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Hugo Souza: de promessa a realidade

Leila de Melo 31 de outubro de 2020

27 de setembro de 2020, Allianz Parque, São Paulo – SP, 15h50min. Tribunal Superior do Trabalho (TST) autoriza a partida válida pela 12ª rodada do Campeonato Brasileiro entre Palmeiras e Flamengo marcada para às 16h daquela tarde de domingo.

A partida envolveu aquilo que eu mais abomino no futebol brasileiro. Politicagem, hipocrisia, disputa nos tribunais, jogo de interesses, negacionismo científico, desrespeito, irresponsabilidade e uma porção de problemáticas as quais não abordarei aqui porque não é foco do texto.

O fato é que os times entraram em campo. O Palmeiras, então comandando por Vanderlei Luxemburgo, escalou seus principais nomes diante do Flamengo. A revanche das derrotas sofridas em 2019 que culminaram nas demissões dos dois técnicos palmeirenses, Luís Felipe Scolari e Mano Menezes, seriam vingadas! Ou ao menos era esse o script.

O Flamengo entrou atrasado em campo e se aqueceu nos vestiários. O time carioca contou com uma escalação repleta de jovens da base para compor o time principal. Naquele jogo nós iríamos conhecer um dos personagens mais legais desta retomada do futebol brasileiro, Hugo Souza, ou simplesmente Neneca, goleiro de 21 anos e 1,96cm.

Goleiro Hugo Souza em treino no Ninho do Urubu. Foto: Alexandre Vidal/Flamengo.

O atleta não atuava havia nove meses, sua última partida fora em dezembro, na final do Campeonato Carioca sub-20, contra o Vasco. Hugo Souza, ao lado do meia Arrascaeta, foram as grandes figuras do Flamengo no empate por 1 a 1 no Allianz Parque.

Há tempos o menino se destacava nas categorias de base do clube, a ponto de ser chamado até para treinar com a seleção principal em 2018. Sua estreia como profissional, no entanto, aconteceu apenas naquela fatídica tarde de domingo em São Paulo, diante das ausências das três principais opções na posição. O garoto teve uma atuação segura e protagonizou o principal lance da tarde, com uma defesa de grande grau de dificuldade diante do atacante palmeirense Luiz Adriano. O centroavante cabeceou como manda o manual, cruzado e em direção ao chão, mas Hugo se esticou para desviar a bola à queima-roupa.

Merecidamente, Neneca recebeu o prêmio de melhor em campo e, num choro sincero, dedicou ao pai que falecera em março deste ano. O garoto que entrara no Clube de Regatas do Flamengo em 2009 acumulou experiência em jogos estaduais, de Taça BH, Copa São Paulo (fora campeão em 2018) e seleção brasileira. Surpreendera, porém, ao ter o nome chamado por Tite para ficar no banco em amistosos contra El Salvador e Estados Unidos em 2018.

Após grande atuação e ser eleito o craque do jogo, Hugo Souza se emocionou ao falar da perda do pai: “Foi meu grande incentivador”. Foto: Reprodução.

Estreia na Copa do Brasil

O empate em 1 a 1 contra o Palmeiras foi a porta de entrada do menino para o time principal. Depois disso ele pôde atuar em partidas da Copa Libertadores da América, no Flamengo 4 x 0 Del Valle no Maracanã. Na quarta-feira (28), ele fez sua estreia em outra competição, a Copa do Brasil, em partida realizada na Arena da Baixada, Curitiba – PR.

Neneca foi apontado como o melhor goleiro do mundo na semana, de acordo com o Portal de Estatísticas SofaScore. Foram 5 defesas consideradas muito difíceis, 4 delas dentro da área, além de ter defendido um pênalti. Segundo os números avaliados, o garoto somou a pontuação 9,0, tendo assim a melhor média em sua posição. Figurou também no Top-4 entre todos os jogadores que atuaram nesta semana em qualquer campeonato do mundo.

Pelo Sub-20 do Flamengo, Hugo Souza conquistou títulos em São Januário em 2019. Foto: Marcelo Cortes/Flamengo.

O leitor pode estar achando que eu estou sendo apressada. Afinal, enquanto escrevo ainda estamos chegando ao final do Primeiro Turno do Campeonato Brasileiro, o Flamengo não se sagrou campeão das principais competições que disputa e Hugo não se consagrou como dono da posição. Mas, a verdade é que a história de como o menino chegou até aqui é que importa.

Após a tragédia no Ninho do Urubu, em 8 de fevereiro de 2019, que vitimou dez garotos da base do Flamengo, ver os “crias” tendo oportunidade, atuando bem e pedindo passagem aos medalhões, é a melhor forma de mostrar à diretoria rubro-negra que sim, eles precisam respeitar, olhar, dar vez aos meninos que revela. Também serve para dar luz às vítimas que merecem justiça.

Talvez ainda seja muito cedo para falar sobre os caminhos do jovem Hugo Souza Neneca, mas o fato é que a magnética torcida rubro-negra, que valoriza mais do que ninguém os talentos revelados em sua base, além dos títulos, também pode voltar a usar um jargão criado na década de setenta com a geração de Zico: “craque, o Flamengo faz em casa”.


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Leila de Melo

Ex-atleta frustrada e jornalista por vocação. Fã de Kobe Bryant e de esquema 4-4-2. Escreve sobre esporte, porque a vida não  é o bastante. Jornalista formada em comunicação social pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Como citar

MELO, Leila de. Hugo Souza: de promessa a realidade. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 69, 2020.
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