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Corinthians 2023, um ponto “fora da curva”

Certa vez em uma disciplina de introdução à pesquisa na faculdade, eu e um colega fizemos um levantamento de dados a partir da seguinte premissa: existe correlação entre folha salarial e desempenho esportivo no futebol? Para tal pesquisa – não foi um trabalho aprofundado, pois a mesma era uma disciplina de segundo semestre, que tinha como principal intuito inculcar nos alunos a curiosidade pela pesquisa acadêmica, assim como um primeiro contato com bases de dados e etc. – utilizamos dados do campeonato inglês de futebol, com o recorte de 5 temporadas, visando identificar o custo dos salários das equipes X a posição final na Premier League. 

Nossa premissa de que sim, existiria correlação entre soldos e desempenho dos times se mostrou verdadeira. No entanto, chamou nossa atenção o fato de que apesar da correlação, existiam times que fugiam dessas métricas: equipes com altos salários que terminavam em posições ruins na classificação final do campeonato, como também apareceram equipes de folhas salariais mais modestas que figuraram em boas posições nas temporadas do campeonato inglês.

 A expectativa de um clube de futebol baseado na sua folha salarial poderia ser quebrada ou superada, mas o que explicaria isso? Uma conjuntura de fatores, que passa desde condições administrativas das equipes, grupo de jogadores, desenvolvimento dos jogadores, surgimento de talentos, até aspectos do acaso concernentes ao futebol (em um jogo de futebol o caos e a organização são substantivos que caminham por vezes juntos e se misturam, aparecem e desaparecem em um instante minúsculo de tempo/espaço), de difícil e imprecisa mensuração. 

Feito esse preâmbulo nos deteremos aqui a falar acerca do Corinthians. Dentre as temporadas de 2022 e a atual temporada de 2023, o Corinthians ocupou/ocupa a terceira e quarta colocações entre os clubes brasileiros de maiores folhas salariais. Se olharmos para esse recorte de 2022 e 2023 a expectativa de desempenho esportivo do Corinthians condiz com o custo do seu time profissional? 

Primeiramente nos deteremos na temporada de 2022. Vítor Pereira foi apresentado em fevereiro pelo Corinthians com contrato válido até o final do mesmo ano, para ser o comandante do plantel corintiano. A equipe do Corinthians terminou o ano com os seguintes resultados: quarto lugar no campeonato brasileiro; quartas de finais da Libertadores; vice campeão da Copa do Brasil e semifinal do campeonato paulista. Neste ano, o Corinthians foi o clube de quarta maior folha salarial do país, praticamente empatado nesse quesito com o Atlético-MG, terceira equipe que mais gastava com o time profissional. Dessa maneira é possível afirmar que os resultados que o Corinthians obteve no ano de 2022 foram condizentes com o custo do time. Em 2023 essa história se repete? 

Corinthians
Foto: Rodrigo Coca/Agência Corinthians/Fotos Públicas

O Corinthians inicia a temporada de 2023 com uma mudança de treinador. Vítor Pereira decide não renovar seu contrato, e para o cargo de técnico do Corinthians entra Fernando Lázaro, que já vinha trabalhando no timão, como analista de desempenho e também como auxiliar técnico. Daqui a pouco retornaremos a tratar a respeito da mudança de treinadores. 

O Corinthians em 2023 se consolida como a terceira maior folha salarial de uma equipe no país. Os resultados do time, por ora, condizem com esse despendido financeiro? O Corinthians na temporada vigente foi eliminado nas quartas de final do campeonato paulista; eliminado na fase de grupos da Libertadores; ocupa no momento a décima quinta posição no campeonato brasileiro e precisa de uma virada para passar das quartas de final da Copa do Brasil. Parece que o Corinthians é um dos times fora da curva: gasta bastante e não alcança bons desempenhos em 2023. Muitos motivos podem justificar essa temporada tão ruim, como envelhecimento da equipe, convívio com seguidas lesões do seu principal jogador, perda de jogadores para outros mercados e etc. Mas aqui irei me deter em apenas um aspecto. Decisões da diretoria! 

É sempre mais fácil apontar erros depois do ocorrido. Dito isso, pois bem, a diretoria corintiana errou muito esse ano. Quando Vítor Pereira anunciou que não iria renovar com o time, a diretoria deveria tratar como alerta máximo quem viria substituir o português. Seria sensato cogitar alguém da mesma linha de Vítor Pereira, um treinador que dê importância aos treinos e que acima de tudo entendesse que para performar com uma equipe brasileira é necessário considerar a quantidade de jogos e grandes viagens que os times fazem para competir na América do Sul, sendo assim, é preciso estabelecer certo rodízio no elenco, periodização tática e etc. 

Outro fator que fazia ser muito importante a decisão de quem seria o próximo técnico do Corinthians – considerando os profissionais disponíveis no mercado e a capacidade financeira do time – ser acertada, é que em 2023 o Corinthians tem eleições internas. Seria antiético o diretor atual de futebol contratar um novo treinador (com contrato de várias temporadas) ao final de seu mandato. 

Elencado esses fatores, o Corinthians alçou ao cargo de treinador um profissional que não tinha experiência a frente de uma equipe principal.  Fernando Lázaro é jovem, trabalhador, tem potencial para ser um excelente profissional no futebol. Mas a inexperiência poderia pesar, pois não vindo resultados de imediato, ele dificilmente permaneceria no comando da equipe. Com a campanha ruim no campeonato paulista e a derrota na Libertadores para o Argentino Juniors, Fernando deixou a equipe principal e voltou a função de auxiliar, mesmo tendo aproveitamento razoável com o Corinthians. 

Depois da saída de Lázaro, o dever da diretoria seria dessa vez minimizar chances de erros, por mais que no futebol nem tudo ocorra como planejado. Ao invés disso a parte administrativa da equipe comete o maior erro de todos, traz ao comando da equipe um profissional com uma ocorrência no passado, episódio esse que é deplorável, condenável e intolerável. Não deu outra. Sua contratação foi um erro, e após dois jogos ele deixou a equipe. 

Seguidamente Danilo, e agora Luxemburgo. O Corinthians já está no seu quarto treinador no ano. A ideia aqui não é entrar no mérito, uma análise individual do desempenho de cada treinador que esteve no timão esse ano. O intuito é refletir, o quanto as seguidas decisões administrativas do Corinthians impactam o time, de terceira folha mais cara do país a desempenho muito abaixo da média, talvez a pior temporada desde o rebaixamento em 2007. É, esse ano tem eleições. Algo irá mudar no Time do Povo? Aguardemos. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Jean dos Santos Mantovani

Bacharel e mestrando em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Corintiano.

Como citar

MANTOVANI, Jean dos Santos. Corinthians 2023, um ponto “fora da curva”. Ludopédio, São Paulo, v. 169, n. 17, 2023.
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