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Desenganados pelo vô Nívio

Leandro Marçal 10 de julho de 2020

Foi rápido. Poucos dias entre a internação e o fim previsto. Voltava do almoço quando recebi a mensagem no grupo da família. O vô Nívio se sentiu mal e foi levado às pressas para o hospital. Só em casa me disseram que era grave. Melhor visitá-lo logo.

Lá, encontrei primos que não via com muita frequência. Conversamos sobre a saúde do velho. Ele era forte, apesar dos oitenta e todos. Depois de viúvo, levou uma vida de independência. Se recusava a ser tutelado, mas mantinha contato frequente e cada fim de semana almoçava na casa de uma das filhas.

O médico apontou uma leve melhora, mas não queria nos iludir. Dificilmente ele sairia daquela. Minha mãe não acreditou. Nem as tias. O vô Nívio era forte, claro que venceria mais um obstáculo. Cético, dei razão ao especialista.

Eu e os primos falamos muito sobre o amor do velho pelo futebol. Torcemos todos para o mesmo time, por culpa dele. Não queria saber de genro nenhum sendo má influência para netos e netas. Nas finais, a reunião de família tinha uma cor só. A cor do time do vô Nívio. Pediram que eu parasse de falar assim, no passado. Ainda teríamos muitas finais para assistir juntos. Me calei.

Foto: Richard Boyle/Unsplash.

No dia seguinte, o médico nos desenganou. Era questão de tempo. Adiantamos uma papelada com a funerária. Mas parte dos familiares não acreditava no desengano. Deveria ter algum jeito, um milagre, uma mudança repentina que fizesse o vô Nívio se levantar da maca e voltar ao normal. Assim, de uma hora para outra, o velho era dessas.

Ledo engano. Quando a derradeira notícia veio, suspiramos, mas até sentimos algum alívio. Ele não sofreu e foi independente até o fim. Viveu bem e fez das nossas vidas muito melhores que a média. Cada almoço, grito de gol ou choro por derrotas ficaram na memória.

Esses dias, não parei de pensar no vô Nívio. Nem sei há quanto tempo ele se foi. Quando as federações insistem em voltar às atividades rotineiras, me sinto conversando com meus primos no hospital. Quando os clubes se comportam como minha mãe e as tias, à espera de um boletim milagroso ao falar da covid-19, me sinto olhando o futebol respirando por aparelhos naquela sala claustrofóbica onde o velho passou a última semana.

Desenganados, tentamos não admitir que o futebol esse ano já era. Sua volta traz sequelas irreversíveis, como as que fariam o vô Nívio definhar se saísse daquela. Se um clube diz que o retorno às atividades se dará respeitando medidas de segurança, lembro o médico desnudando nossa insensatez. Dirigentes de futebol e políticos politiqueiros tentam enxergar uma melhora invisível aos meus olhos míopes. O futebol profissional repete o vô Nívio, respirando mal, com a ajuda de aparelhos.

A tranquilidade das tais medidas de segurança soa como os gritos de “ufa, o Ayrton mexeu a cabeça, graças a Deus”, depois do acidente na maldita curva Tamburello. Negar a realidade não é capaz de transformá-la. As energias positivas e orações não tiveram o poder de tirar o vô Nívio daquela sala cheia de aparelhos. O diagnóstico final foi triste, mas precisávamos ouvir.

Primos leitores, não se iludam com os métodos milagrosos de cura para voltar a bater bola por aí, com ou sem torcida, na TV do seu clube ou na grande emissora: estamos desenganados.

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Leandro Marçal Pereira

Escritor, careca e ansioso. Olha o futebol de fora das quadras e campos. Autor de dois livros: De Letra - O Futebol é só um Detalhe, crônicas com o esporte como pano de fundo publicado (Selo drible de letra); No caminho do nada, um romance sobre a busca de identidade (Kazuá). Dono do blog Tirei da Gaveta.

Como citar

MARçAL, Leandro. Desenganados pelo vô Nívio. Ludopédio, São Paulo, v. 133, n. 23, 2020.
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