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Liverpool e seus desafios ao voltar ao topo

Gabriel Said 28 de setembro de 2020
Foto: Wikipédia

O Liverpool vem de duas temporadas absolutamente espetaculares, ganhando tudo que os seus torcedores sonhavam. Além disso, foram anos onde o time fez duas das quatro maiores pontuações da história do futebol inglês. Com o treinador alemão indo para sua sexta temporada no clube, o alerta para o limite do time começa a acender.

É normal que um conjunto de jogadores após alguns anos chegue ao seu limite. Béla Guttmann tinha a sua frase famosa: “o terceiro ano é fatal”. E isso é observado em vários lugares. José Mourinho já carrega uma fama sobre a queda em seu terceiro ano, Marcelo Bielsa também passou por isso em alguns clubes, Pochettino no Tottenham… Guardiola no último ano frente ao Bayern teve uma queda e na última temporada em Manchester viu o time pontuar 18 pontos a menos do que na temporada anterior.

Klopp também passou por esse momento onde o time chega no seu limite. Após seis anos de sucesso no Borussia Dortmund, a sétima e última temporada de Klopp no clube teve o time passando a maior parte do campeonato na metade de baixo da tabela.

Foto: Wikipédia

Não é fácil repetir os 22 anos de Wenger no Arsenal e 27 de Ferguson no Manchester, ganhando 17 e 38 títulos respectivamente. Com o tempo os jogadores podem não se motivarem mais como antes, os adversários se preparam melhor para os jogos, os treinos e estilos de jogo ficam repetitivos e pouco estimulantes, o desgaste físico ou mental fica muito grande, enfim, muita coisa pode explicar o fenômeno e os poucos que conseguiram trabalhos duradouros e de sucesso têm diversos meios de conseguir isso.

O sucesso do Liverpool provoca também – ao menos em um primeiro momento – que cada vez mais os adversários se fechem contra uma equipe muito superior. Isso significa que o dito camisa 10 de Klopp, que é a roubada de bola no campo de defesa adversária, vai ficando mais difícil de acontecer porque cada vez mais o Liverpool tem mais posse de bola. Na Premier League 2015-16 o Liverpool foi o sétimo com mais posse de bola com 55%, quarto lugar em 2017-18 com 58% e o segundo em 2019-20 com 60%.

Nas divididas também há uma mudança no mesmo sentido. Em 2015-16 o Liverpool teve em média 23 desarmes por jogo, a maior da liga. Em 2017-18 o valor caiu para 17 e na última temporada foi de 14, o 5º menor do campeonato.

Existe uma métrica usada em análises estatísticas de futebol chamada PPDA (Passes Allowed per Defensive Action), ou o número de passes permitidos por ação defensiva. A ideia é quantificar a pressão que o time faz no campo de defesa adversário. Usando o modelo da WyScout de PPDA, são separadas as ações feitas apenas nos primeiros 60% do campo do adversário, soma-se todos os passes certos que o oponente fez nessa faixa do campo e os divide pelas ações defensivas do time que se quer quantificar a pressão, onde as ações defensivas são roubadas de bola, divididas, interceptações e faltas cometidas. Ao final, quanto menor o valor maior é a pressão, sendo um valor até 8 considerado uma alta pressão.

Na temporada 2015-16 o Liverpool tinha um PPDA de 7,4. Em novembro de 2019, com a temporada em andamento, a média estava em 7,85. A pressão, ou gegenpress, característica de Klopp ainda faz parte do time, mas ao invés de ser frenético como antes, agora o Liverpool se controla melhor, deixando a pressão para alguns jogos ou até mesmo para algumas situações ou momentos específicos dos jogos.

Reduzir essa pressão talvez seja uma tendência entre os alemães. O gegenpress, que surgiu na Alemanha está aos poucos diminuindo. Entre as cinco maiores ligas europeias a Bundesliga já é a com os maiores índices de PPDA, ou seja, é o que menos pressiona. A La Liga está em 1º, seguido por Ligue 1, Serie A e Premier League. Não consigo dizer que os alemães estão adaptando sua abordagem, mas a média de desarmes por jogo na liga entre 2015 e 2018 era em torno de 19 por equipe e nos últimos dois anos vem descendo para quase 16. O quê pode ser um pequeno indício do fim daquela pressão frenética que vem caracterizando o gegenpress. A ideia está sendo aperfeiçoada.

Foto: Getty Images

Voltando ao ponto inicial, a chegada de um jogador como Thiago é algo que Klopp não fez em Dortmund. Além de ser um jogador que traz novas características para o time, é um craque que vai aumentar a disputa por posições, indica que o clube ainda quer grandes conquistas e reforça algo desde a chegada do treinador alemão: o Liverpool está em constante transformação, se adaptando a cada ano enquanto melhora seu futebol. Agora, porém, o desafio não é mais de melhorar, mas de se manter no topo. Dizem que é o mais difícil.

As contratações de Klopp ao Liverpool são até o momento certeiras. Mané e Salah são um sucesso inquestionável e perfeitamente adaptados ao estilo de jogo. Van Dijk chegou para melhorar o jogo aéreo do time e pela sua grande capacidade de fazer lançamentos com precisão, favorecendo contra-ataques para Mané e Salah. Wijnaldum e Fabinho dão a intensidade no meio, acompanhados pela energia de Robertson na lateral esquerda e o outro recém-contratado Tsimikas tem muito a oferecer por ali também. Alisson chegou para permitir o time a subir suas linhas de marcação e melhorar imediatamente todo o sistema defensivo do time.

Com Thiago, porém, Liverpool parece ter encontrado um tipo diferente de tempero. Trata-se de um jogador de mais passe ao invés de intensidade física. Em outras palavras, um jogador típico de um time de Guardiola chegando em um time de Klopp. Não é casualidade, afinal, como foi visto, os vermelhos de Merseyside estão percebendo a mudança que está sendo exigida em alguns jogos e a estreia do meia contra o Chelsea já deu um gostinho do que pode vir.


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Gabriel Said

Formado em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestrando em Antropologia pela UFF e aluno da Associação de Treinadores do Futebol Argentino (ATFA). Participa do grupo de estudos de Futebol e Cultura, do LEME/UERJ; do grupo de Futebol e Humanidades da Universidade do Futebol e do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Esporte e Sociedade (NEPESS), da UFF. Além de escrever a coluna Danúbio Azul no Ludopédio, também escreve para a Universidade do Futebol. E-mail: [email protected]

Como citar

SAID, Gabriel. Liverpool e seus desafios ao voltar ao topo. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 65, 2020.
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