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Garrincha: a construção do mito (1958-1962) [2a. e última parte]

Denaldo Alchorne de Souza 23 de maio de 2023

[Continuação da 1a. parte]

Após a vitoriosa campanha da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1958, realizada na Suécia, todos queriam homenagear Pelé e Garrincha. Todos queriam vê-los, aclamá-los e, se possível, tocar-lhes e apertar-lhes as mãos. Após a competição, eles se tornaram verdadeiros mitos da sociedade brasileira. E se eles eram mitos, era porque possuíam algumas características que faziam com que os populares os reverenciassem como tal. Entretanto, ao contrário de Pelé, Garrincha não era mito por ser predestinado ou excepcional. Já era um jogador considerado de meia-idade para o futebol. Tinha vinte e quatro anos. Também não possuía uma grande variedade de jogadas. Ao contrário, possuía apenas um tipo de jogada, um drible para a direita.

Se Garrincha se tornou um mito nacional foi porque ele possuía uma identificação total e absoluta com os trabalhadores que o escolheram como mito. Foi porque ele dividia com os trabalhadores uma mesma visão de mundo, onde os ideais de felicidade e de justiça eram bem diversos dos oficiais. Esses ideais eram encontrados não no mundo do trabalho, como na versão oficial, mas no mundo do lazer e do convívio social.

No final de 1958, Garrincha resolveu ajudar a vedete Angelita Martinez a promover a marchinha de carnaval, Mané Garrincha. A letra dizia:

Mané Garrincha, Mané Garrincha.

Até hoje meu peito se expande.

Mané que brilhou lá na Suécia.

Mané que nasceu em Pau Grande

 

Não é só café.

Que nós temos pra vender

Dribla, dribla, Mané.

Para o mundo inteiro ver.[1]

A música foi um dos maiores sucessos do carnaval de 1959. Ao perguntar para a cantora Julie Joy qual seria a campeã das músicas de carnaval daquele ano, não tinha dúvidas: “– Minha opinião: Mané Garrincha, gravada pela Angelita Martinez. O assunto é dos mais momentosos e a marcha está ótima”.[2] Esta era a opinião compartilhada por diversas outras celebridades da época.[3]

O jogador não somente ajudou Angelita a transformar a música num sucesso, como também manteve um relacionamento amoroso com ela. A imprensa da época não costumava noticiar explicitamente os casos extraconjugais dos jogadores, que não eram poucos. Mas os populares compreenderam rapidamente o que estava ocorrendo entre o craque e a vedete. No verso “Mané nasceu em Pau Grande”, eles passavam a cantar “Mané nasceu de Pau Grande”. A música foi ameaçada de censura, o que só aumentou o seu sucesso. A marcha foi gravada em disco, na Rádio Nacional, no programa César de Alencar, e os fiscais do Serviço de Censura ficaram na escuta. “Ninguém cantou ‘Mané Garrincha’ deturpando-a. E a música passou no teste”.[4]

Garrincha, apesar de casado, possuía uma liberdade sem culpa em relação ao sexo. Aos olhos dos seus fãs, principalmente homens, era como se ele tivesse encontrado a própria porta do paraíso.

Para Mikhail Bakhtin, na cultura cômica popular, o elemento material e o corporal são sempre positivados. Daí as imagens do corpo, da bebida, da comida, da satisfação de necessidades naturais e da vida sexual. Segundo o autor, o representante do princípio material e corporal não é nem o ser biológico isolado nem o egoísta indivíduo burguês, mas o povo, um povo que na sua evolução cresceu e se renovou constantemente. É por isso que o elemento da vida corporal e material é tão magnífico, infinito e exagerado, sendo este um exagero que é positivo e afirmativo. Assim, as suas imagens centrais são a fertilidade, o crescimento e a superabundância que correspondem ao princípio da festa, do banquete, da alegria.[5]

Daí entende-se a constante presença de elementos material e corporal nas marchas e sambas de carnaval, como no samba Molha o Pano Mané, de Norival Reis, Célio Ferreira e Sebastião Nunes, gravado por Lilian Loy, e cantado no carnaval de 1963:

Pra cuíca roncar

Molha o pano Mané

Puxa mesmo com fé

Que é isso que a moçada “qué” (qué, qué).

 

Quando o pano secar

Você entra no bar,

Bebida é mato

Pro pano molhar (molha o pano Mané).[6]

Esta caracterização luxuriante de Garrincha o acompanhou sempre. Ele possuía uma ligação muito forte com “o melhor lado da vida”, com o lúdico, com mundo do lazer e do prazer. Estava sempre em Pau Grande bebendo, caçando passarinhos e pescando. Não largava os amigos, Pincel e Swing, que se tornaram personagens constantes em suas aventuras narradas pela imprensa. No Rio, estava sempre presente nas festas, nos bailes de carnaval ou em bares, geralmente acompanhado de suas “amigas”. E, apesar de famoso, mantinha um comportamento simples e sem ostentação.

Para entendermos as razões dessa simpatia popular por Garrincha, não podemos esquecer que estávamos vivendo uma época de transformações. Não somente de regulamentação do mercado de trabalho, mas também de mudanças de hábitos. Procurava-se disciplinar todas as esferas da vida de uma pessoa comum, seja no seu emprego, no lazer e até na relação com o seu corpo. Essas transformações, que se pretendia moderna e racional, nem sempre foram aceitas de forma positiva pelas classes trabalhadoras. Muitas vezes procuravam resistir utilizando a sua cultura tradicional, através de uma ética do não trabalho que tinha suas origens no período escravocrata, quando o ato de trabalhar adquiria toda a sua negatividade.

Nesse sentido, é interessante notarmos o paradoxo que Edward P. Thompson nos aponta: de uma cultura ser “tradicional” e “rebelde” ao mesmo tempo. Segundo esse autor, a cultura conservadora da plebe quase sempre resiste, em nome do costume, às racionalizações e inovações da economia, tais como a disciplina de trabalho, que os governantes ou os empregadores querem impor. As inovações são mais evidentes na camada superior da sociedade. Mas, como elas não são um processo tecnológico/social neutro e sem normas, e sim a inovação do processo capitalista, são quase sempre experimentadas pela plebe como uma exploração e expropriação de direitos de usos costumeiros, ou como a destruição violenta de padrões valorizados de trabalho e lazer.[7]

Quando, a partir do Primeiro Governo Vargas (1930-1945) e durante o período desenvolvimentista do governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), começou-se a verificar toda uma estratégia centrada na promoção do valor do trabalho, da técnica e da disciplina, muitos trabalhadores associavam esse “novo mundo” oferecido pelos governantes – um mundo de grandeza, trabalho, técnica e disciplina – com a opressão, o desgosto e o desrespeito. No seu cotidiano, a pessoa humilde identificava o trabalho à necessidade da sobrevivência, onde o dinheiro era mínimo e as compensações, pífias. Além disso, nesse novo mundo não existia a divertimento, não existia o lúdico, existia sim a organização, a disciplina e a obediência ao patrão ou ao supervisor. Por mais que trabalhasse, os resultados eram sempre os mesmos: falta de dinheiro, falta de moradia, falta de comida, muito desrespeito e pouco prazer.[8]

Para os trabalhadores, o mito de Garrincha representava uma reação a tudo isso. Ele representava a transgressão à ordem vigente por não aceitar os valores e a disciplina impostos de cima. Mas também representava a esperança de reconstruir um mundo melhor, por se identificar a alegria e ao prazer de viver.

Entretanto, o mito de Garrincha não surgiu espontaneamente, ao acaso. Era resultante de um aprendizado passado não somente individual, mas de todo um grupo. Apesar da grande imprensa ter insistido em caracterizá-lo como um camponês, ele provinha de uma outra realidade: da cultura das vilas operárias da primeira metade do século XX.

Antes de ser jogador pelo Botafogo, foi operário da América Fabril. A fábrica foi inaugurada na localidade de Pau Grande em 1919. O pai, Amaro, e a mãe, Maria Carolina, vieram de Olinda para trabalharem na fábrica. Garrincha nasceu em 1933, e cresceu nesse vilarejo controlado pelas iniciativas fabris. Possuía assistência médica, escola, associação religiosa, cinema e clube de futebol, tudo financiado pelos proprietários ingleses. Garrincha começou a trabalhar na fábrica em 1947, na seção de algodão, nas máquinas cortadoras, e depois na seção de fiação, onde carregava equipamentos. Neste mundo, ele passou a conhecer as práticas estabelecidas do disciplinamento do trabalho, da pontualidade nos horários, da produtividade e da supervisão. Este era o mundo do sofrimento, da angústia e da humilhação. O contraponto a esse mundo, só poderia ser o do não trabalho, aquele que era possível fora da fábrica: nas brincadeiras com os amigos, nas escapadas do serviço para poder caçar e pescar, no jogo de sinuca, na bebida no barzinho, no sexo numa área afastada do vilarejo, e nas peladas com os amigos no campo de futebol. Inclusive dentro da própria fábrica podiam existir práticas associadas ao mundo do não trabalho: a falta acobertada por doenças forjadas, o ritmo lento de trabalho, o desaparecimento momentâneo do operário para ir ao banheiro, o destaque em atividades paralelas da fábrica, como o clube de futebol e o namoro a escondida que, no caso de Garrincha, lhe renderia o casamento com a operária Nair em 1952.

É nesse universo dividido pelo mundo do trabalho e do não trabalho que foi consolidado os “costumes em comum” de onde vivia Garrincha. Segundo José Sérgio Leite Lopes, um dos enigmas próprios aos trabalhadores que habitam essas “cidades ‘paternalistas’ com caráter de ‘instituição total’ é que, ao olharmos de mais perto, descobrimos terem eles certa mobilidade, indisciplina e ‘liberdade’”, que era exercida no interior desse modo de dominação patronal. Até mesmo dentro da fábrica, certa indisciplina pode desenvolver-se, parecendo quase indispensáveis para a boa gestão da produção.[9]

Tal cultura não estava somente presente em vilas operárias isoladas no meio rural como Pau Grande. Ela poderia ser encontrada em qualquer cidade industrial ou em processo de modernização onde os valores associados ao disciplinamento do trabalho se tornavam cada vez mais hegemônicos.

Garrincha levou esses valores, ou melhor, a transgressão desses valores, para o Botafogo em 1953. Nos anos seguintes foram muitas as escapadas das concentrações, as faltas, as brincadeiras, os pequenos golpes. Não havia violência, não havia desacatos. Tudo era feito dentro de uma esperteza marota, com certo ar de comicidade que desarmava o oponente. Para os dirigentes, Garrincha não era um rebelde como foi Leônidas da Silva, ou um “maluco” como Heleno de Freitas. Ele era apenas um irresponsável e que, por isso mesmo, não iria longe na vida.

Nessa mudança para o Botafogo FC, Pau Grande mudou de significado. Deixou de ser a vila operária que castigava os trabalhadores e se transformou no ponto de fuga da cidade grande, que imprimia um processo de disciplinamento do trabalho muito mais sufocante, pois se estendia cada vez mais à vida privada, impregnada de regras e normas a serem seguidas, cheia de olhares reprovadores e cerceadores. Até na diversão precisava seguir regras: ir ao cinema, à praia, namorar. Se a pessoa era famosa, o cerceamento era ainda maior. Para Garrincha, a partir de 1953, Pau Grande passou a ser o paraíso perdido, a “Pasárgada”, onde teria a liberdade plena de se divertir, brincar e namorar, apesar de ser casado.

Quando a imprensa começou a retratar a vila de Pau Grande, a imagem que faziam dela também era idílica. Não mostravam as contradições internas. Não mostravam nem mesmo o cotidiano de vila operária. Era, até certo ponto, uma imagem irreal do vilarejo. Mas também havia muito de realidade: da realidade de Garrincha naquele momento, que transformara Pau Grande em referência do mundo do não trabalho.

Os trabalhadores que passaram a ver Garrincha um modelo exemplar para as suas vidas entenderam perfeitamente isso. Pau Grande passava a ser o barzinho de cada esquina, os amigos, o carteado, as piadas, as mulheres da vida e o “campo de pelada”, onde o futebol era um jogo, uma diversão, e não um esporte profissional. Pau Grande, na verdade, era um pouco do Brasil que eles não queriam perder, era um pouco do Brasil que eles amavam. Um Brasil que lhes dava prazer justamente porque não havia a ética do trabalho e o disciplinamento da vida.

Por hora, nos cumpre compreender a motivação popular para o surgimento deste mito. A meu ver, o mito de Garrincha enquanto símbolo de uma nação representava muito bem aquilo que podemos chamar, a partir de Edward P. Thompson, de contrateatro.[10] Se o Estado e a grande imprensa comercial afirmavam uma concepção de nação brasileira a partir da construção de uma encenação teatral onde os principais elementos eram a ordem, a disciplina, o trabalho, a técnica, o desenvolvimento, a união, a obediência, a hierarquia; os trabalhadores devolviam essa concepção de nação de “cabeça para baixo”, através de um mito que representava valores totalmente contrários. Garrincha representava justamente a indisciplina ao trabalho, mas também era a alegria, a arte, o improviso, a genialidade, o mundo do lazer, da diversão e do prazer sexual.

Aqui podemos fazer um paralelo do mito de Garrincha com o de Pelé. Se as classes trabalhadoras identificavam Pelé como um mito, era porque ele possuía carisma, conforme o conceito de Edward Shils. Para este, o carismático é uma pessoa que está bem próximo ao centro das coisas e, por isso mesmo, dando ordem e sentido a elas. Porém, aqui também quero afirmar que se os trabalhadores consideravam Garrincha um mito era porque ele também possuía carisma. Aparentemente tal afirmação pode ser contraditória. Pelé representava a ordem. O mito de Garrincha mais aparentava o oposto. Mas é justamente esta oposição que Shils apresenta em seus textos quando afirma que o poder destruidor da ordem, a grande capacidade de violência, também atrai e desperta a inclinação carismática. A desordem atrai porque promete fornecer uma ordem nova e melhor. Assim, o poder destruidor da ordem também desperta a inclinação carismática por causa de uma profunda ambivalência nas relações dos seres humanos com as coisas centrais. A ordem não dá somente sentido; ela também restringe e rebaixa.[11]

Para entender melhor tal ambivalência entre a ordem e a desordem seria interessante nos ater a um ensaio clássico de Antonio Candido sobre o estilo do livro Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Ao procurar analisar a natureza popular das Memórias como um dos fatores de sua eficiência e durabilidade, Antonio Candido chega à conclusão que além de um primeiro estrato mais universalizador, onde encontram-se arquétipos válidos para a imaginação de um amplo ciclo de cultura, há um segundo estrato mais restrito ao universo brasileiro. Para ele, o segundo estrato é constituído pela dialética da ordem e da desordem, que manifesta as relações humanas no plano da Memórias, do qual forma o seu sistema de referência. Se pegarmos o personagem principal, Leonardo Filho, e constituirmos uma linha equatorial central onde estão presentes, além de Leonardo Filho, o seu pai, a esquerda, e a sua mãe, a direita, poderemos dispor os demais personagens em dois polos opostos, acima e abaixo da linha central formado pelos personagens principais. Acima, estão os que vivem segundo as normas estabelecidas, tendo no alto o seu maior representante, o major Vidigal. Abaixo estão os que vivem em oposição ou pelo menos em integração duvidosa em relação a elas. Desse modo, poderíamos dizer que há um hemisfério positivo, da ordem, e um hemisfério negativo, da desordem, funcionando como dois imãs que atraem Leonardo. A dinâmica do livro estabelece uma gangorra entre os dois polos. Enquanto Leonardo vai crescendo, participa ora de um, ora de outro, até ser finalmente absorvido pelo polo convencionalmente positivo.[12]

Assim, o itinerário dos personagens principais oscila continuamente entre a ordem estabelecida e as condutas transgressivas, até que, finalmente, integra-se a ordem, após estar provido das experiências das outras. Para Antonio Candido, a marca essencial das Memórias consiste numa certa ausência de juízo moral e na aceitação risonha do homem como ele é, mistura de cinismo e bonomia, num mundo onde predomina uma relativa equivalência entre o universo da ordem e da desordem; entre o que se poderia chamar convencionalmente o bem e o mal.

No entanto, os polos da ordem e da desordem não são tão estáticos como uma primeira apreciação poderia sugerir. Eles são relativos e se comunicam por inúmeros caminhos, que fazem do oficial de justiça um arruaceiro, do professor de religião um agente de intrigas, das uniões ilegítimas situações honradas, dos casamentos corretos negociatas escusas.[13] Os polos estão interligados, correspondendo, assim, a uma visão muito tolerante da vida, quase amena. As pessoas realizam coisas que poderiam ser qualificadas como reprováveis, mas também realizam outras dignas de louvor, que as compensam. E como todos têm defeitos, ninguém merece condenação.[14]

Também podemos observar a flexibilização dos polos da ordem e da desordem nos mitos de Pelé e de Garrincha. No período inicial de desenvolvimento destes mitos populares, mais ou menos entre as Copas de 1958 e 1962, os trabalhadores não achavam necessariamente que o mito de Pelé era antagônico ao mundo do lazer, do prazer e até da luxúria. Não era raro que, numa marchinha cantada no carnaval carioca de 1962, Pelé era associado a uma “mulher bonita”, que “toda a gente quer”.[15] Era uma temática constante daquela época. Numa outra música, do carnaval de 1959, Rebola Feola, de J. Campos, Sacomani e Toninho:

Lá se foi Vavá

Lá se foi Mazzola

Mas o Feola não deu bola

Caiu no samba de camisola.

 

Rebola Feola

Que o samba esquentou

Pelé não foi pra Espanha

Porque a mulata do Brasil

Não bobeô ô ô ô.[16]

Ou, esta aqui, do carnaval de 1963, Sem Mulata É Fogo, de Ricardo Galeno:

Onde é que está moreninha

Que era rainha

Do meu carnaval?

Onde é que está a tal lourinha

Muito branquinha.

Dos olhos de cristal?

Que fim levou nossa mulata

Quando entrava com o seu jogo?

Sem loura e sem morena

A gente passa

Mas sem mulata é fogo!…

 

Sem mulata não dá pé

É seleção de ouro sem Mané

Sem mulata não dá pé

É seleção de ouro sem Pelé.[17]

Ter um mundo sem mulata é como ter uma seleção sem Garrincha e Pelé. Para os trabalhadores, os mitos de Pelé e de Garrincha não eram antagônicos. Eles eram, sim, complementares e flexíveis. Como o mito de Pelé visitava frequentemente o mundo do prazer e da desordem, o de Garrincha também poderia resvalar no mundo oposto. Como iremos ver, foi Garrincha que assumiu a liderança do escrete brasileiro que ganhou a Copa do Mundo de 1962, no Chile.

Então, os mitos de Pelé e Garrincha não eram estáticos. A ordem poderia estar presente no mundo do prazer e da luxúria. Da mesma forma, a desordem poderia organizar e dar sentido a um projeto de maior importância. O mundo aparentemente hierarquizado se revela essencialmente subvertido, quando os extremos se tocam.[18]

Portanto, ordem e desordem são dois aspectos de um mesmo fenômeno: o da identidade brasileira forjada pelas classes trabalhadoras. Quando afirmamos que os mitos de Pelé e de Garrincha eram, em 1958, opostos e complementares, queremos dizer que eles podiam ser entendidos como dois polos extremos, todavia fluidos e maleáveis, de uma mesma estrada chamada identidade brasileira. Era nesta estrada, carregada de esperanças, desejos, interesses, medos e inseguranças, que os brasileiros percorriam as suas vidas, a partir das circunstâncias que estavam vivenciando. Entendemos que as classes trabalhadoras eram portadoras desta característica macunaímica, pois conseguiam se aproximar de um dos dois extremos sem necessariamente abandonar o lado oposto.

Tais extremos, em 1958, eram representados pelos mitos de Pelé e de Garrincha, como bem mostra a marcha Reis do Futebol, de Joel Matos e E. Martucci, cantada no carnaval de 1963:

Se eu fosse o rei Pelé

Ou o rei Mané

Jogava futebol

Só no meio de mulher

Era só mulher

Mulher, mulher, mulher.

 

Fazia tabelinha

Com a Gina e Bardot

Driblava a Sofia

Pra mostrar o meu valor

Dava um olé

Olé, olé, olé.[19]

“Rei Pelé” e “Rei Mané”: eram a esses dois mitos populares que os trabalhadores brasileiros reverenciavam como governantes carnavalescos do reino chamado “Brasil”.

Notas

[1] Revista do Rádio, nº 492, 21 fev. 1959, p. 21.

[2] Revista do Rádio, nº 492, 21 fev. 1959, p. 51.

[3] A marcha Mané Garrincha não ganhou o Concurso de Músicas de Carnaval daquele ano. Os campeões foram o samba Eu Rolei, de Ângela Maria, e a marcha Peço a Palavra, de Mário Tupinambá.

[4] Jornal do Brasil, 17 dez. 1958, p. 7.

[5] BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de Fraçois Rabelais. São Paulo: Hucitec, 2010, p. 17.

[6] Suplemento de O Samba: Parada de Sucessos: Carnaval, nº 26, Ano VI, 1963, p. 7.

[7] THOMPSON, Edward P. Introdução: costume e cultura. In: THOMPSON, Edward P. Costumes em Comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 19.

[8] SOUZA, Denaldo Alchorne de. O Brasil Entra em Campo: construções e reconstruções da identidade nacional (1930-1947). São Paulo: Annablume, 2008, p. 139. Para o autor, a construção do mito de Leônidas da Silva representou uma forma de resistência cultural ao processo de disciplinamento por que vinha passando a sociedade brasileira nas décadas de 1930 e 1940.

[9] LOPES, José Sérgio Leite; MARESCA, Sylvain. A morte da “Alegria do Povo”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, nº 20, ano 7, out. 1992, p. 125.

[10] THOMPSON, Edward. Patrícios e plebeus, op. cit., p. 70-71.

[11] SHILS, Edward. Carisma, ordem e estatuto. In: SHILS, Edward. Centro e Periferia. Lisboa: Difel, 1992, p. 401.

[12] CANDIDO, Antonio. Dialética da malandragem. In: CANDIDO, Antonio. O Discurso e a Cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1993, p. 36-37.

[13] Idem, p. 39-41.

[14] Idem, p. 47. Ver também: ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um Sargento de Milícias. São Paulo: Martin-Claret, 2007.

[15] Marchinha do Pelé, de Alvarenga e Ranchinho: “Duas coisas neste mundo/Toda gente qué-é-é-é/É mulher bonita/E no campo é Pelé/Pelé, Pelé, Pelé, Pelé”. Ver: O Samba. Edição de Carnaval, nº 55, 1962, p. 19.

[16] Canta Brasil: Grito de Carnaval: número especial, 1959, p. 21.

[17] Suplemento de O Samba: Parada de Sucessos: Carnaval, nº 26, Ano VI, 1963, p. 20.

[18] CANDIDO, Antonio. Dialética da malandragem, op. cit., p. 43.

[19] A Modinha Popular, Ano II, nº 9. Carnaval, 1963, contracapa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Denaldo Alchorne de Souza

Denaldo Alchorne de Souza fez pós-doutorado em História pela USP, doutorado em História pela PUC-SP e mestrado, especialização e graduação em História pela UFF. É autor dos livros Pra Frente, Brasil! Do Maracanazo aos mitos de Pelé e Garrincha, 1950-1983 (Ed. Intermeios, 2018) e O Brasil Entra em Campo! Construções e reconstruções da identidade nacional, 1930-1947 (Ed. Annablume, 2008), além de diversos artigos publicados em revistas, jornais e sites. Atualmente é pesquisador do LUDENS/USP e Professor Titular do Instituto Federal Fluminense, onde leciona disciplinas na Graduação em História.

Como citar

SOUZA, Denaldo Alchorne de. Garrincha: a construção do mito (1958-1962) [2a. e última parte]. Ludopédio, São Paulo, v. 167, n. 24, 2023.
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