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Garrincha, um improvável embaixador

Em decadência após não conseguir novos contratos para jogar futebol e praticamente liquidado pela dependência alcoólica, Garrincha foi Embaixador do Café Brasileiro na Europa.

Garrincha. Foto: Divulgação.

O dia 24 de maio é considerado o dia do café no Brasil. O grão, que já foi o principal produto de exportação do país, teve tanta importância na economia brasileira que possuiu um órgão público exclusivo para gerir o produto com escritórios inclusive no exterior.

O Instituto Brasileiro do Café (IBC) foi extinto em 1990, mas, em 1970, o órgão empregou ninguém menos que Mané Garrincha, a Alegria do Povo.

Apesar do apelido, Garrincha andava bem triste naquele período. Ao lado de Elza Soares, o ex-jogador, que não admitia o fim da carreira, no início de 1970, foi viver em Roma para respirar novos ares, acompanhar Elza numa tentativa de turnê internacional e, por que não, buscar um contrato em algum time europeu.

Aos 37 anos, Garrincha sofria com a decadência física natural da idade, além de uma lesão seríssima, que o atormentava desde 1963, e o principal adversário que o levaria à morte anos depois: o alcoolismo.

A estadia em Roma, porém, começou com Elza como um sucesso de crítica que lotava os teatros que recebiam suas apresentações. Além disso, Garrincha era popular nas ruas italianas, reconhecido praticamente a cada esquina. A cantora incentivava o marido a tentar uma aproximação com clubes europeus.

Nessa toada, Garrincha chegou a reunir-se com dirigente do Benfica e clubes menores da Itália, mas seu evidente despreparo físico e o hábito de bebericar além da conta nesses encontros, afastaram qualquer interesse dos cartolas europeus. O máximo que o Anjo das Pernas Tortas conseguiu em sua temporada europeia foi disputar alguns amistosos amadores em que mais servia como chamariz de alguma festividade do que como jogador.

Durante essa temporada italiana, a Copa do Mundo de 1970 foi disputada no México e, pela primeira vez desde 1958, Garrincha não defenderia o Brasil no Mundial. Pela TV, Garrincha tomou um choque de realidade com o sucesso retumbante daquele selecionado que não mais precisava de seus dribles e arrancadas. O fim da linha no futebol parecia inevitável.

Há quase sete anos sem repetir os grandes momentos do início da carreira, Garrincha estava em claro declínio futebolístico e mental por conta do alcoolismo. Porém, foi na capital italiana que a dependência em álcool virou o jogo sobre Garrincha.

O atacante que atormentou os maiores zagueiros do mundo passou a ser um homem comum perambulando pelas ruas de Roma e chegou a ser visto apanhando bitucas de cigarros do chão. Tudo isso, claro, cambaleante não pela ginga com a qual encantou o mundo, mas pela embriaguez persistente.

Elza Soares, que já sofria com o alcoolismo de Garrincha há pelo menos uma década, pediu ajuda aos conhecidos e, assim, a situação do craque chegou aos ouvidos de ilustres fãs do Anjo das Pernas Tortas no Brasil.

Jarbas Passarinho, então ministro da Educação, era um dos muitos brasileiros que adoravam a magia do craque das pernas tortas. O ministro usou sua influência e deu o aval para uma engenharia que já estava sendo montada por figuras importantes no Ministério da Indústria.

Até o então presidente/ditador Ernesto Geisel interveio junto ao IBC para que Garrincha fosse contratado, já que um ídolo brasileiro passando necessidades no exterior não seria uma boa propaganda do regime.

Enfim, o emprego saiu, mas como a sede do IBC ficava em Milão, Elza e Garrincha mudaram-se para a capital da moda. A mudança calhou bem ao casal, que já devia aluguéis e estava prestes a ser despejado.

O salário proposto era de 1000 dólares mensais. Para se ter ideia, o chefe do IBC recebia 1200 dólares. O salário, junto à função, que antes não existia, e foi criada sob medida para Garrincha, causou desavenças naturais dentro do órgão e foi motivo para o craque sofrer com os olhares atravessados.

A atividade do recém criado cargo de embaixador do café brasileiro na Europa, na verdade, resumia-se à ida de Garrincha às feiras gastronômicas onde o IBC promovia a venda do produto. Em resumo, Garrincha seria um garoto propaganda de um dos principais produtos de exportação do Brasil e compareceria apenas às tais feiras sem que houvesse sequer a obrigação de ir a todas.

Porém, o alcoolismo não permitia que Garrincha fosse aos seus compromissos. Entre as 20 feiras agendadas para 1971, Mané foi apenas a três. Uma improdutividade colossal e que mesmo para um cargo criado no intuito de ajudá-lo, gerava evidente desconforto no IBC.

Nas poucas oportunidades em que cumpriu com sua nova ocupação, Garrincha cometia gafes por conta de sua famosa ingenuidade. Na biografia Estrela Solitária, Ruy Castro resgata um diálogo de Garrincha, que não falava e sequer fazia questão de tentar aprender outro idioma, com um italiano que foi ao estande do IBC apenas para conhecê-lo, mas resolveu, talvez até para puxar assunto com ídolo, perguntar sobre o café do Brasil:

“E esse café do Brasil, é bom mesmo?”

Garrincha sucumbiu à sinceridade:

“Não sei, nunca tomo. O que sei que é o fino é a pinga do Brasil”.

O intérprete, claro, não traduziu e inventou outra coisa para não constranger os presentes. Com episódios como este e diversas ausências nas ocasiões em que deveria promover o produto brasileiro na Europa, o emprego no IBC não duraria muito e tudo indicava uma demissão.

Garrincha antecipou-se. Aproveitou um convite recebido por Elza Soares para uma turnê brasileira e pediu seu desligamento do Instituto Brasileiro do Café para acompanhar a esposa de volta ao Brasil, em dezembro de 1971.

Elza Soares recebendo o diploma de Embaixatriz do Samba no Museu da Imagem e do Som, com Garrincha ao fundo, em 1971. Foto: Wikipedia.

A passagem pela Itália foi mais um capítulo da hercúlea batalha que Elza Soares travou para salvar o amor de sua vida da autodestruição. Garrincha foi implacável consigo como fora com os zagueiros que enfrentou. Elza esforçava-se para conseguir mostrar caminhos e possibilidades de ajuda ao craque, o IBC foi mais uma das tantas oportunidades que Garrincha driblou, talvez inconscientemente, mas que acabaram por levá-lo ao fim inglório que teve.

Outra reflexão que a passagem de Garricha pelo IBC desperta é sobre a relação perniciosa que o Estado mantém ao se aproveitar do capital de imagem de ídolos do esporte. E para quem pensa que isso seja coisa do passado, basta retomar o recente caso em que Ronaldinho Gaúcho foi nomeado embaixador do turismo brasileiro e passou a figurar no quadro de funcionários da Embratur, mesmo com os passaportes retidos na Justiça da Espanha. Um contrassenso imensurável.

Se na origem da nomeação constavam motivos diferentes da oportunidade em que Garrincha serviu ao IBC, de maneiras distintas, os fins desejados em ambas as situações eram os mesmos: usar a imensa popularidade dos jogadores para embarcar o governo na onda de aprovação pública dos atletas.

Não por acaso o paralelo acontece com um jogador que guardadas as proporções experimentou uma ascensão e queda tal qual Garrincha e ficou marcado por surgir em ocasiões estranhas ao mundo esportivo como foi a participação dos dois em órgãos públicos.

No retorno ao país, o calvário de Garrincha com o alcoolismo continuaria até 20 de janeiro de 1983, quando aos 49 anos de idade, morreu vitimado sobretudo por uma tristeza que contrastava com a Alegria do Povo, completamente liquidado pela dependência e com passagens folclóricas, como o período em que foi o Embaixador do Café Brasileiro.

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Pedro Henrique Brandão

Comentarista e repórter do Universidade do Esporte. Desde sempre apaixonado por esportes. Gosto da forma como o futebol se conecta com a sociedade de diversas maneiras e como ele é uma expressão popular, uma metáfora da vida. Não sou especialista em nada, mas escrevo daquilo que é especial pra mim.

Como citar

BRANDãO, Pedro Henrique. Garrincha, um improvável embaixador. Ludopédio, São Paulo, v. 131, n. 54, 2020.
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