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O óbvio ululante? História do esporte em São Paulo

Flávia da Cruz Santos 18 de junho de 2023

Li e ouvi diversas vezes, ao longo de anos, a afirmação de que a história do esporte na cidade de São Paulo gozava de vasta bibliografia e que era já bem compreendida. Não me espantava ou causava qualquer estranhamento essa afirmação, afinal, se trata de uma cidade não apenas muito importante na atualidade, mas muito importante também na história do desenvolvimento nacional, além de estar localizada na região sudeste, e de possuir grande número de universidades. Era mesmo de se esperar, que ela tivesse sua história já bem compreendida, inclusive quanto ao esporte.

Essa afirmação, no entanto, vinha sempre desacompanhada de sustentação, não indicava a que historiografia se referia, ou, quando o fazia, indicava uma única referência, sempre a mesma, que até hoje sei de cor. Apesar de entender como pouco ou nada científica essa postura, eu pensava: deve se tratar de uma produção amplamente conhecida pelos especialistas no assunto, daí a ausência da necessidade de citá-la. A ideia era sempre justificar o empreendimento na investigação da história do esporte, fora do chamado eixo Rio-São Paulo.

No entanto, quanto mais eu estudava a chamada historiografia “paulística” e a historiografia do esporte em São Paulo, mais eu percebia como essa afirmação era frágil. Os estudos sobre a história do esporte em tal cidade estavam muito concentrados na virada do século XIX para o XX e no século XX, e não eram tantos assim, como tal afirmação fazia parecer. Em uma busca na Recorde, único periódico do Brasil dedicado exclusivamente à história do esporte, usando o termo “Rio de Janeiro”, temos como resultado 60 artigos. Enquanto o uso do termo “São Paulo”, retorna 21 resultados. Analisei apenas os resultados dessa última busca, e os artigos que focalizam a cidade de São Paulo são apenas 10.

velódromo
SPAC e Paulistano, no campo do Velódromo, em 1902. Fonte: reprodução

Tal situação confirmou, para mim, que o que parece lógico e até mesmo óbvio, pode esconder armadilhas, e se tratar, tão somente, de uma saída rápida, para um problema complexo. À medida que realizava pesquisas sobre a capital paulista, que tinham como tema outras formas de divertimento que não o esporte, ia percebendo a construção das condições que permitiram sua chegada, assim como percebi sua presença na cidade antes da virada do século XIX para o XX.

Imbuída da compreensão de que os momentos iniciais da prática esportiva em São Paulo, eram importantes para a sua conformação na cidade, e que esses momentos ainda eram desconhecidos, decidi me dedicar a investigá-los. Uma pesquisa foi se desenvolvendo lentamente, coletando pistas, indícios, confrontando-os com a produção existente, com certos pressupostos já clássicos na história do esporte. Esse processo aparece aqui, no História(s) do Sport, onde fui compartilhando meu modo de pensar o objeto, e cada pista que fui encontrando nesse caminho.

Os primeiros resultados dessa empreitada foram publicados na Recorde. Talvez eles possam oferecer alguma contribuição à compreensão da conformação do esporte na capital paulista, bem como das rupturas e permanências desse processo. Os modos como ele foi se tornando uma necessidade na cidade, o papel dos europeus nesse processo, a primeira modalidade a se desenvolver e consolidar e a presença feminina nessa história são focalizados.

 

Artigo publicado originalmente em História(s) do Sport.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Como citar

SANTOS, Flávia da Cruz. O óbvio ululante? História do esporte em São Paulo. Ludopédio, São Paulo, v. 168, n. 18, 2023.
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