigação de 2 fardamentos distintos por equipe, a serem escolhidos na ocasião do jogo para não haver duplicidade de cores. As premiações envolveram um conjunto novo de uniformes e ostentosos troféus, além de 12 mil reais para a equipe Master e 50 mil reais à categoria Esporte vencedora. 

Devido às restrições do contexto pandêmico, o tradicional Congresso Técnico realizado todos os anos foi adaptado para a internet e transmitido ao vivo através do Canal Várzea ao Vivo (Youtube e Instagram), com 24 mil seguidores que já é atuante na cena varzeana. Com mais de 3500 visualizações, o encontro foi produzido de dentro da sede da equipe do Negritude FC, com a participação de diferentes dirigentes da agremiação. O evento online contou com a presença e divulgação da marca dos patrocinadores e um cenário estilizado com iluminação, logos parceiros e a exibição dos troféus, além de sorteios de prêmios e brindes como bola, camisetas e bonés para os que interagiam no chat do Youtube.

Cronologia dos campeões da Copa Negritude. (Fonte: redes sociais Negritude FC).
Cronologia dos campeões da Copa Negritude. Fonte: redes sociais Negritude FC
Exibição online do congresso técnico da Copa Negritude em 03/08/2021. (Fonte: redes sociais Negritude FC).
Exibição online do congresso técnico da Copa Negritude em 03/08/2021. Fonte: redes sociais Negritude FC
Lousa com a agenda de ocupação dos campos do CDC Alvorada durante a Copa Negritude, 2013. (Acervo Museu do Futebol).
Lousa com a agenda de ocupação dos campos do CDC Alvorada durante a Copa Negritude, 2013. Acervo Museu do Futebol

Competições do Botafogo de Guaianases 

Aos sábados e domingos, com exceção do Dia das Mães, o Botafogo de Guaianases, mais uma das referências do circuito varzeano mobilizada pela pesquisa, disputa partidas de diferentes categorias. As equipes do Botafogo disputam amistosos, festivais, torneios regionais e campeonatos municipais. Os amistosos são disputados principalmente contra clubes de Guaianases e de outros bairros da Zona Leste, bem como de outras cidades da Grande São Paulo: Ferraz de Vasconcelos, Poá, Suzano, Mogi das Cruzes, Itaquaquecetuba e Salesópolis são constantemente visitadas pelas suas diferentes categorias (SPAGGIARI, 2016).

As competições locais, envolvendo agremiações de bairros e cidades próximas, pode reunir clubes tradicionais, clubes mais novos e, em casos raros, times formados especificamente para campeonatos organizados por clubes, ligas de futebol, lojas de esportes, donos de bares, políticos locais etc. Algumas partidas e competições disputadas pelo Botafogo são agendadas e organizadas pela Acocesp (Associação de Coordenadores de Clubes Esportivos), liga de futebol sediada em Guaianases e gerenciada por diretores vinculados ao próprio Grêmio Botafogo.

Dentre as competições que envolvem o Botafogo, ocorre a Copa do Boi, organizada pela Liga Esportiva de Guaianases e disputada em vários campos da região – entre eles o Campo do Codó/CEU Jambeiro, Campo Nova Era (Cidade Tiradentes), Campo do Tossan (Itaim Paulista) –, mas principalmente no campo do River Plate, utilizado por diversos clubes para mandar seus jogos, entre eles o tradicional 1º de Maio. Para participar da Copa do Boi cada equipe tem que pagar uma taxa inicial de R$ 500 que, assim como mencionado na seção anterior, inclui um talão de rifa para um determinado prêmio. Além da taxa inicial, a cada partida, as equipes desembolsam mais R$ 60 para pagar a taxa de arbitragem. O campeão da competição é premiado com vinte arroubas de um boi e mais R$ 1 mil em dinheiro.

A intermediação das ligas, como no caso citado, confere maior segurança às competições. Se algumas competições são muito procuradas, sendo necessário ser convidado para participar, em outras basta pagar a taxa de inscrição. Os clubes procuram as ligas pela qualidade futebolística das agremiações que compõem seu quadro, pela região da cidade que abrangem, por sua tradição e pela seriedade de seus líderes. Clubes da Zona Leste ou da Zona Oeste participam de competições organizadas por ligas de futebol em outras regiões. Ainda que dificulte, a distância não impede um clube de procurar um bom campeonato ou mesmo um bom amistoso. Afinal, circular pela cidade constitui a várzea (SPAGGIARI, 2016).

Enquanto o Botafogo participa de diferentes tipos de torneios, vários clubes de Guaianases disputam apenas campeonatos locais ou somente festivais varzeanos, que reúnem diversos clubes e podem durar um dia, todo o final de semana ou mesmo exigir alguns finais de semana. Muitos deles são organizados em sintonia com outras atividades lúdicas e culturais promovidas no bairro, na véspera de celebrações e datas comemorativas, e são articulados para arrecadar dinheiro para os clubes ou auxiliar entidades sociais ou pessoas próximas que estão passando por problemas de saúde. Embora a cobrança dos torcedores seja maior em competições de alcance municipal, os torneios locais e festivais estão relacionados ao fator “jogar em casa”, que gera expectativas entre os torcedores, como a Copa Botafogo, disputada no campo da agremiação.

No ano de 2019, tomado como referência para pesquisa apresentada por essa série, o Botafogo disputou três competições: a Super Copa Pioneer, a Copa Negritude e a Copa Martins Neto, um dos principais campeonatos da várzea paulistana, embora tenha sido criado recentemente, em 2013.Tal copa será o enfoque da seção subsequente.

Subprefeituras de origem das equipes que atuaram contra o Botafogo de Guaianases nas competições realizadas em 2019. Fontes: Geosampa (2021); MyMaps (Google); Informações cedidas pelos clubes.
Subprefeituras de origem das equipes que atuaram contra o Botafogo de Guaianases nas competições realizadas em 2019. Fontes: Geosampa (2021); MyMaps (Google); Informações cedidas pelos clubes.

Copa Martins Neto

No ano de 2019 ocorreu a 6ª Copa Martins Neto, realizada com o apoio da King Sports, reunindo 160 equipes, sendo 64 da zona leste e 32 de cada umas demais regiões da cidade. O congresso técnico, foi realizado na quadra da Escola de Samba Unidos de Vila Maria, na zona norte e a partida inaugural ocorreu no dia 06 de junho, no Estádio Nicolau Alayon (Barra Funda).

As partidas foram disputadas aos sábados e domingos em 14 campos de diferentes regiões da cidade: Represa Nova, CDC Cleuza Bueno, CDC Décio da Silva, CDC Cecília Meireles, CDC Elias da Silva Trindade, Cícero Miranda, CDC Jardim Regina, Toca da Coruja, Americano, Flor da Vila Formosa, Burgo Paulista, Parque Boturussu, Areião de Vila Cisper, CDC Tiradentes.

Na primeira fase desta grande competição, os clubes foram divididos por regiões, sendo 16 grupos na zona leste e oito grupos em cada uma das demais. Os dois primeiros de cada grupo avançaram para a segunda fase, disputada em confrontos eliminatórios até ter um campeão de cada região da cidade, compondo os quatro semifinalistas. A final foi disputada no estádio do Pacaembu na tarde de 10 de novembro. A premiação da Copa Martins Neto foi distribuída de acordo com a fase: cada um dos quatro semifinalistas recebeu R$ 10 mil, troféu, medalhas e um  fardamento completo da King Sports. O campeão geral recebeu R$ 20 mil.

Pela abrangência em todas as regiões e o numero expressivo de equipes, a Martins Neto figura como uma das mais expressivas do circuito varzeano atual. 

Distribuição das equipes que disputaram a Copa Martins Neto (2019) por região e campos-sede no mapa de São Paulo. Fontes: Geosampa (2021); MyMaps (Google); Informações cedidas pelos clubes.
Distribuição das equipes que disputaram a Copa Martins Neto (2019) por região e campos-sede no mapa de São Paulo. Fontes: Geosampa (2021); MyMaps (Google); Informações cedidas pelos clubes.
Subprefeituras de origem das equipes que disputaram a Copa Martins Neto (2019) no mapa de São Paulo. Fontes: Geosampa (2021); MyMaps (Google); Informações cedidas pelos clubes.
Subprefeituras de origem das equipes que disputaram a Copa Martins Neto (2019) no mapa de São Paulo. Fontes: Geosampa (2021); MyMaps (Google); Informações cedidas pelos clubes.

Copa CDC Parque Taipas e Copa Vida Loka

O aprofundamento da pesquisa, a partir dos pontos nodais, nos mobilizou conhecimento de comptições significativas na região norte de São Paulo, sendo duas delas as que intitulam essa seção. 

A Copa CDC Parque Taipas é uma das principais da região Noroeste, mobilizando as equipes que atuam regularmente no CDC, além de outras dos Distritos adjacentes e, pontualmente, algumas equipes de outros municípios da Região Metropolitana de São Paulo, como Caieiras e Franco da Rocha. 

Subprefeituras de origem das equipes participantes da IV Copa CDC Parque Taipas (2019) no mapa de São Paulo. Fontes: Geosampa (2021); MyMaps (Google); Informações cedidas pelos clubes.
Subprefeituras de origem das equipes participantes da IV Copa CDC Parque Taipas (2019) no mapa de São Paulo. Fontes: Geosampa (2021); MyMaps (Google); Informações cedidas pelos clubes.

Em 2019, foi realizada sua IV edição, com jogos subsequentes aos sábados e domingos, potencializando assim a dinâmica de eventos e práticas culturais deste CDC e já mencionadas em textos anteriores desta série. A Copa CDC Parque Taipas 2019 contou com 48 equipes, iniciando-se no referido ano e sendo interrompida em 2020, em razão da pandemia de Covid-19.

No retorno, em novembro de 2021, a final realizada entre Unidos do Jardim Brasília e Cruzeirinho da Vila Souza, encerrou-se com o título do Unidos. 

Fonte: redes sociais CDC Taipas
Fonte: redes sociais CDC Taipas

Já a Copa Vida Loka é uma competição recente, porém que ganhou notoriedade, A 1ª edição, organizada pelo EC Vida Loka da Brasilândia com apoio da King Sports gerou grande expectativa entre as equipes varzeanas, principalmente as da região Noroeste. Trata-se de um time bastante representativo da várzea da região, com intensa adesão torcedora cuja Diretoria mobilizou, na referida Copa, times e clubes de longa trajetória na várzea de São Paulo, ora chamados “tradicionais”, bem como equipes mais recentes de desempenho vitorioso em sua trajetória.

O Congresso Técnico da competição ocorreu na Casa de Nassau, em Pirituba, em que também foram definidos os oito grupos em que se dividiram 40 equipes. De acordo com a organização, a equipe campeã seria premiada com R$ 20 mil, além de troféus e medalhas, sendo o vice-campeão com a premiação de R$ 10 mil, além da premiação de uniformes completos para ambos pela King Sports.

Subprefeituras de origem das equipes participantes da Copa Vida Loka (2019) no mapa de São Paulo. Fontes: Geosampa (2021); MyMaps (Google); Informações cedidas pelos clubes.
Subprefeituras de origem das equipes participantes da Copa Vida Loka (2019) no mapa de São Paulo. Fontes: Geosampa (2021); MyMaps (Google); Informações cedidas pelos clubes.

Iniciada em novembro de 2019, com todas as partidas sendo disputadas no Centro Esportivo Oswaldo Brandão (Campo do Fazendinha), a Copa distribuiu jogos inclusive em período noturno. Em razão da pandemia de COVID-19 a competição foi paralisada em 2020 nas quartas de final. 

Tabela – Lista de participantes da Copa Vida Loka 2019

Grupo A

Flamengo

Jardim Brasil

Corinthians/Vila Piauí

Ramalho

Aliança/Vila Moraes

Grupo E

Turma do Baffô/Jd Clímax

Praça/Pirituba

Morro da Paz

Só Kachaça

WRV

Grupo B

Danubio

Batti Fácil

Black Blue/Osasco

Tá Teno

XI Guerreiros

Grupo F

Náutico F.C.

Iguape

Explosão/Pirituba

Mutirão

Talibãs

Grupo C

Inajar de Souza

Lagoinha

Piratininga

Ipanema

Terror da Mooca

Grupo G

Napoli/Vila Industrial

Vira Copos/Pirituba

Meninos do Taboão

Ninguém Dorme

Loucos e Malucos

Grupo D

Santa Cruz

IDM

Arsenal

Pery Novo

Família 11

Grupo H

Noroeste/Vila Formosa

GTX/Casa Verde

Jardim Esperança

R4

Grêmio 100 Juízo

(Fonte: redes sociais Copa Vida Loka).

Para além das competições esmiuçadas mais detalhadamente neste texto, também possuem certa regularidade e visibilidade na agenda varzeana de diferentes regiões de São Paulo as seguintes Copas: Copa da Paz (Paraisópolis, na Zona Sul), Copa Black Power (Ipiranga, na Zona Sul), Copa Nove de Julho (Zona Norte), Copa do Busão (Osasco), Copa Rebote e Copa Leões (Zona Sul), dentre outros.

Cumpre destacar, ainda, um conjunto de ligas importantes na várzea de São Paulo, além das já citadas Liga Esportiva de Guaianases (também conhecida como Liga do Adelaido) e Acocesp (Associação de Coordenadores de Clubes Esportivos). São elas: Abraliga (Associação Brasileira de Ligas Esportivas Amadoras); C.U.E.B.L.A (Cidade Unida Esporte de Base e Ligas Amadoras); AMFA (Associação Metropolitana de Futebol Amador); e Liga do Cocada (vinculada ao Ajax da Vila Rica).

No próximo texto desta série, ainda com foco nos eventos varzeanos, trataremos dos festivais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Alberto Luiz dos Santos

Doutor em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP). Membro da Rede Paulista de Educação Patrimonial (REPEP) e do Grupo de Pesquisa Patrimônio, Espaço e Memória, vinculado ao Labur/FFLCH/USP (CNPq). Possui produção acadêmica voltada às área de Geografia Urbana e Patrimônio Cultural, desde 2012, com enfoque nas referências culturais vinculadas ao futebol de várzea, após 2016. 

Aira F. Bonfim

Mestre em História pela FGV com pesquisas dedicadas à história social do futebol praticado pelas brasileiras da introdução à proibição (1915-1941). É produtora, artista-educadora e por 7 anos esteve como técnica pesquisadora do Museu do Futebol. O futebol de várzea, os  debate sobre patrimônios e mais recentemente o boxe e o circo, são alguns temas em constante flerte... 

Enrico Spaggiari

Mestre e doutor em Antropologia Social pela USP.Fundador e editor do Ludopédio.

Como citar

SANTOS, Alberto Luiz dos; BONFIM, Aira F.; SPAGGIARI, Enrico. Campeonatos e copas: Possibilidades de compreensão do circuito do futebol varzeano de São Paulo (SP). Ludopédio, São Paulo, v. 177, n. 29, 2024.
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