Eu sou o samba, do Demônios da Garoa, começa tocar quando abro o Word buscando encontrar com as palavras. O barulho da lagoa faz par com o pandeiro que toca na caixa de som portátil ao meu lado e me faz querer dançar. Não com os pés, mas com as palavras.

Tenho valorizado o encontro com as palavras. Aprendi a encontrá-las no percurso. Lembro de meus primeiros trabalhos acadêmicos, na graduação fui muito mais produtiva do que sou agora. Contudo, minha escrita se perdia nas palavras dos outros. Uma das primeiras coisas que aprendemos quando começamos a escrever academicamente é o poder que existe nas palavras dos outros. É apud pra lá, citado por pra cá. Uma necessidade de explicar o que pensamos através das palavras de quem pensou antes.

No trajeto até aqui escrevi mais com palavras que não eram minhas, sobre pensamentos que não eram meus, do que com palavras, sentimentos e pensamentos que expressassem de fato o que mora na minha cabeça. Uma cabeça medicada psiquiatricamente, ainda assim minha cabeça. Mas tem coisa que só se aprende e se apreende no percurso… É assim que tenho reaprendido encontrar com as palavras, com as minhas próprias palavras; no trajeto, na caminhada, cartografando afetos.

Escrevi um tempo atrás sobre uma palavra nova que descobri: Mundiar. No dicionário[1]: Sujeitar à ação de feitiço(s); fazer encantamento a; encantar, magnetizar. Contudo, coisa que se descobre na trajetória acadêmica é que tem palavra que não cabe. Coloquei mundiar nesse território das palavras que não cabem à academia, sinto que me serviu poeticamente, mas cientificamente talvez falhasse como expressão para quem não aprendeu e não apreendeu sobre a importância de mundiar o outro.

Depois de muitos dias em campo, cartografando afetos, decidi aceitar o convite que a palavra mundiar carrega. Desde então tenho mundiando o outro.

***

27/09/2023 – retorno ao campo / CT Figueirense

A primeira ida a campo depois de um período afastada é como um reinício. O recomeço antecede o espaço territorial e é demarcado por uma conversa de whatsapp, com Guilherme, preparador físico da categoria sub-20:

O percurso é importante na cartografia. No dicionário: “distância ou espaço percorrido” que está sempre em relação a algo ou alguém. Pareço percorrer percursoS, no plural, quando se trata de estar em campo. A ida até o Centro de Treinamento (CT) é um desses percursos que atravessam a pesquisa.

São 34km até lá, mas é o ato de atravessar a ponte que me faz encarar o trajeto como uma travessia. Lembro de Milton Nascimento: “minha casa não é minha e nem é meu este lugar”. Sinto o quanto não é meu este lugar, mas sinto também o quanto este lugar não parece ser de nenhum de nós três, atravessadores que encontram seu lugar depois de cruzar a ponte. Na tentativa de entender o espaço que o Figueirense ocupa na Grande Florianópolis, entendo que a distância até o CT carrega bem mais que os 34km percorridos.

Distante das paisagens e do cheiro do mar, a cidade vai se mostrando menos turística conforme vamos nos aproximando do clube.

Chegamos no CT e hoje o Cambirela está encoberto pelas nuvens. A chuva deu uma trégua, mas ainda há possibilidade de que o treino seja cancelado dado o estado em que se encontram os campos.

Guilherme e eu vamos até o refeitório. O treinador do sub-20 chega e se senta conosco para tomar café. O preparador me orienta sobre a utilização do espaço: não podemos comer nada, só tomar um cafezinho. Devido a má fase financeira que o clube está passando quase toda a verba de alimentação é destinada ao time profissional. O preparador relata que:

“às vezes acontece de algum jogador (da base) dizer que não tomou café e a copeira ajuda, porém não pode senão depois dar ruim” (sic).  

O coordenador chega, digo que preciso conversar com ele sobre o projeto e então vamos todos para a sala de reuniões.

É curioso o percurso do refeitório até as salas e campos das categorias de base. É necessário atravessar também para chegar até lá. Atravessamos então um pequeno córrego que corta o CT, demarcando precisamente os espaços territoriais entre time profissional e categorias de base.

A sala de reuniões que ficam em meio aos cortadores de grama, tobata (trator) e acessórios para cuidar dos campos. Parece um espaço provisório, mas sabendo que não é, entendo que a “sala de reuniões” é uma demonstração da situação financeira do clube.

Antes de minha apresentação, o treinador do sub-20 decide mostrar a Lucas o programa que tem utilizado para fazer análise dos jogos. O profissional abre o programa e explica o funcionamento, discutem a possível escalação do próximo jogo que será no domingo. Pergunto se ele mostra a gravação e a análise para os jogadores também e ele responde: “não, acho que eles não conseguiriam entender” (sic).

Me apego a essa frase.

Apresento a proposta a Lucas que me dá liberdade para desenvolver a pesquisa. Me despeço do coordenador e acompanho o preparador físico e treinador ao treino do sub-20. Sento-me em um banco junto de outro jogador que está lesionado e me conta que tem vindo ao CT para fazer fisioterapia. Parece esperar ansioso a bola sair do campo para tocá-la, mesmo que com o pé quebrado. Pergunto sobre o percurso, dado que o espaço de treinamentos é retirado da cidade e ele me conta que divide Uber com outros meninos, assim como muitos outros fazem. O custo de deslocamento fica por conta de cada atleta. O preparador físico do sub-17 nos vê conversando e puxa assunto com o jogador:

“falei que fui no cinema assistir Oppenheimer pro teu amigo e ele disse que a maior coisa que consegue assistir é o tiktok, que agora tem três minutos” (sic).

Penso na fala do treinador do sub-20, mas perco o foco da conversa quando percebo um joão de barro que fazia casa no poste que fica ao lado do campo. Lembro do joão de barro que fez casa na janela de frente a minha.

Antes que eu possa me aprofundar nas memórias e pensamentos, sou novamente lembrada que estou em um centro de treinamento. O treino acaba e os meninos correm para o banco onde estou para beberem água. Voam respingos de barro e água suja, encharcando minha calça. Voa o João de barro que fazia casa também, afugentado pelas chuteiras ensopadas de jogadores que agora parecem só meninos, se divertindo nas poças de um campo que já não é mais o campo de trabalho.

***

Cada incursão no campo me deixa mais convicta de que pouco sei sobre o futebol. Não o futebol dos grandes, mas desses futebóis que quase ninguém vê e quase ninguém fala. Das despesas diárias com deslocamento, aluguel, das salas de reuniões improvisadas, da presunção de pensar que qualquer um pensa mais que um jogador de futebol. Sem falar da dor, das lesões, das dores que não são só das lesões mas de não poder jogar, de estar longe da família e dividindo quarto com mais três jogadores, pois só assim se torna viável pagar aluguel.  

Foi nesse dia que entendi o significado literal de mundiar o outro e os espaços que o outro habita. Foi também nesse dia que tive a certeza de que já estive muito com as palavras dos gigantes da academia, mas que para dizer da vida desses jovens-jogadores eu precisaria aprender a estar com as palavras de quem até então compunha um termo que me incomoda: os sujeitos de pesquisa. Nessa posição de assujeitamento, de quem diz para que depois digam por eles.

Sinto que das palavras que não podiam caber antes, quero fazer e forçar caber essa. A escolha de fazer um filme passa por aí, não quero mais ser porta-voz de quem pouco é ouvido. Quero fazer falar, dar voz e imagem a esses meninos que vivem um futebol que eu e você não conhecemos. Quero mais do que fazer pesquisa, quero mundiar!

 


[1]Mundiar – dicionário Michaelis

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Como citar

MORO, Eduarda. Mundiar o outro. Ludopédio, São Paulo, v. 174, n. 3, 2023.
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