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Futebol na literatura alemã – parte V: Bundesliga 1971/72, a “temporada dos sonhadores”

Em 2021, a Academia Alemã para a Cultura Futebolística (Deutsche Akademie für Fußballkultur), outorgou o título de ”livro do ano“ à obra 71/72: Die Saison der Träumer (71/72: A temporada dos sonhadores), do jornalista e escritor Bernd-M. Beyer[1]. Nesse livro, Beyer acompanha – rodada por rodada – o andamento da temporada da primeira divisão do campeonato alemão (a Bundesliga) entre agosto de 1971 e junho de 1972, entretecendo os acontecimentos no gramado com a história e as estórias ao seu redor.

Alemanha
Capa do livro “71/72”. Fonte: Editora Die Werkstatt, divulgação

 

Em termos futebolísticos, a temporada de 1971/72 é extraordinária, em sentido tanto positivo quanto negativo. […]  É uma tentação descrever a temporada de 1971/72 bem concretamente no contexto histórico dos acontecimentos e desenvolvimentos não-esportivos – relativizando-a de certa forma. Nisso, fica evidente que uma série de acontecimentos importantes não afeta exclusivamente os dez meses daquela temporada, mas que se vai desenvolvendo exatamente nesse período e acaba culminando quase simultaneamente no início do verão de 1972. (BEYER, 2021, p. 19)[2]

Em termos esportivos, a temporada se centra na disputa entre o FC Schalke 04 e o FC Bayern München pelo campeonato – decidida a favor do Bayern em confronto direto na última rodada[3] –, mas também os jogos da Copa da Alemanha – essa conquistada pelo Schalke[4] – e da seleção alemã rumo ao triunfo na Copa da Europa de 1972 recebem a merecida atenção.

Já por si só, a temporada de 1971/72 mereceria um livro ou daria um romance, por vários motivos: Poucos campeonatos foram tão disputados como este, conquistado pelo FC Bayern München somente na última jornada e em duelo direto entre os dois rivais pelo título. O Bayern ganhou este campeonato com um time hoje lendário, montado ao redor de Franz Beckenbauer e Gerd Müller, o goleiro Sepp Maier, e estreando os jovens Paul Breitner e Uli Hoeneß. Foi naquela temporada que Gerd Müller marcou os seus lendários 40 gols – recorde “eterno” superado somente em 2020/21 por Robert Lewandowski com seus inacreditáveis 41 gols –, e o time totalizou o número até hoje inigualado de 101 gols.

Foi somente o terceiro campeonato nacional do Bayern (depois de 1932 e 1969), mas iniciou a absurda hegemonia do clube no contexto alemão que tem culminado (por enquanto) num total de 32 campeonatos, dentre eles uma série ininterrupta de dez (!) títulos seguidos entre 2013 e 2022. A vitória do Bayern em 1972 iniciou também a lendária rivalidade com o Borussia Mönchengladbach, que a partir dali iria marcar o futebol alemão dos anos 1970.

Günter Netzer, “das profundezas do espaço“

Mesmo que o Gladbach, na temporada de 71/72, ainda não disputasse o título, já contava com um time “do futuro” – que iria formar a lendária “Fohlenelf” (“o time dos potros”), com Jupp Heynckes, Berti Vogts e, sobretudo, Günter Netzer. Este último foi outro jogador mítico que deixou a sua marca na história naquele ano e que, fora dos gramados, contribuiu de forma decisiva para a saída do futebol alemão das delimitações estritas do mero esporte, levando-o para a esfera da cultura pop (BEYER, 2021, p. 59) e para outro nível de relevância sociocultural.

Voltando para o campo de futebol, em outubro de 1971, o Gladbach derrotou a Inter de Milão na partida de ida pelas oitavas de final da Copa Europeia dos Campeões por 7-1. Esse jogou lendário, que até hoje é considerado um dos melhores do clube em todos os tempos, merece um lugar de destaque na historiografia do futebol também por outros motivos, não esportivos. Primeiro, não houve transmissão ao vivo na TV alemã, porque o clube e a TV pública não conseguiram chegar a um acordo financeiro. Segundo, por causa de um jogador da Inter alegar que fora atingido por uma lata de Coca-Cola cheia na cabeça e ter desmaiado, o jogo foi posteriormente anulado pela UEFA, mesmo sem que o árbitro tivesse registrado a ocorrência na súmula oficial … um mistério até hoje não esclarecido.[5]

Günter Netzer foi também um dos jogadores mais importantes da seleção alemã que, em 1972, conquistou a primeira Eurocopa para a Alemanha. Foi o primeiro título internacional depois do Campeonato Mundial de 1954 e a primeira vitória em palco europeu, que hoje tem um papel bem definido e destacado na memória nacional e é considerado como façanha de uma das melhores seleções alemãs de todos os tempos, se não da melhor mesmo.

Nesse imaginário, Günter Netzer desempenha um papel central, particularmente na partida de ida pelas quartas de final contra a Inglaterra, em Wembley no dia 29 de abril de 1972, a primeira vitória alemã em solo inglês (por 3 a 1), foi uma “hora da estrela” do futebol alemã articulado pelo trio Beckenbauer, Netzer e Müller, e originou o ditado de “Netzer surgindo das profundezas do espaço” (“… und Netzer aus der Tiefe des Raumes …”).[6]

Corrupção na liga e a tragédia de “Stan” Libuda

Porém, voltando no tempo para o início da temporada em 1971 e para o cotidiano do campeonato nacional, o que marcou o andamento da competição, a imagem pública do futebol profissional e também o destino de vários clubes, foram as consequências e sequelas do escândalo de corrupção e manipulação acontecido na temporada anterior da Bundesliga e investigado e descoberto sucessivamente durante a temporada de 1971/72.

Aos poucos se revelam as verdadeiras dimensões do escândalo. Nos meses seguintes, as investigações vão providenciar o blues, a triste música de fundo para os acontecimentos glamorosos no gramado. (BEYER, 2021, p. 15)[7]

No centro do escândalo figuram jogos manipulados para os clubes Rot-Weiß Oberhausen e Arminia Bielefeld se salvarem do rebaixamento, pagando aos times adversários na fase final da temporada uma propina para que se deixassem derrotar. O esquema foi denunciado pelo presidente do Kickers Offenbach, clube rebaixado na temporada de 1970/71, que tinha gravado alguns telefonemas com representantes e jogadores de outros clubes oferecendo derrotas contra o Offenbach por determinados valores financeiros.

Durante a temporada de 1971/72 foi descoberta a participação nesse esquema de corrupção de jogadores do Hertha BSC e do Eintracht Braunschweig, e quase todos perderam a licença profissional para jogar na Alemanha por alguns anos ou pela vida inteira. O Arminia Bielefeld até perdeu a licença para a Bundesliga, teve que terminar a temporada, mas sem ganhar pontos e com o rebaixamento já decidido. E, não por último, foi o time do Schalke – vice-campeão da Bundesliga e campeão da Copa da Alemanha daquela temporada – que viu vários de seus jogadores envolvidos no escândalo e, finalmente, punidos pela Federação Alemã de Futebol, e ainda por cima pela justiça alemã, por terem jurado em falso alegando a sua inocência nos casos investigados.

No total, 52 jogadores de sete clubes são punidos, além disso, os técnicos de Arminia Bielefeld e Rot-Weiß Oberhausen, bem como alguns cartolas e os presidentes de Kickers Offenbach (Horst-Gregorio Canellas), Rot-Weiß Oberhausen (Pater Maaßen) e Hertha BSC (Wolfgang Holst). Acredita-se que no mínimo oito partidas disputadas na fase final da temporada de 1970/71 sofreram manipulações ou tentativas de manipulação. Em soma, foram pagos cerca de 1,1 milhões de marcos alemães. (BEYER, 2021, p. 312)[8]

Nesse contexto, Bernd-M. Beyer centra o seu enfoque na figura trágica de Reinhard Libuda, lateral direito de talento extraordinário do Schalke 04, por todo mundo chamado de “Stan”, por dominar com perfeição a jogada “inventada” por Stanley Matthews. Esse truque de parecer ir por um lado e ultrapassar o adversário pelo outro lado é facilmente identificado pela torcida brasileira como a jogada característica de Garrincha, outro ponta direita lendário. E por essa coincidência mesmo, Libuda também foi chamado pela imprensa esportiva alemã de “o Garrincha do Schalker Markt”.[9]

FC Schalke 04
Reinhard “Stan” Libuda em ação. Fonte: FC Schalke 04

Para melhor visualizar as semelhanças entre o “Mané” e o “Stan”, podem servir os vídeos dos dois “gols do mês” – tradicional votação dos telespectadores do programa esportivo “Die Sportschau” na TV pública alemã – que Libuda marcou durante a sua carreira. O primeiro em agosto de 1971, no início da temporada aqui contemplada, atravessando quase o campo inteiro, contornando todos os adversários para acertar o gol vazio (https://www.sportschau.de/tor-des-monats/video-tor-des-monats-august-sp-142.html); e o segundo em abril de 1972, pouco antes do fim da mesma temporada – gol marcado pelo colega de time Klaus Scheer, mas com uma participação de Libuda tão decisiva que o seu lançamento à maneira de Garrincha foi expressamente incluído na premiação (https://www.sportschau.de/tor-des-monats/archiv/april72tdm-sp-100.html).

Reinhard Libuda figurava entre os jogadores do Schalke que, no início das investigações, se declararam inocentes e até juraram em falso, para – no final da temporada – verem a sua participação no esquema e a culpa comprovadas, e sofrerem as consequências tanto esportivas – proibição de jogar profissionalmente na Alemanha – como também jurídicas. Ao longo do livro, Beyer reconstrói como um jogador sensível como “Stan” Libuda sofria com a incerteza, a pressão e o medo que esses acontecimentos causavam para ele, mostrando que afinal o escândalo acabou com sua carreira. Sem autorização para jogar na Alemanha, no fim de 1972 Libuda se deixou contratar pelo Racing Club de Strasbourg, na França, onde não conseguiu se adaptar e fracassou. Em janeiro de 1975, Libuda – como vários outros jogadores – recebe uma anistia geral e volta a jogar pelo Schalke, porém sem chegar nem perto da sua capacidade anterior e terminando a carreira ativa depois de alguns jogos medíocres (BEYER, 2021, p. 326).

Marcas da história do futebol alemão

Além dessas linhas principais, Beyer insere detalhes muito interessantes ao longo da temporada, que pertencem à história do futebol alemão.

Em primeiro lugar, o jogo de despedida de Uwe Seeler pelo Hamburger SV em maio de 1972. O eterno craque alemão – falecido em julho deste ano e homenageado pela Alemanha inteira – jogou a sua última temporada em 71/72 num time fraco do HSV e sem conseguir grandes façanhas. Mas a sua figura – até hoje lembrada e respeitada por sua sinceridade e humildade (Seeler nunca deixou o HSV, “seu clube”, nem enquanto jogador nem depois, rejeitando inclusive ofertas tentadoras da liga italiana) serve como contraste forte e esperançoso com o marasmo de corrupção que se manifestou em 1971 nos primórdios do futebol alemão enquanto “grande negócio”.[10]

Dentro dessa dinâmica da comercialização do futebol alemão, a temporada de 1971/72 foi também a primeira em que os jogadores na Alemanha puderam atuar oficialmente como “profissionais”, com a possibilidade de ganhar salários e premiações sem teto predeterminado. E alguns dos clubes de renome internacional, já naquela época, empreendiam viagens internacionais a países em situação “complicada” para disputar jogos de valor esportivo praticamente nulo. Beyer relata como o FC Bayern, imediatamente após o último jogo da temporada, parte em viagem lucrativa para o Irã, para jogar dois amistosos contra seleções locais (BEYER, 2021, p. 305).

Como reação e parte da mesma evolução, Beyer constata para aquele ano a primeira consolidação da cultura das torcidas organizadas no país. Já em 1968, surgiram as primeiras torcidas organizadas no âmbito do 1. FC Nürnberg e do Borussia Dortmund, em 1971/72 seguiram as do VfL Bochum e do Hertha BSC de Berlim. Nos estádios, apareciam as primeiras camisas de times (ainda feitas em casa) e nascia a tradição do “uniforme” de torcedor: a famosa “Kutte” – um paletó de jeans ou uma jaqueta de jeans com as mangas cortadas, adorados com emblemas do clube, da torcida, de grupos aliados etc. (BEYER, 2021, p. 78).

E, não por último – principalmente por evidenciar o grau de conservadorismo e atraso que marcava todo o sistema do futebol organizado e profissional na Alemanha na época – 1972 foi o ano em que a proibição formal de promover e disputar competições no futebol de mulheres, decretada em 1955 pela DFB, foi finalmente abandonada. Entretanto, essa nova “liberdade” ficou limitada a competições regionais; a primeira Copa nacional de mulheres foi disputada somente em 1980/81, o primeiro jogo oficial de uma seleção alemã de mulheres aconteceu em 1982, e só em 1990 foi organizado o primeiro campeonato nacional de futebol de mulheres, a “Frauen-Bundesliga”.

O contexto político

A temporada de 1971/72 também ficou marcada pelos Jogos Olímpicos que iriam acontecer depois – no fim de agosto e início de setembro – em Munique. O Estádio Olímpico de Munique, construído para o evento, foi inaugurado por ocasião do amistoso da seleção alemã de futebol contra a União Soviética, em 26 de maio de 1972; e o FC Bayern estreou a sua nova casa na última rodada da temporada, no duelo direto contra o rival Schalke 04, decidindo o campeonato alemão, em 28 de junho.[11]

Esses mesmos Jogos Olímpicos de Munique foram o cenário para uma tragédia sem par, o ataque à moradia dos atletas israelenses na Vila Olímpica por um comando terrorista palestino e o fracasso da polícia alemã ao tentar libertá-los, que causou um total de 11 israelenses mortos, no dia 5 de setembro. Essa tragédia, que faz parte do “epílogo” do livro, nos leva para a dimensão política em torno do futebol durante a temporada de 1971/72, que Bernd-M. Beyer consegue reconstruir de maneira viva ao longo das rodadas e dos jogos recontados.

Os anos 1971 e 1972 marcaram a fase final da chamada primeira geração da Rote Armee Fraktion (RAF – Fração Exército Vermelho), grupo de extrema esquerda que, na segunda metade dos anos 1960, se foi radicalizando a ponto de optar pela clandestinidade e pela luta armada contra o estado da República Federal da Alemanha. Seus líderes eram Ulrike Meinhof, Gudrun Ensslin e Andreas Baader, todos até hoje personagens centrais da história alemã recente e vistos ou como heróis idealizados da resistência política ou como exemplos do terrorismo desnorteado. A primeira metade de 1972 foi marcada por vários atentados da RAF e pela reação do Estado, que culminou com a morte ou a prisão de todos os integrantes do grupo até junho daquele ano.[12]

A própria história contemporânea da RAF mostra a atitude conflituosa e as contradições inerentes ao movimento político que a originara, pois o início dos anos 1970 foi marcado pela chamada “política oriental” (“Ostpolitik”) do chanceler Willy Brandt, a sua iniciativa – intensivamente discutida, rejeitada e condenada por grande parte do centro e da direita da sociedade alemã da época – de fortalecer a paz e de promover a aproximação entre os blocos políticos através do reconhecimento oficial do status e do território da União Soviética e da Polônia – e não por último do território da RDA, parte oriental da Alemanha dividida –, nos Acordos de Moscou e de Varsóvia em maio e junho de 1972.

O caminho para esses Acordos aparece em perturbante analogia com o escândalo na Bundesliga, pois a oposição no Parlamento Alemão tentava impedir a política de Brandt a qualquer custo. Houve repetidas tentativas de seduzir deputados da bancada do governo com “gratificações financeiras”, caso abandonassem a bancada ou garantissem votar contra o próprio chanceler; também o governo usou a corrupção financeira para “convencer” deputados vacilantes a permanecerem firme. Beyer relata que existem pelo menos quatro casos confirmados em que deputados receberam dinheiro no contexto desse conflito político, no parlamento nacional (BEYER, 2021, p. 235). Em todo caso, uma votação de desconfiança reivindicada pela oposição – a forma alemã constitucional de forçar um governo a desistir e se reconstituir ou conclamar novas eleições – em abril de 1972 fracassou, e em maio do mesmo ano, Willy Brandt ganhou a votação para os Acordos de Moscou e Varsóvia a serem assinados pouco depois.

Rock político alemão: Ton Stein Scherben

Com essas ”circunstâncias” do futebol na Alemanha dos anos 1971 e 1972, chegamos ao segundo eixo central do livro, constituído pela música pop, mais concretamente pelo rock político da banda berlinense Ton Steine Scherben[13], que Bernd-M. Beyer coloca em diálogo com o mundo do futebol – a Bundesliga, a Copa Alemã e a Eurocopa.

Como o conceito de “rock político” já indica, a banda apresenta uma ligação estreita com os acontecimentos sociopolíticos acima referidos. A sua existência e atuação se situava na tradição do agit-prop, das intervenções artísticas de teor político, intenção pedagógica ou propagandística, tudo ambientado no contexto da cultura esquerdista-alternativa que surgira no fim dos anos 1960 e que se cristalizou fortemente ao redor da ocupação de prédios abandonados ou vazios devido à especulação financeira dos proprietários num mercado imobiliário bastante apertado. Nos anos 1970, muitos desses prédios ocupados se transformaram em centros culturais da cena esquerdista, em laboratórios para formas alternativas de convivência e organização social, em moradia e lugar de trabalho para artistas.

Ton Stein Scherben nasce do encontro de dois jovens, Ralph Christian Möbius e Ralph Peter Steitz, no interior da Alemanha Ocidental. Em 1967, os dois se mudaram para a “desmilitarizada” Berlim Ocidental, na época o tradicional refúgio para quem queria escapar do serviço militar obrigatório e, por isso, tornou-se um laboratório altamente condensado da cultura alternativa. Lá, os dois adotaram nomes de guerra, Steitz – o futuro guitarrista e principal compositor da banda – dali em diante seria chamado de RPS Larue, e Möbius – carismático cantor da banda e, posteriormente, um dos mais influentes protagonistas da música pop alemã – se transformaria em Rio Reiser.[14] A banda Ton Stein Scherben se formou em 1970 a partir de vários projetos de teatro de rua, desenvolvendo um som roqueiro a serviço da ação política, com letras em alemão, o que no âmbito do rock da época era uma rara exceção.[15]

Rio Reiser
Capa da autobiografia de Rio Reiser “König von Deutschland”. Fonte: Editora Kiepenheuer & Witsch, divulgação

Já em 1971, a banda criou o seu próprio selo independente, David Volksmund Produktion, e lançou o seu primeiro disco em setembro do mesmo ano: Warum geht es mir so dreckig? (Por que estou tão fodido?), contendo músicas hoje consideradas clássicos do rock alemão e precursores do punk, como „Macht kaputt, was euch kaputt macht“ („Quebrem o que está quebrando vocês”) ou “Ich will nicht werden, was mein Alter ist” (“Não quero chegar a ser o que é o meu pai”, aqui numa gravação ao vivo em estúdio: https://youtu.be/p4sQ_LI5Hk4).

Em staccato selvagem e com fragmentos curtos de palavras, Rio descreve na música a miséria do seu ambiente capitalista: “Trens rolando / dólares rolando / máquinas andando / pessoas labutando / construir fábricas / construir motores / construir canhões”, perguntando no final: “Para quem?” Segue uma chamada inequívoca: “Quebrem o que está quebrando vocês.”

Para integrar musicalmente o cantar falado, ou melhor: gritado de Rio, a banda lhe providencia uma base com um riff roqueiro em repetição contínua: la-mi-mi bemol-si-re-do. O som martelado tem um efeito entusiasmante, rebelde e potencializa o som reivindicativo da voz. (BEYER, 2021, p. 67)[16]

Em dezembro de 1971, Georg von Rauch, um jovem procurado por atividades clandestinas no âmbito da RAF, foi baleado pela polícia berlinense na tentativa de prendê-lo. À época, a esquerda afirmou que von Rauch teria se rendido antes de ser morto e que não andava armado. Poucos dias depois, um show dos Scherben na Universidade Técnica de Berlim acabou num tumulto e uma centena de pessoas invadiu e ocupou um prédio no antigo hospital Bethanien no bairro de Kreuzberg, logo batizado de “Georg-von-Rauch-Haus” e eternizado na música “Rauch-Haus-Song” (https://www.youtube.com/watch?v=NMiznsg5As0) (BEYER, 2021, p. 140-141).

Essa música também está incluída no segundo álbum de Ton Stein Scherben, Keine Macht für Niemand (Nenhum poder para ninguém), lançado em outono de 1972 e até hoje a obra mais famosa da banda. O disco reúne as duas dimensões que caracterizam a importância e o impacto duradouro dos Scherben e de Rio Reiser na música pop alemã: a crítica social e – como elemento novo – a poesia intimista em clave de um rock mais complexo e diferenciado. Uma música que representa bem essa mistura extraordinária é “Der Traum ist aus” (“O sonhou acabou”, https://www.youtube.com/watch?v=5h9iulGiprw), com uma linguagem metafórica que funciona como mensagem política e, ao mesmo tempo, íntima:

Eu sonhei que o inverno tinha terminado / e você estava aqui e nós éramos livres, / e no céu o sol da madrugada.

Não havia medo e nada a perder. / Havia paz entre as pessoas e entre os animais. / Era o paraíso.

O sonho acabou! O sonho acabou! / Mas eu vou fazer de tudo para que vire realidade. / Mas eu vou fazer de tudo para que vire realidade.

[…]

Será que há na terra um país / onde o sonho é realidade? / Eu realmente não sei.

Eu só sei uma coisa e dela estou seguro, / este país não é. Este país não é. / Este país não é, este país não é. (https://riolyrics.de/song/id:44)[17]

Ton Steine Scherben
Capa do disco “Keine Macht für Niemand”, de Ton Steine Scherben. Fonte: Wikipedia

Essa mistura até hoje poderosa e fascinante se origina, em grande parte, no conflito vivido pelo cantor Rio Reiser, entre o seu papel de porta-voz de uma esquerda subcultural e a necessidade de expressar os tormentos de um artista sensível e homossexual.

Na época, ainda estava vigente no Direito Penal alemão a proibição de relações homoafetivas, e em termos sociais e mentais, também a esquerda (ainda) não se mostrava tão progressista e não defendia que ser homossexual não representava qualquer forma de problema ou causava rejeição aberta ou velada.[18] Nesse ambiente, Rio Reiser vivia abertamente como gay assumido somente dentro de um círculo muito limitado de amigos e companheiros, e só mais de uma década mais tarde, a partir de 1986, passou a se manifestar publicamente sobre a sua orientação sexual (BEYER, 2021, p. 168).

Da mesma forma que a banda e seu entorno não cabiam dentro dos padrões de uma esquerda inflexível em termos morais e sexuais, seus integrantes – com exceção de Rio Reiser – nunca esconderam e até celebravam o seu interesse pelo futebol, jogando peladas com regularidade e acompanhando as partidas transmitidas pela televisão. Com isso, os Scherben subverteram inclusive o velho clichê do dogma esquerdista de rejeitar a paixão futebolística sob o jugo do nacionalismo inerente a seleções nacionais, apoiando abertamente a seleção alemã, “quando esta jogava bem” (BEYER, 2021, p. 235-236)

Fechando o círculo, a volta do futebol

No início dos anos 1970, Paul Breitner era uma jovem promessa no FC Bayern e já ia redefinindo e modernizando o papel do zagueiro, avançando e atacando pela lateral. Fora do gramado, ele cultivava a imagem do rebelde e revolucionário, usava o cabelo em estilo “afro” e se manifestava publicamente contra a Guerra do Vietnã, o imperialismo norte-americano e a ordem política estabelecida. Pouco surpreendente que ele tenha sido um dos craques “aceitáveis” em esferas esquerdistas e também entre os integrantes de Ton Steine Scherben – sempre excetuando a Rio Reiser. Em outono de 1972, a banda lhe mandou como presente um exemplar do segundo disco Keine Macht für niemand acompanhado pelo pedido de “tornar o Bayern vermelho”. Tal missão guardava certa utopia: por um lado, o Bayern tradicionalmente usava vermelho e, por outro, nem o clube nem o próprio Breitner tinham a ambição ou disposição de redefinir esta cor em termos políticos. Mesmo assim, o respeito parece ter sido recíproco, pois contam os músicos que, certo dia em janeiro de 1973, Paul Breitner apareceu espontaneamente na porta do apartamento berlinense onde morava a banda inteira, para aproveitar umas horas de papo sobre música, futebol e política (BEYER, 2021, p. 266).[19]

No final do livro, Bernd-M. Beyer reaproxima os seus dois heróis tristes e trágicos – os principais “sonhadores” do título –, que nunca tiveram consciência um do outro ou da conjunção que iria acontecer 50 anos mais tarde através do enfoque ousado do autor. A linha do tempo, infelizmente, facilita o paralelismo entre o cantor e o lateral direito:

Em agosto de 1996, dentro de cinco dias somente, falecem Reinhard Libuda e Rio Reiser. Ambos não chegaram a uma idade avançada, o primeiro tinha 52 anos, o segundo 46 (BEYER, 2021, p. 322)[20]

Para além da proximidade das datas de óbito, Beyer percebe, nos dois, um gênio completamente concentrado no respectivo ofício – no jogo de futebol e na música –, contrabalançado uma incapacidade fundamental na dimensão prática e racional da vida:

Nisso, Rio Reiser se assemelha a Reinhard Libuda, de algum modo. Ambos dominavam a arte de jogar, e muito menos as regras do jogo.

E como a do Stan, assim também a fama de Rio se mantém até hoje. (BEYER, 2021, p. 324)[21]

Foi em grande parte essa fama entre os torcedores e fãs que permitiu uma última analogia entre os dois protagonistas: Rio Reiser falecera e fora sepultado num pequeno sítio da banda em Fresenhagen, no Norte da Alemanha, mas em 2011 seus herdeiros tiveram que vender a propriedade e a sepultura foi transferida para Berlim. Em julho de 2021, o Senado de Berlim decidiu outorgar-lhe o título de “sepultura de honra”, formalizando o status do cantor como parte da memória nacional. Devido ao seu envolvimento no escândalo e a punição recebida, Stan Libuda não podia receber uma sepultura de honra do Schalke 04. Em 2021, quando sua sepultura comum deveria ser prorrogada ou desfeita, uma fundação de torcedores e a família de Libuda conseguiram a transferência de seu corpo para o cemitério oficial da torcida do Schalke, como forma popular de homenagear o legado do craque no âmbito do clube.

Notas

[1] Bernd-M. Beyer é também autor da biografia do técnico da seleção alemã campeã europeia em 1972 e mundial em 1974, Helmut Schön (“livro de futebol do ano” em 2017) e do romance Das Leben des Walther Bensemann (A vida de Walther Bensemann), biografia ficcionalizada do pioneiro do jornalismo esportivo alemão e fundador da revista futebolística Der Kicker (2014).

[2] “Die Saison 1971/72 ist fußballhistorisch eine außerordentliche, im Guten wie im Schlechten. […]  Es ist verlockend, die Saison 1971/72 ganz konkret im zeitlichen Kontext mit nicht-sportlichen Ereignissen und Entwicklungen zu schildern – und damit in gewisser Weise zu relativieren. Dabei zeigt sich: Eine Reihe bemerkenswerter Begebenheiten tangieren nicht einfach nur die zehn Monate dieser Saison, sondern sie entwickeln sich genau in diesem Zeitraum und kulminieren schließlich nahezu zeitgleich im Frühsommer 1972.” – Todas as traduções do Alemão para o Português, salvo outra indicação, são de minha autoria.

[3] O Bayern ganha com folga, 5 a 1, nesse sentido a decisão do campeonato é clara e “limpa”. Muito mais cruel e “injusta” iria ser outro duelo direto entre esses dois clubes pelo campeonato alemão: Na última jornada da temporada de 2000/01, o Schalke jogou contra o SpVgg Unterhaching, ao mesmo tempo o Bayern contra o HSV; o Bayern tinha 2 pontos de vantagem. O Schalke ganhou 5 a 3, quando o jogo terminou e o HSV estava ganhando por 1 a 0. Com igualdade de pontos, o Schalke seria campeão devido ao melhor saldo de gols. No estádio circulou a informação de que a partida em Hamburgo já tivesse terminado e começou a festa do primeiro campeonato desde 1958, porém aos 94 minutos houve uma cobrança de falta indireta para o Bayern e Patrik Andersson empatou o jogo, garantindo o ponto que decidiu o campeonato a favor do Bayern. O estádio em Gelsenkirchen caiu na mais profunda das tristezas, e o time de 2000/01 entrou na história do futebol alemão como “o campeão dos corações” (“Meister der Herzen”).

[4] Na final, o Schalke humilhou o 1. FC Kaiserslautern com 5 a 0. De forma análoga, em 2001, uma semana depois do trágico vice-campeonato na liga, o Schalke derrotou o Union Berlin na final pela Copa da Alemanha por 2 a 0 e conquistou mais uma vez este título.

[5] Infelizmente está disponível somente em alemão, mas esta reportagem do programa esportivo alemão “Die Sportschau” reconstrói de maneira elucidativa e divertida os acontecimentos durante e depois do jogo, homenageando exaustivamente o talento “teatral” do jogador italiano Roberto Boninsegna: https://youtu.be/xLDiAGAJr70

[6] De novo, lamentavelmente só em alemão, uma reportagem muito boa sobre o triunfo da seleção alemã em Wembley em 1972: https://www.sportschau.de/fussball/nationalmannschaft/video-jahre-wembley-elf-sieg-der-superlative-sp-100.html.

[7] „Nach und nach wird das erstaunliche Ausmaß des Skandals bekannt. Die Aufklärungsarbeit liefert in den folgenden Monaten den Blues zum glamourösen Geschehen auf dem Rasen.“

[8] “Insgesamt werden 52 Spieler aus sieben Vereinen bestraft, dazu die Trainer von Arminia Bielefeld und Rot-Weiß Oberhausen sowie einige Funktionäre samt den Präsidenten von Kickers Offenbach (Horst-Gregorio Canellas), Rot-Weiß Oberhausen (Pater Maaßen) und Hertha BSC (Wolfgang Holst). Vermutlich gab es bei mindestens acht Spielen, die gegen Ende der Saison 1970/71 ausgetragen wurden, Manipulationen oder Versuche dazu. Zusammengerechnet sind dabei rund 1,1 Millionen Mark Schmiergelder geflossen.”

[9] Literalmente “o Mercado de Schalke”, trata-se de uma das principais ruas do bairro de Schalke na cidade de Gelsenkirchen, a terra do FC Schalke 04.

[10] Ao mesmo tempo, na Alemanha Oriental, onde o socialismo de estado não permitia esta profissionalização, se deu outro exemplo extremo de intervenção e manipulação da competição nacional – da chamada Oberliga: O chefe do serviço secreto e polícia política (a famigerada Stasi), Erich Mielke, usou o seu poder para “transplantar” o FC Vorwärts Berlin – clube berlinense que dominava o campeonato naqueles anos – de Berlim para a cidade de Frankfurt/Oder, destruindo assim a base do clube e o time campeão, para assim abrir caminho para o seu clube predileto. Foi à base dessa maniobra política que o BFC Dynamo Berlin, até hoje desprezado como “clube da Stasi”, conseguiu iniciar uma hegemonia de dez campeonatos nacionais seguidos na Alemanha Oriental. (BEYER, 2021, p. 47-49)

[11] Neste ano, O FC Bayern lançou uma camisa especial para comemorar os 50 anos de existência do Estádio Olímpico que o time vestiu na vitória de 5 a 2 sobre o FC Augsburg pela segunda rodada da Copa da Alemanha em 19 de outubro (https://fcbayern.com/de/news/2022/10/fc-bayern-praesentiert-trikot-zu-50-jahre-olympiastadion).

[12] Seguiram, então, o famoso ou famigerado “processo de Stammheim”, um tribunal realizado num prédio especialmente construído dentro da prisão de Stammheim, perto de Stuttgart, o suicídio de Ulrike Meinhof em 9 de maio de 1976, e a “noite fatal de Stammheim”, do 18 de outubro de 1977, em que Gudrun Ensslin, Andreas Baader e Jan-Carl Raspe se suicidaram. A história da RAF até outubro de 1977 é recontada no livro clássico de Stefan Aust, Der Baader-Meinhoff-Komplex, publicado pela primeira vez em 1985 e completado e atualizado em várias reedições, a mais recente datando de 2020. Em 2008, o livro serviu de base e inspiração para o filme Der Baader Meinhof Komplex, de Uli Edel (direção) e Bernd Eichinger (produção).

[13] O nome se traduz literalmente como “argila – pedras – cacos”, transportando um significado iconoclasta, no sentido artístico, e um chamado à resistência e luta no domínio político. As “pedras” também constituem uma referência e homenagem aos Rolling Stones.

[14] Ton Steine Scherben se dissolve em 1985, tendo lançado quatro discos. Rio Reiser inicia uma carreira solo, com mais seis álbuns e músicas que entraram no cânone da música popular alemão (p.e. “Junimond” [“Lua de junho”], “König von Deutschland” [“Rei da Alemanha”]).

[15] Eis uma reportagem na televisão alemã, de 1970, sobre a cena alternativa em Berlim Ocidental, com a banda no centro: https://www.youtube.com/watch?v=RpE_jpcIHTc

[16] „In wildem Stakkato und kurzen Wortfetzen beschreibt Rio darin das Elend seiner kapitalistischen Umwelt: ‚Züge rollen / Dollars rollen / Maschinen laufen / Menschen schuften / Fabriken bauen / Motoren bauen / Kanonen bauen‘, um dann zu fragen: ‚Für wen?‘ Es folgt die eindeutige Aufforderung: ‚Macht kaputt, was euch kaputt macht.‘

Um Rios Sprech- oder vielmehr Schreigesang musikalisch einzubinden, unterlegen sie ihn mit einem rockigen Riff in Endlosschleife: a-e-es-h-d-c. Der hämmernde Sound wirkt mitreißend, aufrührerisch und potenziert den fordernden Klang des Gesangs.“

[17] „Ich hab geträumt, der Winter wär vorbei, / du warst hier und wir war’n frei / und die Morgensonne schien.

Es gab keine Angst und nichts zu verlieren. / Es war Friede bei den Menschen und unter den Tieren. / Das war das Paradies. // Der Traum ist aus! Der Traum ist aus! / Aber ich werde alles geben, daß er Wirklichkeit wird. /

Aber Ich werde alles geben, daß er Wirklichkeit wird. // […] // Gibt es ein Land auf der Erde, / wo der Traum Wirklichkeit ist? / Ich weiß es wirklich nicht. // Ich weiß nur eins und da bin ich sicher, / dieses Land ist es nicht. Dieses Land ist es nicht. / Dieses Land ist es nicht. Dieses Land ist es nicht.”

[18] Duas reformas em 1969 e 1973 limitaram a penalização a relações sexuais entre homens envolvendo um menor de idade. O famoso “§ 175” só foi eliminado do Direito Penal alemão em 1994.

[19] Ao mesmo tempo, a banda não via problema em gostar também do “playboy” e “riquinho” Günter Netzer, por um lado pela elegância do seu futebol, por outro também pela sua arrogância anárquica enquanto pessoa que subvertia – de outra maneira – a ordem preexistente.

[20] “Im August 1996 sterben im Abstand von nur fünf Tagen Reinhard Libuda und Rio Reiser. Beide sind nicht alt geworden, 52 Jahre der eine, 46 der andere.” Em ambos casos, foi o álcool que marcou os últimos anos dos protagonistas e que contribuiu para a sua morte prematura. Até aqui se estende a triste analogia com a tragédia pessoal de Garrincha…

[21] “Darin gleicht er [Rio Reiser] Reinhard Libuda, irgendwie. Sie beide verstanden sich auf die Kunst des Spielens, weniger auf die Regeln des Spiels. // Und wie beim Stan, so hält auch Rios Nachruhm bis heute an.”

Bibliografia

Beyer, Bernd-M. (2021). 71/72. Die Saison der Träumer. Bielefeld: Verlag Die Werkstatt.

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Marcel Vejmelka

Professor do Departamento de Espanhol e Português na Faculdade 06 "Tradução, Linguística e Estudos Culturais" (FTSK), da Universidade Johannes Gutenberg de Mainz, em Germersheim, Alemanha. Doutorado em Estudos Latino-americanos/Brasileiros - Freie Universität Berlin (2004); graduação em Tradução Português/Espanhol - Humboldt-Universität zu Berlin (2000). Tem experiência na área de Literatura, Cultura e Tradução, com ênfase em Literatura brasileira e hispano-americana, atuando principalmente nos seguintes temas: tradução literária, literatura brasileira e hispanoamericana, tópicos da cultura popular (futebol, música e hq).

Como citar

VEJMELKA, Marcel. Futebol na literatura alemã – parte V: Bundesliga 1971/72, a “temporada dos sonhadores”. Ludopédio, São Paulo, v. 162, n. 4, 2022.
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