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Felix Magath: um tirano ou apenas antiquado?

Dyego Lima 12 de setembro de 2021

“Não sei se ele poderia ter salvo o ‘Titanic’, mas pelo menos todos os sobreviventes estariam em ótima forma”.

Proferida há mais de 20 anos pelo ex-centroavante norueguês Jan-Aage Fjörtoft, essa frase se tornou famosa mundo afora por ser a melhor descrição possível sobre a maneira como Wolfgang-Felix Magath compreendia o jogo de futebol. Em síntese, o antigo treinador acreditava que sua equipe não poderia ser derrotada se aguentasse correr mais do que o adversário. E apesar desse viés não agradar à boa parte de seus comandados, foi partindo dessa crença que o alemão conquistou títulos – e algumas desavenças – ao longo dos seus 23 anos de carreira. Mas vamos do início para que possamos entender a história por completo.

Felix Magath
Felix Magath em 2011. Foto: Wikipédia

Os primeiros anos e a carreira como jogador

Nascido em 26 de julho de 1953 na cidade de Aschafemburgo, nas proximidades da Baviera, Felix Magath é filho de mãe alemã e um pai porto-riquenho que era soldado do Exército dos Estados Unidos. Como se a herança sanguínea já não fosse o suficiente para explicar o rigor que lhe seria característico no futuro enquanto técnico, coincidentemente, quis o destino que o jovem Felix viesse ao mundo dentro de uma base militar estadunidense na Alemanha. Um ano depois, o pai de Magath, tendo concluído sua missão em território alemão, decidiu abandonar a família e retornar a Porto Rico. Dessa forma, Felix só voltaria a ter contato com o pai em 1968, já aos 15 anos de idade, através de uma carta que ele enviou à ilha caribenha.

Sendo criado apenas por sua mãe, Magath já era envolvido com o futebol no período em que buscou comunicação com o pai. Ele já havia passado pelo VfR Nilkheim e, em 1964, ingressou no time juvenil do TV 60 Aschaffenburg, onde ficaria até 1972. Atuando como um meia de características ofensivas, Magath só faria a sua estreia no futebol profissional em 1974, na segunda divisão da Alemanha, com a camisa do FC Saarbrücken. Após se destacar, ele veio a atingir seu ápice como atleta profissional ao ser contratado pelo Hamburgo em 1976. A tradicional equipe alemã foi a última na carreira de Felix, que durou até 1986, e foi por lá que ele conquistou seus títulos enquanto jogador.

Com a camisa do Hamburgo, Magath venceu três vezes a Bundesliga e ganhou a Cup Winner’s Cup de 1977 anotando um dos gols na vitória por 2 a 0 sobre o Anderlecht na final. Além disso, marcou o tento que rendeu ao clube alemão o seu primeiro e único título da Copa dos Campeões da Europa, em 1983, diante de uma Juventus que contava com Zoff, Scirea, Gentile, Cabrini, Tardelli, Platini, Boniek e Paolo Rossi. As boas atuações com a camisa do Hamburgo lhe renderam, em 1977, a sua primeira convocação para a seleção da Alemanha Ocidental. Com a Nationalmannschaft, Magath conquistou o título da Eurocopa de 1980 e foi vice-campeão das Copas do Mundo de 1982 e 1986. Após o Mundial realizado no México, por conta de uma lesão no joelho, ele decidiu abandonar a carreira como jogador e se tornar treinador. Enquanto atleta profissional, Felix entrou em campo 425 vezes e anotou 78 gols.

Um treinador “casca-grossa”

Como técnico, Magath logo adquiriu a fama de “linha-dura”, sempre fazendo uso de métodos rígidos de treinamento que visavam deixar seus comandados na melhor forma física possível. Sempre cobrando de seus atletas máximo esforço, não demorou muito para que ele recebesse alguns apelidos. Um deles era “Saddam”, em alusão ao ditador iraquiano Saddam Hussein. Outros lhe chamavam de Qüalix, uma junção do verbo alemão “quälen” (torturar) com o primeiro nome do técnico, Felix.

Após algumas experiências frustradas em pequenas equipes da Alemanha, foi somente em 1995 que Magath recebeu a oportunidade de comandar um time de ponta. E foi justamente o seu antigo clube, o Hamburgo. Após assumir o lugar de Benno Möhlmann, ele ocuparia o cargo de técnico da equipe até 1997. E apesar de ter concluído a primeira temporada de forma promissora, com uma quinta colocação na Bundesliga, a seguinte foi decepcionante. Após uma derrota por 4 a 0 para o Colônia em 17 de maio, o Hamburgo se encontrava na 15° posição restando duas rodadas para o fim do campeonato. Magath acabou sendo demitido e deixou a equipe com um recorde geral de 28 vitórias, 19 empates e 22 derrotas.

Uma vez fora do Hamburgo, o técnico viveu, nos anos seguintes, um período como “salva-vidas”: assumiu clubes em situações complicadas na tentativa de guia-los pelo melhor caminho. E em setembro de 1997, a primeira equipe que recorreu a Magath com esse objetivo foi o Nuremberg, recém-promovido à segunda divisão, e que vinha lutando contra o rebaixamento. De maneira surpreendente, o técnico conduziu Der Club ao terceiro lugar ao final da temporada, o que significou o acesso à Bundesliga. Entretanto, por divergências internas, Magath acabou deixando a equipe, finalizando sua passagem com o balanço de 16 vitórias, oito empates e cinco derrotas.

Em seguida, foi a vez do Werder Bremen recorrer aos serviços de Felix Magath, numa passagem que sequer chegou a completar um ano, indo do fim de 1998 até o início do ano seguinte. Ao contratar o treinador, o clube acreditava que ele seria capaz de impedir o rebaixamento, perigo esse que Magath até conseguiu afastar nos primeiros meses de trabalho. Entretanto, a dois jogos do fim do campeonato e com o Bremen novamente ameaçado com o risco de descenso, o técnico alemão acabou sendo demitido. Nem o fato de Magath ter conseguido conduzir Die Werderaner à final da Copa da Alemanha serviu para aliviar a sua barra. Thomas Schaaf assumiu seu posto, livrou o Werder Bremen do rebaixamento por um ponto e garantiu o título da Copa frente ao Bayern de Munique nos pênaltis. O trabalho de Magath se encerrou com nove vitórias, sete empates e dez derrotas.

Na metade da temporada 1999-00, Magath assumiu o Eintracht Frankfurt, onde conviveu com problemas de relacionamento com membros da equipe e da direção desde o início dos trabalhos. Inclusive, foi lá que o técnico se encontrou com o norueguês Fjörtoft, autor da célebre frase que abriu este texto. A missão do técnico em seus primeiros meses com Die Adler seguia a mesma: livrar o clube do rebaixamento. E ele conseguiu, encerrando o campeonato na 14° colocação e com quatro pontos de vantagem sobre o SSV Ulm, primeiro dos relegados ao descenso. Mas na temporada seguinte não teve jeito. Em 26 de janeiro de 2001, após uma derrota por 5 a 1 para o Colônia – de novo eles – Magath acabou sendo demitido após 15 vitórias, cinco empates e 17 reveses. O Eintracht Frankfurt acabaria sendo rebaixado na penúltima colocação ao final daquela Bundesliga.

Saindo de Frankfurt, Magath pegou um trem em direção ao sudoeste da Alemanha e desembarcou em Stuttgart, assumindo o comando do principal clube da cidade na reta final da temporada 2000-01. A missão do técnico de imediato seguia sendo a mesma de antes. O que diferenciou esse trabalho dos anteriores acabou sendo o futuro construído por ele. No primeiro momento, Magath conseguiu cumprir com o esperado e livrou o Stuttgart do rebaixamento por três pontos para, no ano seguinte, conduzir Die Roten a um honroso oitavo lugar. Mas o melhor ainda estava por vir.

Na temporada 2002-03, superando as expectativas até do torcedor mais otimista, Magath levou o Stuttgart ao vice-campeonato da Bundesliga. Algo impensável se levarmos em consideração a situação em que o clube se encontrava quando o técnico chegou. E apesar da diferença de 16 pontos para o campeão Bayern de Munique, o importante mesmo para a equipe de Baden-Württemberg era a classificação para a Champions League seguinte. E se por um lado a fissura de Felix por um ótimo condicionamento físico de seus atletas se aproximava ao insano, por outro era justamente isso que acabava fazendo a diferença. Em campeonatos por pontos corridos, os times de Magath costumavam se destacar no segundo turno. Quando os adversários começavam a oscilar por conta do cansaço acumulado, os comandados de Felix conseguiam manter o nível.

Na temporada 2003-04, outra campanha de destaque garantiu ao Stuttgart o quarto lugar na Bundesliga, dez pontos atrás do campeão Werder Bremen, e a vaga na Copa da Uefa. Na Champions, o clube ficou no grupo E junto de Manchester United, Panathinaikos e Rangers. Com direito a uma vitória por 2 a 1 sobre a equipe de Sir Alex Ferguson na Alemanha, Die Roten somou 12 pontos e se classificou às oitavas em segundo lugar. No mata-mata, a derrota por 1 a 0 para o Chelsea na atual Mercedes-Benz Arena, somado ao 0 a 0 na Inglaterra, eliminou a equipe de Magath da competição europeia.

Durante seu período no Stuttgart, Magath foi responsável por revelar jogadores que viriam a se destacar na Bundesliga e, futuramente, atuariam pela seleção nacional, tais como Timo Hildebrand, Andreas Hinkel e o brasileiro naturalizado alemão Kevin Kurányi. Ao final da temporada 2003-04, o treinador deixaria o Stuttgart com um recorde de 73 vitórias, 37 empates e 37 derrotas. Só que dessa vez ele não foi demitido. Felix aceitou um convite para o maior desafio de sua carreira: comandar o principal clube da Alemanha, o Bayern de Munique.

A chance de ouro e o período de títulos

Felix Magath chegou à Baviera em julho de 2004 para dar continuidade ao trabalho vitorioso que vinha sendo desempenhado por Ottmar Hitzfeld desde 1998. E seu período em Munique foi, de fato, histórico. Nas duas temporadas completas em que passou por lá, Magath levou o Bayern aos títulos da Bundesliga e da Copa da Alemanha. Foi a primeira vez na história que um clube conseguiu fazer a dobradinha em duas temporadas consecutivas no futebol do país. Na Champions League, por outro lado, a equipe não conseguiu ir além das quartas de final, síndrome que já perseguia o time desde a temporada 2001-02.

Como acontece com boa parte dos trabalhos vitoriosos, chegou um momento em que ele estagnou. Em janeiro de 2007, com o Bayern estacionado na quarta colocação da Bundesliga, posição que deixaria o clube fora da próxima edição da Champions League, a direção do time bávaro optou por demitir Magath. Atletas como Kahn, Lúcio, Lizarazu, Ballack, Schweinsteiger, Zé Roberto, Roy Makaay e Philipp Lahm cooperaram para que Felix encerrasse seu ciclo na equipe de Munique com números expressivos: 84 vitórias, 25 empates, 22 derrotas, 264 gols marcados e 128 sofridos.

Em junho, pouco menos de seis meses após encerrar sua experiência no Bayern de Munique, Magath assinou contrato com o Wolfsburg para ser técnico e diretor de futebol. O grande destaque acabou sendo o primeiro e até hoje único título da Bundesliga conquistado por Die Wölfe, na temporada 2008-09, superando por dois pontos o ex-clube de Felix, o Bayern. O time-base daquela histórica conquista era composto por: Benaglio; Riether, Barzagli, Madlung e Schäfer; Josué, Hasebe e Gentner; Misimovic; Dzeko e Grafite. O centroavante brasileiro, em entrevista à Trivela, conta como era trabalhar com Magath:

“Trabalhar no dia a dia com Magath não é fácil. Ele valorizava a condição física, treinava bastante a condição técnica, os passes, fundamentos, controle de bola, finalização. Parte física era primordial. Me recordo que chegava em casa e não queria sair, e minha esposa até reclamava. Mas era fundamental para o sucesso que tivemos. A condição física foi vital para conquistarmos a Bundesliga”.

Após o fim da temporada que culminou com o título do Wolfsburg, Magath deixou o clube com um balanço de 46 vitórias, 18 empates e 21 derrotas, e partiu para Gelsenkirchen com a missão de assumir o Schalke 04. Por lá, o técnico encontraria o ídolo madridista Raúl González, que garantiu que os métodos de trabalho do técnico foram responsáveis por lhe tornar “cinco anos mais jovem”. E o primeiro ano de Felix no cargo foi empolgante, culminando com um vice-campeonato da Bundesliga, cinco pontos atrás do campeão Bayern de Munique. Entretanto, na temporada seguinte, com jogadores descontentes e uma série de resultados decepcionantes, Magath acabou sendo demitido e deixou Die Knappen após 42 vitórias, 16 empates e 21 derrotas. Dentre os atletas chateados com o técnico estava o espanhol José Manuel Jurado, que chegou a afirmar:

“Um dia ele nos fez treinar sem luvas nem gorros a quatro graus abaixo de zero porque havíamos perdido uma partida”.

Magath
Magath treinando o Schalke 04. Foto: Wikipédia

O início do fim

Em 18 de março de 2011, apenas dois dias após sua saída do Schalke 04, Magath acertou seu retorno ao Wolfsburg para tentar replicar o sucesso de outrora na Baixa Saxônia. A diferença foi que dessa vez o clube estava lutando contra o rebaixamento. Já tendo experiência nesta situação, o técnico conseguiu livrar o clube do descenso. E mesmo com a equipe vivendo esse período crítico, ainda deu tempo para que Felix se desentendesse com meia brasileiro Diego. Após ser informado pelo técnico de que não seria relacionado para uma partida, o jogador decidiu abandonar a concentração. Na tentativa de apaziguar os ânimos, a diretoria decidiu emprestar o atleta ao Atlético de Madrid.

Na temporada seguinte, mesmo com todo o investimento feito pela direção, Magath só conseguiu levar o Wolfsburg ao oitavo lugar na Bundesliga. E as rusgas com Diego, que havia retornado do empréstimo, não cessaram. O técnico afirmou que o brasileiro não se dedicava totalmente nos treinamentos e chegou a manda-lo para o time B, que disputava a quarta divisão nacional. Na temporada 2012-13, após um início ruim na Bundesliga, com apenas cinco pontos conquistados em oito partidas, Magath e a direção do Wolfsburg entraram num acordo e o técnico deixou o cargo em 25 de outubro de 2012. A segunda passagem de Felix por Die Wölfe encerrou-se com 18 vitórias, 10 empates e 24 derrotas.

Após deixar o Wolfsburg, Felix Magath passou um longo período desempregado. Foi só em 14 de fevereiro de 2014 que ele acertou seu retorno ao futebol, num contrato de 18 meses com o Fulham. Ele se tornaria o primeiro alemão a comandar um clube da Premier League. Novamente, sua missão seria salvar o clube do rebaixamento. Em seus primeiros dias no comando, o técnico intensificou os treinamentos, pôs horas extras de atividades e deu o recado à torcida em sua coletiva de apresentação: nossa prioridade são os resultados, não um futebol vistoso. Uli Hoeness, presidente do Bayern de Munique durante a passagem de Magath pela Baviera, chegou a afirmar que o comandante, por vezes, passava dos limites na preparação física dos jogadores. Felix prontamente respondeu:

“Ninguém nunca morreu por conta de disciplina”.

Polêmicas à parte, a verdade é que a situação lá pelos lados de Craven Cottage não melhorou nem mesmo com a chegada de Magath. O clube acabou sendo rebaixado para a segunda divisão ao ficar quatro pontos atrás do West Bromwich. Apesar disso, a diretoria, em nome do proprietário Shahid Khan, acreditou que o técnico tinha a capacidade para fazer com que o Fulham conseguisse uma promoção imediata à Premier League. Mas não foi bem isso o que aconteceu. Com apenas um ponto conquistado nas primeiras oito rodadas, a equipe se encontrava na lanterna, e Magath acabou sendo demitido em 18 de setembro de 2014. O alemão deixou The Cottagers com um saldo irrisório de quatro vitórias, quatro empates e 12 derrotas.

Em meio ao trabalho decepcionante no Fulham, um episódio curioso nos ajuda a entender como Felix Magath pode ter contribuído para a perda da confiança do elenco em seu trabalho, culminando na sequência de resultados ruins e, por fim, em sua demissão. O zagueiro norueguês Brede Hangeland havia sofrido uma leve contusão muscular na coxa. O médico do clube, naturalmente, recomendou um programa de tratamento para curar a lesão. Magath, por outro lado, apareceu com uma recomendação peculiar: uma compressa com queijo, a qual o jogador deveria deixar sobre a perna machucada durante algumas horas, e que serviria para “acalmar o músculo”. O técnico ainda completou: “Ligue para a sua mãe porque ajuda conversar com alguém que o ama muito enquanto o queijo trabalha”. O método, logicamente, não funcionou.

Após deixar o Fulham, Magath passou mais um período de tempo desempregado. Ele só retornaria ao futebol em 8 de junho de 2016, assumindo o comando do Shandong Luneng, da China, no lugar do brasileiro Mano Menezes. Ele concluiu o Campeonato Chinês daquele ano na 14° colocação, escapando do rebaixamento por dois pontos. No ano seguinte, trabalhando desde o início da temporada, Magath levou o time ao sexto lugar. Após essa experiência no futebol asiático, o técnico retornou ao desemprego após deixar o Shandong Luneng com um recorde de 20 vitórias, 15 empates e 16 derrotas. Em janeiro de 2020, declarou que a sua carreira como treinador de futebol havia acabado. Além dos títulos que conquistou, Felix Magath foi eleito o melhor técnico alemão nos anos de 2003, 2005 e 2009.       

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Dyego Lima

Jornalista formado pela UFRN. Aficionado por esportes. Futebol principalmente, mas não somente. Made in Universidade do Esporte!  

Como citar

LIMA, Dyego. Felix Magath: um tirano ou apenas antiquado?. Ludopédio, São Paulo, v. 147, n. 19, 2021.
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