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Desmanicomializando a loucura (também) no futebol

Dia 18 de maio é o dia da luta antimanicomial. Dia no qual, em linhas gerais, enfatizam-se esforços para sustentar a substituição da psiquiatria tradicional – centrada nos hospitais psiquiátricos -, por uma atenção psicossocial que priorize “dispositivos diversificados, abertos, de natureza comunitária ou territorial” (TENÓRIO, 2002). Isso, dito de outra forma seria uma lógica de saúde mental que contemple diversos modos de existir e de viver, que não puna e leve à cronificação aqueles sujeitos que não se adequam ao hegemonicamente tido como “correto” – em termos de comportamentos e práticas, mas não só -, e que sofrem. O movimento de repensar e encontrar alternativas à lógica psiquiátrica-manicomial, também afasta da centralidade os manuais diagnósticos que “enquadram”, recortam subjetividades a serem identificadas, contidas, desautorizadas por destoarem daquilo que conjuntamente vai sendo construído como “normal”. Nas políticas de saúde baseadas na conformidade dessa “normalidade”, prender é condição e sinônimo de cuidado. Um “cuidado” que aliena o sujeito de decisões sobre a sua vida, muitas vezes, sob a justificativa de que ele não dá conta, de que ele não entende sobre si e de que será melhor para ele a internação e a terceirização da vida. “Cuidado” que interrompe e interdita pessoas com base em diagnósticos, pelo incômodo de outros e não do próprio sujeito – às vezes por mais e às vezes por muito menos que isso.

Difícil resumir essa história tão complexa aqui, mas muitos exemplos temos de mulheres [1], pessoas negras, trans, não-binárias que carregam consigo uma longa história de enquadramentos que cerceiam suas existências com diagnósticos (médicos e/ou sociais). São tentativas constantes de imputá-las outros modos de vida, outros comportamentos, mais “adequados”: adequados aos que se sentem donos da razão e das regras sobre os corpos alheios. A maioria dessas pessoas são tidas como fora da ordem e/ou do progresso, infames e “[…] existências destinadas a passar sem deixar rastros” (FOUCAULT, 2012, p. 203). Algumas poucas conhecidas, em relação ao total, que tiveram a marca dos hospitais psiquiátricos em suas vidas.

Lima Barreto foi louco, não por não gostar de futebol (isso, inclusive, pode nos dizer sobre a sua lucidez na época em que viveu). Diagnosticado como alcoolista, neurastênico (“fraco dos nervos”), foi internado algumas vezes entre os anos 1910 e 1920.

Lima Barreto
Lima Barreto, primeira internação. Foto: Acervo da Biblioteca do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, 1914.

As mulheres [1], interditadas, proibidas de jogar futebol por décadas entre os anos 1940 e 1980. Loucas por gostarem daquilo que se dizia não ser para elas, desadequadas ao status quo. De certo, muitas foram parar em manicômios pelos seus “maus hábitos”, pela recusa do sexo ou simplesmente pelo não desejo mais de maridos de as terem consigo em casa

Heleno de Freitas, diagnosticado enganosamente sob psicose maníaco-depressiva (noção esta reformulada para Transtorno Afetivo Bipolar atualmente). Recebeu “tratamento” com eletrochoque. Chegou a protagonizar uma partida com jogadores que o foram visitar em um sanatório em Barbacena ao final dos anos 1950, onde, de estado grave, foi definhando até a morte.

Garrincha, episódios (vários) de psicose alcóolica aguda, estrela solitária. Driblava as internações entre os anos 1970 e 1980 como um dia driblou os adversários em campo. Chegou a ser internado onze vezes em quatro anos.

Elza e Garrincha
Elza Soares recebendo o diploma de Embaixatriz do Samba no Museu da Imagem e do Sim, com Garrincha ao fundo. Foto: Fundo Correio da Manhã.

Mais recentemente, Tiffany, não no futebol, mas no vôlei, é constante alvo de entendidos e desentendidos que autorizam e desautorizam sua condição de jogadora profissional com base numa suposta “normalidade” ao qual seu corpo é posto sempre a prova.

Galo Doido (a mascote que, como outras, carrega a assinatura da loucura em seu nome), louco por permitir a ludicidade em um futebol espetáculo regido, majoritariamente, pela racionalidade neoliberal. Futebol que não pode parar na pandemia ainda em curso, em nome desse “amor” que enlouquece.

O que me remete a um outro Doido, o Lisca. Esse virou doido “de bobeira”. Foi pego pelo discurso e pelo contágio da emoção da torcida de um clube pelo qual passou; por sua paixão pelo trabalho. Loucura reafirmada por explicitar o absurdo que é transformar o futebol na pandemia em normalidade. Normalidade que ignora mais de 400 mil mortes como se não estivesse no mesmo planeta onde estas aconteceram.

Isso sem falar nas torcidas, sobretudo as organizadas, as piores e mais perigosas formas de loucura no futebol, as mais perseguidas e às quais é atribuído, com frequência, a causa dos males desse contexto. Não poderiam ficar de fora dessa pequena e rápida listagem de atravessamentos da loucura (nem sempre hospitalizada, mas recorrentemente criminalizada) no futebol.

Dos modos mais ligados ao sofrimento, passando pelas noções de maldade e criminalidade, aos mais lúdicos, a presença da loucura no futebol é ampla e diversa na história. E é importante não a romantizar, pois esta é aceita até o limite que não enfrenta modos de ser sintonizados com a branquitude, com a juventude, com a cisheteronormatividade, com os movimentos do neoliberalismo.

Se em alguns momentos no esporte, a loucura é utilizada para elevar atletas aos céus, em momentos seguintes ela pode ser utilizada para desautorizar as suas existências. A “suspensão da realidade” é permitida em alguns momentos no futebol. Se a loucura justifica a genialidade que não se compreende racionalmente (ou, melhor, a partir de certa racionalidade), a emoção deve ser contida mesmo na comemoração do gol, momento no qual retirar a camisa é motivo de punição, por “atentar contra o pudor” da visibilidade da marca dos investidores. As emoções não podem fugir ao controle daqueles que pensam ter domínio sobre elas. Enfim, a loucura, quando não é tornada útil para justificar os atos geniais, serve para demarcar a obsolescência daquele sujeito improdutivo, desadequado.

Até certo ponto, o normal do capitalismo neoliberal incorpora a diferença em peças publicitárias, mas não admite “devir” demais. Ele pune, de maneiras diversas, quem ousa sair de seus domínios para cair em experiências sem rótulos. Porque sem rótulo o produto não é vendido. E aqui podemos lembrar do já antigo caso do “Imperador” que negou o “normal”. Louco por querer voltar para casa, para a periferia, produzindo uma falha no sistema de recompensas ligadas ao seu trabalho e à exaltação do status calcado na riqueza (quando e para quem convém).

Ainda há a loucura (não só fetiche) da mercadoria: à medida que envelhece, o corpo (objeto) perde a utilidade (para os padrões da produtividade neoliberal). E, deste modo, o sujeito e seu corpo tornam-se coisas a serem controladas, por vezes surpreendidos por uma interdição, subitamente passíveis de serem depositados e abandonados em um asilo ou hospital psiquiátrico. Lugar dos considerados incômodos, inúteis, imprestáveis, indóceis, drogados, alcóolatras, vagabundos, disfuncionais, violentos.

Os diagnósticos e comportamentos juntam-se como elementos em um dossiê “a favor da saúde da pessoa” através do qual esta é posta em um sistema de vigilância que não deixa escapar mesmo as desconexões cognitivas que talvez em nada tenham implicação no seu cotidiano. Logo esse dossiê poderá ser utilizado para alienar o sujeito das decisões sobre com quem quer conviver e, claro, sobre o manejo de seu dinheiro, gerido como herança de gente viva, mas à qual não se autoriza mais a vida como lhe convier.

Heleno, Garrincha e outros jogadores considerados problemáticos estão sempre na mira dos diagnósticos. Recorrentemente alcoólatras. Porta de entrada para diagnósticos mais pesados, se me permitem o trocadilho. Com frequência, os diagnosticados são os “rebeldes”, pois os que sofrem calados e bebendo em silêncio não se tornam “problemas” da ordem do dia.

Florenzano (1998) identificou nas páginas da Placar dos anos 1970 a imagem do jogador-problema. O jogador-maldito, decisivo para as relações de poder, através do qual a loucura da rebeldia revelar-se-ia “[…]enquanto loucura moral, produto de uma vontade má que se recusa à sujeição escolhendo o caminho temerário da contestação” (FLORENZANO, 1998, p.123). Só poderiam estar mesmo “confusos” por dizerem o que não se dizia.

Não esquivando os citados aqui e vários outros jogadores de suas responsabilidades pelos machismos que os atravessavam e que (re)produziam, pelas violências de gênero que perpetuavam e que também eram parte do “normal”. Certa razão tem sede por transformar situações-problema em diagnósticos individualizados que permitem a categorização e o precedente para interditar os corpos dos outros. Enquadrando-os em um Código Internacional de Doenças ou Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais é mais fácil desconsiderar o que pensam sobre si mesmos e despotencializar as suas ações no mundo. Torna-se, também, mais fácil se esquivar dessas e de outras violências como questões sociais e tratá-las como “casos isolados”, como desvios.

Nos territórios do futebol ou fora deles, alguém há de ponderar: “mas em algumas situações a internação é inevitável”. Mas vários momentos precedem este no qual a internação é considerada inevitável: o sofrimento ignorado, a velhice não aceita, o abandono, a loucura, a incompreensão (ou a falta de vontade de compreender), a não conformidade com o modo de ser e de viver esperados-impostos e o não reconhecimento da legitimidade de existências, são alguns deles. E isso não se resolve nos manicômios, nas prisões. Pelo contrário, só se agrava. Obviamente, a busca do alívio do próprio sofrimento não é algo a se condenar. A rotina é pesada, é cansativa, e por isso criar redes de suporte em uma perspectiva de aceitação das diferenças é um esforço na direção de produzir menos isolamentos de quem sofre.

Loucura
luta antimanicomial em Belo Horizonte (2019). Foto: Marina Dantas.

O propósito da extinção de modelos manicomializantes de “cuidado” da luta antimanicomial não propõe o “anticuidado”, tampouco o “anti-enfrentamento” aos modos de sociabilidade habituais que geram violências, discriminação, sofrimento (e internação). Propõe, ao contrário, outras formas de compreensão e enfrentamento do sofrimento psíquico que não ignorem as diferenças subjetivas, que não criminalize ou patologize modos de vida. Tampouco ignora as questões sociais que o racismo, as questões de classe, as assimetrias de gênero nos trazem, como podemos ver na história de Garrincha e Heleno. Sabemos que essas questões se perpetuam nos modos hegemônicos de se fazer futebol e perpassam a vida de vários desses homens geniais da bola. Mas essas e outras violências não são “coisa de louco” e é preciso encarar que o enfrentamento delas não está na punição de sujeitos individuais, que, quando muito, saciam os microfascismos em nós e os grandes fascismos engendrados na dinâmica social. O inevitável (e não o mais fácil) é a liberdade [2].

Referências e inspirações:

BARRETO, Lima. Diário do hospício; O cemitério dos vivos. Organização e notas: Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura. São Paulo: Cosac-Naif, 2010.

CASTRO, Ruy. Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

FLORENZANO, José Paulo. Afonsinho e Edmundo: a rebeldia no futebol brasileiro. São Paulo: Musa Editora, 1998.

FOUCAULT, Michel. A vida dos homens infames. In: ______. Ditos e Escritos, volume IV: estratégia, poder-saber. Organização, seleção de textos e revisão técnica: Manoel Barros da Motta. Tradução: Vera Lúcia Avellar Ribeiro. 3.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

NEVES, Marcos Eduardo. Nunca houve um homem como Heleno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2012.

TENORIO, Fernando. A reforma psiquiátrica brasileira, da década de 1980 aos dias atuais: história e conceitos. Hist. cienc. saude-Manguinhos, Rio de Janeiro , v. 9, n. 1, p. 25-59, abr. 2002. Acesso em 15 maio 2021.

Notas

[1] As loucas por excelência em uma sociedade que tem o homem, branco, cis, hétero como a circunscrição do normal.

[2] Agradecimentos especiais à amiga e pesquisadora Bárbara Mendes pela revisão do texto.

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Marina de Mattos Dantas

Psicóloga (CRP 04/28.914). Doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP (com estágio pós-doutoral em Estudos do Lazer na UFMG) e mestre em Psicologia Social pela UERJ. Professora substituta no Departamento de Fundamentos da Educação na Universidade Federal do Piauí e no Instituto de Educação Continuada da PUC Minas. Pesquisadora no Grupo da Estudos sobre Futebol e Torcidas (GEFuT/UFMG) e no Grupo de Estudos e Pesquisas em Psicologia Social do Esporte (GEPSE/UFMG). Produtora  no Programa Óbvio Ululante na Rádio UFMG Educativa.

Como citar

DANTAS, Marina de Mattos. Desmanicomializando a loucura (também) no futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 33, 2021.
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