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Futebolverso

Lucas Rocha Oliveira 27 de junho de 2023

Perdemos o nosso principal aliado. Não, não é o Odair Hellman. De forma respeitosa me despeço dele e agradeço a tentativa insuficiente de ajudar.

O Santos ficará no mínimo 30 dias sem os torcedores na Vila Belmiro ao mandar os seus jogos. O estádio conhecido como alçapão, e reconhecido por sua enorme capacidade de pressionar os adversários – e o próprio time -, ficará com os portões fechados. Sem dúvida, é uma punição grande, pois pensando no mundo ideal, o jogo é para a torcida. Todas as movimentações do dia a dia do clube, deveriam ser para promover alegria aos torcedores, e ao menos uma ou duas vezes na semana, cativar o amor que esses torcedores sentem. Isso não é uma utopia somente do Santos. Teoricamente, uma gestão deve pensar isso, embora não tenha essa visão romantizada da coisa. Claramente isso não vem acontecendo com o Santos e com a grande maioria dos clubes do Brasil.

É claro que deve acontecer algo. Se por um lado, o Lucas torcedor/apaixonado incentiva a cobrança e o protesto veemente contra a situação do clube, racionalmente isso não deve acontecer nunca da forma como aconteceu. Exercício simples é reconhecer que nem tudo o que queremos fazer, podemos. Queria assistir todos os jogos do Santos na vila, mas não posso por alguns motivos que listei abaixo:

1- Os portões ficarão fechados por 30 dias;

2- Após esses 30 dias, se tudo permanecer como está, continuarei morando em Bauru, cidade muito distante de Santos;

3- Continuarei pobre.

Também queria que meu Santos pudesse ter grandes jogadores, mas não tem dinheiro, organização e nem é atrativo para os staffs hoje.

Santos
Foto: Ivan Storti/Santos FC/Fotos Públicas

Onde eu quero chegar com tudo isso? Simples. Embora eu sinta raiva, existem leis que me impedem de, por exemplo, atirar um rojão contra outras pessoas. Mesmo revoltado, não posso acabar com o patrimônio de alguém. No ápice da minha braveza, não posso distribuir voadoras nas pessoas.

O futebol não pode ser um universo paralelo com regras exclusivas. Não posso roubar ninguém fora do estádio, dentro também não. Triste é saber que embalados pelo “aranhaverso”, criaram um “futebolverso’, onde preconceito, ignorância e violência são permitidos. 

A punição para atletas incompetentes não deve ser rojões atirados. Se fizerem isso com os professores de educação física, quem garante que eu estarei salvo? Qual é o parâmetro para ser um bom professor de educação física? Qual é o parâmetro para ser um competente jogador de futebol? O que posso sofrer caso não alcance a excelência?

O discurso de ódio fomentou uma violência exacerbada no país, e isso foi passada para o “futebolverso”. Os fins se tornaram muito mais importantes que os meios, prejudicando o próprio torcedor nessa luta para alegrar o torcedor (paradoxo fortalecido pelo argumento de parágrafos acima).

O futebol não pode ser um universo à parte, então as leis e condutas sociais devem estar presentes nessa esfera também. Coisas anormais devem ser tratadas como anormais, por mais bizarro que seja explicar isso para pessoas que sabem ler.

Torço para Odair longe do Santos. Para Rueda mais longe ainda. Para Nathan, Messias e Camacho, desejo vínculos vitalícios com o São Paulo, Palmeiras ou Corinthians. Porém, acima de tudo, que tenham paz nesses lugares, e que o “futebolverso” seja um lugar mais pacífico que o Brasil de 2023.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Como citar

OLIVEIRA, Lucas Rocha. Futebolverso. Ludopédio, São Paulo, v. 168, n. 27, 2023.
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