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Luta em azul e branco: “a lgbtfobia precisa ser mais combatida no futebol”, diz torcedor do Cruzeiro

Crisneive Silveira 20 de julho de 2021

Todo cruzeirense sabe que 2003 foi um ano mágico. Liderado por Vanderlei Luxemburgo, o plantel trouxe a tríplice coroa: Campeonato Mineiro, Copa do Brasil e Brasileirão mas, além disso, entregou à Raposa um novo torcedor. Porém, só em 2006, aos 12, Yuri Senna foi ao estádio pela primeira vez. O Gigante da Pampulha surgiu aos olhos do menino fazendo jus à alcunha: imenso. Era um Cruzeiro x América-MG, no estadual. Morar em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais, facilitou ainda mais a aproximação com o esporte. A emoção daquele dia se repetiria muitas vezes, até a devoção pelo time se transformar numa espécie de prisão – maior que qualquer campo de futebol. 

Mês da visibilidade LGBTQIA+, junho também traz o dia Internacional do Orgulho, celebrado na segunda-feira, 28. De janeiro até o último dia 15, a ONG Safernet registrou 2.529 denúncias de conteúdo lgbtfóbico na internet. O aumento é de 106,3% se comparado ao mesmo período de 2020, quando 1226 foram apontadas. Yuri, 26, é gay, ativista dos direitos LGBTQIA+, presidente da Canarinho Arco-Íris, observatório que reúne 17 torcidas lgbts de 15 equipes do Brasil, e fundador do Marias de Minas (MM), coletivo de cruzeirenses. Os dois combatem a lgbtfobia no esporte. Em janeiro, ele decidiu se afastar ao ter o número do telefone vazado, pois passou a receber ameaças de adeptos do próprio clube através de ligações e redes sociais. Essa não era a primeira vez que algo assim acontecia. 

O embrião do grupo surgiu no WhatsApp, com 40 pessoas, mas a criação ocorreu mesmo em 20 de maio de 2019. Em dezembro, a torcedora-símbolo, Salomé, passou mal no jogo que rebaixou a Raposa à segunda divisão. O coração não resistiu. Em homenagem, a mascote leva o nome dela, que também foi Maria. Nas arquibancadas, a palavra Maria é usada por rivais como ofensa à torcida cruzeirense. Isso não impediu o coletivo de ser batizado com ela. Com dois anos de atividades, hoje soma 150 lgbts participantes. 

“Percebemos que era uma forma de empoderamento. Olha quantas Marias na história são sinônimos de força, de orgulho, de resistência. Então coube perfeitamente pro nosso movimento. Não temos problema em ser chamados de Maria. A parte machista e homofóbica da torcida tem pavor. Às vezes sofremos ataques até pelo nome. Já conversamos sobre mudar e ninguém quis.”

Cruzeiro
Foto: Arquivo Pessoal

O foco no ativismo veio após um primeiro episódio de violência. Yuri e o namorado Warley Silva foram filmados abraçados enquanto viam Cruzeiro x Vasco, pela Série A, no Mineirão. Dias depois, as imagens caíram na internet e, só numa postagem, mais de dois mil comentários ofendiam o casal. Um boletim de ocorrência contra 21 pessoas foi registrado. O processo segue na Justiça. O caso é citado no relatório do Observatório da Discriminação Racial no Futebol. Na época, foram catalogados 19 incidentes lgbtfóbicos, 15 nos estádios e cinco no ambiente virtual. Apesar de ter sido fora do palco de jogo, o fato se deu semanas após o STJD determinar que casos de homofobia e transfobia nos estádios fossem relatados em súmula pela arbitragem. Na busca por tirar algo positivo da situação, o mineiro postou o vídeo no Twitter como declaração de amor ao companheiro.

“Peguei a arma do homofóbico e usei contra ele. Vimos pessoas nos apoiando, assim como lgbts de várias torcidas do Brasil agradeceram nossa coragem… Viramos um símbolo de resistência e de luta para muita gente. Existem ativistas em vários segmentos dentro da comunidade LGBT, e sentia falta disso no futebol. Hoje há outras pessoas, mas quando aconteceu isso comigo, eu só conhecia o Delucca. Não tinha muita referência, então eu precisava ser a referência.” 

A influência familiar no apreço pelo esporte era inevitável. A mãe, ex-atleta profissional. A fim de não abandonar as idas ao estádio, o menino Yuri aceitava ver jogos do Galo junto do pai, atleticano fanático. Em 2013, ia com amigos. A família tomou conhecimento da orientação sexual dele através das reportagens sobre o abraço amoroso no Mineirão. A primeira reação foi culpar o próprio filho.

“Eles estão em processo de desconstrução. Expliquei que tenho direito de ir e vir. Erradas são as pessoas cometendo crimes. Preservo minha segurança, mas não posso deixar de ser ativista porque acho que essa oportunidade está atrelada a mim. Não sou o único a fazer isso, mas tenho uma responsabilidade grande e posso conseguir fazer alguma coisa. Falei outro dia: pai, se algo acontecer, vou deixar um legado. Deus me proteja. Apesar de pensar num lado cruel, algo bom pode vir. Eles têm medo e sabem que não vou recuar.”

Infelizmente, as redes sociais seguem como livre espaço de práticas lgbtfóbicas. O grupo organizou uma live sobre as eleições presidenciais do clube no primeiro aniversário, em 2020. A conversa foi invadida por vários torcedores com discurso de ódio. “Vou pisar na sua garganta”, você vai morrer se aparecer no estádio”. Mais um B.O. foi registrado. O Marias de Minas agiu. Em documento enviado aos times do estado e outros órgãos como Federação Mineira de Futebol, sugeriu ações de combate à intolerância: mulheres trans revistadas por policiais mulheres e homens trans por policiais homens, aceitação do nome social de pessoas transexuais nas categorias de sócio, e outros pontos. 

Cruzeiro
Foto: Arquivo Pessoal

A administração do Mineirão e do América se mostrou receptiva. Em agosto, o Cruzeiro criou o Comitê da Diversidade e Inclusão. A proposta foi reenviada e o diálogo tem se mantido. A pasta disponibilizou o email [email protected]com.br para ouvir o público. Outras conversas não seguiram por causa da pandemia. Porém, em 2021, o MM viu o próprio fundador se afastar. As ameaças continuaram após o número de telefone vazado. O temor pela própria vida trouxe crises de pânico e depressão, o que o levou a buscar acompanhamento psicológico. Em nota, o coletivo lamentou a saída dele.

“Minha cara é conhecida na torcida, por pessoas de bem e por quem não gosta de mim e tem vontade de me ver morto. Então, falei: não dá mais pra eu ir ao estádio. Se eu for, preciso estar num local com o máximo de segurança. Esse medo é presente na minha vida. O clube pode tomar algumas atitudes paralelo ao trabalho da Polícia. Não fosse a pandemia, eu não poderia ir porque há uma ameaça iminente de sofrer agressão física.”

“É triste saber que ele precisou se afastar para se proteger e cuidar da saúde mental. Só os ataques na web, já são bem pesados. Mas a gente não pode deixar o projeto morrer. Estamos dispostos a lutar contra o preconceito junto, para mostrar que não é só o Yuri que está ali. Somos muitos Yuris”, diz Tarci, da diretoria do MM.

Boleiros a defender minorias são raros. Richarlison, atacante do Everton e da Seleção, e Igor Julião, lateral do Fluminense, são exemplos. No domingo, 27, durante Vasco x Brusque pela Série B, Cano ergueu a bandeirinha de escanteio ao comemorar um gol. Assim como a camisa do Gigante da Colina, o objeto trazia as cores do arco-íris, alusivas ao movimento pela diversidade. Na competição, a  Raposa não está bem. É a 13a da tabela. O mau momento impacta no combate à intolerância. A torcida é termômetro para as ações. O time postou mensagem neste dia 28 de junho e foi criticado.

O pilar do trabalho do Marias de Minas é a educação voltada a torcida, jogadores, pessoas do clube. Tarci conta algumas novidades: a estreia do podcast Fala Maria, o lançamento de uma nova camisa e a intenção de construir um núcleo internacional de torcidas LGBTQIA+, identificando e conectando esses grupos para um movimento mundial. Além disso, um estudo sobre o cenário da lgbtfobia no futebol feminino, a elaboração de um manual sobre o tema para tentar dialogar com atletas e a construção de site próprio. O intuito é entender como atuar no combate ao preconceito nesses ambientes e, quem sabe, prepará-los para que jogadores e jogadoras não temam viver a própria sexualidade nesses espaços. 

Vasco LGBTQIA+
Foto: Reprodução Twitter/Rafael Ribeiro/Vasco

O Brasil tem cerca de 90 mil jogadores profissionais, nos dois gêneros. Os dados são do relatório Impacto do Futebol Brasileiro, divulgado pela CBF em 2019. Na principal divisão do esporte, ainda não há notícia de algum jogador homem tenha se declarado publicamente lgbt. Entre as mulheres, a prática é um pouco mais comum. 

“Se há jogadores lgbts no Cruzeiro ou em outra equipe, eles estão vivendo uma pessoa que não são. E sei bem o que é viver reprimindo a própria existência. Por isso, a lgbtfobia precisa ser mais discutida e combatida no futebol. Se posicionar não significa odiar, é entender que as pessoas precisam evoluir. Quando o hétero compreender que faz parte do problema, fica mais fácil fazer parte da solução. Se você tem conhecimento e começa a disseminá-lo, com desconstrução, um vai se conectando ao outro. Era pra gente só torcer, ter dor de cabeça com o time. Além da gente sofrer a violência, nós, lgbts, ficamos no papel de propor a solução e de solucionar esses problemas. E essa é uma carga muito pesada.”

A sociedade impôs à população LGBTQIA+ uma dolorosa prisão de preconceitos. No esporte não é diferente. A diversidade humana deve ser compreendida e respeitada, mas o ódio a isso deve ser igualmente combatido. Além de postagens nas redes sociais, é preciso levantar a bandeira e criar condições para que outros tantos possam erguê-la sem medo. É vestir a camisa 24. É buscar direitos e defendê-los a fim de haver justiça e integração nos espaços, inclusive dentro dos estádios. A luta é de todes, assim como a liberdade de ser quem se é. Vibrar pelo time é parte disso.

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Crisneive Silveira

Gosto do futebol jogado e do futebol vivido. Jornalista formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Como citar

SILVEIRA, Crisneive. Luta em azul e branco: “a lgbtfobia precisa ser mais combatida no futebol”, diz torcedor do Cruzeiro. Ludopédio, São Paulo, v. 145, n. 39, 2021.
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