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Como Durkheim – com ajuda de Simmel – explicaria o futebol

Rodrigo Koch 27 de fevereiro de 2024

Não há dúvidas de que o futebol é um dos frutos da industrialização e de que nasceu a partir de ideias pedagógicas disciplinadoras, ganhando força através de movimentos operários na Europa do século XIX; e, em certa medida, gradativamente foi perdendo seu caráter elitista passando à popularização. A partir dos pensamentos de Émile Durkheim seria o futebol um fato social, ou o conceito de fato social contribuiria para pensar o futebol? O futebol também serviria para pensar as partes de um todo e explicaria as relações de interdependência? E se acrescentarmos alguns pitacos de Georg Simmel a este debate, as interações sociais do futebol poderiam ser consideradas um processo, no qual estão inseridos conflitos, cooperação, competição e submissão entre outros aspectos? Vamos pensar juntos e tentar responder estas e outras reflexões sobre o futebol a partir do pensamento durkheimiano.

Émile Durkheim nasceu em Épinal (França) em 1858, vindo a falecer em Paris em 1917. Foi um sociólogo, antropólogo, cientista político, psicólogo social e filósofo francês; considerado o pai da sociologia, quando formalmente tornou-a uma disciplina acadêmica. Durkheim é citado como um dos principais fundadores da ciência social moderna, junto a Karl Marx e Max Weber. Muito de seu trabalho estava preocupado com a forma como as sociedades poderiam manter sua integridade e coerência na modernidade, um período em que tradicionais laços sociais e religiosos não são mais assumidos e em que novas instituições sociais têm surgido. Seu primeiro trabalho sociológico importante foi Da Divisão do Trabalho Social. Posteriormente publicou As Regras do Método Sociológico e criou o primeiro departamento europeu de sociologia, tornando-se oficialmente o primeiro professor de sociologia da França.

Durkheim
Émile Durkheim. Fonte: Reprodução

Contemporâneo de Durkheim, Georg Simmel (Berlim/Alemanha, 1858 – Estrasburgo/França, 1918) foi um sociólogo alemão; professor universitário admirado pelos seus alunos, porém sempre teve dificuldade em encontrar um lugar no seio da rígida academia do seu tempo, devido sua origem judaica e por trabalhar com temas considerados menos importantes. Simmel considerava que “[…] a ‘sociedade’ é certamente um conceito abstrato, mas cada um dos incontáveis agrupamentos e configurações englobados em tal conceito é objeto a ser investigado e digno de ser pesquisado […]” (CASTRO 2014, p.43). Tendo se debruçado sobre temas como a moda, a refeição e a prostituição, possivelmente, Simmel também daria atenção ao início dos grupos de aficionados em futebol que deram origem às torcidas.

Simmel
Georg Simmel. Fonte: Reprodução

Durkheim não utilizou de forma direta o futebol para explicar suas teorias, mas certamente teve contato com o esporte em algum momento de sua vida e deve ter pensado sobre como aquele jogo fazia certo sentido na coletividade e nos inter-relacionamentos. Mas seria o futebol um fato social? Parece que sim; podemos considerar o futebol como fato social! O sociólogo apontava que “É fato social toda maneira de fazer, estabelecida ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção externa; […] ele é geral na extensão de determinada sociedade, embora tenha existência própria, independentemente de suas manifestações individuais” (CASTRO 2014, p.33). Durkheim ainda acrescentava que fatos sociais são coisas – no caso ‘coisas sociais’ – e como tais devem ser tratadas pelo método sociológico. Simmel, particularmente em nossa avaliação, não fez exatamente uma contraposição ao pensamento durkheimiano, mas deu um passo adiante ao considerar a sociedade não como uma coisa, mas como um processo permeado por interações sociais. Para ajudar a compreender Durkheim e o futebol convoco alguns autores. Piancó Júnior (1998) em seu trabalho, defende que:

Para a compreensão sociológica desse esporte no mundo moderno é preciso encará-lo como um fato social que existe fora das consciências individuais de cada um, mas que se impõe como uma força imperativa capaz de penetrar intensamente no cotidiano de nossas vidas, influenciando hábitos e costumes. Esse fato social é capaz de superar preconceitos raciais e sociais, pois presenciamos entre os que disputam uma partida de futebol acentuadas diferenças culturais e econômicas, e o mesmo acontece nas arquibancadas, onde seres humanos de diferentes etnias avivam a comunhão, que se estimam independentemente da cor de uns e outros. O futebol é a prova disto.

Durkheim também destacava que os fatos sociais são produtores de ‘correntes sociais’, conceito que podemos aplicar às manifestações coletivas dos torcedores tanto dentro como fora de um estádio, bem como durante, antes ou após qualquer partida de futebol ou em decorrência da mesma. Ao classificar a violência recorrente entre as torcidas de futebol na contemporaneidade, Morais (2018) em sua postagem se utiliza de pensamentos durkheimianos para dar crédito as suas palavras. A autora escreve que o fato social pode ser generalizado e coercitivo, ou seja, uma força imperativa capaz de provocar comportamentos não necessariamente pessoais, mas sociais. “[…] pode acontecer até que nos causem horror, tanto eram contrários à nossa natureza”. Segundo Morais (2018), a sociedade das ações marcada pela coletividade faz com que cada um seja arrastado pelo todo e, esse aspecto pode ser observado no atual cenário do futebol, marcado por casos de violência em decorrência de inimizades entre torcidas. Ela aponta ainda que nesse cenário de hostilidade encontram-se cidadãos comuns que em meio ao grupo agem em desconforme aos seus princípios, bem como Durkheim observou: “É assim que indivíduos perfeitamente inofensivos na maior parte do tempo podem ser levados a atos de atrocidade quando reunidos em multidão”; concluindo que o futebol é um fato social que exerce em seus cidadãos uma força imperativa e exterior.

Mas não fiquemos apenas com aspectos negativos vinculados a este ponto do pensamento durkheimiano. Podemos também discutir as relações entre os indivíduos e a sociedade e, examinar como a coerção social se manifesta na infância e na adolescência com vínculos no futebol. Defendo, por exemplo, que o fenômeno da Futebolização (KOCH 2020) exerce e cria circuitos, traços e fragmentos identitários em crianças e jovens com marcas futebolizadas e, isso os conduz para modelos e grupos socioeconômicos de consumo. Neste ponto, vale acrescentar as ideias de Simmel, através de interações de conflitos grupais e pessoais, para as quais são estabelecidas também lutas de poder indiretas e subjetivas.  Vale lembrar que o cenário contemporâneo nos apresenta uma multiplicidade de categorias de torcedores, fãs e seguidores, portanto, nem todos são violentos, assim como nem todos são apenas aficionados distantes, na qual a mediação com o futebol ocorre somente pelas telas. Há uma infinidade de comportamentos que podem ser encaixados nas teorias de Durkheim, pois as maneiras como os cidadãos são (coercitivamente) educados – pelos diversos meios midiáticos e, não somente pela escola – também são importantes para a compreensão dos valores de uma comunidade.

Acrescentando Simmel ao debate, Bitencourt (2009) elenca alguns efeitos do neoliberalismo no futebol, a partir da flexibilização das leis trabalhistas e o fim da lei do passe, que promoveram o princípio da circulação. O autor aponta como um sistema de pensamento, conectado a uma estrutura jurídico-econômica ancorada em leis e regulamentações, estimula e legitima a circulação dos jogadores, tornando incipiente a relação destes com os clubes. Portanto, este reordenamento estrutural do futebol, comum a ordem econômica mundial, desencadeou um processo de ressignificação das relações estabelecidas na comunidade de afetos em torno do clube. Tais aspectos levantados por Bitencourt (2009) pretendo discutir em textos futuros.

Talvez o melhor dos conceitos de Durkheim aplicado ao futebol seja que a sociedade – assim como o corpo humano – tem partes, necessidades e funcionamento inter-relacionados. É uma analogia profícua para as grandes equipes do futebol que já apresentaram desempenhos fantásticos em sua coletividade. Rotta Filho (2019), reforça que o comportamento coletivo das torcidas, na forma de agir, sentir e pensar, pode ser explicado pelo ‘fato social’ e, que o mesmo de acordo com Durkheim apresenta três características: externo, geral e coercitivo. O professor também fez uma breve análise sobre o FC Barcelona – especialmente da equipe das primeiras décadas do novo milênio. Para Rotta Filho (2019) o clube catalão se destaca pela evolução do futebol, com uma certa tradição em sua forma de jogar: o chamado tiki-taka. Na obra Da Divisão do Trabalho Social, Durkheim denomina de solidariedade mecânica toda forma de trabalho tradicional em sociedades. A sociedade para Durkheim, ordena-se com uma divisão de funções para cada indivíduo. Haveria uma consciência coletiva que estaria sempre acima do poder de escolha individual, ou seja, cada indivíduo recebe influência de seu meio. Se relacionarmos essa teoria com o FC Barcelona, há muitos jogadores que não jogaram sempre no clube, porém, essa “sociedade” funciona de tal maneira, que o indivíduo deve adaptar-se às formas de trabalho. A divisão de funções no FC Barcelona dos anos 2000 e 2010 foi extremamente evidente quando se detalhava a especialização dos indivíduos. Mascherano, por exemplo, fez apenas um gol pelo time nos 334 jogos que defendeu o FC Barcelona. Mas a função deste jogador era apenas uma: defender. Seu dever era fazer o trabalho “sujo”, assim como Puyol e Piquè. Na sociedade estudada por Durkheim, há sempre aquele que faz o trabalho “bruto”. Mas há também aqueles que administram, e gerenciam essa sociedade como Ronaldinho Gaúcho, Deco, Xavi, Iniesta, Busquets e Rakitic. Esses indivíduos têm o papel de fazer a ligação entre o trabalho bruto e o trabalho leve. Quem era o “dono da empresa” no FC Barcelona? Essa resposta é fácil: Messi, que teve como assessores diretos Eto’o, Suárez e Neymar em determinados períodos. Os atacantes fazem a função do “patrão” na sociedade, em tese são os que menos correm na equipe. Na ótica de Durkheim, a sociedade funciona como funcionava o FC Barcelona de décadas passadas recentes: alguns fazem o trabalho “sujo”, outros “administram” e, poucos são “donos do time”. A mesma analogia poderia ser aplicada a seleção brasileira do tricampeonato mundial de 1970 ou ao carrossel holandês (futebol total) das Copas de 1974 e 1978, ou ainda a própria seleção espanhola dos anos 2008-12. Mais um ponto no qual podemos colocar algumas contribuições de Simmel, pois na divisão do trabalho evidentemente há interações sociais de cooperação e, também de competição (tanto interna como externa) – por vezes reduzida à submissão.

Barcelona
Algumas “peças” do FC Barcelona. Fonte: Reprodução/Enciclopédia do Futebol

Taticamente, os pensamentos de Durkheim e Simmel poderiam ser associados ao tiki-taka do FC Barcelona e Seleção Espanhola ou ao futebol total de Rinus Michels. Tiki-taka é um sistema de jogo no futebol caracterizado por amplo domínio da posse de bola, pelos constantes toques laterais e pelo repúdio ao chutão e com a bola trabalhada por várias áreas do campo, sempre se mantendo a posse de bola. O estilo é primariamente associado com o FC Barcelona, desde o período de Johan Cruyff como treinador até o presente, e a Seleção Espanhola com os treinadores Luis Aragonès e Vicente del Bosque. O tiki-taka difere do tradicional pensamento das formações no futebol para um conceito derivado de um jogo em zona. De acordo com Raphael Honigstein, Tiki-taka é “uma importante evolução do Futebol Total, mas é diferente, principalmente porque incide sobre o movimento constante da bola rente ao chão, e não dos jogadores. Controlar a bola calmamente durante muito tempo, na verdade significa também marcar o oponente, pois este é incapaz de jogar.” A diferença básica entre o futebol total e o tiki-taka é que o primeiro tem como principal característica a constante troca de posições dos jogadores, e o segundo tem como pilar a circulação de bola. No entanto, para Durkheim, tanto o tiki-taka como o futebol total seriam explicados através do conceito de solidariedade orgânica, a qual resulta de uma alta divisão social do trabalho, em que muitos especialistas fazem com que haja uma interdependência social, ou seja, é a diferença entre os indivíduos que faz com que haja o vínculo social.

Ao mesmo tempo, caracterizar que uma equipe de futebol é simplesmente a soma das partes de um todo, para o pensamento baseado em Durkheim pode ser ambíguo e considerado até contraditório na pós-modernidade. Qual o papel e o peso dos craques neste circuito? O próprio sociólogo questionava: “É nosso dever buscar ser … um ser humano completo, suficiente em si mesmo; ou … ser apenas uma parte do todo, o órgão de um organismo?” (THORPE 2016, p.36). Então …, devemos ser uma abelha rainha, ou abelhas operárias em uma colmeia? Como distinguir e separar Pelé de Santos FC e seleção brasileira, Puskas da seleção húngara, Cruyff do carrossel holandês, Messi do FC Barcelona, Cristiano Ronaldo das várias equipes pelas quais passou e da seleção portuguesa e, tantos outros expoentes do futebol mundial … Os times dependem deles ou eles dependem dos times? Obviamente nenhum deles seria campeão sem o restante dos jogadores das equipes; mas será que os times seriam campeões sem eles? Num mundo pós-moderno cada vez mais individualizado, penso que tais questionamentos sejam produtivos para futuros textos, nos quais pretendo convocar outros sociólogos na tentativa de responder tais dúvidas …

Referências

BITENCOURT, Fernando Gonçalves. Simmel e o futebol: da comunidade de afeto a equivalência abstrata do dinheiro. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis, EDUFSC, Volume 43, Número 2, p. 573-588, Outubro de 2009.

CASTRO, Celso. Textos básicos de Sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

KOCH, Rodrigo. Futebolização: identidades torcedoras da juventude pós-moderna. Brasília, DF: Trampolim Editora/Ministério da Cidadania, 2020.

KOCH, Rodrigo. Cultura, Identidade e Futebolização: na Europa Contemporânea. Saarbrücken: Novas Edições Acadêmicas, 2022.

MORAIS, Bruna. O fato social no futebol brasileiro. Socius – Sociologia e Direito. 08 de abril de 2018. Disponível em: https://sociologiadodireitounesp.blogspot.com/2018/04/o-fato-social-no-futebol-brasileiro_8.html Acesso em 30 dez. 2023.

PIANCÓ JUNIOR, Geraldo José. Futebol Fato Social – sua relação com a sociedade. In: XXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação/GT 26 Mídia e Esporte. 1998.

ROTTA FILHO, Augusto. Barcelona, Émile Durkheim e a divisão social do trabalho. Pipoca Social. 2019. Disponível em: http://pipocasocial.com.br/barcelona-emile-durkheim-e-a-divisao-social-do-trabalho/ Acesso em 30 dez. 2023.

THORPE, Christopher et al. (eds.). O livro da Sociologia. Tradução de Rafael Longo. 2ª edição. São Paulo: GloboLivros, 2016.

Wikipédia. Tiki-taka. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tiki-taka Consultado em fevereiro de 2024.

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Rodrigo Koch

Pós-Doutor (Sociologia) pelo Institut Universitari de Creativitat i Innovacions Educatives de la Universitat de València, Doutor em Educação (Culturas Juvenis) pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Mestre em Educação (Estudos Culturais) pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), pós-graduado em Administração e Marketing Esportivo pela Universidade Gama Filho (UGF), e graduado em Educação Física pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Vencedor (1º lugar na classificação geral) do Prêmio Brasil de Teses e Dissertações sobre Futebol e Direitos do Torcedor - Edição 2018-2019. Pesquisador Associado do Centro Latino Americano de Estudos em Cultura - CLAEC. Professor adjunto D da Uergs - Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, lotado na unidade Hortênsias-São Francisco de Paula.

Como citar

KOCH, Rodrigo. Como Durkheim – com ajuda de Simmel – explicaria o futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 176, n. 27, 2024.
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