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Laroyê Júnior, o Exu da Gávea: guardião dos caminhos… guia para os gols

Fabio Zoboli, Elder Silva Correia 10 de dezembro de 2020

Exu, divindade maior da mitologia Iorubá… Júnior, o jogador que mais jogou com a camisa do Mengão – 876 partidas. 

Exu, na mitologia africana é também conhecido como “Legba”, o intermediário entre as divindades do panteão Iorubá e o humano… Leovegildo Lins da Gama Júnior, na mítica rubro-negra é mais conhecido como Júnior, o intermediário entre os jogadores dos caminhos que levam ao gol – momento ápice da ligação com o divino/transcendental na liturgia do futebol.

Cores de Exu: “vermelho e preto”. Ferramenta: “ogó – cajado em forma de falo” … Cores de Júnior: “vermelho e preto”. Ferramenta: “um par de chuteiras”.

No seu livro Mitologia dos orixás, o sociólogo Reginaldo Prandi descreve Exu como um orixá sempre presente, pois o culto de cada um dos demais orixás depende do seu papel de mensageiro. Sem Exu, orixás e humanos não podem se comunicar, Exu é quem liga os orixás aos humanos. Exu é o primeiro da liturgia do culto, ou seja, no ritual do candomblé a primeira oferenda vai para ele. Depois, ele sobe e chama os demais orixás. Sem ele, não existe a ligação, o culto, o movimento entre as divindades. Dessa forma, tudo o que é móvel e dúbio é presidido pela essência desse orixá (PRANDI, 2001).

Foto: Reprodução Facebook

Ver Júnior em campo sempre foi uma ritualística da contemplação do sagrado, seu futebol é digno da mítica religiosa na essência de sua etimologia: “re-ligar”. Júnior guiava os jogadores para os caminhos do gol… Ele ligava. Seus pés eram o arquétipo mítico de Exu – o orixá regente – que com suas assistências faziam mortais atacantes se transformarem em deuses de uma nação.  Ambidestro jogou nas duas laterais. Júnior iniciou sua carreira futebolística no Flamengo no ano de 1974 jogando na lateral direita. Dois anos depois vai jogar na lateral esquerda onde se eternizou como melhor jogador da posição na história do clube. Em 1984, foi jogar na Itália, mas em 1989 retorna ao Flamengo a pedido do filho que queria vê-lo jogar no rubro-negro carioca. Já com 35 anos, ele volta à Gávea para jogar de volante, posteriormente, pela sua genialidade, vai jogar no meio campo onde seu parceiro Zico sempre jogou. Júnior é a personificação do movimento de Exu. Assim como o orixá maior, Júnior representa o múltiplo e seu caráter não pode ser fixado em nenhuma posição e em nenhuma camisa. A entidade de Exu-Júnior está na sua capacidade multifacetada de se mover em campo – com ou sem a bola.

Na mitologia Iorubá, Exu é por diversas vezes caracterizado pela sua má índole e pelas suas artimanhas. A representação do orixá o coloca sob os signos de um moleque trapaceiro que ludibria a todos.

“Exu era um menino muito esperto. Todos tinham receio de suas artimanhas. Ele enganava todo mundo, queria sempre tirar vantagem. […]” (PRANDI, 2001, p. 54).

Outro dado importante da personificação de Exu é que ele é apresentado como guardião das passagens e dos caminhos e por isso está sempre vigiando suas propriedades. É também a divindade responsável pelas encruzilhadas, onde recebe suas oferendas, e por isso está sempre em movimento – em trânsito – tornando incertas as destinações humanas (PRANDI, 2001).

Essa narrativa de má índole com toda a certeza foi construída pela oralidade repetida de torcedores rivais oriundos de São Januário… General Severiano, mas, também, Rio à fora. A metáfora da trapaça se personifica no Exu da Gávea para fazer menção aos seus dribles, à sua capacidade de enganar os adversários com a bola nos pés. Júnior ludibriava os zagueiros com passes que pareciam sair do impossível, passes que só cabiam no traçado de seu próprio caminho. Suas assistências eram como que vindas de uma predestinação divinatória – coisas que pertencem à esfera das divindades.

Como volante ou lateral, era preciso com seus cortes, nessa parte do campo, Exu-Júnior era um “tranca caminhos” – ele tirava os adversários dos caminhos que levavam para a meta do Flamengo. Foi o Exu guardião das passagens e dos caminhos: “Júnior te pegava na encruzilhada”. Como rei das personificações e das formas, Exu-Júnior, como jogador da meia cancha, sempre foi o Exu do movimento, aquele que com seus companheiros trapaceava com os planos dos adversários levando-os aos becos sombrios da derrota. Ele ditava o caminho, abria as portas, conduzia para o caminho do gol, das vitórias. Literalmente ele levava a torcida aos caminhos do céu… Ligava a torcida ao divino.

Foto: Reprodução CBF / Instagram

Exu é filho de Iemanjá e Orunmilá. Iemanjá, a deusa dos rios e suas desembocaduras, a deusa do mar – das águas doces e salgadas. Orunmilá, o guardião da sabedoria do Ifá – livro sagrado Iorubá –, ele está somente abaixo de Olondumarê (o Deus Supremo). Exu tinha três irmãos: Ogun, Xangô e Oxóssi. Ogum, o guerreiro invocado nos tempos de batalha ia à frente abrindo caminhos e trazendo a vitória. Xangô, o orixá dos raios, trovões, das grandes cargas elétricas e do fogo. Oxóssi é o orixá da ligeireza, da astúcia, da sabedoria. Era conhecido pela sua astúcia ao capturar a caça.

Júnior é filho e pai de toda uma nação de torcedores: filho dos que já torciam para o Flamengo antes dele jogar; pai dos torcedores que conquistou com sua história vencedora com a camisa rubro-negra. Seus irmãos? Seu time: “ele e mais 10”! Onze orixás que ao entrarem em campo viravam oferenda ao “Fla-Olodumarê”[1]. 90 minutos de um ritual de sacrifício para sair das quatro linhas do templo em que jogavam como deuses encarnados de uma nação. A palavra “sacrifício” tem sua etimologia no latim sacra facere que significa “fazer o sagrado”. E foi assim que Júnior sempre tratou o Flamengo e sua camisa: um templo do divino… Uma fantasia do sagrado.

Júnior é filho do Nordeste, vulgo “cabra de peste” … Júnior, o cabra miraculoso, “dono da 5” da Gávea. Nascido na Paraíba, tem em seus passes o traçado mágico do dramaturgo conterrâneo Ariano Suassuna. Seus gols de falta nos adversários tinham a métrica trágica do mito, continham também o pessimismo amargo dos poemas de outro paraibano ilustre: Augusto dos Anjos. Mas para a torcida do Mengão, Júnior em campo sempre soava como música de Zé Ramalho “Bate, bate, bate na porta do céu[2]”. Para Prandi (2001, p. 60),

“as oferendas dos homens aos orixás devem ser transportadas até o mundo dos deuses. Exu tem este encargo, de transportador”.

Assim era Exu-Júnior no Flamengo: transportava sua torcida para o colo de Deus. Grande Júnior, nosso “avohai” – avô e pai: um dos pais dos maiores títulos de uma geração vitoriosa na década de 1980; vovô maestro[3] de uma meninada que com ele conquistou o pentacampeonato brasileiro de 1992. O futebol de Júnior é digno de uma setilha[4] na estrutura poética da literatura de cordel – que tem também na Paraíba o seu progenitor: “Leandro Gomes de Barros, o pai do cordel”.

Foto: Reprodução Facebook

Exu é o patrono da cópula, que gera filhos e garante a continuidade do povo e a eternidade do homem. Nenhum homem ou mulher pode se sentir realizado e feliz sem uma numerosa prole, e a atividade sexual é decisiva para isso. É da relação íntima com a reprodução e a sexualidade tão explicitadas pelos símbolos fálicos que o representam, que decorre a construção mítica do gênio libidinoso, lascivo, carnal e desregrado de Exu (PRANDI, 2005, p. 75).

Júnior foi um copulador, de suas cópulas nasciam títulos. Júnior tem mais títulos pelo Flamengo que Exu tem de filhos lá pelos lados da África. O que é mais prazeroso, para um torcedor, que troféus/títulos? Tem algo que dá maior gozo ao torcedor que uma taça de campeão? O que mais eterniza um jogador, senão sua prole de títulos? Exu-Júnior transportou do mundo dos deuses para o mundo terreno de nós torcedores uma infinidade de títulos. Foram quatro Campeonatos Brasileiros (1980-1982-1983-1992), a Copa do Brasil de 1990, a Copa Libertadores da América e o Mundial de clubes de 1981. Quer contar os cariocas? Então põe mais seis títulos na conta: 1974, 1978, 1979, 1979 (especial), 1981, 1991. Foram 78 gols com a camisa do Flamengo. Em 19 de agosto de 1993, Júnior fez sua última partida com a camisa do Flamengo e se eterniza como divindade da Gávea.

Uma coisa era certa: quando Júnior entrava em campo não precisava de mandinga e nem superstição, pois ele era o próprio Exu encarnado. Um híbrido carioca/paraibano de 1m72cm que com a bola brincava de ser deus. A torcida do Flamengo sempre foi devota dos feitiços que ele fazia com a bola nos pés, dos sortilégios advindos de seus passes, da magia de seus chutes.  

– Vai rever alguns lances do Exu-Júnior com a camisa do Mengão? Leva o charuto e a cachaça, porque o santo vai baixar!

 

Notas

[1] Na mitologia Iorubá, Olodumarê é o Deus único, supremo, onipotente e criador de tudo o que existe. Aquele que vem antes de tudo. Assim como no Flamengo: o Flamengo sempre há de ser maior que os jogadores que por ele passam.

[2] A título de informação, a música “Bate, bate, bate na porta do céu” cantada por Zé Ramalho é a tradução da canção “Knock, knock, knocking on heaven’s door”, composta e cantada em sua gênese por Bob Dylan. Bob Dylan é um cantor-compositor, escritor, ator, pintor e artista visual norte-americano que ganhou o prêmio Nobel de Literatura no ano de 2016.

[3] Além de “Vovô Júnior” e “Maestro”, o craque era também conhecido como “Júnior Capacete”. Seu estilo de cabelo black power no final da década de 1970 lhe rende esse apelido.

[4] A setilha é uma estrutura de cordel de estrofes de sete versos de sete sílabas.

 

Referências

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.


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Fabio Zoboli

Professor do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe - UFS. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e política".

Elder Silva Correia

Mestre em Educação Física pela Universidade Federal do Espírito Santo - UFES. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e Política" da Universidade Federal de Sergipe - UFS.

Como citar

ZOBOLI, Fabio; CORREIA, Elder Silva. Laroyê Júnior, o Exu da Gávea: guardião dos caminhos… guia para os gols. Ludopédio, São Paulo, v. 138, n. 23, 2020.
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