A vida é feita de perguntas. Mas e o futebol?

Quando somos inscritos no mundo, os pontos de interrogação começam a aparecer mesmo antes que qualquer enunciado seja vocalizado. Depois dos primeiros passos, surgem, junto das primeiras palavras, os intermináveis e temíveis “por quês”, acompanhados por uma urgência de encontrar respostas que amenizem o sentimento de não-saber, a sensação de falta que mora no que é não-sabido.

Talvez uma das poucas coisas que conforte na morte é a certeza que ela traz, a de que é possível parar de fazer perguntas.

O corpo esfria, reto, como um ponto de exclamação, permeado por afetos tristes e felizes de uma vida que, enfim, para de questionar.

Nem sempre é assim.

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Já faz algum tempo que o futebol produz mortes em formato de ponto de interrogação. Mortes dessas que não encerram o questionamento, pelo contrário, forçam as indagações. Mortes trágicas que não só esfriam o corpo, como o queimam, desintegram, despedaçam… Não só o corpo de quem encontra com a morte, mas de quem fica vivo e precisa viver com ela.

71 em 2016. 10 em 2019. Será preciso viver se perguntando quando será a próxima tragédia?

Perguntas são o que fica depois de assistirmos a série documental O Ninho: futebol e tragédia, do diretor Pedro Asbeg, que estreou na semana passada. Ela é narrada em três partes, nomeadas de Sonho, Pesadelo e Despertar, que levam o espectador à experiência onírica-trágica dos questionamentos que ficaram após 10 crianças terem sido impedidas de continuar. De continuar a respirar, a sonhar, e de fazer aquilo para o qual dedicaram suas vidas: jogar futebol.

Athila Souza Paixão, Arthur Vinícius de Barros Silva Freitas, Bernardo Pisetta, Christian Esmério, Gedson Santos, Jorge Eduardo Santos, Pablo Henrique da Silva, Rykelmo de Souza Viana, Samuel Thomas Rosa, Vitor Isaías. Dez meninos, isso que eram, crianças de 14 a 17 anos que morreram dentro do Centro de Treinamento e Formação do Flamengo, o Ninho do Urubu, depois de um curto-circuito no ar-condicionado resultar em um incêndio. O estômago embrulha. A raiva se aloja nos olhos que leem os nomes das crianças mortas.

A vida é feita de perguntas… E o futebol?

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A primeira cena: uma tela preta com a definição da palavra ninho.

“Estrutura construída pelas aves, na qual é feita a postura e a incubação dos ovos. Lugar onde os animais e seus filhotes se recolhem e dormem”.

Se ninhos são feitos de estruturas que servem para abrigar seus filhotes, qual o sentido contido numa estrutura que deixa queimar? O que isso nos diz? Filhotes têm menos valor que urubus profissionalizados?

O que sabemos é que os containers que incubavam 10 meninos mortos, funcionavam mesmo sem o alvará do Corpo de Bombeiros e de outras entidades reguladoras, desde 2017. O Flamengo foi multado diversas vezes pelas irregularidades do local, o clube sabia dos problemas elétricos e, inclusive, do risco de incêndio que suscitavam. Os 242 mortos em Santa Maria em 2013, com o impacto que isso gerou no Brasil, intensificando a fiscalização pelos órgãos competentes, não foram suficientes o bastante para prevenir que um incêndio novamente provocasse uma tragédia.  

Ganância? Descaso? Perguntas…

Perguntas que não cessam.

No documentário chegam com o desespero que embarga a voz de pais e mães que se perguntam o que são agora que não têm mais filhos:

“- Um filho quando perde um pai fica órfão, agora um pai quando perde um filho, que que é?”.

Uma mãe desolada pergunta:

“- Quem não quer estar num clube grande?”

Outra faz doer o coração ao se questionar:

“- Por que deixei ele lá?”

Um repórter que pergunta durante coletiva de imprensa com o vice-presidente do clube:

“- Rodrigo, até quando o Flamengo vai ser negligente e não vai responder?”

Tudo o que queriam era parar. Parar o tempo. Parar a dor. Parar de perguntar. Mas a vida é feita de perguntas, a morte parece ser também… E o futebol?

***

Mais uma cena que chega e traz dor. O documentário agora mostra os meninos dentro do ninho cantando juntos, em coro: “uma vez Flamengo, Flamengo até morrer”.

E morreram.

Morreram Flamengo, morreram sonhando.

O futebol faz isso. Mata. Quem vive dele, quem sonha com ele, quem joga, quem torce. Não sabemos quantos ainda precisarão morrer para que as perguntas acabem, para que o descaso acabe.

O que é maior que uma vida? Certamente não é a morte, pois nem isso bastou para que as famílias que perderam suas crianças pudessem chorar suas perdas em paz. O clube quis auferir valor à vida dos filhos que negligenciou.

Marília, mãe de Arthur Vinícius, lembra do dia que foram convocados para se reunir com o presidente do clube a fim de ouvir respostas. Ele não apareceu, pois teria “um compromisso importante”. Marília diz:

“Esse dia pra mim foi o dia mais triste. Eu falo que foi mais triste que o próprio enterro do meu filho. É muito ruim falar de valores de vida. Não tem valor, né, a vida de ninguém?!”

Na reunião estavam um vice-presidente, advogados e as famílias que precisavam saber, precisavam perguntar. O que faziam lá? O que o Flamengo queria? Qual era a proposta? O advogado disse que teria que ir embora logo, pois teria outro compromisso. Cristiano, pai de Christian Esmério, diz:

“Aquilo ali acabou com a gente”. O pai de Bernardo, Darlei Pisetta, se pergunta: “- Qual o assunto de maior importância que tem do que isso pro Flamengo?”

Enfim, uma resposta, mesmo que indireta. Para o clube com maior torcida no Brasil, há muitas outras coisas mais importantes do que a vida e a morte dos meninos que estavam sob sua guarda.

Cabe a nós rememorar, perguntar, fazer viver a memória do que aconteceu e das vidas que morreram. Lembrar que muitos futebóis e vidas futebolísticas começam no ninho, ainda que não só no do Urubu. Antes de ser profissional, é de base, é de sonho, é jogado por meninos que ainda são crianças e isso não pode ser esquecido. É preciso ter compromisso ético com as vidas dessas crianças, que antes de jogadores são apenas meninos.

Walter Benjamin escreveu certa vez que “O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer”. É triste quando a paixão do futebol se mostra a frieza que se torna amiga da morte.

A vida dos 10 que viveram e morreram Flamengo não será esquecida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

MORO, Eduarda; VAZ, Alexandre Fernandez. O Ninho: Vivendo e morrendo Flamengo. Ludopédio, São Paulo, v. 177, n. 17, 2024.
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